quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O RESPEITO À CURIOSIDADE INFANTIL




A  curiosidade  infantil  desperta  o  educador  para  a  necessidade  de  uma  aula  criativa  e esti-muladora  , na  qual  a  aquisição  de  conhecimento  é  processo  de  cooperação  e  crescimento      coletivo 

A criança  é naturalmente  curiosa , desejosa de saber , conhecer , experimentar . 

Sábia , ela ten  noção , ainda pequena , de que há muito  o  que  conhecer  no  mundo .

Para  perceber  isso , basta  deixá - la  falar, perguntar , questionar , sem  medo de  ouvir perguntas          escabosas ou  difíceis  de  responder " .

A  escola , espaço  de  promoção  do  saber , tem  a função de  proporcionar  momentos  de dúvidas        e descobertas . O educador , enquanto  mediador de  aprendizagem , tem como uma de suas funções,    instigar  a  dúvida , provocar o educando  para a indignação do que  anseia  aprender e mostrar - lhe  que  há várias  fontes  de  saber .

Quando o educador permite que a  curiosidade  de seus alunos invada  a sala de  aula e faça parte de  seu  trabalho , ele está  apostando em  uma  forma  agradável de  aprender  e  ensinar . 

Aprender deixa de ser uma  obrigação , um acontecimento distante da realidade do educando e passa    a  ser  uma  sucessão  de  descobertas .

Para  manter  esse  tipo  de prática , o educador precisa desprender - se das  grades curriculares . Não  ignorá - las , mas  considerar -se  livre e  capaz o  suficiente  para  ultrapassá - las . E ultrapassá - las juntamente com  seus  alunos , permitindo - lhes  participar  de maneira  ativa e presente em todos os     passos  de  sua  aprendizagem . 

Ao abrir  os ouvidos para  as curiosidades  de  seus  alunos , o educador terá que abrir sua mente para  aceitar  os  limites  e  verificar  que  não é o  dono  da  verdade , o  ditador  de  regras  e  o "  discurso  ambulante " , mas sim um  indivíduo pronto a  aprender com  seus  alunos , desde o momento em que lhes permite a interrogação até o momento em que procura  respondê -la  junto com eles . 

Desse modo , ocorre uma articulação com o real ,o saber não se resolve , em acúmulo de informações  mais ou menos eruditas , mas assume  um  caráter  consistente  e  marcante ,  que vai ao encontro das  necessidades interiores  das  crianças 

Foi justamente com o objetivo de ultrapassar os conteúdos pré - estabelecidos para a primeira série do primeiro grau que criei em  miinha sala de  aula um  espaço para o surgimento  de  assuntos  diversos  que  interessarem  aos  alunos . Essa experiência  ocorreu  na  Fundação Bradesco  ( Osasco )  no ano  de  1993 , co meus 40 alunos da primeira  série  G .

A leitura do livro  A curiosidade  premiada   foi  o  ponto de  partida . O livro pertencia à nossa  bibli-oteca de classe e tratava - se de um livro  bem  elaborado , interessante e , principalmente ,suscitador . 

Glorinha  é  a personagem  principal ,uma criança que é a curiosidade  em  pessoa : bombardeia seus  pais , com perguntas  de  todo o  tipo . Esses  se  vêem  desesperados , procuram a  ajuda  de  uma vi -  zinha  muito  sábia  e começãm  a  perguntar  junto  com  a  filha . Respondem  muitas  perguntas  e  descobrem  muitas coisas  também , inclusive que não sabem tudo ... Ao  final da  história , Glorinha  deixa  de  ser  a filha  chata  e  contagia  a  todos com  sua  dúvidas .  A  família  a  ouve  e  crescem  juntos . 

Fonte  - Revista  Comunicação  e  Educação  -  págs  112  e  113  -  Experiência   Data  - setembro / dezembro  - 1995 - Ano II   -  Número  4  -  USP   - Editora Moderna - Cristiane Fernandes  Tavares  Educadora ,  graduada  em  Comunicação  Social e  pós - graduada  em  Psicopedagogia 








 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Brasileiro esbanja criatividade

 




Incentive  seus  funcionários  a  usar  a  imaginação  e a  criar  durante  o  expediente  ; o resultado      será  surpreendente 

Assim , como  as  pessoas , também  as  famílias ,  as  empresas , os  povos , enfim , todos nós car-        regamos  algumas  " culturas " muito claras e  específicas , dentro de  nós . Assim sendo , todos os    países  têm  características muito  específicas  e que os distinguem  uns dos  outros .

Isto se deve à  transmissão  verbal e  comportamental  que  despercebidamente é  praticada a todo        instante ; assim sendo , a  criança japonesa , por  exemplo , já vai , ao longo  da  sua  infância , in -      corporando  sem  saber  aspectos importantes  da  forma de  ser  de  sua  gente e , dessa forma vai  aprendendo , entre outras  coisas , a  trabalhar  bem em grupo . O  americano idem , e ,desde cedo,          já vai  aprendendo  o que é  " se  americano " , isto é , a  se  comportar  de  forma  coerente com a          sua  gente  e , assim , incorporando  respeito  à  disciplina  no  que diz  respeito  a  horários , entre    outras  coisas , é claro .

Conosco ,brasileiros , a  " coisa " se dá  exatamente  da  mesma  forma ;  então  , quando  a criança  brasileira  vê  pai  e  mãe , por exemplo , não respeitando  uma lei de  trânsito ,vai fazer , depois , a  mesma  coisa , ou  até  pior quando chegar  a  sua  vez . Estamos , todos ,através  dos  nossos  com -    portamentos ,ensinando  ( ou  desensinando ) e  passando os  nossos  valores como  cidadãos , pais,    chefes , estc .

O  que  estamos  querendo passar  para  você é o seguinte  : "  Desde muito  cedo , nós , brasileiros ,    aprendemos  a  criar  soluções  o  tempo  todo  "  . Isto  é  uma  das  nossas  mais  fortes  e  positivas  características  como  povo . Para  nós ,  criar  novas  soluções  é  absolutamente  natural  e  isto  já      faz  parte da  nossa  forma  de  ser  .  O  brasileiro  é  extrordinariamente  criativo .  Acredito  que  ninguém  coloca isto em  questão , ou  tem alguma  dúvida  a  respeito .

Uma  outra  importantíssima  característica  nossa  é  a  alegria .



Desde muito  cedo , ou  seja , desde  que  nascemos ,estamos vendo  que  a  musicalidade , a galhofa ,  a  piada , o riso ,fazem  parte  de  nós  mesmos . Somos até  capazes , em consequência  desta  nossa  característica , de transformar velório em festa . Uma das  coisas  mais comuns nos nossos velórios é     a " reunião da  turma  da  piada " , e , muitas vezes é ali , no velório ,que  colocamos  o  nosso reper -  tório , que  colocamos  o  nosso  repertório  em dia . 

Vamos ,então juntar estes dois aspectos :  " Criatividade  e  alegria " , e que  temos ? Temos  algo im -  portantíssimo  para  os  nossos  ambientes de  trbalho , pois ,todas as  vezes em que podemos  colocar em ação a  ambas ,os nossos  resultados são  absolutamente  extraordinários ; e conseguimos praticar  verdadeiras  proezas .

Voltemos  ao  japonês . Todas  as  vezes  que ele  puder  trabalhar  em  grupo , será  muito  mais  com-  petente , do  que  trabalhando  sozinho . O  americano  será  muito  mais  capaz  sempre  que a  disci -  plina  pelas  normas  e  regulamentos  se  fizer  presente ; e ,portanto , será  muito  menos  eficaz  sem-  pre  que  isto  não  estiver  presente .  Conosco  ocorre  exatamente  o   mesmo  ;   veja  os  seguintes  exemplos . Fazemos , brilhantemente , o  carnaval ; o  que  há  na  escola  de  samba ? Criatividade  e    alegria . Fomos  campeões  olímpicos  de  vôlei  ;  o  que  víamos  naqueles   " meninos "   quando  estavam na quadra  ?  Criativdade  e  alegria . 

