sexta-feira, 20 de março de 2026

São José , silêncio e serenidade

 





" A  Vós recorremos  em nossas tribulações , ó bem  aventurado  José , a fim  de que , amparados pelo vosso exemplo e pelo vosso socorro ,possamos viver santamente  " (  Oração de Leão XIII  a São  José)

Muito  pouco  a  Bíblia  fala  de  São  José . Sua  história não é contada ,sua morte não é mencionada e  nenhuma palavra  que  tenha  dito é  citada  no  Novo Testamento . Sua passagem  sempre  nos chegou  no papel de coadjuvante ,mas attravés dos dois  personagens principais de sua vida ,podemos imaginar  sua trajetória  como a  mais admirável  já vivida  por qualquer outro homem .

A  Bíblia o descreve como "  justo " e isso não é pouco , já que essa expressão bíblica designa todas as  virtudes reunidas . Foi um  operário , um  servo  fiel  aos  desígnios  de  Deus , capaz  de garantir  com seu  suor e  sua  coragem , a  sobrevivência  da Sagrada  família .O carpinteiro humilde que na verdade era era descendente  de um  rei , Davi , ao encerrar a  genealogia de  Jesus ,fecha o  Antigo Testamento  e  abre o Novo , tornando - se  ao  mesmo tempo o  último  patriarca em o  primeiro  santo  da  história    cristã .

A  sua  devoção , porém , só  começará  à  partir  do  século  XII  através  de  São  Bernardo ,que  lan-çará  os fundamentos de  um  culto  a  São  José , sendo seguido por muitos ,principalmente  pelo fran-ciscano  São  Bernardino  de  Sena e  o   dominicano  Isidoro  de  Isolanis , no  século  XV . Caberá à  Santa Teresa  de  Jesus  , no  século  XVI , tornar  popular  a  sua  devoção .

A  partir  daí como  que  pagando  com  juros  as  homenagens  que  tanto  tardou  a  prestar  -  lhe  a  Igreja, através  do Papa  Pio  IX , em  1870 , vai  nomeá - lo  Padroeiro  da  Igreja  Universal  e  Leão  XIII , em 1889 ,  na  carta  encíclica  Quamquam  Pluries , que  significa  " Embora  muitas  vezes " , enumerará  os  motivos  pelos  quais  José  tem  a  missão  de  proteger  a  Igreja . Entre  eles o  fato    de  que ,  tendo  sido  por  vontade  de  Deus  provedor  e  defensor  da  sagrada  Família na  qual  a  Igreja  já  estava  presente  em  sua  essência , é  natural  que  continue  no  Céu  com a mesma  res-ponsabilidade  agora  à  Igreja  que  caminha .



Pai  virginal  de  Jesus 

Os  séculos  de  silêncio  sobre  a  figura  e  a  história  de  José  são  explicados  pelo  processo  de  criação  da  própria  Igreja , onde  a  figura  do  Pai  a  qual  Jesus se  refere  é  o  Pai  Criador e não  José  .  Aliás , não  é  fácil  qualificar  com  exatidão  a  paternidade  de  José   já  que  pai  natural    através  de conjunção  carnal ele  não  o  foi . Tampouco  pai  adotivo , pois  adotado  é  o filho  es-tranho gerado  por  outro . 

O  daso  José  é  único , sendo  pai  por  direito  de  matrimônio .Desse  modo  Jesus  nunca  lhe foi  estranho . Antes ,um  filho  amado , cujo  sangue ,embora  não  sendo o seu , alimentou e  fortalecer.  Como  lembra  Michel  Gasnier  no  seu  belo  livro  "  José , o  silencioso  " ,  o  próprio  Deus  lhe  transmitiu  esse  direito  através  do  anjo :  " Darás  a ele  o  nome  de  Jesus " , função  atribuída ao    pai . Assim , o título que  melhor  lhe  convém , conforme oração  aprovada  por  São  Pio  X , é  pai  virginal de Jesus .

A  mais  santa  das  mortes  

Que  surpresa  não  deve  ter  sido  para  esse  homem  humilde  a  presença  de  magos  e  pastores  adorando  o  menino  naquela  gruta ! 

No  código  do  silêncio que  geralmente se  impuseram , quantas  explicações  não devem ter dado a  parentes  e  vizinhos  quando voltaram  do  egito  após  a  morte  de  Herodes ! E depois quando, aos    12  anos , na última  referência  bíblica  antes  de  sua  vida  pública , Jesus é  encontrado  ensinando    os doutores da  Lei  na  sinagoga  de  Jerusalém ?  Todas essas  coisas  José ,servo  fiel , assim como  Maria , guardava no  silêncio  do  seu  coração ,  enqunto  seguia  atendendo  as  demandas  do  seu  trabalho  e  cuidando de  sua  família .





A  Bíblia  cita  apenas  que  o  menino   " crescia  em  idade ,  sabedoria  e  graça diante  de  Deus  e  diante dos  homens  " , nada mais  falando  sobre  José  quando  Jesus  inicia  sua  vida  pública .Mas    o  fato  de  Jesus  ter  confiado  sua  mãe  a  João  antes  de  morrer  na cruz nos  leva a concluir que naquela  altura  José  já  havia  falecido . Mas  não  há  muito  , pois a  respeito  de  Jesus ainda o in-  dicavam  como  "  o  filho  do  carpinteiro " .

Não  é  difícil  imaginar  a  beatitude que foi a  sua morte , pois  cumprir  fielmente  a missão que lhe  fora  confiada . Ao seu lado ,certamente , estavam Maria  e  um  Jesus  agora  já  homem a ampará-lo    e  a  confortá - lo . A imagem de  tamanha  serenidade  faz com que  São  José também seja invocado  como  padroeiro dos moribundos .

Nosso  pai  nas  tribulações 

Quando  perguntado sobre  o  segredo  da  sua  serenidade , o Papa  Francisco  respondeu que ela  era  um  dom  do  Senhor  e  que vinha  dos  pés  de  São  José  dormindo .Diante  de  140 supervisores de  congregações  religiosas  que  recebeu  no  Vaticano  em  2016  , ele  atestou : " Se  há  um  problema , eu  escrevo  num  papel  e  o  coloco  sob  a  estatueta  de  São  José  dormindo que  eu  tenho  no meu  Data  -  Março  de  2017 quarto " .

Exemplo  de  pai , protetor  das  famílias , padroeiro  dos  trabalhadores , raras  são as  igrejas  que não  tem  uma imagem  sua  entre  seus  santos . Este  ano , por  19  de  março  coincidir  com um domingo  da  quaresma , a  Igreja  transfere  suas  homenagens  para  o  dia   20 . O  que  não muda  em  nada  a devoção a este  que  segundo  consta  ,como  pai  amoroso , jamais abandonou  a quem  ele  percorreu .

Fonte  -  Informativo   NOSSA  SENHORA  DA  PAZ   -  pag  3  - Rio de  Janeiro                              Data  -  Março  de  2017  -  Destaque   -  Linne  dos  Santos 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Católicos x católicos

 





Envoltos no misticismo  popular , os seguidores  de  "  monges  " rejeitavam  iniciativas tradicionais        de catequese ,  como  a  dos  franciscanos 

A  ANOS  -  LUZ  DE  ROMA , os  sertões reiventaram  o  catolicismo .No lugar  dos sacramentos  formais  e  da  obrigatoriedade  de  frequência  à  missa , os homens  do  Contestado  misturavam  a        rotina  de  festas  e  devoções  aos  santos  com  o  consumo  de  bebidas  alcoólicas , crendices ,má -  gicas  de  videntes  e  pregações  dos  monges .

