° A Vieira se lê mais de uma razão . A primeira delas , dira eu , e a principal , é o prazer que essa leitura nos dá : o prazer do virtuosíssimo no manejo das idéias da originalidade dos conceitos ,da linguagem rigorosa e clara , rigorosa daquele ostinato rigore feito norma de ação por Leonardo da Vinci , e clara da clareza que o mesmo Vieira preconizava aos pre - gadores de seu tempo : " Como hão de ser as palavras ? Como as estrelas . As estrelas são muito distintas e muito claro . E nem por isso temais que pareça o estilo baixo : as estrelas são muito distintas e muit claras e altíssimas . " ( " Sermão da Sexagésima , V ) .
Salvo o respeito que merece a fé do jesuíta , Vieira no púlpito faz o efeito de um funâm - bulo de gênio . Persuadido de que o Antigo Testamento não só prefigura o Novo , senão a História humana , como um todo , e a portuguesa em particular , fácil lhe é discernir nos pequenos e grandes acontecimentos de seu tempo fatos de longuíssima data prenunciados nas páginas da Bíblia . Assim , a derrota dos holandeses na Bahia , em 1638 , já fora prefi- gurada na destruição de Dagon ,ídolo dos filisteus ,pela Arca da Aliança de Israel . Como ? Muito simples : Dagon , meio homem , meio peixe , era a imagem dos holandeses , povo marítimo por excelência ; e a Arca da Aliança , metáfora de Santo Antônio , defensor da Bahia . O desenvolvimento destas preposições constitui matéria do " Sermão de Santo Antõnio " pregado na cidade do Salvador naquele mesmo ano de 1638 . Outras vezes é a mesma originalidade das idéias que nos enche de assombro , quando não de pura e reli- giosa comoção . Ao discutir , por exemplo , a razão por que as repetidas exortações de Cristo , na Última Ceia , não foram suficientes para converter Judas , ao passo que a sim - ples voz um galo bastou para converter Pedro , salve Vieria com esse argumento especio - samente admirável : " A Pedro pôs -lhe os olhos Cristo ( ... ) a Judas não lhe pôs os olhos . Se Cristo , póe os olhos basta a voz irracional de um galo para converter peca dores ; se Cristo não pões os olhos , não basta a voz , nem bastam sete vozes do mesmo Cristo para converter . " ( " Sermão das lágrimas de São Pedro " , I ) .
Mas Vieira não foi apenas de um dos maiores pregadores que jamais subiram a púlpito cristão . Foi também conselheiro de reis e diplomata , missionário no Amazonas e cativo da Inquisição de Coimbra , campeão da liberdade dos judeus expulsos de Portugal e dos índios escravizados pelos colonos do Maranhão . " Não há maior comédia do que minha vida " escreveu ele numa carta de 1658 , " e quando quero chorar ou rir , ou admira- me ou dar graças a Deus ou zombar do mundo , não enho mais que olhar para mim " . Vieira tinha , então 50 anos e restavam - lhe trinta e nove para viver - uma longa vida documen- tada em mais de 700 cartas que se preservaram ( escreveu a primeira , conhecida por " Carta Ãnua " , aos 18 anos , e ditou a última dias antes de morrer ) . Essas cartas cobrem um período crucial da História de Portugal e do Brasil . Ainda que deixemos de lado o fato de serem um repositório inestimável da mais límpida prosa portuguesa , sua impor - tância históorica e psicológica é tal que sempre sempre serão leitura obigatória de portu- gueses e brasileiros que se interessam pelas coisas pátrias .
Enfim , Vieira foi um moralista inspirado , cujas lições nada perderam da atualidade que tinham ao serem proferidas de sua cátedra . Sirva este breve trecho de exemplo : " O ladrão que furta para comer não vai nem leva ao Inferno ; os que não só vão , mas levam , de que trato , são os ladrões de maior calibre e de mais esfera , os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento distingue muito bem São Basílio Magno . : ( ... ) Não são só ladrões , diz o santo , os que cortam bolsas ou espreitam os que vão se banhar para lhes colher a roupa ; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exército e legiões , ou o governo das pro - víncias , ou a administração das cidades ,os quais jã com manha , já com força , roubam e despojos os povos . Os outros ladrões roubam um homem , estes rubam cidades e reinos ; os outros furtam debaixo do seu risco , estes sem temo nem perigo ; os outros , se furtam , são enforcados ; estes furtam e enforcam " . ( " Sermão do bom ladrão " , V ) . Eis aí outra razão - desta vez de ordem cívica - para ler e reler Vieira do lado de cá do Equador .
Fonte - Jornal O GLOBO - pág 2 PROSA & VERSO Data - Sábado , 27 de janeiro de 2001 - SERGIO PACHÁ é filólogo
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