Enfim ,  sempre  que  estes  dois  aspectos  estiverem  presentes  somos  muito  mais  competentes  e  produtivos . Temos feito  algumas  experiências  a  respeito  em  nossos  cursos  , e  os resultados que  obtemos  são  absolutamente  notáveis . Todos  ficam  surpreendidos  com  os  resultados . Para  nós  ,  é  indispensável  haver  a  possibilidade  de  criar  e  de  " brincar  com  os  problemas " .

Faça algumas  experiências  em  sua  empresa . Coloque  um  grupo  de  pessoas  em  torno  de  uma  mesas  e ,  com  a  " espírito  de  piquenique " , dê  a  eles  um  problema . Não se  esqueça  de  que é    absolutamente  necessário  haver  a  possibilidade  de  " brincar "  com  o  problema . Se  quiser  faça  um  " aquecimento "  , dando - lhes  em  exercício  de  criatividade , como ,  por  exemplo :  "  Dêem      outras utilidades  para  uma  cadeira "  ;  enfim " implante  "  a  descontração . Você  ficará  surpreso  com  os  resultados  ,  sempre  que  praticamos  praticar  as  nossas  ações  com  alegria  e  liberdade      (  criatividade  ) ,  somos  bem  melhores  . Faça  a  experiência  ;  você  verá , como  nós   estamos    vendo  em  nossos  trabalhos  , que  notável  .  Não  esqueça  ;   Criatividade   é  alegria .  Para  nós ,  brasileiros  é  uma  receita  formidável .

Fonte  -  Jornal  O  ESTADO  DE  SÃO  PAULO  -  pág  4  -  ARTIGO  EDUARDO  BOTELHO            Data  -  24  de  agosto  de  1993   -   é consultor  de  empresas  e  autor  de  livros   do  Gerente  ao          Líder  e  Administração  Inteligente 


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Sambródomo

 



Os  apelos vinham  desde  o  início  da  década  de  70 . Os sambistas sonhavam  com  um lugar  definitivo  para  os  desfiles  e  a cidade  já não suportava  os transtornos  causados pelo monta-e- desmonta das  arquibancadas  de  madeira . Recém-eleito  o  Leonel  Brizola resolveu  encarar  o    desafio  e , em  três  meses , construi  a  Avenida  dos  Desfiles  -  depois  chamada  de  Passarela            do Samba e  a  partir  de  18  de  fevereiro de 1997 . Passarela  Professor  Darcy  Ribeiro . Apesar            dos nomes nomes  oficiais  , lavrados  em  documentos  públicos  , o  que  pegou mesmo , foi  o               apelido  dado  por  Darcy   Ribeiro ,  seu  principal  mentor  . Sambódromo . A  ideia  inicial era      construí - lo  na  Av . Presidente  Vargas , palco  de  carnavais  inesquecíveis ,  porém  o  próprio        Darcy ,  na  época  vice - governador ,  indicou  que  o  Sambódromo  fosse  construído  na  Rua      Marquês  de  Sapucaí ,  junto  à  Praça  Onze  -  o  nascedouro  do  samba  carioca .  Fora   do        Carnaval ,  a  construção  se  transforma  num  gigantesco  complexo  educacional  , abrigando            alunos  da  rede  municipal  de  ensino .

Erguido  em  blocos  de  concreto  pré - fabricados , desenhados  pelo talento  do arquiteto  Oscar    Niemeyer , o  Sambódromo  foi  inaugurado  no  dia  2  de  março  de  1984 . 

Um  desfile  de  números  



Contados do início da  área de armação , na Av . Preidente  Vargas ,até o arco  Oscar  Niemeyer , na    Praça de  Apoteose ,o  Sambódromo  possui  700  metros de  extensão . A pista  de desfile  mede  590  metros  de  comprimento  por  13  m  de  largura , contados  da  Rua  Benedito Hipólito  onde fica  o    primeiro  recuo  da  bateria   (  o  espaço  Jamelão )  ,  até  a  Apoteose  -  onde  começa  a   área  de  dispersão  de  componentes  ( `a  esquerda  ) e  de  alegorias  ( à  direita ) , já  na  segunda  metade da  pista  , entre  os  setores  9 e  11 , fica  o  segundo recuo  de  bateria  - batizada  de Espaço  Candonga,    em  homenagem  ao  sambista  que  ali  montava  a  sua  base  para  dar  água  - e  o  vigorante  cravo      escarlate  - aos  ritmistas  de  todas  as  Escolas .

Com  85  mil  metros  quadrados  de  área  construída  e  capacidade  para  abrigar  60  mil  pessoas ,    o  Sambódromo  tem  uma  geografia  adaptada  ao  traçado  das  ruas  locais  pois , durante  o  ano ,      o  trânsito  flui  po  algumas  de  suas  transversais .

Fonte  -  Revista  do Carnaval 

KELLY , O QUE MAIS FATURA NO CARNAVAL

 




QUEM  OUVE  QUEM

O assunto  está atrasado , eu sei . Mas está  no tempo  do pagamento . É o carnaval  83 , as músicas e    os autores nele executados  que só agora ,em junho ,recebem o pagamento daquelas execuções .Com    certeza , o ECAD precisa desse  tempo recolher  direitinho toda a  pesquisa sobre  o  carnaval  e saber corretamente  que nos tais dias da folia foram  executadas 120.391  músicas em  cluber carnavalescos    de todo o país .

Destas ,as mais tocadas foram as de João  Roberto  Kelly ,músicas mais do que conhecidas e cantadas  em  muitos outros  carnavais  : Cabelereira  do Zezé , Maria  Sapatão , Mulata  Ieieiê , Joga a  Chave , sucessos sempre  repetidos  que , desta vez , garantiram  a seu  compositor o campeonato  do carnaval  83  e  uma quantia de  CR$  9.776.847,00 . Como você  vê , ser compositor dá dinheiro , dá  pra  viver  com dignidade . Porque  se você ganhar  assim  10  milhões de cruzeiros , mesmo que seja uma vez só    ao ano , você  fica  com amis ou menos  800 mil  por mês . Nada  mal , não  é ? 



Pois é .Depois ,o segundo mais  executado no carnaval que  passou foi  o Braguinha  -  João de  Barro   -  e  seus grandes  sucessos : Balancê , Tem Francesinha  no Salão , Vai , com  jeito  vai e outras mais. E  Braguinha  recebe  agora só pelas  execuções  carnavalescas  CR$ 8.591.975,00 .

O terceiro  de  maior  execução  no carnaval foi  Moraes  Moreira .Veja só  Festa  do  Interior , Bloco  do  prazer e mais algumas  garantiram  ao  compositor  uma  nova  firme , de  Cr$ 7.091.384,00 . 

Haroldo  Lobo  e  Alá - lá - ô   ficaram  como  o  quarto  mais  executado  e por  isso uma  renda boa :  CR$ 5. 775 . 437 , 00  ,  Zuzuca  e  Pega  no  Ganzé  estão  no  quinto ,  com  5.140.347,00  .  Cidade    Maravilhosa   -  Talvez a  mais  tocada  de  todos  os  carnavais - conseguiu  para  seu autor ,  André    Filho , a  quantia de CR$ 4.190.876,00  e  a  sexta  posição entre os mais  executados  no carnaval de    83 . 

Caetano  Veloso  não  ficou  de  fora . Foi  o  sétimo  mais  executado  e recebeu  assim  CR$  4.190 . 876,00  e  a  sexta  posição entre os mais  executados  e  recebeu assim  CR$ 4.180.257,00  .  Outro  inesquecível  e  sempre  presente  na  folia  brasileira  é o  esterno  Lamatine  Babo . A  mais tocada    delae . O  Teu  Cabelo  Não  Nega , acabou  rendendo  CR$ 3.712.679,00 .