Essa  "  cultura  rústica " resulta  da  mistura  de  elementos  da  colonização  portuguesa  com  influ -  ência  indígena  e  africanas ,  consolidada  pelo  considerável  isolamento  cultural  dos  sertanejos .    Vivia -se  um  vazio  religioso oficial  no  interior  do  país , desde  que  os  jesuítas  foram expulsos      do  Brasil , em 1759 . A  partir  de  então , movimentos  de  caráter  místico ,com  normas  e  simbo -logias  próprias ,passaram a  conquistar cada  vez mais adeptos .Estima - se  que mais de 50 monges    perambulavam   pelo  sertão na  época  do  Contestado .Além  deles  , faziam  parte  do  cotidiano os serviços  das  videntess  virgens  e  benzedeiras . 

Diante  desse  cenário  de  forte  mobilização  mística  , era dura a missão dos religiosos tradicionais.  Os  franciscanos  instalaram - se  na  região  a   partir  de  1892 . Originários  do  Império   Austro - Húngaro ,não  dominavam a  língua  dos  nativos  e  sofriam  as  grandes  distâncias percorridas em  caminhos  precários . O  maior  obstáculo , porém , foi  mesmo  a  prosperidade  do  catolicismo  "  rústico " .

Os  franciscanos  iniciaram  uma  pastoral exortando  com cartas  e  pregações  a  necessidade  do    arrependimento dos  crentes . As  palavras  surgiram  efeito  inverso  ao  desejado : ao  impingirem  críticas  e  reponsabilidades  ao  venerado  monge  João  Maria , foram  totlamente  rejeitadas pelos  sertanejos . As  orações  franciscanas  também  não  faziam  sentido quando  comparadas  aos  ensi -  namentos  dos  monges , com  sua  linguagem  simplificada  e  temas  cotidianos .

Os  sertanejos  resistiam  à  obrigatoriedade  da  participação  na  missa  e  da  confissão  individual .     " Missa  " , para  eles , era  a  simples  reza  do  terço  realizada  pelo  monge  . Aceitavam  o  sacra-mento  do  batismo , mas  este  podia  ser  feito  em  casa , nas  nascentes  de  água  ou  por ocasião      da eventual  passagem  do  monge .  A  fim  de  se  aproximarem dos  sertanejos  , os  franciscanos  chegaram  a  aprender  receitas  homeopáticas , aviando  medicamentos  caseiros .De nada adiantou.      A  desconfiança  velada  dos  moradores  locais  em   relação  aos  franciscanos  tinha  outro  forte  motivo :  o estreito  vínculo que esses frades mantinham  com  os poderes políticos  e econômicos da  região . H

Fonte  -  Revista  de  História  -  Ano  2012  -  ELOY  TONON  - É  Professor  da  Universidade  Estadual ,  do  Paraná  E  Autor  de  OS  MONGES  DO  CONTESTADO  PERMANÊNCIAS ,  PREDIÇÕES  E  RITUAIS  NO  IMAGINÁRIO   (  KAYGANGUE , 2010 )   pág  22 

Dossiê Contestado , 100 anos

 



A  invenção  cabocla  da  "  Cidade  Santa "  dava  um  sentido ao  que  eles  chamavam  de                    " Monarquia " . Não era  um  regime  saudosista  de  restauração  dos  Bragança , mas  uma                      "  Lei  do  Céu " , um  regime  político  sem  rei que  abria o  caminho para  a  afirmação  de                    diferentes  chefias  sertanejas . Negava  a  República  vigente , dominada  pelos  coronéis  e                  por grandes  proprietários .

Os sertanejos  identificados  com  as  " cidades  santas " adotaram  um corte de cabelo rente e      usavam chapéus  com  fitas brancas na aba .Autodenomiram - se  " pelados " ,e chamavam de                " peludos " seus  inimigos  do governo ,da estrada  de  ferro e  ligado  aos  coronéis . Ao longo              do  ano  de  1914 , com a  intensificação dos  ataques  das Tropas  do  Exército e das  polícias                de  Santa Catarina e  Paraná ,as cidades  santas " multiplicam - se por  quase  todo  o  planalto                serrano  de  Santa  Catarina  -  em  Caraguatá  , Bom  Sossego , Caçador  Grande ,  Campina              dos  Buenos , Santa  Maria , Pedra  Branca  e  São  pedro . Eram  povoados  que normalmente          tinham  uma  praça  central  quadrada , em  frente  à  igreja , onde  aconteciam  as  "  formas " ,            como  eram  chamadas  as  reuniões  gerais  dos  membros  da  irmandade  cabocla . Na  expe-              riência  da  construção  das  cidades  santas , os sertanejos  criaram  outras  instituições , como                o  grupo dos  "  Pares  de  França "  ou  "  Pares  de  São  sebastião  "  -  combatentes  de  elite,              selecionados  entre  os  homens  hábeis  no  facão  e  conhecedores  da  "  Santa   Religião " ,                como  chamavam  os  seus  princípios  ligados  no  catolicismo  rústico  e  à  tradição  de  João                Maria .

Ao  longo  do conflito ,modificaram - se os  perfis e  as características  das lideranças  caboclas.          As virgens   e  os  " meninos  deuses " , que tinham  muito  poder  nos  redutos  iniciais  de  Ta -              quaraçu  e   Caraguatá , foram perdendo  importância  política para  as  "  lideranças  de  briga ",              como eram chamados  peões  ,posseiros e  tropeiros , como  Chiquinho  Alonso , Vanuto Baiano            e  Adeodatto ,comandantes  que se legitimavam  pela  capacidade  militar  de  dar  combate  aos " peludos " .

O  conflito  se  agravou com  a  chegada  da  expedição  chefiada  pelo  general  Setembrino  de            Carvalho  ( 1861 - 1947 ) . Sete  mil  soldados  do exécito  atuaram  no  cerco  e  no  combate aos          redutos .Entre março  e  abril  de 1915 , após  longa  batalha , veio  abaixo  Santa  Maria ,a maior          das cidades  santas , com  mais  de  20.000  habitantes . Depois  de  Setembrino recolheu o grosso        de  suas  tropas , e  os  redutos  remanescentes  de  Pedra  Branca  e  São  Pedro  foram  destruídos    por  poucas  unidades  militares  e  grande  número  de  " vaqueanos  civis "   ( os  capangas  dos        coronéis  ) , até  a  rendição  dos  últimos  sertanejos  , em  janeiro  de  1916 . Esta  fase  final  do  conflit , conhecida  como  "  açougue  " , foi  pontuada  por  uma  série  de  massacres  de  comba -    tentes  já  rendidos .  

À  custa  da  concessão  de  terras  públicas  e  da  expulsão  de  caboclos  pobres , estava garantido      o  caminho  não  apenas  para  a  estra  de  ferro , mas  o  para  o  branqueamento  definitivo  da po- pulação  do  planalto . Nas décadas  seguintes , o incentiivo  à  ocupação  das  terras  por imigrantes  europeus  consolidou  o  processo . Algumas  concentrações  de  caboclos , em  torno  de  monges , foram  fortemente  reprimidas , por  forças  policicais , até  sedimentar  na  região  o  silêncio  sobre        a  guerra  .  Ainda  hoje , os  descendentes  dos  sertanejos  que  lutaram  no  Contestado  vivem  em    situação  precária  , espremidos  em  pequenos  lotes ou  na  periferia  das  grandes  méetrópoles , H

Fonte  -  Revista  de  História  -   pág  21  -  Ano  7  -  nº  85  -  Dossiê   Contestado  ,  100  anos              Data  -  Outubro  de  2012  -  PAULO  PINHEIRO  MACHADO   -  É  Professor  da  Universidade  Federal  de  Santa  Catarina  e  Autor  de  Lidernças  do  Contestado  a  Formação  e  a  Atuação  das      Chefias  Caboclas  (  ED  UNICAMP ,  2004  ) 









terça-feira, 17 de março de 2026

Apocalipse agora

 





Tempos  de  guerra e  de  crise  costumam  fortalecer  movimentos  místicos .No horizonte despontam  as terríveis profecias  do Juízo Final .Dois mil anos depois de escrito ,o Livro do Apocalipse  mantém- se renovado em inúmeros  corações  e  mentes .Como explicar tal mistério ? 

