segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Santos Dumont o brasileiro voador

 




23  de  outubro  de  1906 , o  14  Bis  corre  em  terra  cerca  de  duzentos  metros  e eleva - se a  aproximadamente  cinquenta  metros , perante  enorme  assistência . "  É  a vitória  completa  do          mais  pesado  que   o  ar .  Dumont  demonstrou ,  de  forma  indiscutível ,   que   é   possível  se        elevar  do solo  por  seus  próprios  meios  e  se manter no  ar " ,  registrou  a  revista  La Nature.

Inventor , precursor  e  empreendedor ,  Alberto  Santos - Dumont  somou  qualidades .Se cada              um  desses  atributos  já  seria  um  privilégio  numa  só  pessoa . Dumont  reuniu  os  três  e   a                eles  acrescentou  a  persitência  e  a  coragem . Aprofundou - se  no  conecimento  e  transfor -                mou  em  relidade  o  desejo  humano  de  ganhar  o  espaço .  Duas  das  mais  decisivas  con  -        quistas  nessa luta  foram  dele : a  dirigibilidade dos  balões  e  o  primeiro  vôo  público numa    aeronave  mais  pesada  que  o  ar .

"  Foi  um  empreendedor , um  criativo , sempre  buscando  novas  idéias , e  aliou  essa  quali -            dade  ao  conhecimento  e  à  obstinação , acreditando  que  poderia  fazer , isto  é , materializar            o  que  seria um  sonho  " , diz  Rogério  Almeida  Meneghin , mestre  em  Engenharia  Elétrica            pela  Universidade  Federal  de  Minas  Gerais   e  assessor  de  propriedade  intelectual  da Fun-              dação  de  Amparo   à  Pesquisa  daquele  estado  e  que , ao  lado  de  Rodrigo  Dias  da  Silva ,  colaborou  com  esta matéria .



Neto  de  joalheiro  francês   François  Dumont   e  filho  de  Henrique  Dumont  e  Francisca de        Paula  Santos , ricos  fazendeiros  de  café  em  Ribeirão  Preto /  SP  , o  herói  brasileiro  nasceu        em  20  de  julho  de  1873 ,no  sítio  de  Cabangu , próximo  a  Santa  Luzia  do  Rio  das Velhas ,      hoje  a  cidade  de  Santos  -  Dumont , em  Minas  Gerais , e  muito  cedo  começou  a  se  inte -      ressar  pelas  máquinas .  Cresceu  influenciado   por  Júlio  Verne  e  incluiu  em  sua  cabeça  a              idéia  de  que  poderia  voar .  Ao  longo  do  tempo ,  a  obstinação  foi  sua  companheira  cons -      tante .

As  brincadeiras  na  fazenda  com   os  irmãos  foram  interrompidas  quando  seu  pai ,  após a      queda  de  um  cavalo  ficou  hemiplégico  e  vendeu  a  propriedade , viajando  a  seguir  com a      família  para  a  Europa  ,  o   que  despertou  em  Santos  -  Dumont  a  vontade  de  estudar  na        França . Na  volta ao  Brasil , Henrique  emancipou  o  filho  antes  de  completar  dezoito  anos              e  deu - lhe  parte  da  fortuna  para  vier  naquele  país ,  com  a  recomendação  de  que  estu  -          dasse  física , química ,  mecãnica  e  eletricidade .  "   Não  esqueça  que  o  futuro  do  mundo                está  na  mecânica  " . Sábio  conselho .

A  luta  pelo  objetivo ,  Santos  -  Dumont  foi  a  prova  mais  cabal   de  que  os  limites da  rea -          lização   dos  nossos  sonhos  estão  em  nós  mesmos .  Chegou  a  Paris  em  1891 ,  época  em            que  o  balonismo  era um  porte  de  elite  e  fascinava ,até  mesmo  pelos  riscos , os jovens fran-    ceses .Seus  praticantes  deixavam - se  levar  pelo  vento , sem  destino , saborenado  o prazer de  navegar  pelo    ar  e  contemplar   a  paisagem .  Um  prazer  um  tanto  difícil  de entender neste    início  de  século  21 ,  marcado   pela  velocidade  das  comunicações   e  dos  transportes .  Mas        basta  um  esforço  de  imaginação  para  voltar  no  tempo , até a época  em  que  ainda  causava  sensação  o  primeiro  veículo  motorizado  produzido  para  venda :  um  carro  à  gasolina  com            três  rodas  , fabricado  pelo  alemão  Karl  Benz , em  1885 .



Somente  no  ano  seguinte  , Henry  Ford ,  lançaria  o  primeiro  automóvel  produzido  nos  Es -        tados  Unidos . Até  ali ,  as  pessoas  se  deslocavam   à  velocidade  dos  navios  a  vapor  e  dos      meios de  transporte  movidos  a  força  humana  ou  animal .  Uma  época  em  que  o  anseio  de        voar  era  ainda  um sonho  impossível , simbolizado  pela  tragédia  de  Ícaro , o  personagem da  mitologia  grega , que , na tentativa de  chegar  ao  sol , colou  asas  às  costas . Ele lançou - se ao  espaço  e  chegou  subir  até  uma  certa  altura ,  mas  o  calor  derreteu  a  cera  que  prendia  as            suas asas  e  ele  perdeu  a  vida ,  ao  chocar -se  com  o  chão .

Menor , mais  lido  e  único . Na  capital  francesa , Dumont  construiu  o seu  primeiro  balão em    1897 , que  ele  classsificou  como  "  o  menor ,  o  mais  lindo  e  o  único  que  teve  um  nome  :       Brasil  " . Era  extremamente  pequeno , com  o  invólucro de  gás  contendo  apenas 113  metros    cúbicos  de  hidrogênio , quando  o  usual  era  um  volume  seis  a  sete  vezes  maior .

O  envelope  contendo  o  gás  era  de  seda  japonesa  e  alguns  não  acreditavam  que  o  balão es-férico  pudesse  voar  com  tal  quantidade  relativamente  reduzida  de  gás .O  Brasil  voou  e  pro-jetou  o  nome  de  Santos  Dumont  nos  meios  aeronáuticos  franceses .Um  ano  depois , ele  de- cidiu  experimentar  um motor  de  gasolina  em  um  aeróstato  e  esse  foi  um  grande  passo  para      a  solução  do  problema  da  dirigibilidade . "  Quando  junta  conhecimento  e  a  criatividade , tor-nando  possíveis  as  descobertas  " , ensina  Meneghin .