Emilinha  Borba  , Zilda  do  Zé , Marilene , Jorge Goulart  , João Dias  e  Gilberto  Alves foram  os  intérpretes maius presentes  no carnaval  83  em  odo  o Brasil . E recebem também  agora , atrasado, mas  recebem , suas  execuções  naquela  folia .

Fonte  -  Revista  AMIGA   -  pág  54  -  Lúcia  Leme 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Música e identidade nacional

 



PUBLICADO  EM  1928 , o  Ensaio  sobre a  Música  Brasileira  é o primeiro trabalho  de  Mário  de  Andrade  que lida com questões  associadas  à  identidade  nacional .Orientando  por  uma  erspectiva interpretativa , Mário  elege  a  música  como  o  caminho  mais  adequado  para se  alcançar  o  cerne    da  cultura  brasileira  . Como  não sou  musicólogo , não  tenho  a  pretensão  de discutir  os aspectos  mais  técnicos do texto  mas acredito  que nele existam  argumentos que apontam  para a imagem que apontam  para  a  imagem  que  Mário  constrói  do  Brasil .

Interessado em definir o que seria uma  música brasileira .Mário inicia ,curiosamente ,tentando definir  o que não poderia ser considerado  como  brasileiro , o  tipo de  música  que , segundo  seus  critérios ,    não  teria  condições de participar  da  nacionalidade . Ele afirma que  uma  música  que  fosse  especi-ficamente  indígena ,negra ou portuguesa  não poderia  ser  encarada como uma legítima representante  da cultura nacional ,pois o que lhe importa é defender a  necessidade  de uma fusão  de raças e culturas, de diferentes experiências e  tradições sonoras ,na constituição de uma música que , afinal , tivesse um  perfil  especificamente  brasileiro.

Contudo , Mário também  salienta que a música  brasileira  não pode ser  reduzida  à sua  experiência , não  deve  se esgotar no interior  da  sua  própria  tradição . Assim ,  se  por  um  lado  ele renega tudo aquilo  que é  específico  e regional , sustentando  uma concepção  extremamente  forte  de  identidade  nacional , por  outro  insiste  em  que  a  mera  fusão de  elementos  díspares em  torno  algo brasileiro  também  não lhe parece ser  suficiente . Mário  acentua ,assim , a  necessidade de que a  nossa música viesse a ser  aperfeiçoada pelo contato com diferentes  manifestações  eruditas ,desde que este contato  não  fosse  forte  o bastante  para descarectizar  a  sua  singularidade . 

Cabe lembrar  ainda que aquela fusão  de  raças e de  tradições  culturais irá exigir um processo longo  e  demorado , o  que  faz  com que  Mário  escreva :  "  Até  há pouco  a  música  artística brasileira  é    anterior à nossa  raça .A própria  música  popular  da  Monarquia não apresenta uma fusão satisfatória.  Os  elementos  que vinham  formando  se  lembravam  das  bandas  de  além , muito  puros ainda . Eram  portugueses  e  africanos . Inda  não  eram  brasileiros  não  " . 



Desse  modo , embora identifique , no início do  século  XIX , a  presença de diversas  manifestações  musicais  européias  e  africanas .  Mário  considera  impossível  apontar ,  nesse  período ,  qualquer  identidade  nacional . Mas  em  19928  ele já começa  a  se  referir  a algo que avalia  como  resultado  efetivo daquela  fusão  de  elementos  distintos  numa  experiência  compartilhada , fusão que ele teria  testemunhado  em  suas  viagens  etnográficas  pelo  Norte  e   pelo  Nordeste  do  país . Na  verdade ,  Mário transmite  a  impressão de que  essa  experiência  se  cristaliza , vem a público e se torna enfim disponível  para  odos  por  intermédio  do  seu  próprio texto , o que faz  com que ele passe  a desem- penhar  um  papel  de  enorme  importância  neste  processo  de  confeccção  da  nossa  tradição  cultural . H 

Fonte  -  Revista  de  História  da  Biblioteca  Nacional   / no  bolso  -  págs  88 , 89 e 90                          Data  ,  Julho  de  2005   /  P . 98   -   RHBN  -   Festas  e  batuques  do  Brasil   -    RICARDO        BENZAQUEN  DE  ARAÚJO 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

CARNAVAL : A FESTA QUE FAZ BEM !



Carnaval



Alardeiam  sambistas e  poetas que carnaval e felicidades caminham  de  mãos  dadas .Essencial -    mente ,porque nos  quatro  dias da  festa a ordem é  brincar  e milhões de adultos se  permitem a            agir feito um bando  de  crianças soltas num campo  depois  de meses aprisionadas num  colégio        interno . "  O carnaval  é uma  celebaração  do corpo , do amor , sensualidade da  sexualidade ,de        tudo que constitui o centro do que chamamos  de  riso e  alegria " ,  defende  o pesquisador  antro -  pólogo e  escritor  Roberto  da  Matta , que  em 1979 publicou '  Carnavais , Malandros  e Heróis '          ( editora  Rocco ) . Mas , isso  não basta  para  definir  esse  furacão  de  alegrias  que  encanta o          mundo e é parte  essencial .



O  carnaval  é  pleno  de  pequenas e  grandes  felicidades , mesmo quando  há  desilusões , como            quando  a  escola de Samba do coração não fica em primeiro lugar ,ou um amor termina na quarta-      feira de  cinzas , porque  há o  sentido  de  pertencimento  aum coletivo , como  se  todos que estão          os mesmos  anseios , e assim , se harmonizassem por um  breve espaço de tempo , numa  pausa na realidade para apreciar e dar espetáculo ,livres do cotidiano a si mesmos de verdade . " No carnaval    você pode se igualar por meio de certos costumes,tais como usar máscara e tornar - se um  anônimo,  vestir uma fantasia e vier um papel que na vida real não tem condição ", afirma Da  Matta ,que situa      o carnaval como  um  ritual de inversão , uma licença bem estabelecida no tempo - logo  depois  da quaresma católica - numa  sociedade  aristocratizada  e  hierrarquizada como a  brasileira .



É certo que a  incorporação do  carnaval á  identidade  brasileira é  fruto  de  um  processo e  lugar de    pertencimento para  o brasileiro ,como explica Sarah Teixeira Souto Mayor ,doutoranda do Programa    de Pós - Graduação  Interdisciplinar em Estudos  do Lazer ,da Universidade  Federal de Minas Gerais    ( UFM ) , "  O  carnaval  é  um de  seus  valores , exportados  e propagandeados para o  mundo  todo . Mesmo que não seja unânime o gosto pela festa ,a imagem e o discurso têm certo poder de congregar toda uma nação , numa espécie de  homogeneização .Somos  representados mundo afora como o país  do samba e do futebol e isso tem uma grande carga de simbolismo para a constituição  do brasileiro ",  ressalta , Sarah ,para a qual isso compõe um mecanismo de  pertencimento  e  de  identificação . " O  brasileiro é ensinado  desde cedo a gostar  de carnaval. Aqueles que não se identificam com a prática causam espanto e têm  a  sua  ' brasilidade '   contestada " , explica . Nessa linha de caracterização do  que  move quase todo  brasileiro  a amar o carnaval desde criança , Ana Lucia Modesto , Doutora em  Ciências  Sociais  e  Professora do Departamento de  Sociologia  da  UFMG ,  enfatiza  os elementos  culturais que  nos  formaram  . "  O  brasileiro  é  um  povo  de  festa . Fomos  formados  por  povos  festivos  , pessoas  dadas  às  brincadeiras e a  comemorar  por  meio  desse  evento . Uma parte dos  portugueses que  viweram mais do interior de  Portugal tinha  marcantes  festas  populares , como o    Dia  de  Reis . Os  povos  africanos  são  cheios de  rituais , danças e músicas . Trabalham cantando ,      inclusive . e para os índios a  festa também é  fundamental : um  marco forte  ao qual recorrem para  celebrar ancestrais nas épocas mais importantes " , explica  Ana Lucia ,pesquisaora de manifestações    culturais nas  ruas e  sociologia urbana .Para ela , o  brasileiro tem  uma  enorme  capacidade de  rir    de  si  mesmo . " Fazemos  graça com  tudo .Temos facilidade  de  passar do lado  sério  para o outro    e  o  carnaval  é  uma  pausa na  realidade  pesada que  nos envolve . essa  capacidade de  rir de nós  mesmos, de  brincar , é  algo que faz com que  as pessoas se  ajustem  à  realidade  da  vida  fugindo  um  pouco  dela " , argumenta .