Foi com essa inquietação que a  historiadora Elaine Pagels ,uma das mais respeitadas conhecedoras de  escritos  sagrados , deciiu pesquisar o também chamado  Livro  das  Revelações .Em seu livro  recém - lançado  (  Revelations  : Visions , Prophecey , and   Politics  in  the  Book  of  Revelation , ainda  sem  tradução ) , ela explica que não há apenas um , mas vários textos do  Apocalipse , que seu  autor prova- velmente não era apóstolo de  Cristo e que as imagens demoníacas ali escritas tinham inspirações bem terrenas .

Nesta entrevista a professora da  Universidade de  Princeton ( Estadoss Unidos ) dessacraliza os textos  religiosos , compreendidos  em que seu contexto  histórico  e  pol´pitico . 

REVISTA  DE  HISTÓRIA    O que chamou  sua  atenção  para o  Livro  do  Apocalipse  ? 

ELIANA  PAGELS  Começou em 2002 ,quando o presidente  dos Estados Unidos [ George  W .Bush] defendeu  a invasão  do Iraque utilizando  a  expressão  " Eixo  do  Mal " . Foi assim  que promoveu a  guerra : não  por uma  decisão  estratégica ,mas por  uma decisão  moral . Quase uma missão religiosa. Eu pensei : por que  ainda tem  gente  lendo  esse  velho  livro , e  lendo desse  jeito  ? 

RH  De que outra forma  ele  pode  ser  visto ? 

EP   O  Apocalipse  é  sobre  sonhos  e  visões  . Sugere  que ,  quando  o  mundo  está  complicado  e  confuso , as  pessoas podem  sentir  que  tudo  está  fora  de  controle , mas  tudo  vai  ficar  bem  :   a  justiça de  Deus  vai  prevalecer  e  haverá  um  novo  mundo .É um  burrlivro  sobre  esperança , para  pessoas que  estão  ansiosas  diante  de  uma  circunstância  caótica .

RH   Isso  dizia  respeito  à  época  em  que  foi  escrito ? 

EP    Certamente . O  autor  vivia  no  período  subsequente  ao da  terrível guerra  dos  judeus contra  Roma no  século  I . Ele queria  persuardir  seus  companheiros  judeus  , que  acreditavam em  Jesus ,  de que a  opressão  romana  estava  destruindo  o  povo  inteiro . E  pesuardí - los  de que , nem  tudo    estava  perdido , a  justiça  divina  será  feita . As imagens são  muito  específicas  daquele  tempo . O  Império  Romano  como  a  Besta ,cujo número representa o nome  de  Nero [ 37 - 68 ]  que , acredi -    tavam  ser  o  pior  imperador  que  se  pode  ter . para  os  leitores  da  época , isso  era  de  um  sim-    bolismo  transparente .  Todo  mundo  sabia  que  a  Besta  e  a Meretriz   representavam  o  Império    Romano .

RH   O homem  que escreveu  o  Apocalipse  não foi o mesmo  que  escreveu  O  Evangelho segundo  João  ?

EP    A  maioria  dos  estudiosos acha que  não  foi a  mesma  pessoa . O  autor  do  Apocalipse retrata    os   doze  apóstolos  como  se  eles  já  tivessem  morrido . Eles também  têm  seus  nomes  nos  doze  portões  da  cidade , e  o  autor  nunca  disse  que  era  um  deles .

RH   Por  que  o  livro  só  entrou  no  Novo  Testamento  dos  séculos  depois  de  escrito ?

EP   Isso  me  fascinou  mesmo  depois  que  o  imperador  Constantino   [ 272  -  337 ]  se  tornou  cristão  , o  bispo  Atanásio  de  Alexandria  [ 295 - 373 ] não  usou  o  Apocalipse  durante  25  anos .  Só  depois , quando  o  filho  de  Constantino [ imperadr  em  sucessão  ao  pai ] pôs -se  a  ele  e  o  exilou , é  que  decisiu  incluir  o  livro  no  Novo  Testamento . Estava  tão  zangado  e  furioso  que  aquela foi  sua  forma  de  contraatacar  :  "  Como  pode  este  imperador  não  ser  o   AntiCristo  ?  Ele  é  obviamente  a  Besta  " ? 

RH   Houve  outras  leituras  do  Apocalipse  na  história  do  cristianismo ?

EP     A  Bíblia  original de  Martinho  Lutero  [ 1483 - 1546 ] , quando ele dividiu o  mundo  cristão ,  tinha  imagens  feitas por um amigo seu , chamado  Lucas  Cranch . E as  ilustrações  do  Apocalipse    retratam  a  Meretriz  da  Babilônia  como sendo  o  papa  de  Roma . Ao mesmo tempo , o  primeiro    biógrafo  católico de Lutero retratou - o como  a  Besta  de  sete  cabeças .Essas  imagens  de sonho e pesadelo  são  tão  aberta que qualquer um pode  usá - las , a  qualquer  tempo . para  alguns católicos  do  século  XVI , a  Grande  Meretriz  era  a rainha  Elizabeth I  [ 1553 - 1603 ] .

RH   As   versões  do  livro  encontradas  no  século  XX  são  diferentes ? 

EP   Sim , elas falam sobre encontrar  acesso  direto  a  Deus , e não sofre  o  fim  do  mundo . Prova - velmente  foram feitas  para  cristãos , em  um  nível  avançado ,como  monges  e pessoas envolvidas  na prática  espiritual . Acho que foram  suprimidas  pela  Igreja  mais tarde , porque sugeriam que  os  homens  podiam econtrar  Deus  por  conta  própria .

RH   Imagens  apocalípticas costumam  ganhar  força  em  tempos  de  guerra ? 

EP    São  muito  úteis . Na  Segunda  Guerra  Mundial  [ 1939 - 1945 ] , alguns diziam que ele estava trazendo o  reino  de  Cristo .O  Apocalipse  foi  usado na  Primeira  Guerra  Mundial  [ 1914 - 1918 ] , na  Guerra  Civil  Americana  [ 1861 - 1865 ] , sempre  por  pessoas  dos  dois  lados . Ele  permite  in- terpretar  qualquer  conflito  como  um  conflito  entre o  Bem  e  o  Mal . E  o único  modo  como  po-demos  lidar  com  as  pessoas  do  Mal  é  conquistando - as  ou  destruindo - as .

RH   Até  ateus  e  agnósticos  se  identificam com  essas  idéias  

EP    Ah , sim . Uma  vez , ouvindo  o  biólogo  Edmund  Wilson , da Universidade  de  Haward falar  sobre  mudanças  climáticas  e  a  destruição  do  sistema  ecológico  , eu  brinquei  que  aquilo  soava  como o  Livro  do  Apocalipse .,Ele disse : " Ah , sim ,eu  sou  um  batista " . Ao  falar sobre ecologia, era  como  se  fosse  um  sermão  batista .

RH    Como  o  Apocalipse  alimenta  o  fanatismo  atual ,  seitas  cristãs  vertentes  do  movimento    islâmico ?  

EP    Nos  Estados  Unidos  ,uma  grande  quantidade  de  cristãos  acha  que  o  fim  do  mundo está  chegando . Isso  é  preocupante  . No  Corão  há  imagens da  batalha  final  ,  do  julgamento  final  .    Alguns  muçulmanos  leem  isso  como  uma  batalha  entre  eles  e  os  não  mulçumanos  .  Outros  interpretam como  uma  guerra  do  espírito  , naõ uma  guerra  de  verdade ..

RH    O  Apocalipse  já  foi  usado  em  favor  da  ética ?  

EP     Sim , como  quando  Martin  Luther  King  Jr . [ 1929 - 1968 ]  luta  contra  a  injustiça  racial.      Ele  e  vários  cristãos  afro  -  americanos  usaram  a  linguagem  do  Apocalipse  . Falam  sobre  a  promessa  de  um  mundo  que  vai  reverter  as  injustças .  As  pessoas  hoje  oprimidas  serão  fe  - lizes .