Novas  tentativas vieram , algumas  mal - sucedidas . Em  1899 , com o  seu  balão  número  3 , aci-dentou -se . Em  1900 , construiu  o  número  4 ,  que  quase  o  matou .  O  número  5  explodiu  de    encontro  a  um  prédio  em  Paris . Com  o  número  6  impulsionado  por  um  motor  de  dezesseis    cavalos - vapor ,   no  dia  19   de  outubro  de  1901 ,  ganhou  o  prêmio  Deustsch ,  instituído  no      ano  interior  por  Deutsch  de  la  Meurthe ,  no  valor  de  cem  mil  francos ,  para  ser  concedido          ao    "  primeiro  balão  dirigível   ou  aeronave  de  qualquer  natureza  que ,  de  1900  a  1904 ,  se  eleve  do  campo  de  aerostação  de  Saint - Cloud  e , sem  tocar  terra  e  pr  seus  próprios  meios, após  descrever  uma  circunferência  tal  que  nela  se  encontre  incluída  à   torre  Eiffel ,  retorne          ao  ponto de  partida  no  tempo  máximo  de trinta  minutos  "  .  O  dinheiro  do  prêmio ,  Santos -  Dumont   dividiu  com  técnicos  e  auxiliares  e  o  restante  entregou  a operários  desempregados . 

23  de  outubro  de  1996.  O  governo   brasileiro  não  ficou  atrás :  Campos  Sales , presidente da  República , enviou  o  seguinte  telegrama : "  Tenho  o   prazer  de  informar - vos  que , hoje , data  memorável  para  o  nosso  país ,  assinei  a   lei  votada  pelo  Congresso  Federal  vos concedendo , como prova  de reconhecimento  nacional ,cem contos  de  réis ,em  memória  do brilhante sucesso    que  alcançastes  no  vosso  ensaio  de  aeronáutica  de  19  de  outubro  " .

Os  franceses  assistiram  a  tudo ,  maravilhados  com  o  pequeno  e  franzino  brasileiro .  Em  23          de  outubro  de  1906 ,  com  o  seu  14  Bis ,   ganhou  o  prêmio  instituído   por   Archdeacon , vo-ando  depois  de correr  em  terra  cerca  de  duzentos  metros  Elevou - se  a aproximadamente  cin-quenta  metros ,  perante  enorme  assistência .  A  revista  francesa  La  Nature  escreveu :  "  É  a  vitória  completa  do  mais  pesado  que  o  ar . Santos  - Dumont  demonstrou , de  forma  indiscu-    tível , que  é   possível  se  elevar  do  solo  por  seus  próprios  meios  e  se  manter  no  ar  " .

Um  mês  depois  tornou  a  voar  com  o  14  Bis  no  Campo  de  Bagatelle ,  ganhando  o  prêmio          do  Aeroclube  de  França  e  batendo  todos  os  recordes  atingidos  até  aquela  data . Percorreu du-zentos  e  vinte  metros ,  a  cerca  de  seis  metros ,  de  altura  e  uma  velocidade   de  37  quilô  -metros  por  hora .  "  Criatividade  é  imaginar  e  saber  fazer é  tornar o  imaginável  em realidade .  Em termos  técnicos , após  realizado  o  primeiro  vôo. Santos - Dumont  com  as  descobertas , in-troduzindo  no  14  Bis  o que  chamamos  hoje  de  superfície  de comandos , dando  mobilidade a          sua  invenção  " , explica  Meneghin .

A  angústia  com  a  morte . Do  14  Bis  evolui  para  o  Demoiselle , um  monomotor  movido  por    um  motor  de  trinta  cavalos - vapor  de  cilindros  opostos , que  pesava  103  quilos  e  que  desen-volvia    noventa  quilômetros  / hora .  Com  esse  aparelho , conseguiu  novos  recordes  mundiais  :  levantou   vôo  em  seis  segundos ,  depois  de  correr  apenas  dez  metros  no  solo .  Eficiente ,  o  Demoisellle  ( libélula , em  português  )   foi  destaque  na primeira  Exposição  de  Aeronáutica no  Grand  Paris , e  é  considerado  a  base  para  todos  os  aviões  que  foram  construídos  posterior -mente .

Angustiado  ao  ver seu  invento  utilizado  com  equipamento  bélico  na  I  Guerra  Mundial  e  com    a  saúde  abalada  pela  esclerose  múltipla , Santos - Dumont  voluntariamente  desistiu  das  compe -tições . Até então , havia  inventado , construído  e  experimentado  um  balão  esférico , doze  balões  dirigíveis ,  sete  aviões  e  um  helicóptero  que  não  chegou  a  alçar  vôo .  Voltou  ao  Brasil  ,  em  1928  e,  quando  o  navio  em  que  viajava  se  aproximou  da  barra  do  Rio  de  Janeiro , um  avião  batizado  com  o  seu  nome  e  conduzindo  uma  comissão  que  lhe  daria  as  boas - vindas  tombou  no  mar ,  matando  todos  os  passageiros .  Supersticioso ,  convencido  de  que  a  fatalidade  o  per-seguia  e  sentindo - se  cada  vez  mais  um  dos  causadores  da  guerra ,  ainda  viajou  para  a  Eu  -ropa  e  retornou  ao  país  em  1931 . Extremamente  deprimido  e  logo  após  saber  da  utilização      de   aviões  na  Revolução  Constitucionalista  de  1932 ,   amarrou  duas  gravatas  no  chuveiro  do  banheiro  do  hotel em  que  estava  hospedado , em  Guarujá  / SP e  suicidou -se .

Genial vaidoso  e  muito  curioso . Santos  - Dumont  chegou  a contratar quatro  agências , duas em  Paris , uma  em  Nova  York  e  outra  em  Londres  para  que  fizessem  o  trabalho  de  recolhimento  de  todas  as  notícias  publicados  sobre  ele  em  qualquer  jornal ou  revista  do  mundo . Acumulou , no  total  cerca  de  quinze  mil  recortes .  Gostava de  ler  as  notíicias  e , na  condição  de  inventar , tinha  necessidade  de  saber  tudo  o  que  era  escrito  sobre  ele .



Excêntrico  e  espirituoso ,  sempre  bem  vestido ,  passou  também  a  ditar  moda  em  Paris . Seus  colarinhos  altos  e  brancos , sua  capa  forrada  de  seda  e  o  chapéu  Panamá  foram  copiados  por  muitos . Era  uma  figura  querida  na  alta  sociedade  francesa  e  frequentava  os  mais  luxuosos restaurantes  da  época . Em  muitos , chegava  de  balão , atraindo  todas  as  atenções 

Culto ,  era  fluente  em  francês ,  inglês  e  espanhol , dominava  a  mecânica , a  física  e  a  eletri -cidade ,  mas  não  concluiu  o  curso  superior .  Dedicava  seu  tempo  a  inventar  máquinas  e   a  criar  obras ,  Inventou  o  hangar  , o  hidroplano  no  Sena  e  o  relógio  do  pulso , industrializado  pelo  amigo  Cartier , que  o batizou  de  Santos .  Em  1931 ,  foi  eleito  para  a  Academia  Brasi -      leira  de  Letras ,  preenchendo   a  vaga  aberta  com  a  morte  de  Graça  Aranha .  Escreveu  dois        livros :  Dans  l '  Air ,  em  francês  e  O  que  eu  vi  e  o  que nós  veremos ,  editado  no  Brasil . 