Fonte  -  Revista  -  Mistérios  de  Órunmilá  -  pág  20                                                                              Data  -  Fevereiro  de  2017  - CARNAVAL 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Uma fábrica de sonhos às margens da Baía

 



Cidade  do  samba  , novo  complexo  de  barracões  das  escolas  , é  o  ponto de partida  da maior          festa  popular  do  mundo 

* Na  construção  da memória do Rio , a  Gamboa ocupa o  lugar de  porta da  cidade .De mar manso ,   a região - não fosse  Gamboa  o significado para  " lugar  de  águas tranquilas "  - foi o ponto da  Baía  da  Guanabara  escolhido  pelas primeiras embarcações  para aqui atracar , e  foi  a  área que ,aterrada , cedeu terreno para  a  implantação do  Porto do  Rio . Pois a  partir deste ano a antiga porta de entrada  também vira ponto de partida para a maior festa popular  do mundo .Num terreno roubado pelo aterro   à baía ergue -se a  Cidade  do Samba , linha de  montagem  do  carnaval carioca numa área de  92 mil metros  quadrados , onde  14 enormes  galpões  servem  de  barracão  para  as  escolas  de  samba  do Grupo  Especial . Ali se prepara , desde  setembro , o  sonho  olorido  que  no domingo e na segunda - feira  de  Momo provocará  arrepios ,  êxtase  e  emoçao  nos  espectadores  do  Sambódromo  e  nos  milhões de olhos  que acompanharão  os desfiles pela  TV .



A  Cidade do Samba dá forma aos delírios criativos  dos carnavalescos , mas funciona ainda a  meia - bomba : o  projeto  de  fazer  do espaço uma  área  de permanente construção e  vitrine antecipada do  carnaval  carioca  prevê  a abertura  do  complexo  para  a  visitação  turística , mas essa  ideia  ainda    não saiu do nível  da vontade ; a  ininfraestura dos barracões é boa ,com equipamentos de montagem  dos carros  alegóricos e  das alegorias  iversas ,mas costuma faltar água nos galpões ; não há um ser -  viço médico ; a  praça de  alimentação está limitada a duas lanchonetes ; a administração , por conta   da  Liga  Independente das  Escolas  ( Liesa ) , e  por  aí vai . 

-  Ainda estamos testando algumas  coisas . O  principal  era  deixar  os  barracões  funcionando  de  imediato , para este carnaval , e isso está  acontecendo . Acho  que  até  o  meio do ano a  Cidade do  Samba estará completa  - explica  o  engenheiro  Crlos  Eduardo Almeida ,um dos funcionários des-  cados pela  Liesa  para  acompanhar  o  dia - a - dia  do complexo .

Complexo  de  barracões  tem  dimensões  grandiosas

A  construção das duas noites de  sonho tem  dimensões grandiosas .Os 14  galpões , cada um com 5.500  metros  quadrados de  área  construída , têm em  média  24,5  metros de  altura , assim distri-buídos  : 12  metros  no  térreo ,  onde  fica  o  trabalho  pesado  de  montagem  dos  carros  alegó  -  ricos ;  dois  andares  de  3,5  metros  cada um , com  salas  para  a  diretoria  das escolas e  espaços  para estoque  de  material  ; o quarto  pavimento  tem  5,5  metros  e  ali  são feitas  as  esculturas e criadas  alegorias  de grande  porte . Um  elevador  com  capacidade  para  transportar  até  1,5  to-nelada  vai  do  térreo  ao  andar  superior .

Em  cada  barracão um  monotrilho , próprio para levantar até  uma tonelada , é a mão na roda que  faltava para  os  carnavalescos montarem  seus  altíssimos  carros  alegóricos sem  precisar recorrer    ao  ultrapassado  e  pouco seguro recurso de  empregar a força de  muitos  homens  de  uma  só vez   Por  fim , um  guincho permite  que  peças  gigantescas montadas no  quarto  andar  sejam  levadas    para  o montrilho ,  e  daí transportadas , para  os  carros  com um  simples  toque  num  botão .

-  Toda essa estrutura está  protegida por um  sistema  antiincêndio moderno , que  inibe as chamas          e  protege as vigas principais do superaquecimento . Além disso ,há sprinders em todos os galpões -    descreve  Carlos Eduardo  .



A construção da Cidade  do  Samba , pode - se dizer ,complementa a estruturação física do carnaval    carioca  iniciada com  o Sambódromo . O  complexo  começou  a  ganhar  forma  em 1999  , numa  parcela  da  Liesa  com a  prefeitura  para  a criação de um projeto  que  dotasse  as escolas de samba  de  um  espaço  definitivo  e  centralização  para  os  barracões  , pulverizados até o  ano passado em    diversos  pontos  do  Rio , a  maioria  sem  condições  de  segurança  e  sem  infraestrutura .

-  Nós saímos da  favela  e  fomos  para  a  Vieira  Souto  - resume  Chico  Spinosa ,carnavalesco da  Caprichosos  que  encarou  anos  de montagem  de  desfiles  em  galpões  de  aparência  medonha . -  Estamos  bem instlados ,mas é preciso que o  pessoal  seja mais bem  preparado .Senão daqui a dois      a  três anos isso aqui estará em  estado  lastimável . 

O  investimento inicial foi de  CR$ 102  milhões  . Números  à parte e sem levar em conta os planos    de utilização  do  espaço  como  mais uma  atração  turística , a  obra  atende  ao  desejo  dos  carna -valescos  de  profissionalizar  a  montagem  do  carnaval .

-  Comecei  a  fazer  carnaval  trabalhando  debaixo  do  viaduto . Agora começa uma  nova  fase da  montagem  do  carnaval  carioca  - elogia  Joãozinho  Trinta .



Carnavalesco  tem  ângulo  de  visão  de  público  e  jurados 

Max  Lopes ,  da  Mangueira , completa  as  lantejoulas  para  cima  da  Cidade  do  Samba :

-  Neste  novo  espaço  , temos  conforto porque todos os setores  têm  salas . Para  a arte  é  perfeito, pois  temos  uma  visão  aérea  do  carro  alegórico  , o que  dá uma  dimensão  parecida  com  a  da  avenida .

Max  refere - se a  uma  nova  providência  que o  projeto levou em conta  ao erguer os barracões : do  terceiro  andar  o  carnavalesco tem a  mesma  visão  dos  jurados  na  Sapucaí , e do  quarto andar  os  olhos observam  do  mesmo  ângulo  de  quem  está  na  arquibancada . Olhar  para  a  sua  criação da    maneira  como  farão  os  principais  juízes  de  suas  obras  -  o  júri e  o  público  - é  um dos aliados    que  o  complexo  dá  aos  carnavalescos .