Fonte  -  Revista  de  História  -  págs  - 28  e  29  -    ano  7  n º  85  - Dossiê  Contestado  ,  100  anos    Data  -  Outubro  de  2012  -  Entrevista  com  Elaine  Pagels , por  Alexandre  Leitão  -   Biblioteca  Nacional  



domingo, 15 de março de 2026

Guerra do quê ?

 




Cem  anos  depois , filme  tenta  recuperar  a  memória  do  Contestado 

No dia 22 ,completam-se  uma guerra praticamente  esquecida . Mais de 10.000 mortes ,entre 1912        e 1916 , continuam  sendo  ignorados . A Guerra do Contestado  [ ver dossiê , página  17 ]  começou      a  ser  estudada  mais  intensamente  por  historiadores  a  partir  dos  anos 1980 , mas ainda é timida      nos  livros  didáticos  e  pouco  conhecida  fora  de  Santa  Catarina  e  do  Paraná ,  onde  ocorreu  o  conflito .

Aproveitando a data ,o cineasta  Sylvio Back lança dia 19 ,em Florianópolis e Curitiba ,seu segundo filme  sobre o tema , décadas  depois da  ficção  " A  Guerra  dos  Pelados " ( 1971 ) . Com a ambição  de  diminuir  a  invisibilidade  a  que  guerra  vendo  sendo  submetida .  "  O  Contestado   -   Restos  Mortais "  apresenta depoimentos  de especialistas  e de  descendentes , além  de  ex  -  combatentes ,  além de charges  antigas  e  uma  ampla  pesquisa sobre  imagens e  sons  relacionados  ao  período .

" Qual  a diferença  entre a  realidade  bruta , o imaginário e sua versão contemporãnea sobrevivente,  depois que uns e outros são  transformados em fotogramas ? Talvez seja responder a esse  desafio que eu tenha voltado ao  tema  da  Guerra do  Contestado . Quão submersos , ignorados , omitidos e mini-mizados  permanecem  personagens , fatos  e  atos  dessa  verdadeira  guerra civil ?  " ,  questiona o diretor . 

" O  Contestado  - Restos  Mortais "  é  uma  mistura  de  ficção e  documentário . Curiosamente , a  parte ficcional  fica  por  conta  de  depoimentos  de  médiuns em  transe , numa  tentativa  de  causar  estranhamento  e  carregar  o  filme  de  certo  drama .  Para  contrabalançar ,  há  depoimentos  de  cerca de  20 pesquisadores  ( quatro  deles  presentes  no  dossiê  desta  edição :  Eloy Tonon , Márcia Janete Espig , Rogério Rosa Rodrigues e Paulo Pinheiro Machado ) ,que discutem  diferentes  olhares  e  opiniões sobre o  conflito . 

"  Esse  assunto  foi  tratado  por  muito  tempo  como  local ,  mas  ele  lida  com  temas  nacionais , assim  como  Zumbi  dos  Palmares ou  Tiradentes . O  Contestado era  a  luta  contra o  coronelismo , pela  terra , por  melhores  condições . Já  vi  algumas  questões  de  vestibular  sobre  o  assunto ,  e      começam a  trbalhar  o  tema , mas , mesmo  no  Sul ,não se  fala  nisso  o quanto  deveria  " , afirma  Paulo Machado  , da  Universidade  Federal  de  Santa  Catarina . 

Segundo  o  pesquisador  , os motivos  do  esquecimento são  vários . para  ele , muitos  historiadores     e as  elites de  região  Sul  não deram  atenção  devida  ao  assunto . " As  pessoas realçam  a imagem  do  Sul  como  europeizada ,e  a  Contestado  é  justamente  o contrário , pois  envolveu descendentes  de  africanos ,de  indígenas ... Eram  todos  muito  pobres , do  meio  rural .Eles foram  chamados  de  fanáticos ,assassinos , e  passaram  a ter vergonha  de  falar  sobre  isso . Só se  tranquilizaram depois  dos  anos  1980 . Antes , só  davam  depoimentos  anônimos  " , explica .

Sylvio  é  o  cineasts  que  mais  tem  se  dedicado ao  assunto . Em  seu  novo  filme , ele se  utiliza de    dois curtas  do  cinema  mudo .  Um  deles  foi  feito  em  1912  e  retrata  o  enterro  do coronel  João  Gualberto , um dos militares que  agiram  contra  o  monge  José  Maria  e  seus  seguidores . O  outro ,  dos  anos  de  1920 ,  mostra  o  trabalho  da  madeireira  Lumber  ,  que  expulsou  boa  parte   dos  caboclos  da  região  para  vender  suas  terras  aos  imigrantes . "  Eu  quis  esgotar  o  repertório de  imagens  e  seus  relativos  ao  Contestado , que  foi  posse  e  contra  a  usurpação  da  terra no século  XX  no  Brasil " , afirma  o  diretor . 

Fonte  -  Revista  de  História  -  pág 9  -  Em  Dia  - Biblioteca  Nacional                                                  Data  -  Outubro  de  2012  -  Ano  7  -   n º  85  

quinta-feira, 12 de março de 2026

Virgens videntes , guerreiras

 



No  campo  de  batalha  ou  curando  doentes , as mulheres  do  Contestado  tinham  o  curioso  dom        de  se  comunicar  com o além 

MESMO VIVENDO SOB ACENTUADO , DOMÍNIO  patriarcal ,muitas mulheres desempenharam    papéis  importantes  no  movimento de  Contestado  . A  começar  pelas  " virgens " . O  monge  José      Maria se  fazia  acompanhar  de  um  séquito  delas para  auxiliá - lo  nas  rezas , nas pregações e  no  preparo de chás homeopáticos .As  " virgens " eram  escolhidas por ele pelas lideranças dos  Redutos      -  ou  Cidades  Santas - entre  aquelas  que  manifestavam  piedade e  pureza  de  alma . Não  preci -      savam  ser  virgens no sentido  biológico , pois havia  entre  elas  mulheres  casadas . Porém , as que  mais  se  destacavam  eram  adolescentes . A  proximidade com  o monge lhes  dava  respeitabilidade      e  poder  junto  à  comunidade  . Na  ausência  do  líder  religioso  , assumiam  o  papel de videntes .

Outras  mulheres  tornaram  -  se  líderes  no  interior  dos  Redutos  e  até  mesmo  nos  campos  de  batalha  Querubina  de  França , amiga  e  seguidora  de  José  Maria , era  uma  das   autoridades  da  Irmandade  de  Taquaraçu . Com  a  morte  do  monge , coube - lhe  a  tarefa  de  escolher  as videntes  que conversariam  com  o falecido e trariam  predições  para os devotos . A primeira  vidente esolhida  por  Querubina  foi  sua neta Teodora , menina de  apenas 11 anos de idade de idade , " Teodora dizia  tornar -se  uma Santa  Virgem contando que  falava  com José  Maria lá no  mato e que recebia ordens  para  ir para Taquaraçu,  e  também  para curar  gente  ;  um  dia chegou uma mulher que estava muito doente ; a  virgem  trouxe  uma  xícara  cheia de sangue e deu para  a  mulher tomar ,dizendo que Seu  José  Maria  é   que  tinha mandado "  ,  contou  Alfredo  Lemos , comerciante  que  visitava as  irman-dades . Entrevistada  em  1961 ,  já  idosa , Teodora negou  os  poderes  videntes : "  Eu  não via  nada . Eram  os  velhos  que se  juntavam  e  diziam  as  ordens " .