Fonte  -  Revista   Agitação   -  págs  70  a  74  -   set / out   2006  -  Cultural 



 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

HISTÓRIA PERDIDA NA BIBLIOTECA - SANTOS DUMONT

     


Dia  23  dia do  Aviador  e  da  Força  Aérea  Brasileira  



Alberto  Santos  -  Dumont  ( que , aliás , assinava  Santos - Dumont  para demonstrar  que dava  a        mesma  importância  às suas  duas ascendências , brasileiro - lusitana  e  francesa )  escreve  O que      que  eu  vi , o  que  nós  veremos , em 1918 , um  livro  que estava  perdido  no  passado  deste país        sem  memória . Uma  rápida  pesquisa  na  internet  revela  que  a  situação  está  corrigida , graças          aos  esforços  do  professor  José  J . Lunazzi ,  do  Instituto  de  Física  da  Universidade  Estadual          de Campinas  ( UNICAMP ) , e  seus  colaboradores , que  digitalizaram  a obra  em  2000 , após  "        três  jornadas  de   trabalho  e  a  25  clicadas  por  página   .  Com  a  dose  certa  de  ironia  ,  um            tanto  indignada , Lunazzi  conta  a  saga  para  reproduzir  as  101  páginas  do  ivro  sem  riscos , "        pois  os  digitilizadores  usam  luz  sem  radiação  ultravioleta  "  (  Santos  Dumont  certamente te -      ria  adorado  acompanhar  o  processo  )  , antes  de  concluir , entusiasmado  :  "  Descobri  que  o        exemplar  está  autografado  pelo   próprio  Santos - Dumont !  E  que  é  muito  agradável  de  ser        lido  " .

Na apresentação de seu  trabalho , o professor  tece  algus  comentários ácidos . "  Santos - Dumont      inventou o  avião . Todo  mundo  concorda  sobre  isso  no  Brails , muitos  na  França  e  o resto do        mundo  provavelmente  atribui  o  feito  aos  irmãos  Wright  " . A  quem quer  saber  mais  sobre  o        assunto , ele desaconcelha  as enciclopédias , na  maioria  de  origem  norte - americana  ou inglesa        e   "  você  esperaria  que  as enciclopédias  dos  Estados  Unidos  ou  da  Inglaterrs  desse o espaço      a  Santos - Dumont  e  não  a  primazia  aos  Wright " ?



O  nosso  professor  achou  melhor  pesquisar  um documento  da  época  e  nada  melhor do  que  consultar  um  livro  escrito  pelo  próprio  inventor  do  avião . Procurou , sem  sucesso , em bibli-        otecas  e  livrarias . Finalmente , achou  a  raridade  no  Museu  Santos - Dumont  em  Petrópolis ,        mas ela  não pode ser consultada , pois  é  peça de  museu !  Finalmente , descobriu um exemplar          na  biblioteca  da  própria  UNICAMP , que  autorizou  a  digitalização .

Ao  abrir  O  que  eu  vi , o  que  veremos , a dedicatória  revela o  amor  pela  terra  onde o autor  nasceu :  "  Estas  notas  são  dedicadas  a  meus  patrícios  que  desejarem  ver  o  nosso  céu  po  -voado    pelos  pássaros  do  progresso " .  Seguem -se  páginas  que  compõem  uma  rápida  auto-biografia , sempre permeada pela  fascinação  pela  ciência  e  pela  velocidade , e registram o pro-fundo  humanismo  de  Santos - Dumont , que  via  nos avanços  da tecnologia  a alavanca  para a          paz  e o progresso  entre  as nações  e , ao  mesmo  tempo , não via  com  pesar  e  preocupação o      uso  bélico  das  grandes  invenções . No final , a esperença  vence  e  ele  escreve  as derradeiras        frases , numa  mensagem  para  o  futuro :  "  Eu , para  quem  já  passou  o  tempo  de  voar , qui-        zera , entretanto , que a  aviação  fosse  para  meus  jovens  patrícios  um verdadeiro  sport . Meu        mais  intenso  desejo  é   vêr  verdadeiras   escolas  de  aviação  no  Brasil .  Vêr  o  aeroplano   -        hoje  poderosa  arma  de  guerra , amanhã  meio  optimo  de  transporte  - percorrendo  as  nossas  imensas  regiõe , povoando  o    nosso  céu , para  onde , primeiro ,  levantou  os  olhos  o  Padre  Bartolomeu  Lourenço  de  Gusmão  " . 



Com  essa  simples  menção , Santos - Dumont , o  inventor  do  "  mais  pesado  do  que  o  ar  " ,      faz  justiça  a  outro  brasileiro  ilustre que , no  século  XVII  , inventou  "  o  mais  leve  do  que            o  ar  "  em  agosto  de  1709 , em  Lisboa , quando  fez  levantar  vôo  o  balão  batizado  de  Pas-    sarola ,  diante da  Corte  portuguesa .  Encantado  com  o  engenho ,  D. João  V ,  o  rei  de  Por-      tugal , que  concedeu  a  Frei  Bartolomeu  de  Gusmão , mais  um  genial  brasileiro  relegado ao  esquecimento ,  o  direito  sobre  toda  e  qualquer  nave   voadora  desde  então  e ,  para   todos          aqueles  que  ousassem  interferir  ou  copiar -lhes  as  idéias  , a  pena  seria  a  morte .

Fonte  -  Revista  Agitação  -  pág   73  -  Data  -  set / out  2006  -  CULTURAL


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Processo Eleitoral - 25 de Outubro de 2026

 


                          Viva  o  povo  brasileiro , que  votou pela  Democracia , para  vencer  o  ódio .