A  Cidade  do  Samba  também  introduz   uma  nova  maneira  de  encarar  o trabalho nos  barracões,    e  sim  o que  as  escolas  farão  na  avenida  -  prevê  Paulo  Menezes  , carnavalesco  do  Império .ª  edição 

Fonte  -  Jornal  O  GLOBO  -  pág   24  -  RIO   - 2 ª  edição                                                              Data  -  Domingo , 12  de  fevereiro  de  2006  -  Carnaval  2006  -  Cesar  Tartaglia 




terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Morador da cidade de todas as caras

 



Paulistano  torce  para  o  Corinthians , come  arroz  com  feijão ,  ouve  sertanejo  e  frequenta  Shopping  Center  na  falta de parques 

O  Datafolha confirma  que  um simples  passeio pelos  bairros paulistanos evidencia : a  cidade          não tem só uma face , mas muitas .Como se diz uma  antiga música  do  Premeditando  Breque ,          da  " japonesa loura "  à  " nordestina moura " , todas têm  a  cara  de  São Paulo .

Mas se é  para  traçar  um perfil  do tipo mais frequente entre  os moradores da cidade , a pesquisa  Datafolha dá  boas  pistas .

Ele nasceu em São Paulo ,mas seus pais não .Torce pelo Corinthians , come  arroz com  feijão todo      dia ( e não troca por outra comida ) .Para se divertir ,via ao Shopping Center ,mas prefiriria passear    no  parque . Em casa , gosta  de  ouvir  música sertaneja .

Ainda acredita que  " São Paulo é  a  locomotiva  do  Brasil " . Mas na hora de escolher um símbolo      para a cidade não chega  a  uma  conclusão entre a  Avenida Paulista  e  o  parque  Ibirapuera .

Dentre todos os aspectos pesquisados pelo Datafolha  - da preferência política aos gostos musicais -      o ponto em  que os paulistanos mais concordam está na alimentação : 72 %  dizem que o arroz com feijão é o que comem com mais  frequência .

Até aí , sem novidade . Porém  39 %  afirmam que o  arroz  com  feijão  é também  a  sua  comida  predileta . Em segundo  lugar  , com  menos  da  metade  dos votos , aparece  o  macarrão  ( 16 % ) .    Reforçando a  porção  " Terra  Nostra " do paulistano , a lasanha  vem em eguida , com  15 %   das  preferências  .

A  pesquisa mostra que a  típica  feijoada ( em quarto lugar , com 6 % ) a onipotente  pizza ,( só 2 % dos  votos  )  têm  sua  importância  superestimada . 

No  futebol , a maior parte é de  corintianos , em porções iguais de  homens  e  mulheres . E o grupo tende a  aumentar , já esse percentual sobe  44 %   entre  os  jovens de  16  a  25  anos .

Em  segundo lugar ,num empate técnico , aparecem são paulinos  e palmeirenses , com  19 % e  16 % respectivamente . Os santistas são apenas 5 % . Uma  fatia  equivalente  a  20 % dos  paulistanos  por  nehunm time .

Quando chega a  hora de escolher  qual música  ouvir no rádio o  dissenso aumenta . Liderados pelos mais velhos , 21 % querem  canção sertaneja . Do outro , puxado  pelos  jovens , um grupo  de  17 %    prefere  um pagode .

Os mais ricos e com  nível superior  se destacam na  turma dos 13 % defendem a  MPB , enquanto  a    moçada  de  até  25 anos é a maioria entre os que  querem  ouvir  rock   ( 9 % )   ou  rap  ( 3% ) .

Tão difícil quanto chegar  a um acordo quanto à  música é  escolher  um lugar  que faça o  papel que    o  Cristo  Redentor  tem no Rio de  Janeiro  ou  que a  Estátua  da  Liberdade  tem em  Nova  York . 

Para  21 %  , o  amor  símbolo  paulistano  é  a  Avenida  Paulista . É  a  predileta  dos  mais  ricos  e  escolarizados . Num  empate  técnico , 19 %   votam  no  parque  Ibirapuera . A  Praça  da  Sé  em  terceiro  , com  8 %  das  citções  . 

Cerca  da  metade dos  moradores da  cidade diz , que nasceu  em São  Paulo . Mas a grande maioria  dos antepassados  veio de  outros  lugares  -  como  o  interior  do  Estado , Bahia ,  ou Minas Gerais .  Só  15 %  dos  pais  e  16 %  das  mães  nasceram  na  cidade .  (  JOSÉ  ROBERTO  DE TOLEDO )

Fonte  -   Jornal   FOLHA  DE  SÃO  PAULO   -   pág  3  -  446  anos                                                Data  -   Domingo  , 23  de  Janeiro  de  2000  -  SÃO  PAULO

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A Região da Paulista : universo em torno de uma avenida







Bairros  ao  redor  da  Avenida  Paulista  concentram , cada  um  suas  características  e      especialidades , o  que  há  de  melhor  em  serviços ,  cultura , lazer , saúde , moda   e                              gastronomia  na  cidade 

A  Avenida  Paulista pode  ser entendida de diferentes maneiras .Na mais simples delas , são  2800    metros de uma avenida que , aos 114 anos  de vida , personifica  o coração  financeiro da América  Latina e  impressiona por  sua  arquitetura  e  seus números : oito  torres  de  TV , rádio e telefonia ,  três  estações  de  metrô  e  muilhares  de  ônibus  e  automóveis  que por dia  conduzem  450  mil    pessoas por suas pistas largas . Ali  80 agências  bancárias ,uma dezena de faculdades e outras duas     de cinemas , três grandes shopping centers e outros grandes centros de compras ,inúmeros estúdios      de rádio e TV , nove  consulados  , cinco centros  culturais e  teatros , uito e variados  bares e restau-rantes , cinco  galeria de arte , o mais importante  e famoso  museu  do  brasil , o MASP , e também  incontáveis  livrarias  e um  parque  , o  Trianon . Fugindo  do  óbvio , daquilo  que  está  à vista , a  Paulista é muito mais que apenas uma avenida , percorrida  a pé em  3818 passos . Ela é um  verda-deiro  e  importante  eixo  da  cidade ,o centro de  um  uiverso ímpar , um  "  astro rei " em torno do qual  orbitam regiões que ,exatamente por conta de sua proximidade com a avenida ,se expandem e      se desenvolvem , transformando - se , elas  próprias , em  pequenos  universos  com  vida  própria , identificados  por  vocações claramente reconhecida  pela  população  de  São  Paulo . Os  Jardins , sempre  em  sintonia com o glamour e  a sofistificação da  própria  Paulista , funcionam como uma  eterna  passarela , na qual  o  desfile  de grandes grifes locias e mundiais se coloca ao  alcance  dos  olhos de  paulistanos  e  estrangeiros . A  Oscar  Freire , reconhecida internacionalmente como uma   das  10  ruas  mais  sofisticadas  do mundo ,é apenas omseu endereço mais conhecido .Porém , por  suas ruas arborizadas  intercalam - se as grandes vitrines com alta gastronomia .À noite ,o comércio sofisticado  dos  Jardins cede  espaço  para  bares  e casas noturnas  que traduzem o bom  gosto que impera no bairro . Mas  esse  requintado  vaivém não  afasta  da  região  quem  quer  e  pode  morar  bem .Apartamentos  de alto luxo são o endereço de muitos dos habitués que não abrem mão de viver   ali , com  muito  conforto . A  região  da  Frei  Caneca oferece  um  contraponto  ao mundo dos exe-cutivos  que  trabalham  a  região  da  Paulista  e  dos  sofisticados  moradores  dos  Jardins . Nesse    eixo  do  universo  Paulista , encontram  -  se  as  grandes  salas  de  cinema  com  programação  de  filmes de artes , os melhores sebos de livros e a boemia intelectual .Por tudo isso , esse  é o pólo de  atraçãs   dos alternativos  da  cidade .Seja  par  morar , em um fenômeno semelhante ao que ocorreu  com  a  Vila  Madalena , seja para usufruir  do  ambiente  intelectualizado que  domina as conversas  paulistanas .