No  campo  das  mulheres  guerreiras , destaca -se  a  história  de  Maria  Rosa . Muito  jovem  ,  ela participou  de  diversos  confrontos  armados  entre  os sertanejos  e  as  forças  federais , estaduais e  de  vaqueanos . " Maria  Rosa  era  uma adolescente e de seus 15  anos , loura , cabelo  crespo ,pálida , alegre , de  extrordinária  vivacidade . Não sabia ler  nem  esscrever , mas  falava  com  desembaraço .  Era  ela  quem  nas  procissões  marchava  à  frente carregando uma  bandeira  com a  cruz verde , Às    vezes  permanecia  encarcerada  num  pequeno  quarto , só saindo  para  '  transmitir  as  ordens '  que  dizia  receber  de  José  Maria  durante  períodos exóticos  de  vidência .  ( ... )   o  povo  dos  redutos    considerava  Maria  Rosa  exercia  a  plenitude  do  comando  no  Reduto  de   Caraguatá  :   rezava  ,  definia as  chefias  , julgava , condenava ,  nomeava  os  líderes  religiosos  e  militares .  Comandou      os  principais  combates  montada  em seu  cavalo  branco , estandarte  na  mão  esquerda  e  arma na    mão  direita . Morreu  em 1914 , lutando  contra  as tropas  do general  Setembrino  de  Carvalho , às  margens  do  Rio  Caçador  . H

Fonte  -  Revista  de  História  -  pág  27  -   Dossiê   Contestado , 100 anos  -  Biblioteca  Nacional          Data - Outubro  de  2012 - Ano  7  - nº  85  - ELOY  TONON  É  AUTOR  DE  2012 -CENTENÁRIO    DO  MOVIMENTO  DO  CONTESTADO  (  KAYGANGUE , 201 2 ) 


terça-feira, 10 de março de 2026

BEATA ALBERTINA - Berkenbrock

 



Santidade : um  caminho  possível  

Albertina nasceu em 11 de abril de 1919 , em Imaruí ,no Estado  de  Santa  Catarina ,numa família      de  origem  alemã , em que  a  simplicidade  de  vida  se  conjugava  com  uma  vivência  da  fé 

BATIZADA no mês seguinte ao seu nascimento  e tendo feito  a  Primeira  Comunhão  aos  9  anos  ,    Albertina  viva  intensamente  a  fé  cristã .Ela tinha  especial devoção  a  Nossa  senhora e , por isso ,  fazia questão de rezar o  terço  todos os dias junto com seus familiares . Era também devota de  São        Luís , padroeiro  da  capela frequentava pela família . Aplicava - se  ao estudo , distinguindo - se dos    colegas  de escola  pelo  bom  comportamento . Desse modo  , cresceu se exercitando  na  prática re -  ligiosa e no testemunho da bondade para com todos de  forma  exemplar .Sendo os pais agricultores,      não deixava de ajudá -los no  trabalho do campo e mesmo no serviço de casa . 

Albertina  tinha completado 12 anos ,quando encontrou de forma inesperada a morte violenta . Eis o  cenário dos fatos.Ela estava cuidando dos animais da propriedade da família ,quando o pai pediu para buscar um boi que , tinha se  distanciado ,precisava ser reconduzido junto ao restante  do  gado .Pron-    tamente , Albertina  foi  à  procura , conforme  o  pai  lhe  havia solicitado . Pelo caminho  encontrou Idaulício Cipriano Martins , conhecido pelo apelido de Maneco . Tratava -se de  um vizinho de  Ber -  kenbrock cuja idade era de 33 anos .Quando perguntado se tinha avistado o animal ,ele repondeu que  sim . Ofereceu - se inclusive para acompanhar a jovem . 

Mas quando chegaram a um bosque ,quis que Albertina tivesse relação com ele .Ela se recusou com firmeza .Foi então agarrada pelos cabelos e jogada no chão .Não conseguindo o intento porque ela se negava terminantemente .Maneco tomou nas mãos um canivete e fez um corte no pescoço da jovem ,  provocando uma ferida gravíssima e ela morreu .

O agressor tentou despistar o crime participando do velório como se nada tivesse acontecido .Mas os  faros demonstraram que ele era realmente o assassino de  Albertina . Confessou o ato praticado  e , julgado como responsável pelo acontecido , foi levado à penintenciária onde , onde , alguns depois ,    acabou falecendo .

Pureza  brasileira 

Já no enterro ,que contou com grande número de pessoas , Albertina  foi reconhecida como  pequena     " mártir "  . Sua  fama se espalhou a tal ponto que foi considerada uma  nova  Santa  Maria  Goretti  ,  pois  ambas havia  perdido a  vida de  forma violenta em  defesa  da  pureza .Por  isso, os  Bispos do  Brasil , reunidos na  44 ª  Assembléia  Geral , em maio  de  2006 , decidiram encaminhar o  pedido de    de  beatificação da  jovem  ao  Papa  Bento  XVI . No ano seguinte , aos 16 de dezembro , veio a res -  posta  favorável : o  pedido  foi  aceito pelo  Vaticano !   No  ano seguinte , aos  20  de  outubro , foi    solenemente  beatidficada  em  cerimônia  presidida  pelo  Cardeal  Saraiva  Martins . A beatificação ocorreu na  cidade  de Tubarão , em  Santa  Catarina .Sua  memória  litúrgica  é  celebrada no dia  15  de  junho .

 Bem - aventurada  Albertina , rogai  por  nós  , especialmente  pela  juventude  do  Brasil  para  que   cultive  o  amor  a  Deus  e  ao  próximo , bem  como  a  pureza  do  coração !

Fonte  -   Revista  O  MÍLITE  -  pág  20   - SANTIDADE                                                                          Data  -  2018  -  FREI  DIOGO  LUÍS  FUITEM   -  Franciscano  Menor  Conventual 


Marielle Franco , mulher negra , mãe e cria da favela da Maré





Era  mulher  negra ,mãe  e  cria  da  favela  da  Maré ,na  zona  norte do Rio. Marielle  Franco , morta numa  quarta -feira , 14  de  março de 2018 , no   Rio de  Janeiro , nasceu  em  1979 . Formou -se  em  Ciências  Sociais  pela  Pontifícia  Universidade  Católica  do  Rio  ( PUC -  Rio )  e fez mestrado  em  Administração  Pública  pela  Universidade  Federal  Fluminense ( UFF ) . Na dissertação ,para obter    o  título de  mestre , pesquisou  as  Unidades  de  Polícia  Pacificadora  ( UPPs ) .

Iniciou a miltância em direitos humanos após ingressar  em um  pré - vestibular comunitário e perder uma  amiga  vítima  de  bala  perdida em um tiroteio entre policiais e traficantes na  maré .

Foi Vereadora do  Rio  pelo  PSOL com  46,5  mil votos  - a 5 ª maior votação ,tendo como principais  bandeiras o  feminismo  e os direitos  humanos . Estreante  na Câmara ,participava de comissão criada no início do mês de março , para acompanhar a intervenção federal na segurança pública do estado  e vinha se posicionando contra medida .

Apoiava  projetos  para  punir  o  assédio  em  espaços  públicos , em  defesa  de  casas  de  parto e do aborto legal . No sábado , 10  de  março , havia  protestado contra  uma  ação  policial  no  Acari , na zona  norte . Nas  redes  sociais  , se  posicionava  contra  o  racismo  e  a  violência  policial .Em  sua  última  publicação  divulgou  vídeo  do evento  "  Jovens  negras  movendo  as estruturas " , na  Lapa, região  central , pouco antes  de  ser  morta .

Ao longo  de  sua  trajetória atuou  em  organizações  como o  Brazil  Foundation ,  que  defende  a  igualdade  social , e o  Centro  de  Ações  Solidárias da  Maré   ( CEASM ) .

Foi também  Presidente  da  Comissão  da Mulher  da  Câmara . Como  Vereadora , durante 1 ano e 3 meses de mandato , apresentou  116 proposições na  Câmara  - sendo  16  projetos  de  lei . Dois  dos projetos apresentados por ela , junto a  outros parlamentares , se  tornaram  leis : 1  autoriza o serviço  de moto - táxi  na  cidade , e outro restringe  os  contratos da prefeitura  com as  organizações sociais    à  área  da  saúde .

Ela estava  em um carro ,acompanhada do motorista  Anderson Gomes ,que também foi morto , e de uma assessora .

Segundo testemunhas , a  Vereadora teve o carro emparlhado por  outro veículo ,de onde partiram os tiros .