Parabéns , ao Presidente Lula , neste  dia 27 /10 / 2026

domingo, 25 de outubro de 2026

                                       


                                     


"  EU  PENSAVA  '  O  QUE  ESTOU  FAZENDO  AQUI  TRANCADO  NESTE  PAÍS  QUE  NÃO    É  MEU ? '  O  VERÃO  DE  2021  FOI  O  PRIMEIRO  DA  MINHA  VIDA  QUE  NÃO  PASSEI      EM  SALVADOR .  FOI  FODA  "

Pela  tela  do  computador , com a  câmera  fechada  em seu  rosto , Wagner  Moura  revela  pouco da  sua  casa  em  Los  Angeles , na  Califórnia . O  escritório , a  cozinha  e  a  sala  - ambientes  em  que  ele  circula  em  busca  de  um  melhor  sinal  de  internet ,  com  o  computador  em  mãos  - parecem  si,ples  como  ele . Camiseta  branca  para  a  sessão  de  fotos , fita  vermelha  do  Senhor  do Bonfim  bem  amarrada  no  pulso  esquerdo  e  sorriso  contido . O  ator  de  45  anos  está  indigndao com  a  política  nacional . "  A  codução  da  pandemia  pelo  governo  federal  foi  uma  tragédia , sobretudo  porque  a  maioria  das  600  mil  mortes  poderia  ser  evitada . O  presidente  precisa  responder por  isso .



Em  uma  hora  e  15  minutos  de  conversa  por  videochamada  o  ator  deixa  claro  que  a  tempo -rada nos  Estados  Unidos , onde vive  desde  2018 ,  é  passageira . "  Meus  próximos dois grandes  projetos são  no  Brasil  :  um  filme com  Kleber  Mendonça  e  outro  com  Karim  Aï Nouz  "  enu-mera . Ele ,  a  mulher , a  fotógrafa  Sandra  Delgado  - que  assina  os retratos  desta  entrevista - e ,    os  três  filhos . Bem ,  Salvador  e  José   de  15 , 11  e  9  anos ,  mudaram -se  para  Los  Angeles  quando  Marighella  (  1911  -  1969  ) foi  fazer  "  Sérgio  " , produzido  e estrelado  poe  ele , sobre      a  tempo vida  do  diplomata  brasileiro  Sérgio  Vieira  de  Mello  (  1948  -  2003  ) .  Acabaram  fi-cando  mais  tempo  por   lá  por  causa  da  pandemia .   "  Eu  pensava  :  '  O  que  estou  fazendo  aqui  trancado  neste  país  que  não  é  meu  ? '  O  verá  de  2021  foi  o  primeiro  da  minha  vida    que  não  passei  em  salvador  .  Foi  Foda  " , desabafa .



Na  última  quarta - feira , Wagner  retornou  ao  Brasil  para  lançar   "  Marighella  " ,  seu  primeiro  filme  como  diretor .  São  duas  horas  e  40  minutos  de  ação  e  tensão ,  com  cenas  rodadas  em    São  Paulo  e na Bahia , que  narram  os últimos  anos  de  vida  do  poeta  baiano  Carlos  Marighella    ( 1911 - 1969 ) , guerrilheiro  comunista  interpretado  por  Seu  Jorge .  "  Não é  um  filme  para  ser  ver  no  laptop  em  cima  da  barriga , é  cinemão .  Acontece  muita  coisa  , necessita  de  doses  de      foco " , avisa  o  diretor  . A  estréia  foi  em  salvador e  depois Rio , e  em  São  Paulo , Fortaleza  e  acampamentos  do  ovimento  dos  Trabalhadores  Rurais  Sem  terra .

Rodado  em  2017 , o  longa , que  tem  ainda  Adriana  esteves , Bruno  Gagliasso  e  Herson  Capri     no  elenco , teve  a  primeira  exibição  no  Festival  de  Berlim , em  fevereiro  de  2019 . No Brasil, deveria  ter  sido  ançado  nove  meses  depois . No  entanto , com a  demora  na  liberação  de verba  pela  Agência  Nacional  de  Cinema  ( Ancine )  e   a  crise  sanitária ,  atrasou  dois  anos . "  É  ina-creditável  que o filme  vá  estrear  agora . Em  Berlim ,  foi  aplaudido  de  pé  por   dez  minutos  ;    Seu  Jorge  jã  ganhou  prêmios  na  Itália  e  na  Índia .  Mas  é  um  filme  feito  para  o  Brasil .  A  primeira  estréia  foi  cancelada  pela  Censura .  Os  pedidos  que  O2  ( produtora )  fez  à  Ancine  eram  absolhtamente  normais , negados  assustosamente  numa  épocs  em  que  Bolsonaro  atacava      o  cinema  nacional  " , vocífera . No  dia  4  de  novembro , enfim ,  o  longa  chegará  aos cinemas          de  todo  país .

A  seguir , os  melhores  trechos  da  entrevista .

QUAL  A  IMPORTÂNCIA  DE  POPULARIZAR  A  HISTÓRIA  DE  CARLOS  MARIGUELLA ? 

Desde novinho  sou  fascinado  por  histórias  de  resistência  :  Inconfidência  Mineira , Revolta  dos  Alfaiates ,  Guerra  de  |Canudos  e  toda  essa  galera  que  resistiu  ao  poder  tirano . São  histórias  mal contadas  ou  até mesmo  apagadas , como a  de  Marighella  ( reconstituéda  no livro  de  Mário   Magalhães , de  2012 , base  para  o  longa  ) . O  filme  é  uma  representação  não  só daqueles  que   lutaram  pela  democracia  nos  anos  1960  e  1970 , mas  dos  que  lutam  hoje ,  o  povo  preto , os   indígenas , a população  LGBT  e  os  favelados  que  seguem  sendo chamados  de terroristas . Em  momentos  de  distopia , os movimentos  se  fortalecem . é  instinto  de  sobrevivência .Como agora , em  que  no poder  um  psicopata , sujeito sem condições  morais  de  ser  síndico de  condomínio, o  que  dirá  dirigir  um  paí .



COMO  ACHA  A  RECEPÇÃO  DO  PÚBLICO ? 

Se  tivesse  sido  lançado  em  2019 ,  seria  um  filme .  Em   2020  ,  outro .  Hoje ,  espero  que  "  Marighella  " enfrente  oposição  .  Pois  agora  está  claro  para  todo  mundo que  este  governo  é    uma  tragédia . Para todo  mundo , não ... Tem  aqueles  25 % que  foram  7  de  Setembro  ( apoiar        o  presidente ) , mas  a  maioria  já  entendeu  que  não  é  uma  questão  de  direita  ou  esquerda , é   uma  questão  de  civilização  contra  a  barbárie . Por  isso  acho  que  a  reação  será  menos  vio -lenta  com  o  elenco ...  Artista  não  é  ladrão . A  acusação  de  "  mamar  na  Lei  Rouanet  " . Da        Lei  do  Audiovisual  também  não ,  porque  nenhuma  empresa  quis  botar  o  dinheiro . É  uma  produção  feita  com  fundo  setorial  e  dinheiro  da  Globo  Filmes ( coprodutora ) . Não  recebi          um  tostão  por  esse  trabalho .  Pelo  contrário  . Só gastei .  E  isso  também  não  é  problema ,      porque  é  um  filme  que  eu  amo . 