Fonte  -  Jornal  FOLHA  DE  SÃO  PAULO  -  pág  A 14  -   BRASIL                                                Data  , domingo 26  de  março  de  2006  - Informe Publicitário  -  Texto  Scribas 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Saiba que 13 de Agosto , 5 e 23 de Maio são algo mais que o nome de rua

 




Muita gente não   sabe  o  que  significa  a  data  que  dá  nome  à  rua que  mora . Em mais  de                100  ruas  com  datas como  nome , há  até  uma que homenageia a  Revolução  Francesa  e fica          no  bairro  italiano .

A  maioria das  pessoas  que  passam  diariamente  passam pela  rua 7  de  Setembro , em  Santo      Amaro ( zona sul ) , e  pelo  largo 7  de  Setembro ,  na  Liberdade  ( região central) ,  sabe o que    significa a data que dá nome aos dois locais . Afinal , o Dia  da  Independência é comemorado em    todo o  país .é comemorado em todo o país . Mas poucos sabem por que o 6 de Junho é tão impor -  tante a ponto de virar nome  de  rua  na  Mooca  ( zona leste ) . 

"  É o  dia  em  que  a  rua  foi fundada ?  " perguntam quase todos  os moradores de ruas  que não  homenageiam  uma  pessoa , mas uma data . Para  quem  não sabe , dia  6  de  Junho é  o  Dia  do    Alfaiate . 

São mais de cem ruas  na  cidade  com  homenagens a datas . Vão de  datas  históricas àquelas que comemoram  uma  data  profissional . O  Departamento   Histórico  da  Secretaria  Municipal de     Cultura ,órgão que possui um banco de  nomes  para  designar as ruas  da  cidade ,  se lembrou  dos  alfaiates  não se  esqueceram dos  médicos  ( Rua 18 de Outubro ) , que fica  na Saúde , zona sul ) e  nem dos economistas , rua 13 de Agosto , na  Vila  Prudente  ( zona leste ) .

Carreira  bem mais exóticas , como  a  do  viajante comercial , também  têm a s suas  datas  come-morativas dando  nome  à  rua  da  cidade . No  Ipiranga  ( zona sul ) , fica  a  rua  1 º  de  Outubro          ( Dia do  Viajante Comercial ) .

Há  na  cidade na cidade três ruas que lembram  o setor de comunicações . Dias da zona leste e uma    da  zona norte , a  rua 10  de  Setembro  marca  o  Dia  Imprensa . A  rua  4  de  Dezembro , na  Vila  Formosa ( zona leste ) , recebeu este nome por causa  do  Dia  Mundial da  Propaganda . Na  Penha        ( zona leste ) , fica  a  rua  dia 5 de Maio , o  Dia  das  Comunicações . 

Os acontecimentos  históricos internacionais não escaparam de se transformar em nomes de ruas  em  São Paulo .O dia 12 de  Outubro  de  1492 , que  marca a  descpberta  da América , virou rua da Lapa     ( zona  oeste ) , mas  muitos  moradores acreditam  que a rua  homenageia  ou o Dia da  Criança ou o  dia de  Nossa  Senhora  Aparecida , que também  são  comemorados em 12 de  Outubro .    

A  revolução  Fraancesa  ( 14 de Julho  de  1789 )  também acabou  virando rua , mas  está  encravada bem no  meio do  mais  italiano dos  bairros  da  cidade  , a  Bela  Vista  ( região  central ) . 

Ao lado  de  datas  históricas  conhecidas  em  todo  mundo ,  marcos  da  história  local  e  nacional  também ganham as ruas . O  Dia  do  Butantã  - 16 de  dezembro  -  por exemplo , virou nome de rua    a  pedido  dos  moradores do  próprio  bairro . 

A vitória da  FEB  ( Força  Expedicionária  Brasileira ) durante a  batalha na  Itália , na  2 ª  Guerra   Mundial , no  dia  29 de  Abril , consta no guia  de  São  Paulo  como rua na  Vila  Prudente  ( zona leste )  .

Historiador  contesta  as  homenagens

Luís Soares de  Camargo ,chefe da Seção de Logradouros do Departamento do Patrimônio Histórico    da Secretaria Municipal de Cultura ,acredita que a utilização de datas de designação de ruaas não dá muito resultado . 

Seguno ele , as pessoas não lembram do  significado  de cada data na  época  da inauguração  da rua . Depois , a  data e o  fato  histporico que ele representa  caem  no  esquecimento . 

"  Logo depois da  Revolução de  32 , várias  ruas ganharam  nomes de  datasligadas  ao  movimento.

A  população  apoiou , mas  hoje  ninguém  lembra mais " , disse  Camargo .



A  avenida 23  de Maio , por exemplo ,tem esse  nome  por  causa  da  morte dos  estudantes Martins, Miragaia , Dráusio e  Camargo em  1932 , na  praça  da  República . Hoje ,pouca  gente liga o  nome  da  avenida a  um  dos  acontecimentos  mais  importantes  da  história  de  São  Paulo .

A  avenida  9  de  Julho  -  nesta  data  que  se  comemora a  Revolução  de  32  -  não sofre o mesmo  problema . As comemorações  dos  veteranos  do  movimento , que acontecem  todos  os  anos , não deixam  os  paulistanos  esquecerem  a  data .

Uma  das  formas  de  resolver  o  problema  é  a  colocação  de  uma  ionscrição  com  o  significado  do  nome  da  rua  nas  placas . 

Fonte  -  Jornal   FOLHA  DA  TARDE  -   pág   B  -  6   -  FT  -  Cidade                                            Data  , terça - feira , 8  de  setembro  de  1992  -  Claudio  Augusto  - URBANISMO 

domingo, 25 de janeiro de 2026

República da Garoa

 



No fim do Império , um movimento tentou separar  São Paulo do resto do país , buscando " purificar  "  a  população com o  sangue  dos  imigrantes 

SERIA  VIÁVEL  UMA  NAÇÃO  com um povo mestiço e localizada em um país de clima insalubre ?  Várias alternativas foram apresentadas no contexto da  crise do final do Império brasileiro ,entre elas a  proposta separatista de um grupo de intelectuais paulistas . Para eles , a solução  seria  emancipar  São    Paulo  do  Brasil .

Representantes  dos interesses de parte dos  cafeicultores do oeste paulista , os principais idealizadores  do  movimento separatista foram  Alberto Salles ( 1857 - 1904 ) ,Martim  Francisco Ribeiro de Andrada  (1853 - 1927 ) , Francisco Eugênio Pacheco e Silva ( 1837 - ? )   e Joaquim Fernando de Barros ( 1841 -    1901 )  . Membros de famílias ligads à economia  cafeeira , todos eles estudaram na  faculdade de Direito de São Paulo , escreveram artigos em jornias da época e , com exceção de  pacheco e Silva , exerceram funções  políticas , como as de deputado provincial e presidente da província .

Usando os jornais como principal veículo para divulgar suas ideias , esses  intelectuais lançaram  mão  ve vários  argumentos . Alberto  Salles , no livro  A  Pátria Paulista  ( 1887 ) , tentou explicar o projeto cientificamente ,numa clara influência de  Ausguste  Comte ( 1798 - 1857 ) .Para  o filósofo francês , a ciência era um poderoso meio de mudança da sociedade e permita uma análise imparcial ,responsável pela manutenção da ordem e garantia do progresso . 

As ideias do  filósofo  inglês Herbert  Spenser ( 1820 - 1903 ) , muito  utilizadas  no  Brasil  da época , também podem ser percebidas no livro de  Salles .Segundo o autor , a  evolução social  seria resultado    de  três fatos : a  destruição  da  monarquia , o  fim  da  escravatura e  a  modernização  da  economia .   No entanto , diferentemente do que  pregava  o  Positivismo , elel não propunha  a  liderança  de  um   déspota  iluminado - um soberano  absoluto ,ainda que inspirado  por  ideias  de  progresso e reforma.  A  influência de  Spencer ajudava a limitar a  atuação do estado , exigindo  funções determinadas para cada órgão , tal como se daria  nas  sociedades  evoluídas . Ao Estado , caberia  proteger as  liberdades  individuais . 