13  tiros  atingiram  o  veíiculo .

Fonte  -  Revista  da  APEOSPE  -  2019  -  São  Paulo 



segunda-feira, 9 de março de 2026

Elza Soares empresta sua voz à revolução



Homenagem  ás  mulheres  8  de  Março 



Música . Sem  meias  palavras , novo álbum da cantora , '  Deus  É  Mulher  ' , a  aproxima  de        mulheres  e  religiões  de  matrizes  . No  YouTube , webdocumentário  mostra  a  produção  do            disco 

Em " A  Mulher  do  Fim  do  mundo " ( 2015 ) , o clima  era  de  apocalipse . Elza  Soares  gri  -            tava  em  sua voz  rascada que  cantaria  até o fim , como  se  despedisse dos seus ouvintes . No              fim do  mundo , porém a  cantora encontro um recomeço . A artista  octogenária  conquistou a              crítica e o público , foiu  multipremiada e , como  a fênix que foi tantas  vezes  em sua carreira ,            volta  a  ressurgir , pegando  fogo , em  "  Deus  É  Mulher " .

O disco prova que  Elza não  quer ficar no pedestal de  diva ,e  sim descer  à  realidade  do povo ,  cantando essas próprias  bandeiras  com indignação . "  Minha  voz , uso para dizer o que se cala /          O meu país é meu lugar de fala " , canta ela em " O  Que  Se  Cala " , canção  que abre o álbum .

O disco se propagandeia como a  esperança depois do fim , mas a  esperança aqui não é uma tran-          quilidade .É uma luta como fica claro  em  canções  como o  samba eletrônico  " Hienas  na  TV " :          " Digo  sim  para  quem  diz  não " .

" Acho que o público estava esperando alguém que gritasse  por  eles .Eu gritei  por  eles " ,  diz a  cantora  no webdocumentário sobre  a produção  do  disco.

Gravado pela Deck Discos ( contrato alcançado como reflexo do sucesso do CD anterior )." Deus É Mulher  " tem produção de Guilherme Kastrup e co produção de Romulo Fróes .

As 11 faixas  inéditas  expõem c om  crueza  o  Brasil  atual  pela  visão  de  um timaço  de  jovens  compositores  - Tulipa Ruiz , Pedro Luís , Alice Coutinho , Rodrigo  Campos e  Edgar ,o rapper é a      única voz que se ouve além da de  Elza  no disco , em uma  colaboração para  a genial  e polêmica  " Exxu  nas  Escolas  " , uma  defesa  de  aceitação  de  religiões  de  matrizes  africanas .

Merece  destaque também  a faixa de  Tulipa  Ruiz , " Banho " , que  mistura o tema dos orixás com      o  outro dos eixos  do álbum , a força da  mulher .Merece também  destaque  " Dentro de  Cada Um "     ( Pedro Loureiro / Luciano Mello e  o  frevo  divertido "  Eu  Quero  Comer  Você "  e  a  dançante  " Língua Solta " - ambas  de  Kastrup e Fróes , que  defendem  a  liberdade  sexual  da  mulher . 

Outro destaque  é  "  Deus  Há  de  Ser " , de autoria de  Pedro  Luís  - que inspirou o nome do disco      - é uma das  melhores  faixas  do  álbum .Ela encerra o disco com  um  ritmo  roqueiro e eletrônico e  que  proclama  a  força  feminina  de  Deus . "  Eu  tanto  acredito  em  Deus  que  creio  que  ele  é  mulher " , afirma  Elza no  documentário .

" Deus  É  Mulher  "  é  um  álbum  para  ser  ouvido  com  atenção  e  mais  de  uma  vez .  É  nos  detalhes  e  em  suas  metáforas  que mora sua força .

Fonte  -  Jornal   METRO   -  pág  10   -   CULTURA  - MÚSICA                                                              Data  -   Rio de  Janeiro , 6  de  Junho  de  2018  - BRUNO  BUCIS  METRO BRASÍLIA 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O RESPEITO À CURIOSIDADE INFANTIL




A  curiosidade  infantil  desperta  o  educador  para  a  necessidade  de  uma  aula  criativa  e esti-muladora  , na  qual  a  aquisição  de  conhecimento  é  processo  de  cooperação  e  crescimento      coletivo 

A criança  é naturalmente  curiosa , desejosa de saber , conhecer , experimentar . 

Sábia , ela ten  noção , ainda pequena , de que há muito  o  que  conhecer  no  mundo .

Para  perceber  isso , basta  deixá - la  falar, perguntar , questionar , sem  medo de  ouvir perguntas          escabosas ou  difíceis  de  responder " .

A  escola , espaço  de  promoção  do  saber , tem  a função de  proporcionar  momentos  de dúvidas        e descobertas . O educador , enquanto  mediador de  aprendizagem , tem como uma de suas funções,    instigar  a  dúvida , provocar o educando  para a indignação do que  anseia  aprender e mostrar - lhe  que  há várias  fontes  de  saber .

Quando o educador permite que a  curiosidade  de seus alunos invada  a sala de  aula e faça parte de  seu  trabalho , ele está  apostando em  uma  forma  agradável de  aprender  e  ensinar . 

Aprender deixa de ser uma  obrigação , um acontecimento distante da realidade do educando e passa    a  ser  uma  sucessão  de  descobertas .

Para  manter  esse  tipo  de prática , o educador precisa desprender - se das  grades curriculares . Não  ignorá - las , mas  considerar -se  livre e  capaz o  suficiente  para  ultrapassá - las . E ultrapassá - las juntamente com  seus  alunos , permitindo - lhes  participar  de maneira  ativa e presente em todos os     passos  de  sua  aprendizagem . 

Ao abrir  os ouvidos para  as curiosidades  de  seus  alunos , o educador terá que abrir sua mente para  aceitar  os  limites  e  verificar  que  não é o  dono  da  verdade , o  ditador  de  regras  e  o "  discurso  ambulante " , mas sim um  indivíduo pronto a  aprender com  seus  alunos , desde o momento em que lhes permite a interrogação até o momento em que procura  respondê -la  junto com eles . 

Desse modo , ocorre uma articulação com o real ,o saber não se resolve , em acúmulo de informações  mais ou menos eruditas , mas assume  um  caráter  consistente  e  marcante ,  que vai ao encontro das  necessidades interiores  das  crianças 

Foi justamente com o objetivo de ultrapassar os conteúdos pré - estabelecidos para a primeira série do primeiro grau que criei em  miinha sala de  aula um  espaço para o surgimento  de  assuntos  diversos  que  interessarem  aos  alunos . Essa experiência  ocorreu  na  Fundação Bradesco  ( Osasco )  no ano  de  1993 , co meus 40 alunos da primeira  série  G .

A leitura do livro  A curiosidade  premiada   foi  o  ponto de  partida . O livro pertencia à nossa  bibli-oteca de classe e tratava - se de um livro  bem  elaborado , interessante e , principalmente ,suscitador . 

Glorinha  é  a personagem  principal ,uma criança que é a curiosidade  em  pessoa : bombardeia seus  pais , com perguntas  de  todo o  tipo . Esses  se  vêem  desesperados , procuram a  ajuda  de  uma vi -  zinha  muito  sábia  e começãm  a  perguntar  junto  com  a  filha . Respondem  muitas  perguntas  e  descobrem  muitas coisas  também , inclusive que não sabem tudo ... Ao  final da  história , Glorinha  deixa  de  ser  a filha  chata  e  contagia  a  todos com  sua  dúvidas .  A  família  a  ouve  e  crescem  juntos . 

Fonte  - Revista  Comunicação  e  Educação  -  págs  112  e  113  -  Experiência   Data  - setembro / dezembro  - 1995 - Ano II   -  Número  4  -  USP   - Editora Moderna - Cristiane Fernandes  Tavares  Educadora ,  graduada  em  Comunicação  Social e  pós - graduada  em  Psicopedagogia 








 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Brasileiro esbanja criatividade

 




Incentive  seus  funcionários  a  usar  a  imaginação  e a  criar  durante  o  expediente  ; o resultado      será  surpreendente 

Assim , como  as  pessoas , também  as  famílias ,  as  empresas , os  povos , enfim , todos nós car-        regamos  algumas  " culturas " muito claras e  específicas , dentro de  nós . Assim sendo , todos os    países  têm  características muito  específicas  e que os distinguem  uns dos  outros .