Fonte   -   REVISTA  ELA    -  pág  14  -  CAPA  -  ENTREVISTA 


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Um país desarmado

 




>  Nunca  vi  o  Brasil  tão  dividido , fragilizado  e  vulnerável  à  ação  de interesses  estrangeiros

Posso  confessar ,  leitor ( a ) , que  tenho  tido  enorme   dificuldade  de  escrever ?  Hoje , estou a      ponto  de  desistir . Não  quero  parecer  cabotino , mas  a  razão  principal  é  a situação  do Brasil . Apesar  de  ter vivido  grande  parte  da  minha  vida  no  exterior , tenho  uma  ligação com o País        que  é  acredito , mais  forte do  que  a  da  maneira  dos  brasileiros .  Escrevi  " apesar "  e  já  fico        um  pouco  em  dúvida .  Todo  " apesar " esconde  um  " porquê " ,  dizia  Fernando  Pessoa . Seja      como  fôr ,  o  fato  é  que  viver  em  outros  países  nunca  me  afastou  do  osso .



De  todos  os  povos  que  conheci  mais  de  perto ,  o  brasileiro  é  o  menos  patrótico , o  menos        nacionalista  -  e  essa  falta  de  apego  ao  Pazís  nos  tem  atrapalhado  muito . Desde  que  me en-  tendo  por  gente ,  isso  sempre  foi  assim . O  brasileiro  só  se  lembrava  de  ser   brasileiro  du -          rante  a  Copa  do  Mundo  (  agora  talvez  nem  isso  ...  ) .  A  esse  dado  psicológico  estrutural  , acrescentaram  -  se  nos  anos  recentes  muitos  fenômenos  que  configuram  verdadeiro  adoeci -        mento  e  desagregação  da sociedade  brasileira  e  de  suas  instituições . Nunca  o  Brasil me cau -      sou tanta preocupação  - angústia -  seria  a  palavra  melhor .Nunca  vi  nosso  país tão  dividido  e  fragilizado  e  vulnerável  à  ação  de  interesses  estrangeiros .

Bem sei  que  esse  adoecimento  transcende  as  fronteiras  nacionais . Basta  ver  o  que  acontece        nos  Estados  Unidos , na  Europa , no  Oriente  Médio  e  em  outras  regiões . Mas  isso  não serve        de consolo . Ao contrário , o  brasileiro  precisa  dar conta  de  que  a  situação  internacional  é peri-gosa , talvez  como  nunca , e  que  isso  pode  nos  afetar  de  várias  maneiras  e colocar  em  risco        a  própria  segurança  nacional .



Não  vamos  nos  enganar  . O  Brasil  é  um  país  desarmado . E  um  país  indefeso  e  expões  a  riscos  graves , especialmentes  se  tem  vasto  território  e  imensas  riquezas  e  recursos  naturais . Ninguém  vai  nos  defender . as  mais  solenes  garantias  internacionais  não  são  mais confiáveis , muitas  delas  não  valem  o  papel  em  que  foram  escritas .

Fonte  Revista  Carta  Capital   -  nº  997  -  PAULO  NOGUEIRA  BATISTA  JR .                             Data  -  4  de  abril  de  2018   -  ANO   XXIII  - São  Paulo  


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Memória , humor e exílio olhar de Berta

 





Espetáculo  com  direção  de  Ary  Coslov  celebra  o  centenário  de  Berta  Loran , atriz referência        de  nossa  comédia  e  que  nos  deixou  em  2025  

O  teatro  que  Berta  escolheu  como  ofício  e  lugar  de  alegria  recebe  sua  história  em forma de  espetáculo . "  Berta  -  Minha  vida  por  um  palco  "  está  em  cartaz  no  Centro  Cultural   Justiça        Federal  ( CCJF ) , quando  se  aproxima  o  centenário  de  nascimento  da  atriz , nascida  em 1926      e  morta  no  ano  passado .               

A  montagem , escrita por  Miriam  Halfim  e  Marcelo  Aquino  e  dirigida  por  Ary  Coslov , acom-panha  uma  trajetória  que  começa  numa  infância  marcada  pela  perseguição  aos  judeus  na  Eu -    ropa  e   se transforma  numa  das  carreiras  memoráveis  da  comédia  brasileira .     

Andrea  Dantas , Alexandre  Regis , Junior  Vieira  e  Patrícia  Pinho  formam o elenco. Andrea  e Pa-  trícia  se  alternam  no  papel  de  Berta  em  diferentes  momentos de vida , abrindo  espaço em cena    para  saltos  temporais  e  mudanças  de  linguagem  e  experiência  da  personagem .  

Além  da  homenagem  em  si , o  espetáculo  nos  leva  a  refletir  sobre  a  fragilidade  da memória  artística  no  país , tema  que  os  autores  colocam  no  centro  da  dramaturgia . 

Berta  Loran  nasceu  em  Varsóvia , na  Polônia  , e  chegou  ao  rio  aos nove  anos com os  pais  e  cinco  irmãos . A  família  deixava  uma  Europa  em que  a perseguição  nazista ganhava  força e se  instalou  num  sobrado  da  Praça  Tiradentes ,  epicentro  do  teatro  de  revista  carioca . O  pai ,  al-faiate  e  ator , incentivou  a  filha  entrar  em  cena  ainda  adolescente .



A  atriz ,construiu  quase  oito  décadas  de  carreira  e  interpretou  mais de  dois  mil  personagens . Passou  pelo  teatro  de  revista ,  por  dezenas  de  montagens  e  pela  televisão , meio  que  tornou        seu  rosto  conhecido  em  escala  nacional . Uma  temporada  em  Portugal , onde  viveu  por  seis    anos entre  o  fim  dos  anos  de  1950  e   o  iício  dos  1960 , está  entre  os  episódios  revisitados .        A  experiência  com  "  Fogo  no  Pandeiro  " deixou  marcas  que  reapareciam  mais  tarde  na per -        sonagem  Manuela  D ' Além  Mar , da  "  Escolinha  do  Professor  Raimundo  " , com  seu sotaque  português  e  o  bordão  que  entrou  no  repertório  popular .

Miriam  Halfim , sobrinha  de  Berta , escreve  a  partir  de  uma  proximidade  familiar  que  não  substitui  a  pesquisa ,  mas  dá  à  peça  um  ponto  de  escuta  particular  . "  O  palco  deu  a  ela            tudo  o  que  ela  quis . Apesar  de  uma  infância  muito  difícil , miserável ,  em  Varsóvia , Berta  escolheu  viver  com  alegria . Ela  dizia  que  a  felicidade  é  uma  escolha  " ,  afirma  a  autora .

