domingo, 4 de outubro de 2026

Três motivos que explicam o renovado interesse por Vieira

 



°  A  Vieira  se  lê  mais  de  uma  razão . A  primeira  delas , dira  eu , e  a  principal , é  o prazer          que  essa  leitura  nos  dá  :  o  prazer  do  virtuosíssimo  no  manejo  das idéias  da originalidade              dos conceitos ,da linguagem  rigorosa  e  clara , rigorosa  daquele ostinato  rigore feito norma de        ação  por  Leonardo  da  Vinci , e clara  da  clareza  que  o  mesmo  Vieira  preconizava  aos pre -    gadores  de  seu  tempo  :  "  Como  hão  de  ser  as  palavras  ?  Como  as  estrelas  . As  estrelas              são  muito distintas  e  muito  claro . E  nem  por  isso  temais  que  pareça  o  estilo  baixo  : as        estrelas  são  muito  distintas e  muit  claras  e  altíssimas . "  ( "  Sermão  da  Sexagésima , V ) .

Salvo o respeito  que  merece  a  fé  do  jesuíta  , Vieira  no púlpito  faz  o  efeito  de um funâm -          bulo  de gênio . Persuadido  de  que  o  Antigo  Testamento  não só  prefigura  o  Novo , senão a    História  humana , como  um  todo , e  a  portuguesa  em  particular , fácil  lhe  é  discernir  nos        pequenos  e  grandes  acontecimentos  de  seu  tempo fatos  de  longuíssima  data  prenunciados              nas  páginas  da  Bíblia . Assim , a  derrota  dos  holandeses  na  Bahia , em  1638 , já fora  prefi-        gurada  na destruição  de  Dagon ,ídolo  dos  filisteus ,pela  Arca  da  Aliança de Israel . Como  ?        Muito  simples :  Dagon , meio  homem ,  meio  peixe , era  a  imagem  dos  holandeses , povo            marítimo  por  excelência  ; e  a  Arca  da  Aliança , metáfora  de  Santo  Antônio , defensor  da            Bahia  .  O  desenvolvimento  destas  preposições   constitui  matéria   do  "  Sermão  de  Santo              Antõnio "  pregado  na  cidade  do  Salvador  naquele  mesmo  ano de  1638 . Outras  vezes  é  a  mesma  originalidade  das  idéias  que  nos  enche  de  assombro ,  quando  não  de  pura  e  reli-          giosa  comoção .  Ao  discutir  ,  por  exemplo ,  a  razão   por  que  as  repetidas  exortações  de            Cristo , na  Última  Ceia ,  não  foram  suficientes  para  converter  Judas ,  ao  passo que  a sim -          ples voz   um galo  bastou  para  converter  Pedro ,  salve  Vieria com  esse  argumento  especio -  samente  admirável  :  "  A  Pedro  pôs -lhe  os  olhos  Cristo  ( ... )  a Judas não lhe pôs  os olhos .          Se  Cristo , póe  os  olhos  basta  a  voz  irracional  de  um  galo para converter  peca dores  ;  se              Cristo  não  pões  os  olhos , não basta  a  voz , nem  bastam  sete  vozes  do mesmo  Cristo  para  converter . "    (  "  Sermão  das  lágrimas  de  São  Pedro  " , I ) .



Mas  Vieira  não  foi  apenas  de  um   dos  maiores  pregadores  que  jamais  subiram  a  púlpito          cristão . Foi  também  conselheiro   de   reis  e  diplomata , missionário  no  Amazonas   e  cativo            da   Inquisição  de  Coimbra  , campeão  da  liberdade  dos  judeus  expulsos  de  Portugal  e  dos        índios  escravizados  pelos  colonos  do  Maranhão . "   Não  há  maior  comédia  do  que  minha        vida  " escreveu  ele  numa  carta  de  1658 ,  "  e  quando  quero  chorar ou  rir , ou  admira- me              ou  dar  graças  a  Deus ou  zombar  do  mundo , não  enho  mais  que olhar  para mim  " . Vieira        tinha , então  50  anos  e  restavam - lhe  trinta  e  nove  para  viver  -  uma  longa  vida documen-      tada  em  mais  de  700   cartas   que  se  preservaram   (  escreveu  a  primeira ,  conhecida   por              "  Carta  Ãnua  " , aos 18  anos , e  ditou  a  última dias  antes  de  morrer ) . Essas cartas cobrem        um  período  crucial  da  História  de  Portugal   e  do  Brasil . Ainda  que  deixemos  de  lado  o        fato  de  serem  um  repositório  inestimável  da  mais  límpida  prosa  portuguesa , sua  impor  -      tância  históorica  e  psicológica  é  tal  que  sempre  sempre  serão  leitura  obigatória de  portu-    gueses  e  brasileiros  que  se  interessam  pelas  coisas  pátrias .



Enfim , Vieira  foi  um  moralista  inspirado , cujas  lições  nada  perderam  da  atualidade  que    tinham  ao serem proferidas  de sua  cátedra . Sirva  este breve  trecho  de exemplo  :  " O ladrão        que  furta  para  comer  não  vai  nem  leva  ao  Inferno  ; os  que  não  só  vão , mas  levam , de            que  trato ,  são  os  ladrões  de  maior  calibre  e  de  mais  esfera , os  quais  debaixo do mesmo      nome  e  do  mesmo  predicamento  distingue  muito  bem  São  Basílio  Magno .  : (   ...  )  Não        são  só  ladrões , diz  o  santo ,  os  que  cortam  bolsas  ou   espreitam  os  que  vão  se  banhar            para lhes  colher  a  roupa  ; os  ladrões  que  mais  própria  e  dignamente  merecem  este  título            são  aqueles  a  quem  os  reis  encomendam  os  exército  e  legiões  , ou  o  governo  das  pro  -    víncias , ou  a administração  das  cidades ,os quais  jã  com  manha , já  com  força , roubam  e  despojos  os  povos . Os  outros  ladrões  roubam  um  homem , estes  rubam  cidades  e  reinos ;            os outros  furtam  debaixo  do  seu  risco , estes  sem  temo  nem  perigo ; os  outros , se  furtam ,      são  enforcados ; estes  furtam  e  enforcam  "  .  (  "  Sermão  do  bom  ladrão  " , V  )  .  Eis  aí            outra  razão  -   desta  vez  de  ordem  cívica   -   para  ler  e  reler   Vieira  do  lado  de  cá   do        Equador  . 

Fonte  -  Jornal   O  GLOBO  -  pág  2  PROSA  &  VERSO                                                                Data  -  Sábado ,  27   de  janeiro  de  2001  - SERGIO  PACHÁ  é  filólogo 


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