Nas suas aulas de desenho ,as crianças eram supervisionadas por Frieldl Brandeis ( Frederiecke ) , uma vienese que estudara na Bauhaus de Weimar , com pintores como Paul Klee , e que já era reconhecida como arquiteta de interiores antes da deportação . A marca da escola Bau - haus é evidente nas obras das crianças : basta observar os inúmeros estudos de cores e luz , bem como os trabalhos com colagens . Faziam-se , também , estudos de perspectiva e de várias técnicas de representação ; tudo isso com eios materiais como lápis , tintas , papel , extrema - mente precários . Brandeis dava total liberdade a seus pequenos alunos . Ela foi assassinada em Auchwitz em 1944 . Cerca de 4.000 desenhos de crianças de Terezin foram preservados .
Várias revistas ( manuscritas e ilustradas a lápis de cor ou aquarela ) foram produzidas por adolescentes em Terezin , como Karamarád ( 22 números ) , Rim - rim - rim ( 21 números ), Vedem ( Avante , órgão da " República Skid " - sucedânea no Campo da escola de edu - cação social e individual Dostoievski " , de Leningrado - com mais de 50 números ) , entre outras . Nelas já se percebe a dupla função que a arte cobria no Campo : o testemunho da vida quotidiana e a de ser uma " janela " para a fantasia .Narravam - se viagens , aventuras etc . Também diários escritos .
Praticamente todas as atividades quotidianas do campo de concentração são representadas nas obras de arte dos internos de Terezin e nos seus trbalhos pode - se perceber o papel da arte como forma de resistência espiritual e de afirmação da individualidade : paisagens e lugares são lembrados ou imaginários , em contraposição a um dia-a-dia marcado pelo medo e pela desesperança . Obras abstratas representam o mergulho numa outra esfera para , como afirmou Charlotte Buresova , pintora nascida em 1904 , uma das internas de Terezin , apre- sentar " todas as coisas incríveis que ela vira ... para opor - se com a beleza do desastre " . Outra modalidade desta arte de resitência espiritual pode ser encontada nas representações que procuram dar ordem ao caos do campo de concentração . O mundo torna-se visível nestas representações sem compromisso realista .
A arte das crianças de Terezin funcionava , igualmente , como comemoração de vida : Zoran Music , o conhecido artista nascido em 1909 , um prisioneiro de Dacchau , afirmou que a arte lhe dava " força para sobreviver " , o que fica claro , especialmente , nos auto-retratos . São tentativas , de manter a identidade ante forças destruidoras extremamente violentas . Há muitos retratos que serviram tanto para serem enviados posteriormente aos familiares , afir-mando a sobrevida do prisioneiro ,como para comunicar amorte dos que foram assassinados . É digno de nota que muitos destes retratos portam uma dupla assinatura : do artista e do re- tratado . Aqui também já se percebe a função de testemunho desta arte . Halina Olomucki , que começou a pintar no gueto de Varsóvia , recorda : " Quando estava em Auschwitz - Birkenau alguém me falou , ' se você sobreviver a este inferno , faça as suas pinturas e conte ao mundo sobre nós . Queremos permanecer entre os vivos , ao menos no papel " . Nesses desenhos deveos ver , antes mais nada , a concretização possível deste desejo de sobrevi - vência ,que só pôde ser realmente realizado por uma parcela ínfima dos internos do campo .
A maior parte das obras de arte criadas no campo tem a função de testemunho .Daí a forte tendência ao realismo . Com relaçã a este aspecto de sua arte lemos as palavras de Karol Konieczny : " Meus desenhos não devem ser submetidos a um escrutínio e a uma crítica estética . Eu desejo que eles sejam considerados como um documento vivo e chocante de um mundo de horro e tormento . Eu desejo que os jovens saibam como foi , de modo que eles compreendam e não permitam tais fatos e se repilam no futuro . " Halina Olomucki acrescenta outro aspecto importante no testemunho artístico : " Minha intenção era a deixar um documento sobre o crime de destruição era a de deixar um documento sobre crime da destruição de nosso povo . Esta necessidade de documentar tornou - se uma força extra-ordinária que me levou à sobrevivência .Meu único objetivo na vida era viver , de modo a poder testemunhar ante o mundo a mais terrível de todas as atrocidades . "
A arte funcionava também como meio de extravasar o medo e a dor , a raiva e o ódio , permitindo assim uma espécie de purificação destas paixões . Esta faceta testemunhal e ca- tártica não excluiu o humor e a caricatura das obras dos campos de concentração .
Os desenhos das crianças de Terezin , que fazem parte do acervo permanente do Museu Judaico de Praga , trazem ao público brasileiro uma importante e original faceta desta pro- dução artística , que nasceu da tentativa de extermínio dos judeus e a ela se ôpos . Estas obras foram vistas como atos de memória contra o esquecimento da barbárie . Mas com suas cores e temas - tristes mas também alegres - apresentam um pouco da complexidade daquela catástrofe que foi Shoá . O que ocorreu com as crianças que criaram estas obras - e com as demais que foram assassinadas - representa uma das faces mais violentas da- quele momento histórico e da história como um todo . Nada mais justo que preservá - las e homenageá - las. Deixemos que aquelas crianças nos falem com suas cores , com seus traços , para sempre .
Fonte - Revista 18 Centro de Cultura Judaica - Data - Setembro / Outubro / Novembro de 2014 - Márcio Seligmann - Silva é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade Livre de Berlim e professor de teoria Literária e Literatura Comparada no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP
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