Ao analisar a  situação política brasileira , salles se esforçou para explicar a emancipação  paulista va -  lendo -se da transição da monarquia para a república . O separatismo ao evolucionismo , ele procurou  destituir o  movimente  de  um  aspecto  " revolucinário " que poderia amendontrar  possíveis  adeptos .

O caráter " científico " da proposta solucionava outro problema  : a questão  racial . A noção de nacio-nalidade , construída ao longo do século  XIX , valorizava a  história , a  cultura e  a  etnia em  contra -  posição  a  fatores  externos , normalmente  representados  pelo  estrangeiro . Para  os separatistas , a    integridade  nacional  era  ameaçada  por  elementos  internos  : índios  e  negros . Ignorando  a  pre-sença  desses  grupos , a  melhor  alternativa  para  a  construção da  " pátria  paulista " era  a  adoção  do  " imigrantismo " . Preocupados com  a  preparação  de  um  futuro  de  " ordem "  e  " progresso ",  os separatistas  paulistas , adeptos  das  teorias  racistas  do  século  XIX ,  que  buscavam  explicar cientificamente  a  superioridade  racial branca , acreditavam que  a  entrada  de  europeus permitia        " melhorar "  a  nação que pretendiam  construir .

O  federalismo foi  tema  - chave  no momento em que se discutiam  alternativas  à  unidade  monár-quica . Para  Alberto  Salles  e  matim  Frncisco , ele só pderia ser atingido por meio do  separatismo , mas os  dois  trabalhavam  com  a  ideia de  uma  federação  excludente .  A   " pátria  paulista "  não  reincorporaria todas as províncias  do  Império , como definiu  Sales : " Para nós , a  federação que se  formar , depois da  separação de  São  Paulo , não popderá  ser  senão  sulista . O vale  do  Paraná será  seu  corpo  geográfico . É  esta a nossa  convicção  e  este  o  nosso  vaticínio . Os  relevos orográficos  do  solo , orr um lado ,  e  a constituição  étnjuca  da  população  , por  outro ,nos impõem aquela con - vicção. Eis o que  representa para nós  a  "  Pátria  Paulista  " .

A  opção separatista exigia que se constituísse uma  nação  capaz  de  se  contrapor à  brasileira .Com  exceção  de  Martim  francisco , todos os  outros  membros  do grupo  defenderam  a existência de tra-  dição  históorica , caráter , origem , etnia , limites geográficos  e  identidade  de  interesses  epecíficos na  província . respondendo  a  acusações de  que  a  províincia  estaria  manifestando  "  sentimentos  egoístas " ao  desejar  a  separação , Joaquim  Fernando  de  Barros expôs  sua  concepção  de  nação  :    "  Nunca  a  filantropia  ou a  caridade  foram  bases  da  solidariedade  nacional . Muito diversos  são  os  elos que  devem  ligar  os  povos entre  ( ...)  .No caso desta nosa província relativamente às outras   ( falo  das  que  vivem  à  nossa custa e das  nossas  irmãs  produtoras ) , não se dá essa reciprocidade    - para  elas  tudo ,  para  nós  as  honras  do  bom  pagador  " .  Os  paulistas  argumentavam  que  ar-cavam  com os  custos econômicos  do  restante  do  país . Havia  o  sentimento  de  uma  exploração  por parte  das  províncias que , em  decadência  econômica , eram  vistas como  um  entrave  ao  progresso . 

Para a construção  dessa  nova  nacionalidade , a  figura  do  bandeirante  foi  fundamental . As carac-  terísticas  atribídas  a  ele  foram  associadas  aos  paulistas  em geral  :  iniciativa  ,  audácia , vigor      e  capacidade  de  conquistar , espalhando  a  civilização . Essa  figura  permitia  aliar  uma  heróica  tradição  histórica  ao  território  almejado . 

Fonte  Revista   NOSSA   HISTÓRIA  -  Biblioteca Nacional   - págs  42 , 43 e 44                            Data  ,  Fevereiro  de  2011   -  CÁSSIA  CHRISPINIANO  ADDUCI 

sábado, 24 de janeiro de 2026

A São Paulo multirracial e a época da ditadura

   




Ano da Copa do Mundo . Ano também de  " milagre  econômico " , ditadura militar ,perseguições  políticas , risco de  vida  para  quem   se  opõe  ao  regime . Claro :  estamos falando  do  Brasil de          1970 . de um lado , um  país  em  frangalhos ; de outro , uma  maravilhosa  seleção , que represen -        tava talvez  um  país  ideal , bem melhor que o real , na  Copa do Mundo do México .O Ano Que          Meus Pais Saíram de Férias , de Cao Hamburger , procura  colar uma coisa na outra -  o  país que            vai  mal com o futebol que  vai  mutíssimo bem . E visto através de um garoto que , obviamente ,          só tem olhos para Pelé , Gérson , Rivelino , Tostão & Cia .E também para Félix , já que deseja ser          goleiro . 

A história  é simples . Os pais são militantes  e precisam escapar . Ou talvez juntar-se a um grupo            armado . Moram em Belo Horizonte e vão  deixar  o menino  na casa do avô , em  São Paulo , no          então bairro  judeu do  Bom Retiro . mas  por  algum  motivo que não cabe dizer aqui , não será              o avô Paulo Autran ) quem tomará conta do futuro goleiro , mas um desconhecido .

Essa a história . Mas há a ambientação . E que revela aquilo que São Paulo , tantas vezes achinca-        lhada como  cidade  impossível de  se  viver , tem de melhor - o  cosmopolitismo  a capacidade de      povos  oriundos  de  vários  lugares  do  mundo viverem  juntos . Porque no  Bom  Retiro não  há          apenas  judeus .Existem os italianos , os  nordestinos que vieram chegando , os negros , os árabes -    todos  enfim , que  formam a  cara de  um  país  multirracial como  o  nosso . O filme  é , em  boa          medida , essa  celebração do  País  como mistura  e  convivência , algo que  não  entra na  cabeça raspada  de  idiotas  como  esses  que  distribuem  cartazes  racistas  na  Vila  Mariana . 

Fonte  - Jornal  O ESTADO  DE  SÃO  PAULO  -  pág  D 9  - Destaques  - Luiz  Zanin  Oricchio      Data  -  Quarta - feira ,  25  de  outubro  de  2006  -  Caderno  2  -   30 ª   Mostra  de  Cinema   


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O FARAÓ PRAGMÁTICO

 


História

Morto há 50 anos , Stálin  desprezou  o  dogma  comunista  pela  eficiência  à  todo  custo

Em março de 1953 , eu morava em  Sófia ( capital da Bulgária ) , acabava de completar 14  anos e          de entrar no liceu . No meu diário íntimo da época , escrevia ( em búlgaro ) : " Quatro de março de          1953 . Hoje foi anunciado pelo rádio . Stálin morreu ! Hemorragia  cerebral . Morte certa . Eu ima -        gino o que se seguirá .Certamente  uma nova guerra ." , [ a morte seria anunciada ofocialmente em        5/3 . 

Stálin era para nós - e esse  " nós " incluía  muitos adultos - um ser  quase sobrenatural , um faraó ,        que  não poderá morrer como um simples mortal e que , além do mais , assegurava nossa proteção        contra ameaças externas , identicadas nessa época aos imperialistas  anglo americanos .

Uma vez Stálin morto e nosso campo privado de seu defensor , eles iriam certamente nos atacar e      nos submeter ...

