Uma das lendas mais mais encantadoras da Europa é a de Santa Íria .
Narra a maravilhosa história que esta criatura de lindo nome nasceu num recanto de Portugal , localizado no alto da Serra de Aire , um pouco além das nascentes de Lis . Educaram - na em certo mosteiro de monjas beneditinas , governado por seu tio , o abade Sélio .E a jo- vem tinha como mestre um sacerdote chamado Frei Ambrósio , grande conhecedor das letras sagradas e profanas .
Dotada da virtudes inabaláveis e célica formosura , ala passava os dias no mosteiro e apenas saía aos domingos acompanhada pelas monjas , a fim de assistir a missa .
Um príncipe , no entanto , quando a viu , apaixonou - se . E de tal maneira , que ficou a cismar , a cismar , a ponto de cair doente .
Íria , assim que soube do fato , foi visitar o enfermo , para convencê - lo a não pensar nela , já que sua vida estava toda consagrada ao Senhor . O príncipe , depois de ouvir o juramento que a moça lhe fez , de jamais se casar com outro , sentiu - se conformado e depressa recuperou a saúde .
A jovem se recolheu ao claustro , mas frei Ambrósio , que sempre se mostrara um professor desvelado ,também se apaixonou por ela . e pôs - se a requestá - la , a dirgir - lhe galanteios . Todavia ,esbarrou -se na indestrutível retidão daquela alma sem jaça . Raivoso , a chamejar de ódio , decidiu ser o executor de uma torpe vingança .
Sorrindo , antegozando o efeito de sua maldade , preparou uma droga que , uma vez ingerida , fazia , o ventre avolumar - se de modo empressionante . E cheio de blandícias , com mel na voz , persuadiu a inocente a tomar a beberragem .
Imediato a barriga da pobre se dilatou , arrendondou - se , fornecendo - lhe o aspecto de mulher grávida .
Então a malícia e a calúnia se incumbiram de espalhar aos quatro ventos que Íria era uma barregã , uma despudorada . A donzela fugiu de todos e ensombrou - se da funda tristeza o semblante .
Sozinha , imensa de dor , ia carpir suas mágoas às ribas do Tejo . E , numa dessas ocasiões , um soldado príncipe , por ordem deste assassinou - a com a maior frieza e lançou o cadáver no rio .
O abade Sélio , graças a intuição sobrenatural , teve conhecimento do que ocorrera . Reuniu o povo, os fidalgos , os padres e as monjas . Contou - lhes as agruras e o fim da meiga so - brinha .Os ouvintes se comoveram . E formou - se um longo cortejo que saiu à procura dos restos restos da infeliz .
Após dura caminhada , e aos soluços , a entoar cânticos e ladainhas ,chegaram às margens do Tejo . A turba , neste momento , contemplou um milagre as águas do rio se ergueram e se abriram de par em par . Permaneceram imóveis eretas e alvas como duas nitentes muralhas de prata . Bem no fundo do caudal , no seu leito de areias fofas e douradas , viram um celeste sepulcro de mármore cinzelado divinamente pelas mãos dos anjos onde a santa repousava com o seu perfil sereno e os marfíneos dedos enclavinhados sobre o peito .
A multidão avançou para arrebatar o túmulo entalhado nas sidéreas regiões do Todo Poderoso, mas logo as águas o cobriram de novo , à semelhança do lírio cujas pétalas se fecham e aprisionam uma estelar gota de orvalho .
Ah , leitor , se nós pudéssemos ver a albente morada que apareceu nas profundezas do tejo ! Que monarca teve jazigo assim ? Sardanapaio , Nabucodonosor , Alexandre Magno , Augusto ? Que imaginário é capaz de produzir outro idêntico ? Como as nossas mãos são toscas , gros-seiras , rudes , imperfeitas , em comparação com a dos alados artista do etéreo sepulcro de Santa Íria !
Fonte - Jornal de Bairros Associados - pág 2 - EXPRESSÃO Data - São Paulo , 05 a 12 de Março de 2021 - Fernando Jorge -- É escritor e jornalista , é autor do livro EU AMO OS DOIS , lançado na Editora Novo













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