Isto se deve à  transmissão  verbal e  comportamental  que  despercebidamente é  praticada a todo        instante ; assim sendo , a  criança japonesa , por  exemplo , já vai , ao longo  da  sua  infância , in -      corporando  sem  saber  aspectos importantes  da  forma de  ser  de  sua  gente e , dessa forma vai  aprendendo , entre outras  coisas , a  trabalhar  bem em grupo . O  americano idem , e ,desde cedo,          já vai  aprendendo  o que é  " se  americano " , isto é , a  se  comportar  de  forma  coerente com a          sua  gente  e , assim , incorporando  respeito  à  disciplina  no  que diz  respeito  a  horários , entre    outras  coisas , é claro .

Conosco ,brasileiros , a  " coisa " se dá  exatamente  da  mesma  forma ;  então  , quando  a criança  brasileira  vê  pai  e  mãe , por exemplo , não respeitando  uma lei de  trânsito ,vai fazer , depois , a  mesma  coisa , ou  até  pior quando chegar  a  sua  vez . Estamos , todos ,através  dos  nossos  com -    portamentos ,ensinando  ( ou  desensinando ) e  passando os  nossos  valores como  cidadãos , pais,    chefes , estc .

O  que  estamos  querendo passar  para  você é o seguinte  : "  Desde muito  cedo , nós , brasileiros ,    aprendemos  a  criar  soluções  o  tempo  todo  "  . Isto  é  uma  das  nossas  mais  fortes  e  positivas  características  como  povo . Para  nós ,  criar  novas  soluções  é  absolutamente  natural  e  isto  já      faz  parte da  nossa  forma  de  ser  .  O  brasileiro  é  extrordinariamente  criativo .  Acredito  que  ninguém  coloca isto em  questão , ou  tem alguma  dúvida  a  respeito .

Uma  outra  importantíssima  característica  nossa  é  a  alegria .



Desde muito  cedo , ou  seja , desde  que  nascemos ,estamos vendo  que  a  musicalidade , a galhofa ,  a  piada , o riso ,fazem  parte  de  nós  mesmos . Somos até  capazes , em consequência  desta  nossa  característica , de transformar velório em festa . Uma das  coisas  mais comuns nos nossos velórios é     a " reunião da  turma  da  piada " , e , muitas vezes é ali , no velório ,que  colocamos  o  nosso reper -  tório , que  colocamos  o  nosso  repertório  em dia . 

Vamos ,então juntar estes dois aspectos :  " Criatividade  e  alegria " , e que  temos ? Temos  algo im -  portantíssimo  para  os  nossos  ambientes de  trbalho , pois ,todas as  vezes em que podemos  colocar em ação a  ambas ,os nossos  resultados são  absolutamente  extraordinários ; e conseguimos praticar  verdadeiras  proezas .

Voltemos  ao  japonês . Todas  as  vezes  que ele  puder  trabalhar  em  grupo , será  muito  mais  com-  petente , do  que  trabalhando  sozinho . O  americano  será  muito  mais  capaz  sempre  que a  disci -  plina  pelas  normas  e  regulamentos  se  fizer  presente ; e ,portanto , será  muito  menos  eficaz  sem-  pre  que  isto  não  estiver  presente .  Conosco  ocorre  exatamente  o   mesmo  ;   veja  os  seguintes  exemplos . Fazemos , brilhantemente , o  carnaval ; o  que  há  na  escola  de  samba ? Criatividade  e    alegria . Fomos  campeões  olímpicos  de  vôlei  ;  o  que  víamos  naqueles   " meninos "   quando  estavam na quadra  ?  Criativdade  e  alegria . 

Enfim ,  sempre  que  estes  dois  aspectos  estiverem  presentes  somos  muito  mais  competentes  e  produtivos . Temos feito  algumas  experiências  a  respeito  em  nossos  cursos  , e  os resultados que  obtemos  são  absolutamente  notáveis . Todos  ficam  surpreendidos  com  os  resultados . Para  nós  ,  é  indispensável  haver  a  possibilidade  de  criar  e  de  " brincar  com  os  problemas " .

Faça algumas  experiências  em  sua  empresa . Coloque  um  grupo  de  pessoas  em  torno  de  uma  mesas  e ,  com  a  " espírito  de  piquenique " , dê  a  eles  um  problema . Não se  esqueça  de  que é    absolutamente  necessário  haver  a  possibilidade  de  " brincar "  com  o  problema . Se  quiser  faça  um  " aquecimento "  , dando - lhes  em  exercício  de  criatividade , como ,  por  exemplo :  "  Dêem      outras utilidades  para  uma  cadeira "  ;  enfim " implante  "  a  descontração . Você  ficará  surpreso  com  os  resultados  ,  sempre  que  praticamos  praticar  as  nossas  ações  com  alegria  e  liberdade      (  criatividade  ) ,  somos  bem  melhores  . Faça  a  experiência  ;  você  verá , como  nós   estamos    vendo  em  nossos  trabalhos  , que  notável  .  Não  esqueça  ;   Criatividade   é  alegria .  Para  nós ,  brasileiros  é  uma  receita  formidável .

Fonte  -  Jornal  O  ESTADO  DE  SÃO  PAULO  -  pág  4  -  ARTIGO  EDUARDO  BOTELHO            Data  -  24  de  agosto  de  1993   -   é consultor  de  empresas  e  autor  de  livros   do  Gerente  ao          Líder  e  Administração  Inteligente 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Sambródomo

 



Os  apelos vinham  desde  o  início  da  década  de  70 . Os sambistas sonhavam  com  um lugar  definitivo  para  os  desfiles  e  a cidade  já não suportava  os transtornos  causados pelo monta-e- desmonta das  arquibancadas  de  madeira . Recém-eleito  o  Leonel  Brizola resolveu  encarar  o    desafio  e , em  três  meses , construi  a  Avenida  dos  Desfiles  -  depois  chamada  de  Passarela            do Samba e  a  partir  de  18  de  fevereiro de 1997 . Passarela  Professor  Darcy  Ribeiro . Apesar            dos nomes nomes  oficiais  , lavrados  em  documentos  públicos  , o  que  pegou mesmo , foi  o               apelido  dado  por  Darcy   Ribeiro ,  seu  principal  mentor  . Sambódromo . A  ideia  inicial era      construí - lo  na  Av . Presidente  Vargas , palco  de  carnavais  inesquecíveis ,  porém  o  próprio        Darcy ,  na  época  vice - governador ,  indicou  que  o  Sambódromo  fosse  construído  na  Rua      Marquês  de  Sapucaí ,  junto  à  Praça  Onze  -  o  nascedouro  do  samba  carioca .  Fora   do        Carnaval ,  a  construção  se  transforma  num  gigantesco  complexo  educacional  , abrigando            alunos  da  rede  municipal  de  ensino .

Erguido  em  blocos  de  concreto  pré - fabricados , desenhados  pelo talento  do arquiteto  Oscar    Niemeyer , o  Sambódromo  foi  inaugurado  no  dia  2  de  março  de  1984 . 

Um  desfile  de  números  



Contados do início da  área de armação , na Av . Preidente  Vargas ,até o arco  Oscar  Niemeyer , na    Praça de  Apoteose ,o  Sambódromo  possui  700  metros de  extensão . A pista  de desfile  mede  590  metros  de  comprimento  por  13  m  de  largura , contados  da  Rua  Benedito Hipólito  onde fica  o    primeiro  recuo  da  bateria   (  o  espaço  Jamelão )  ,  até  a  Apoteose  -  onde  começa  a   área  de  dispersão  de  componentes  ( `a  esquerda  ) e  de  alegorias  ( à  direita ) , já  na  segunda  metade da  pista  , entre  os  setores  9 e  11 , fica  o  segundo recuo  de  bateria  - batizada  de Espaço  Candonga,    em  homenagem  ao  sambista  que  ali  montava  a  sua  base  para  dar  água  - e  o  vigorante  cravo      escarlate  - aos  ritmistas  de  todas  as  Escolas .

