Jornalista norte - americano conta a história da bajulação , com muito humor
A maioria não assume que é . Muitos , não admitem que têm . Apesar disso , eles estão por toda a parte . Nas empresas , escolas ou por circulos de amigos. Os puxa - sacos já fazem parte da cultuta popular . Todos conhecem pelos menos um . São quase obrigatórios nos programas humo-rísticos , na literatura e em piadas .
O personagem Athaíde ,interpretado pelo ator Luiz Carlos Tourinho no programa Sai de Baixo, da Rede Globo , é o típico puxa - saco " profissional " .
A bajulação ,porém , não é exclusividade do brasileiro .Séculos antes de Cristo , na Grécia, esse procedimento era considerado uma ameaça à democracia .No Egito antigo , o puxasaquismo con- tinuava após a morte dos governantes . Nas tumbas eram registradas cenas de batalha das quais os monarcas jamais tinham participado .Durante a renascença ,nobres europeus eram frequentemente retratados mais belos do que eram pelos pintores .
O jornalista norte - americano Richard Stengel mostra no livro bem - humorado " Você é o máximo " - A História do Puxa Saquismo , lançado no mês passado pela Editora Câmpus .
Nos dias de hoje , também há pessoas que dão " a cara para bater " no lugar dos patrões . " Já me meti em briga feia , dentro da empresa , para defender minha chefe " , conta a super-visora de marketing Ticiana Gomes , de 24 anos . " Dizem que sou puxa - saco ,mas não me importo . Tenho admiração e carinho por minha chefinha ' .
A empresária Élida Blumenthal , de 32 anos , " a chefa " , considera Tânia seu braço direito . " ela é uma puxa - saco do bem " , brinca .
Assumir esse papel , entretanto , tem seu preço . Há poucas semanas , Ticiana foi escalada para participar de um rali no litoral norte , no lugar da Élida , que trabalha com esporte radicais . " Foi uma aventura terrível , o trajeto era muito difícl , cheguei a pensar em desistir , mas aguentei até o fim " , orgulha - se Ticiana .
Doces - Ainda que pareça interessante receber constantes elogios e atenções especiais , a si -tuação pode provocar alguns desconfortos . Foi o que aconteceu com o ex - gerente do banco Luiz Antônio Cardoso de 66 anos , quando ocupava um cargo de chefia em uma agência ban- cária , no interior do Estado.
Um funcionário da empresa insistia em levar , quase todos os dias, bolos e doces caseiros para Cardoso . Ele chegou , até , a comprar algumas peças de roupa parecidas com as de Cardoso.
" Terminou virando piada ", recorda - se .Os colegas de trabalho chamavam de " Fernandinho ", uma referência ao personagem de um comercial de camisas , em que os funcionários elogiavam as roupas e procurando imitá - lo .
" A situação era constrangedoura " , diz o ex- gerente . Em sua opinião , o procedimento po - deria surtir efeito contrário ao que era , provavelmente , esperado pelo rapaz . " Se tivesse de promovê - lo, as pessoas achariam que eu havia caído na sedução dele " .
Para o empresário Ricardo Bernd , os puxa - sacos têm época certa para aparecer em geral , entre os meses de setembro e outubro . Ele e os sócios organizam há cinco anos o City Bank Credicard Champion ,um torneio de tênis fechado , num resort em Itaparica , na Bahia, apenas para convidados , sempre em novembro .
" Semanas antes , recebemos telefonemas , muitos elogios e alguns presentes , em geral be - bidas importadas " , conta Bernd . Ninguém diretamente para ser convidado . Mas sobra baju -lação . No ano passado , ele recebeu um deses telefonemas elogiosos , de um conhecido em-presário paulista , a um mês do torneio , agradecendo o convite do ano anterior . " O jeito é encarar esse assédio com bom humor " , afirma o empresário .
Estudo com macacos mostra que atitude pode ter causas biológicas
Comportamentos submissos fazem aumentar a sensação no " bajulado "
O puxa -saquismo pode ter causas biológicas . O escritor Richard Stengel cita no livro " Você " é o Máximo " - A História do Puxa - Saquismo uma pesquisa para sustentar a hipótese . Um estudo realizado recentemente com macacos mostrou que o nível de serotonina no cérebro des- ses animais aumenta quando vêem comportamnetos submissos em relaçã a eles , por parte de outros de sua espécie . O estudo foi realizado pelo professor Michael McGuirre , da Universidade da Califórnia ,em Los Angeles ( UCLA ) .
A seratonina é um neurotransmissor responsável pela sensação de satisfação . Quando a subs-tância aumenta , o mesmo ocorre com a impressão de bem - estar . se o processo funcionar da mesma maneira com seres humanos , o poder - ou a proxinidade dele - é capaz de agir como um processo afrodisíaco . Aceitar e incentivar o puxa-saquismo seria , nesse caso , apenas uma maneira de atingir a sensação de bem - estar .
Propósito - Para Stengel , a tentativa de ascender socialmete mantendo -se por perto de pessoas que detém o poder é inerente à raça humana . O puxa -saquismo , entretanto, é exclusividade das pessoas .
Entre os chimpanzés , por exemplo , pesquisadores observaram atitudes da reverência ao chefe do grupo . O líder aceita ser coçado como uma homenagem que lhe é devida . Antes , porém , os macacos trocam saudações , com guoinchos e mesuras . Muitas vezes , quem faz a reverência oferece objetos como folhas ou gravetos ao líder .
Entre esses animais ,a bajulação tem fortes motivações genéticas .Como é o lider quem autoriza o acasalmento dee outros machos com as fêmeas , estar nas boas graças dele significa maiores possiblidades de reproduzir - se e deixar descendentes .
Tanto entre os primatas quanto entre os sere humanos , a bajulação é uma forma disfarçada de competição , que evita o confronto direto . E , p ortanto , preserva o indivíduo . Bajular , porém , não significa , necessariamente , mentir . Segundo Stengel , a bajulação é um elogio dotado de propósito . Em alguns casos , é excessivo . Em outros , pode ser legítimo .
De qualquer forma , tem objetivos práticos - conseguir maior simpatia de alguém , um convite para uma festa ou a garantia de uma promoção , por exemplo . É um tipo de manipulação da realidade que tira proveito da valorização do outro para benefício próprio . ( GI )
Fonte - O ESTADO DE SÃO PAULO - pág C 8 - COMPORTAMENTO Data - Domingo , 4 de Março de 2001 - CIDADES - GLAÚCIA LEAL




