Para  Ary  Colov , a  montagem  também  é  uma  convocação  à  lembrança .  "  É  muito  impor-      tante  que  as  pessoas  conheçam  a  história  da vida  dela  e   se  lembrem  de  Berta  Loran . Ela            era  extremamente  talentosa  "  ,   destaca  o  encenador .  A   figura  de   Berta  permite  discutir            quem  continua  presente  nos  arquivos ,  nas  instituiçõs  e  nos  palcos  depois  que  a  televisão        deixa  de  reprisar  certos  programas  e  as  gerações  se  renovam .

"  Nós  somos  um  país  com  um problema  sério  de  preservação  da  memória . Tem  uma  ques-    tão  cultural  com  a  memória , a  gente  apaga  com  muita  rapidez  muitos  artistas  " ,   afirma  o        co-autor    Marcelo  Aquino . Para  ele , a  peça  presta  um  serviço  à  arte  e  à  memória  e  reco -nhece  uma  atriz  que  abriu  caminho  para  humoristas , especialmente  mulheres .

Fonte  -   Jornal  Correio  da  Manhã  -  pág  8  -   TEATRO                                                                      Data  -   Quinta  -  Feira ,  17   de  Setembro  de  2026  

                                          


Ah , se não fosse o Bezerra ...

 


Toda  Quarta - Feira  de  Cinzas  tem  seu  ritual .Os garis  ainda  estão  varrendo a  Sapucai  e ,nas  quadras , já começa  a  conversa  sobre o carnaval  seguinte .Qual história  aguenta  um  ano inteiro      de barracão  ?   Foi  numa  dessas  prosas ,  pouco  depois  que  o  último  desfile ,  que  este  colu -      nista  que  aqui  vos  escreve resolveu  dar  um  palpite .

Conversava  com  Dudu  Freitas , presidente  da União  do  Parque  Acari ,  um  guerreiro que toca        a  escola  com  teimosia  de  quem  sabe   que  nada  chega  de  graça  na  Série  Ouro . E  soltei  o          nome :   Bezerra  da  Silva . Em  2027 , ele  faria  cem  anos .

Que  escola  teria  mais legitimidade  para  cantá - lo  do que uma agremiação  nascida  e criada na    favela ?   A  União  tem  a  cara  Do  Complexo  de  Acari  :  gente  que  acorda  antes  do  sol , que        pega  trem  lotado , que  conhece  de  perto  cada  personagem  que  Bezerra  botou  no  disco .



Dudu  comprou  a  ideia .  No  começo  de  julho , a  escola  apresentou o  enredo  "  Se  não fosse        o  samba ,  o   que  seria  da  favela  ?  "  ,  desenvolvido  pelos carnavalescos  Guilherme  Diniz  e  Rodrigo  Marques . Bateu  um  orgulho besta , confesso . Daqueles , que  a  gente  se divide com o  leitor . Não reinvidico  patente , que  samba  não  tem  dono . Enredo  bom  é  o que escola abraça ,        e  esse  a  União   abraçou .

Agora  chegou  a  vez  do  samba . na  parceria , dois  bambas de  respeito :  Moacyr   Luz  e  Fred  Camacho .  Moacyr ,  o  homem  do  Samba  do  trabalhador  ,   que  assina  os sambas  do   Acari    desde  a  chegada  da  escola   à  Série  Ouro , em  2024 ,  ganhou  de  quebra  um  mimo .  Passou          a  ser  o  presidente  da  ala  dos  compositores .  Neste  domingo   ( 20  ) ,  na  quadra  da  Rua Pi-racambu  , o  samba  será  lançado  e  o  mestre  homenageado . Festa  endereço  certo .



Mas  vamos  ao  dono  da  festa .  José  Bezerra  da  Silva  nasceu  no  Recife ,   em  fevereiro  de      1927 .  Aos  nove ,  já  tocava  zabumba  e  cantava  coco . Aos  15 ,   embarcou  clandestino  num  navio  rumo  ao  Rio . Foi  parar  em  Cantagalo , trabalhou  de  ajudante  de  obra  e  pintor  de pa-          rece , conheceu  a  rua  e a  fome  antes  da  música pagar  as  contas . Pernambucano  de certidão , carioca  até  o  último  fio  do  cabelo .

O  que  ele  fez  depois  ainda  não  recebeu  o  crédito  que  merece .Durante  décadas , o  compo-      sitor  do  morro  não  tinha  vez  na  gravadora  nem  na  rádio  . Bezerra  abriu  a  porta .

Gravou  Adelzoninton ,  Crioulo  Doido  e  uma  legião  de  autores  que  faziam  samba  no  bo -    tequim , no  ponto  do  ônibus , na  laje , e  que jamais  veriam o  próprio  nome  num  disco . Ele          era  a  voz . A  caneta  era  da  comunidade ,  e  Bezerra  fazia  questão  de  dizer  isso  em  cada  entrevista . 

O  documentário  "  Onde  a  Coruja  Dorme  " foi  atrás  desses  autores  e  encontrou  gente  sim -      ples  do subúrbio e  das  favelas , que nunca  tinha  pisado  num  estúdio  mas  trazia  samba  guar - dado  no    bolso . Sem  Bezerra , boa  parte  dessa  obra  teria  morrido  na  mesa  do  bar .

E  a  voz vendeu .Foram  onze  discos  de  ouro  e  alguns  de platina  ao  longo  da  carreira , coisa    rara  para  quem  cantava  partido - alto com  sotaque  malanderado . Chamaram - no  de  cantor de  bandido . ele  rebatia  que  só  cantava  mesmo  o  malandro  mané , o  dedo - duro  , a  polícia   su-  bindo  o  morro , o  candidato  que só  aparece  em  ano  de  eleição . Tudo  com  humor , duplo sen-  tido e  uma  precisão  que muito  sociólogo  de  gabinete  nunca  alcançou . Bezerra  foi  o cronista      de um  Rio  que  o  asfalto  preferia  não  ver . Por  causa  dele , o  asfalto  teve  que  ouvir . 

Bezerra  morreu  em  janeiro  de  2005 . Em  2027 , a  União  do  Parque  Acari  encerra  os desfiles    da  Série  Ouro  levando  o centenário  dele para  a  Avenida . A pergunta  do enredo tem a resposta  fácil  para  quem  conhece  Acari  sem  o  samba , a favela  seria  só  aquilo  que o noticiário mostra. Com  Bezerra , virou  crônica .  A  real  face  de  uma  cidade  da  beleza ,  mas  também  do  caos . 