As  crianças e os homens do povo não eram os únicos a crer  em  Stálin . Pensemos em uma pessoa        tão brilhante  e  honesta como o  grande poeta  Bóris  Pasternak . Até  o  começo  dos  processos de Moscou , em 1936 ,admite ele ,uma ligação misteriosa o prende a  este ser que  é  mais  do que um  homem , que é  como  " ato  do tamanho do globo terrestre " . É que , para Pasternak , a Revolução Russa cumpre um desígnio sagrado , o da marcha do universo . Stálin é por sua vez uma encarnação    da história ,do desenrolar  inevitável  do tempo .

E mesmo 20 anos mais  tarde , no momento do  " degelo "  promovido  por  Kruschov , embora não    ignorasse mais nada dos crimes de  Stálin , Pasternak , hesita em seu julgamneto , o antigo chefe era por  certo um assassino , mas , ao mesmo tempo , ele como que participava de elementos libertados , era  animado ,  de  élans  sublimes . Já o novo chefe era um porco que subtituiu o  culto da persona-lidade pelo  ulto  do filistinismo . E o  poeta só descobre pronto a preferir , ao reinado da  mediocri -dade que se esboçava ao seu redor ,o assassino grandioso que viveu no diapasão do destino universal.

Solução  - Nos nossos dias , a condenação de Stálin é , ao contrário , tão unânime que ela se arrisca a    tornar ininteligível  a sedução e o sucesso do personagem como homem político . Quando  tentamos compreender , a satanização , é um recurso medíocre . Ora ,nos dispomos , desde 1997 , de um docu-mento  excepcional , que pode nos ajudar  nessa tarefa .

Trata -se de  " Diário " redigido entre  1933  e 1949 por Gueorgui  Dimitrov estará comunista búlgaro,  mas também  " herói " do processo de Leipzig em  1933  ( ele havia refutado  a acusação de  estar por trás do incêndio de  Reichstag , a sede do Parlamento alemão ) .

Refugiado em Moscou , Dimitrov estará  , de 1934 a 1943 , à frente do Kominterm [ a  Terceira  Internacional  Comunista ] e , a esse título , frequentará regularmente o mestre de Kremlin . Seu  "    Diário permite um olhar  único sobre Stálin , tal como ele se moastra dia a dia , diante de seus    colaboradores mais próximos . 

O que parece o retrato desenhado por esse  confidente ? Para dizer  a verdade , as características        mais salientes do ditador soviético não lhe pertencem propriamente nós encontramos já em Lênin            e podemos supor sem risco de engano que , se  Trótski tivesse  prevalecido sobre Stálin , ele  não        teria agido diferentemente . É  a função  que  forja  o homem , é a lógica mesma do totalitarismo          que  dita a conduta de seu chefe .

O traço  mais espetacular , é o mais conhecido , ams que , infelizmente , não  lhe  é  próprio , é  a desenvoltura com  a qual Stálin pratica o terror . Ele não hesita jamais em dizer diante de Dimitrov        ( e este não hesita em transcrevê - lo no seu  " Diário " , embora não ignore nada da " curiosidade "    das tchekas " [ comissões extraordinárias que faziam parte da polícia política do regime soviético ] )  que era preciso ser impiedoso , com os  " inimigos " , qualquer que  seja o número deles e ,de outro  lado , seu mérito anterior .   

" Nós anularemos todos esses inimigos , mesmo  que  sejam velhos bolcheviques , nós  anularemos  todos os seus parentes , toda  a sua família . Nós anularemos todos os que , por  suas  ações e  pen-samentos  ( sim , pensamentos ) ... resitam a nós " , declara ele em  7 de novembro de 1937 .

Alguns dias ,ele acrescenta que é preciso computar entre os inimigos todos os que " não suportam a  coletivização , uma vez que seria preciso descascar o corpo do " kulak "  [ rótulo aplicado , na  ex -  URSS , ao " camponês rico " ,visto com resquício da mentalidade burguesa e ameaça a revolução ] ". 

Em janeiro de 1940 , no momento da conquista da Finlândia ,disseram-lhe que os adversários eram    em número de 150 mil ; ele reage tranquilamente . " Nós matamos 60 mil ,é preciso matar os outros também , e o caso estará encerrado .Não podemos poupar senão as crianças e os velhos " . Uma vez   que o terror é extremo , o objetivo perseguido é atingido sem obstáculos .

Mas o que choca mais nas transições de  Dimitrov não é a violência , consubtancial ao projeto revo-  lucionário . O que é surpreendente é a ausência de qualquer referência ao dogma comunista . As  de-  cisões de Stálin são tomadas em razão não de  princípios  ideológicos ,   mas  de  objetivos a atingir . Para escolher um um curso  de ação , é preciso antes de tudo se informar e , em  seguida  se libertar      dos  sonhos do passado : "  Não  se  apegue ao que  foi ontem . Tenha  em  mente rigorosamente as    novas  condições .

Não era preciso  introduzir sovietes  na  China , contrariamente ao que  se  fez na Rússia  em  1917 .    Nem desempenhar um  papel de protagonista na Espanha ,enquanto durasse a guerra civil .Deve -se encorajar , via de regra , a substituição de quadros por novos , sem referências ao passado  . A  im-provisação ,a adaptação às circunstâncias devem desgarrá - lo de toda conformidade para o dogma : Stálin leva ao estremo a escolha dos modernos de se emancipar , das tradições ,ele é um aluno paro-xístico  de  Maquiável , que não deixa restar mais nenhuma ligação entre estatégia e ideologia .

A assinatura do pacto germano soviético , em agosto de 1919 , não obedeceu a outra lógica . Stálin      não se pergunta em nenhum momento se essa aliança era conforme ao  dogma comunista , importa    apenas saber se ela lhe é útil - e ele crê que sim . " Nós  podemos manipular , sustentando  um país  contra um outro , para que eles se estraçalhem um ao outro  . " O defeito que ele vê em Hitler não é       o de ser racista , mas  o de obedecer  a sua ideologia , em vez  de se ocupar unicamente de seu in -    teresse ,comparado a Hitler , Stálin é um puro pragmático . O vício do racismo , por sua vez , é o de  que nem todos podem reclamá - lo : ele condena  as  "  raças inferiores " à  resistência .

O poder pelo poder  - Essa ideologia é má não porque é inumana ,mas porque ela não pode assegurar  uma  vitória  durável . O poder , segundo Stálin , não deve ser posto a serviço de  uma ideia ;  são as  idéias são as que servirão ao poder - e as melhores idéias são as que lhe são as mais úteis .Ainda mais  os se fundem o comunismo se confunde doravante com a busca do poder pelo poder .

Essa indiferença ao conteúdo da doutrina comunista  levanta porém um ponto do qual Stálin é cons-ciente as mais necessitam de paixões coletivas ,elas podem vibrar à vista da mera eficaz ,por isso que, muito rapidamente convoca esta outra paixão conhecida : o  amor  à  pátria . Promotor  do  nacional - comunismo , Stálin explica que os boicheviques não são os  verdadeiros continuadores dos  czares da  Rússia ,fundadores desse imenso Estado ; os ataques contra Rússia são piores que os ataques contra o comunismo . 

A  Dimitrov , perplexo , Stálin explica que , na nova conjuntura , o Komintern  iria  se  auto - liminar . No dia da invasão hitlerista  ( 22/ 6/ 1941 ) , Stálin - que , diga -se , não perde nunca seu  sangue - frio - exige do militante intercionalista que deixen de lada  a  retórica comunista  : " Não ponha mais a ques-tão da revolução socialista . O povo soviético  faz uma guerra patriótica contra a Alemanha fascista " .

Ao longo dos anos ,a estratégia de Stálin provará  sua eficácia duvidosa .Digno herdeiro de Lênin , ele não terá , porém , sucessor  da mesma cepa e , um mês após sua morte , apareceriam  as  primeiras fis-suras do império totalitário .

Fonte  -  FOLHA  DE  SÃO  PAULO  - pág  10  -  História  - Caderno  MAIS                                            Data - Domingo , 16  de março  de  2003  -  Por  Tzvetan  Todorov