DOCUMENTÁRIO FRANCÊS RETRATA O COTIDIANO DE PROFESSORES E ALUNOS DO ENSINO PÚBLICO , MOSTRADO DE MANEIRA DELICADA QUE AS BARREIRAS PODEM SER VENCIDAS
Documentários , ao contrário das grandes produções cinematográficas , possuem em geral ,or- çamentos modestos . Normalmente nascem da vontade de seus idealizadores que ,com uma câmera na mão e uma boa ideia na cabeça - parafraseando Glauber Rocha - acreditam que podem executar projetos que acabam às vezes ,por se tornar exceentes obras . Esse é o caso de Ser e ter , filme francês lançado em DVD , que oferece oportunidade de fazer pensar, captura a atenção e ajuda a resignificar aspectos ou passagens da própria vida .
O enredo centra -se na vida de George Lopez , docente de uma escola pública do interior da França , na comunidade de Aubergne , pacata localidade cercada por fazendas . Tudo se desenrola dentro e ao redor de uma pitoresca " escola -de-uma-turma só " , na qual alunos com idade de 4 a 11 anos estudam juntos , com apenas um professor . Só esse ponto já nos faria pensar na realidade brasileira das escolas públicas com salas lotadas e professores que , apesar do esforço , se defrontam com o fracasso escolar de seus alunos .
Com o descortinar da história na tela , é invitável o espectador se perguntar : como , afinal , George consegue fazer diferente ? Afinal , Freud já dizia que a dificuldade do ofício do educador residiria em como saber dosar a dureza e a ternura e , mais ainda suportar o lugar transferencial ; ser alvo do amor e do ódio dos alunos , além de convidá -los a se haver com o princípio da realidade em oposição ao princípio do prazer . Tarefa fácil ? Certamente não . Mas o protagonista parece ter desenvolvido um estilo bastante efetivo na condução dessa missão pedagógica , ainda que seja alvo de críticas em certos momentos , nos quais as ques- tões morais parecem prevalecer . Mas , devemos lembrar : esse é um ambiente no qual a aprendizagem enciclopédica deveria dar lugar à convivência entre os diferentes , quer seja no ritmo , nas habilidades ou no potencial singular de cada um .
Nesse ponto George é realmete hábil , lidando com crianças que talvez fossem vistas como " como problemáticas " e até terminassem em alguma instituição para " alunos especiais ", a despeito dos esforços daqueles que militam pela inclusão . Uma adolescente , em parti - cular , praticamente não falava e gerava uma invisível angústia na mãe ,que se culpava por não saber , por exemplo ensinar Matemática em casa . A maneira como o professor acolhe sua mãe por meio de uma conversa e lida com esse momento tenso é ipressionate . Sem culpá-la ou desmerecê - la , diz : " Bem , talvez seja difícil ouvir isso , mas você está sendo muito dura cosigo como mãe . O que conta é o desenvolvimento dela " . E , mais adiante , concorda com a percepção materna . " Se , de certo modo , ela parece estar distante de você , eu diria que é uma transição , uma transição necessária " .
Ao observar o silêncio , afirma : " o que me parece iportante é vê - la se desenvover e ser feliz , mesmo que esteja um pouco distante de todos vocês . Deve ser difícil para você .. " Ainda que o espectador possa pensar em paternalismo ou até mesmo em pieiguice , cabe perguntar o que poderia ser razoável nesse momento . Então , nos resta pensar na viabili- dade de um laço diferente entre professor e aluno , transformando esperança em atos . Mu- dar o macro partindo do micro não é fácil , pois exige transformações profundas dentro de nós mesmos . Assistir a esse documentário com a mente aberta pode ser um começo .
Fonte - Revista - MENTE & CÉREBRO - pág 15 - Data 2020 - LEANDRO ALVES RODRIGUES DOS SANTOS é psicólogo , psicanalista , professor e supervisor universitário ( UNI - A ) ; doutorando em psicologia clínica na Universidade de São Paulo ( USP ) ; membro do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo .
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