Fonte   -   Jornal  Correio  da  Manhã   -    pág  8   -  CULTURA                                                                  Data  -  Quinta - feira ,  17  de  setembro  de  2026  -   FRED  SOARES                                                  SÓ  CARIOQUICES 


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A arte das crianças de Terezin

 



Nas suas aulas de desenho ,as crianças eram  supervisionadas por Frieldl  Brandeis  ( Frederiecke ) ,    uma  vienese  que  estudara  na  Bauhaus  de  Weimar ,  com  pintores  como  Paul  Klee , e  que  já        era  reconhecida  como   arquiteta  de  interiores  antes  da  deportação .  A  marca  da  escola  Bau -        haus  é  evidente  nas  obras  das  crianças :  basta  observar  os  inúmeros  estudos  de  cores  e  luz ,      bem  como  os  trabalhos com colagens . Faziam-se , também , estudos  de  perspectiva  e  de várias  técnicas  de  representação  ; tudo  isso  com  eios  materiais  como  lápis , tintas , papel ,  extrema -        mente  precários . Brandeis  dava  total   liberdade  a  seus  pequenos  alunos . Ela  foi  assassinada          em  Auchwitz  em  1944 . Cerca  de 4.000  desenhos  de  crianças  de  Terezin  foram  preservados .

Várias  revistas  ( manuscritas  e  ilustradas  a  lápis  de  cor  ou  aquarela )  foram  produzidas  por  adolescentes  em  Terezin , como  Karamarád  (  22  números  ) , Rim - rim - rim  (  21  números  ),        Vedem  ( Avante , órgão  da  "  República  Skid  "  -  sucedânea  no  Campo  da  escola  de  edu -          cação  social   e  individual  Dostoievski  " , de  Leningrado  -  com  mais  de  50  números ) , entre          outras . Nelas  já  se  percebe  a  dupla  função  que  a  arte  cobria  no  Campo :  o  testemunho  da        vida  quotidiana  e  a  de  ser  uma  "  janela  "  para  a  fantasia .Narravam - se  viagens , aventuras        etc . Também  diários  escritos .



Praticamente  todas   as  atividades  quotidianas  do  campo   de  concentração  são  representadas            nas obras de  arte  dos  internos  de  Terezin  e  nos  seus  trbalhos  pode - se  perceber  o papel  da    arte  como  forma  de  resistência  espiritual   e  de  afirmação  da  individualidade  :  paisagens  e        lugares  são lembrados  ou  imaginários , em contraposição  a  um  dia-a-dia  marcado  pelo medo          e  pela  desesperança . Obras  abstratas  representam  o  mergulho  numa outra  esfera  para , como      afirmou  Charlotte  Buresova ,  pintora  nascida  em  1904 ,  uma  das  internas  de  Terezin ,  apre-        sentar  "  todas  as  coisas  incríveis  que  ela  vira ... para  opor - se  com  a  beleza  do  desastre  " . Outra  modalidade  desta  arte  de  resitência  espiritual  pode  ser  encontada  nas  representações        que   procuram  dar  ordem  ao   caos  do  campo  de  concentração .  O  mundo  torna-se  visível          nestas  representações  sem  compromisso  realista .

A  arte  das crianças  de  Terezin  funcionava , igualmente , como comemoração  de  vida  : Zoran        Music ,  o  conhecido  artista  nascido  em  1909 ,  um  prisioneiro  de  Dacchau ,  afirmou  que  a          arte  lhe  dava   "  força  para  sobreviver  " , o  que  fica  claro , especialmente , nos  auto-retratos .      São  tentativas , de  manter  a  identidade  ante  forças  destruidoras  extremamente  violentas . Há  muitos  retratos  que  serviram  tanto  para  serem  enviados  posteriormente  aos  familiares , afir-mando  a  sobrevida  do  prisioneiro ,como  para comunicar  amorte  dos que  foram  assassinados .        É  digno  de  nota  que  muitos  destes  retratos  portam uma dupla  assinatura : do  artista  e  do re-  tratado . Aqui  também  já  se  percebe  a  função  de  testemunho  desta  arte .  Halina  Olomucki ,        que  começou  a  pintar  no  gueto  de  Varsóvia , recorda  :  "  Quando  estava  em  Auschwitz  -      Birkenau  alguém  me  falou , ' se você  sobreviver  a este  inferno , faça as suas  pinturas  e  conte      ao  mundo  sobre  nós . Queremos  permanecer  entre  os  vivos ,  ao  menos  no  papel " .  Nesses            desenhos  deveos  ver ,  antes  mais  nada , a  concretização  possível  deste  desejo  de  sobrevi  -          vência ,que  só  pôde  ser  realmente  realizado  por uma  parcela  ínfima  dos  internos  do  campo .

A  maior  parte  das  obras  de  arte  criadas  no campo  tem  a  função de  testemunho .Daí a forte tendência  ao  realismo . Com  relaçã  a  este  aspecto  de  sua  arte  lemos  as  palavras  de  Karol  Konieczny :  "   Meus  desenhos  não  devem  ser  submetidos  a  um  escrutínio  e  a  uma  crítica        estética .  Eu  desejo  que  eles  sejam  considerados  como  um  documento  vivo  e  chocante  de        um  mundo  de  horro  e  tormento . Eu  desejo  que  os  jovens  saibam  como  foi , de  modo que          eles  compreendam  e  não  permitam  tais  fatos  e  se  repilam  no  futuro .  "  Halina  Olomucki    acrescenta  outro aspecto  importante  no testemunho  artístico  :  "  Minha  intenção  era  a deixar          um  documento  sobre  o  crime  de  destruição  era  a  de  deixar  um  documento   sobre    crime        da  destruição  de  nosso  povo . Esta  necessidade  de  documentar  tornou - se  uma  força  extra-ordinária  que  me  levou  à  sobrevivência .Meu  único  objetivo  na  vida  era  viver , de  modo a    poder  testemunhar  ante  o  mundo  a  mais  terrível  de  todas  as  atrocidades . " 

A  arte  funcionava  também  como  meio  de  extravasar  o  medo  e  a  dor , a  raiva  e  o  ódio ,    permitindo  assim  uma  espécie  de  purificação  destas  paixões . Esta faceta  testemunhal  e ca-  tártica  não  excluiu  o  humor  e  a  caricatura  das  obras  dos  campos  de  concentração .