Com  85  mil  metros  quadrados  de  área  construída  e  capacidade  para  abrigar  60  mil  pessoas ,    o  Sambódromo  tem  uma  geografia  adaptada  ao  traçado  das  ruas  locais  pois , durante  o  ano ,      o  trânsito  flui  po  algumas  de  suas  transversais .

Fonte  -  Revista  do Carnaval 

KELLY , O QUE MAIS FATURA NO CARNAVAL

 




QUEM  OUVE  QUEM

O assunto  está atrasado , eu sei . Mas está  no tempo  do pagamento . É o carnaval  83 , as músicas e    os autores nele executados  que só agora ,em junho ,recebem o pagamento daquelas execuções .Com    certeza , o ECAD precisa desse  tempo recolher  direitinho toda a  pesquisa sobre  o  carnaval  e saber corretamente  que nos tais dias da folia foram  executadas 120.391  músicas em  cluber carnavalescos    de todo o país .

Destas ,as mais tocadas foram as de João  Roberto  Kelly ,músicas mais do que conhecidas e cantadas  em  muitos outros  carnavais  : Cabelereira  do Zezé , Maria  Sapatão , Mulata  Ieieiê , Joga a  Chave , sucessos sempre  repetidos  que , desta vez , garantiram  a seu  compositor o campeonato  do carnaval  83  e  uma quantia de  CR$  9.776.847,00 . Como você  vê , ser compositor dá dinheiro , dá  pra  viver  com dignidade . Porque  se você ganhar  assim  10  milhões de cruzeiros , mesmo que seja uma vez só    ao ano , você  fica  com amis ou menos  800 mil  por mês . Nada  mal , não  é ? 



Pois é .Depois ,o segundo mais  executado no carnaval que  passou foi  o Braguinha  -  João de  Barro   -  e  seus grandes  sucessos : Balancê , Tem Francesinha  no Salão , Vai , com  jeito  vai e outras mais. E  Braguinha  recebe  agora só pelas  execuções  carnavalescas  CR$ 8.591.975,00 .

O terceiro  de  maior  execução  no carnaval foi  Moraes  Moreira .Veja só  Festa  do  Interior , Bloco  do  prazer e mais algumas  garantiram  ao  compositor  uma  nova  firme , de  Cr$ 7.091.384,00 . 

Haroldo  Lobo  e  Alá - lá - ô   ficaram  como  o  quarto  mais  executado  e por  isso uma  renda boa :  CR$ 5. 775 . 437 , 00  ,  Zuzuca  e  Pega  no  Ganzé  estão  no  quinto ,  com  5.140.347,00  .  Cidade    Maravilhosa   -  Talvez a  mais  tocada  de  todos  os  carnavais - conseguiu  para  seu autor ,  André    Filho , a  quantia de CR$ 4.190.876,00  e  a  sexta  posição entre os mais  executados  no carnaval de    83 . 

Caetano  Veloso  não  ficou  de  fora . Foi  o  sétimo  mais  executado  e recebeu  assim  CR$  4.190 . 876,00  e  a  sexta  posição entre os mais  executados  e  recebeu assim  CR$ 4.180.257,00  .  Outro  inesquecível  e  sempre  presente  na  folia  brasileira  é o  esterno  Lamatine  Babo . A  mais tocada    delae . O  Teu  Cabelo  Não  Nega , acabou  rendendo  CR$ 3.712.679,00 .

Emilinha  Borba  , Zilda  do  Zé , Marilene , Jorge Goulart  , João Dias  e  Gilberto  Alves foram  os  intérpretes maius presentes  no carnaval  83  em  odo  o Brasil . E recebem também  agora , atrasado, mas  recebem , suas  execuções  naquela  folia .

Fonte  -  Revista  AMIGA   -  pág  54  -  Lúcia  Leme 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Música e identidade nacional

 



PUBLICADO  EM  1928 , o  Ensaio  sobre a  Música  Brasileira  é o primeiro trabalho  de  Mário  de  Andrade  que lida com questões  associadas  à  identidade  nacional .Orientando  por  uma  erspectiva interpretativa , Mário  elege  a  música  como  o  caminho  mais  adequado  para se  alcançar  o  cerne    da  cultura  brasileira  . Como  não sou  musicólogo , não  tenho  a  pretensão  de discutir  os aspectos  mais  técnicos do texto  mas acredito  que nele existam  argumentos que apontam  para a imagem que apontam  para  a  imagem  que  Mário  constrói  do  Brasil .

Interessado em definir o que seria uma  música brasileira .Mário inicia ,curiosamente ,tentando definir  o que não poderia ser considerado  como  brasileiro , o  tipo de  música  que , segundo  seus  critérios ,    não  teria  condições de participar  da  nacionalidade . Ele afirma que  uma  música  que  fosse  especi-ficamente  indígena ,negra ou portuguesa  não poderia  ser  encarada como uma legítima representante  da cultura nacional ,pois o que lhe importa é defender a  necessidade  de uma fusão  de raças e culturas, de diferentes experiências e  tradições sonoras ,na constituição de uma música que , afinal , tivesse um  perfil  especificamente  brasileiro.

Contudo , Mário também  salienta que a música  brasileira  não pode ser  reduzida  à sua  experiência , não  deve  se esgotar no interior  da  sua  própria  tradição . Assim ,  se  por  um  lado  ele renega tudo aquilo  que é  específico  e regional , sustentando  uma concepção  extremamente  forte  de  identidade  nacional , por  outro  insiste  em  que  a  mera  fusão de  elementos  díspares em  torno  algo brasileiro  também  não lhe parece ser  suficiente . Mário  acentua ,assim , a  necessidade de que a  nossa música viesse a ser  aperfeiçoada pelo contato com diferentes  manifestações  eruditas ,desde que este contato  não  fosse  forte  o bastante  para descarectizar  a  sua  singularidade . 

Cabe lembrar  ainda que aquela fusão  de  raças e de  tradições  culturais irá exigir um processo longo  e  demorado , o  que  faz  com que  Mário  escreva :  "  Até  há pouco  a  música  artística brasileira  é    anterior à nossa  raça .A própria  música  popular  da  Monarquia não apresenta uma fusão satisfatória.  Os  elementos  que vinham  formando  se  lembravam  das  bandas  de  além , muito  puros ainda . Eram  portugueses  e  africanos . Inda  não  eram  brasileiros  não  " . 



Desse  modo , embora identifique , no início do  século  XIX , a  presença de diversas  manifestações  musicais  européias  e  africanas .  Mário  considera  impossível  apontar ,  nesse  período ,  qualquer  identidade  nacional . Mas  em  19928  ele já começa  a  se  referir  a algo que avalia  como  resultado  efetivo daquela  fusão  de  elementos  distintos  numa  experiência  compartilhada , fusão que ele teria  testemunhado  em  suas  viagens  etnográficas  pelo  Norte  e   pelo  Nordeste  do  país . Na  verdade ,  Mário transmite  a  impressão de que  essa  experiência  se  cristaliza , vem a público e se torna enfim disponível  para  odos  por  intermédio  do  seu  próprio texto , o que faz  com que ele passe  a desem- penhar  um  papel  de  enorme  importância  neste  processo  de  confeccção  da  nossa  tradição  cultural . H 

Fonte  -  Revista  de  História  da  Biblioteca  Nacional   / no  bolso  -  págs  88 , 89 e 90                          Data  ,  Julho  de  2005   /  P . 98   -   RHBN  -   Festas  e  batuques  do  Brasil   -    RICARDO        BENZAQUEN  DE  ARAÚJO