Enquanto inicio este texto , o Xingu está em chamas .O Brasil está em chamas .Nosso céu está coberto por fumaça em 60 % de seu território . O fogo já subiu para os morros do Rio ,em Florianópolis e assistimos a um espetáculo horrendo de destruição . Hoje , a caneta que antes iria versar sobre a peosia se vê obigada a um desabafo estreito e consumido pela ideia : eu sabia . Todos nós sabíamos que isso iria acontecer . Que após a boiada passada , passaríamos também os troncos de madeira nobre , o veneno que nos mata dia a dia, os corpos - antes violados , sempre violadas das cunhatãs - agora mortos com a marca do território que defen- diam . Olhamos esse desfile como uma para de sete de setembro , mas não é . Este desfile grotesco é nossa vida apontando o dedo na nossa cara para dizer que não temos nenhum poder sobre aqueles que querem destruir o que não possuem . Uma lógica perturbadora que permite matar tudo aquilo que não é sua propriedade . Ou pior , sugar aquilo que é de todos . A impotência que nos une e nos desqualifica , a falta de poder em dizer basta e a voz sem ser ouvida , atolam a poesia em um lamaçal de utilidades . Já não contemplamos mais , já não permitimos que ela se revele pelo revelar . Já não temos coisa alguma apenas pelo simples fato de ser . Tudo tem que estar a serviço de algo . O sutil é pisoteado pelas botas lama - centas da corrupção e queremos gritar com toda força a injustiça de presenciar nossa morte - a morte da única vida existente que é o planeta - mas quem nos escuta ? Como posso falar sobre o movimento que tentamos realizar para reduzir a velocidade , para observar o entorno , para a troca diária e delicada de ideias e pontos de vista ? Não , não podemos mais . temos que ser fogo que queima na velocidade , dos acontecimentos . Mais ainda , a labareda que corre e se espalha ampliando a destruição do convívio . Todo mundo tem uma fórmula infalível para qualquer problema . Ninguém mais pede conselho , dá sem que solicitem . É cada dia mais raro a escuta de quaidade e acolhedora . Nos preocupamos em ser o primeiro a postar a notícia , o primeiro a dar opinião , o primeiro a ser o primeiro . Uma corrida inútil e cega por termos nas mãos as certezas enquanto corremos a tela da vida . Somos espectadores da vida sem termos ação assertiva sobre os fatos que destroem tudo o que temos . Já não temos mais aquela sensação de novidade . É tudo tão enfadonho . É tudo tão desalentador .
Enquanto eu escrevo este texto , o Xingu está em chamas . O Brasil está destruído em sua intimidade naquilo que tems de mais precioso , sua criatura e sua gente , mas que não serve para nada .Deixamos isso acontecer , pois queremos o novo, o moderno , o progresso . Sempre quando penso a palavra progresso ouço o barulho de serra elétrica e do fogo consumindo as matas e toda vida que nelas existem . Nos afastamos do poético para termos imediato . onfundimos poesia com poema e cultura com entretenimento , trocamos os significados das npalavras , achamos que conteúdo digital é conhecimento , nos iludimos ao aplaudir frases de autoajuda , como se fosse poesia . Queremos a fruta brilhante e nunca a goiaba com bicho . Já não falamos mais o nome das coisas , das pessoas , dos sentimentos . Trocamos tudo por uma foto produzida acompanhava de hastag .
A Hidra encarnada com agronegócios ,soprou seu bafo sobre o País e Héracles está vidrado diante da tela que aponta suas flechas ao crescimento das LCAs e CRAs .O monstro passou a ser seu retorno ativo e passivo , sem que precise se expor ou compor o coro tossegoso da ralé perdedora e abre mão de seu povo .
Enquanto finalizo este texto , Xingu está em chamas O Brasil está em chamas e tenho a res-ponsabilidade de apresentar um ovo momento do Jornal da Poesia , no ano que se abre ao flo- rescer da primavera , e temos ainda mais vozes dos poetas para ecoar . Mas entendo que nenhum nascimento é fácil , e depois de vivo no mundo , sobreviver é ainda mais difícil . Somos o rebento indesejado que busca a teta e a proteção contra o barulho ensurdecedor do massacre que é o mundo lá fora . Somos a voz tímida que tem um grito contido e que dará liberdade a todas as letras possiveis , vindas das mãos das mulheres que seguram a pena . Somos a pequena fresta que permite a luz entrar para delinear as formas de um quarto escuro , quarto este que esconde violências , silenciamentos e fome voraz sobre nosso corpo de mulher .
Enquanto escrevo o Brasil queima e ainda tenho forças para defender a poesia nascidas das mulheres .
Fonte - Jornal poesi ( A ) - pág 4 - Data Primavera de 2024 n . 5 - Flavia Quintanilha - poesia mundo



