Os  desenhos  das  crianças  de  Terezin ,   que  fazem  parte   do  acervo  permanente  do  Museu        Judaico  de  Praga , trazem  ao  público  brasileiro uma  importante  e  original  faceta  desta  pro-  dução  artística ,  que  nasceu  da  tentativa  de  extermínio  dos  judeus  e  a  ela  se  ôpos .  Estas          obras  foram  vistas  como  atos  de  memória  contra   o  esquecimento  da  barbárie .  Mas  com        suas  cores  e  temas  -  tristes  mas  também  alegres  -  apresentam  um  pouco  da complexidade  daquela  catástrofe  que  foi  Shoá .  O  que  ocorreu  com  as crianças  que  criaram  estas  obras              -  e  com as    demais  que  foram  assassinadas  -  representa  uma  das  faces  mais  violentas  da-      quele  momento  histórico  e  da  história  como um  todo . Nada  mais  justo  que preservá - las e  homenageá - las. Deixemos  que aquelas  crianças  nos falem  com suas  cores , com  seus traços ,        para  sempre . 

Fonte   -   Revista  18   Centro  de  Cultura  Judaica  -   Data  -  Setembro /  Outubro / Novembro            de  2014  -  Márcio  Seligmann  -  Silva  é  doutor  em  Teoria  Literária  e  Literatura  Comparada        pela  Universidade  Livre  de  Berlim  e  professor  de  teoria  Literária  e  Literatura  Comparada        no  Instituto  de  Estudos  da  Linguagem  da  UNICAMP 


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Humanidade , ética e solidariedade

 



Grupo  de  ex - internos  de  Terezin  narrra  histórias  de  suas  vidas  depois  do  Hoocausto , em    livro  que  mostra  como  pequenos  atos  de  dignidade  têm  o  poder  de  transformar  o  mundo .

Muito tem se  escrito  sobre  o  Holocausto . O livro  Nesarim  Child  Survivors   of   Terezin , recen-temente  lançado  nos  Estados  Unidos ,  porém ,  conta  uma  história  nova dentro  deste  tema  trá -    gico  e  de  vastidão  inesgotável . Baseado  na trajetória  de  dez  garotos que foram  prisioneiros do      campo  de concentração  de  Terezin , na  República  Tcheca , e que  sobreviveram  ao  genocídio , o    livro   não  se  liita  a  apresentar  uma  coletânea  de memórias  do  que  se  passou  com  alguns até      o  momento  de  liberação ,  mas  propõe  se   a  dividir  com o  leitor  a  realidade  vivida  por  estes  jovens  sobreviventes ,  não durante  o  Holocausto ,  mas  a  partir  da  libertação ,  e a descrever co - mo  a  vida  de  cada  um  foi  influenciada  e  marcada  pelas  vivências  de  guerra .



Thelma  Druenhaum ,  a  autora  do  livro ,  e  esposa  de  um  dos  sobreviventes  de  Terezin  e no  livro  relata  a  história  de  vida  destes  dez  personagens ,  que na  época  em  que estavam  presos  tinham  entre  12  e  14  anos .  Habitavam  em  mesmo  quarto ,   30  outros  meninos  em  Terezin ,      e  ali  viviam  sob  a  tutela  de  Franta , um  rapaz  de  20  anos  , que  atuava  como  seu  madrich          (  líder  ) .   Este  grupo  de  meninos  se  autodenominou  Nesarim  (  águias , em hebraico ) .

O  livro  de  Thelma  começou  a  ser  escrito  em  1990 , ou  seja  , 45  anos  depois  que  os garotos  foram  libertados  pelos  aliados . Neste  ano  e  no  ano  seguinte ,  Thelma  e  seu  marido  viajaram        quase  70,000  quilômetros  ao  redor  do  mundo  para  entrevistar  todos  os  Nesarin . Algumas de      suas  esposas ,  três  das  quais  foram , igualmente  prisioneiras  em  Terezin , também apresentaram      os  seus  relatos . As  entrevistas  foram  gravadas  e  subsequentemente  transcritas . A  última  entre-vista  , realizada  em  Outubro  de  1991 , foi  com  Franta .  A  esperiência  de  vida  destes  garotos ,      todos  eles  de  origem  tcheca , que  passaram  anos  confinados  no  quarto  7  do  prédio  I .417  do     campo  de  concentraçao  de  Terezin , criou  entre  eles  laços  que  sobrevivem  ao  tempo  e  à  dis -  tância . Os Nesarim  hoje  vivem  nos  Estados  Unidos , França , Suiça , Alemanha , Brasil , Canadá,    e  Austrália , porém  mantêm - se  e  contato , quase  coo  se  fossem  membros  de  uma  só  famíia .

As  trajetórias  de  cada  um  desde  o  fim  da  guerra  foram , em  todos  os  casos , marcadas  por      grandes  dificuldades . A  maioria  dos  jovens  perdera  suas  famílias , além  de  seus  bens , e  a  li-    bertação  pelas  tropas   aliadas  colocou  -  os  antes  uma  série   de  dilemas .  Como  recuperar  o        tempo   perdido  do  ponto  de  vista  educacional  ?   Onde  viver  ?   Com  quem  ?   Alguns  deles  decidiram  continuar  a viver  na  Tchecoslováquia  -  país  que acabaram  abandonando  com  a  as-censão  do  comunismo  em  1948 .   Outros  foram  resgatados   por  instituições  judaicas   e   pre-parados  para uma  possível  emigraçao  ilegal   para   o  que  era   ,  então ,  a  Palestina   britânica   Outros  ainda , reconstruíram  suas  vidas  em  terras  totalmente  estranhas . 




Especialmente  interessante   é  o  depoimento  do  próprio   Franta ,  que  relata  a  sua  luta  para    manter  a  humanidade  dos  meninos  em  meio  a  crueldade  generalizada , e  que  oferece  uma      visão  do  que  era  o  quotidiano  deste  cmapo  de  concentração  concebido  pelos  nazistas  para  funcionar  como  uma  espécie  de  vitrine  para  o  mundo . 

Em  comu  nas  histórias  da  vida  de  cada   um  desses  Nesarim  está  a   vivência  de  se   verem  sozinhos  diante  do  mundo , o  reconhecimento  da  importância  dos  laços  que  os  ligavam  mu-tuamente  e  a  determinação  em  vencer  as  dificuldades  e  desafios  de  todas  as  ordens que seu  destino  lhes  impusera .  Apesar   de  sua  prolongada  exposição  a  atos  da  mais  profunda  desu-manidade ,  o  livro  mostra   que  eles  foram  capazes   de  manter  sua  estrutura  psíquica ,   seu        senso  de  humor , sua  ambição , para  sobreviver  e  prosperar . Trata  de  histórias  de  triunfo  da  humanidade ,  da   ética  e  da  solidariedade   num  século  marcado  como   nenhum  outro   pela    barbárie  e  pelo  ódio. 

Fonte  -  Revista  18  -   Centro  da  Cultura  Judaica  -  pág  34   -  No  Centro   Dats  -  Outubro  / Novembro  2014  -   Walter  Strebinger  , engenheiro ,  é  filho  de  um  Nesarim