sexta-feira, 17 de abril de 2026

Duas vezes de fogo

 




Há  muito  tempo os  conflitos  no  Brasil  são  agravados  pelo  uso  do  álcool  e  pelo  porte de            armas , que  aumentam  a  violência 

ACUSOU - O  DE  SER  VAGABUNDO  E  POR  ISSO  FOI  MORTA . 

Era  sua  irmã  !  " o  que  poderia  ser  manchete  nos  jornais  sensacionalistas  de  hoje ocorreu              em  1876  em  Minas  Gerais  ,  na  cidade  se  São  João  Del - Rei . Justino  feriu  a vítima  com            " instrumento  cortante  e  perfurante  do  lado  esquerdo do  corpo em  direção  ao  coração " , o          que  veio  a  provocar  sua  morte . O  motivo  do  crime  foi  uma  repreensão  feita  pela  vítima            por ele ter - se  recusado a ajudar seu  marido. Ela  disse que ele  deveria  " dar-se  ao  trabalho " ,            já  que  era  procurado  por  cobradores . Em  outras   palavras  , a  irmã  o  acusou  de  vagabun -      dagem  e  foi  esfaqueada  no  coração . Justino  estava  embriagado .

Assim  como  hoje ,  dois problemas  sérios  multiplicavam  a  violência  e  os  crimes na época            do  Imperio  :  o  uso  generalizado  de  armas  e  a  embriaguez . Associados , tinham um  efeito  explosivo .Qualquer  que  já  tenha  tido  contato  com  fontes  criminais  do  período certamente               se  deparou  com  a  enorme  frequencia  do  abuso  das  "  bebidas  espirituosas "  como   causa  determinante  dos  enredos  de  mortes  e  violências .Como esperar  bons resultados da  reunião              de  homens  violentos  ,  armados  e  alcoolizados  ?   O  consumo  de  cachaça , a  julgar  pelos            dados  existentes sobre sua produção  e comercialização , somados  às  descrições  de  viajantes,      parecia  ser um  hábito fortemente  arraigado . O viajante  e  aventureiro  inglês  Richard  Burton            ( 1821 - 1890 ) , que  andou  pelo  Brasil entre  1865 e 1868 ,  escreveu  que   "  a  facilidade  de            se  encontrar  bebida  barata  e  forte  "  fazia  "  raça  de  bebedores " . e  acrescentava  :  " co -        meçam  o  dia  com  um  gole   ' para  espantar  o  diabo  ' , . Há  um  segundo  '  mata  bicho  ' ,            que , como  diz  a  velha  pilhéria  , não  jeito  de  morrer .Depois  de  quebrar  o  jejum , às sete          ou  oito  da  manhã  , um  terceiro " ,  e  por  aí  iam  as  coisas .

Rita  Palina  estava  em  sua  residência ,  na  Rua  da  Cruz ,  também  em  São  João  Del  Rei  ,      quando  Manuel  Agostinho  invadiu  a  casa  e , usando  um  chicote  e  uma  faca , agrediu - a      gravemente , ferindom- a  por  todo  o  corpo . O  réu  disse  ao  juiz  que  Rita  Paulina  era  sua  amásia  e  que  ele  gastava  o  seu  dinheiro  com  ela . Naquele  dia , encontrou - a  deitada com    outro  homem .Já  Rita  declarou "  que  nenhuma  antecendência  havia  e  só  sim que querendo            o  dito  Manuel  peão  para  satisfazer  seus  apetites  na  pessoa  dela ,  paciente ,  sem   o   seu              "   consentimento " . O  réu negou  tudo  juiz , pois  no  dia  do  crime  estava  totalmente  embri - agado  e  não  se  lembrava  de  nada . Era  o  ano  de  1854 .

Em  1877 , a  costureira  Ana  Felipa  de  castro  Viana , moradora  da  mesma  cidade . foi  presa        por  ter  espancado  oo  menor  Juvenal  , de  três  anos  de  idade , seu  afilhado , que  vivia  em          sua  companhia  por  motivo  de  falecimento  de  sua  mãe . A  ré , armada de  uma  correia , fez -        lhe  vários  ferimentos  pelo  fato  de  este  ter  estado  fora  de  casa  por  dois  dias  ;  alegou  ,    também , que  havia  bebido  um  pouco  mais  e  estava " dominada  pela  ira " .

Para  piorar  as  coisas , o Código  Criminal  em  vigor  ainda  considerada  atenuante  o  fato  de            " ter  o  delinquente  cometido  o  crime  no estado  de embriaguez " ,tanto quanto  eram a defesa    pessoal  ou  da  família  e  " a  desafronta  de  alguma injúria  ou  desonra " . Esses  casos frequen-temente  definiam  a  absolvição  do  réu . Por  isso , era comum  os  advogados  alegarem  embri -aguez  de  seus  clientes  como  uma  forma  de  obter  das  autoridades  se  não  uma  absolvição  ,      pelo  menos  uma  punição  mais  branda . No  caso  da agressão  de  Manuel  Agostinho  a  Rita        Paulina ,a  estratégia  da  defesa  foi  a  de  acentuar  seu  estado , declarando  que  o  réu  " bebeu    demais ,  de  sorte  que  ficou  esquentado   ( ... )  mais  lhe  atacou  a  embriaguez   ( ... )  perdeu      todo  o  seu  senso  comum  ,  ficando  mais  ébrio  do  que  estava  ,  sem  saber  o  que  fazia  ,      louco  inteiramente , cobrando em  tudo e  por  tudo  por  estar  sem discernimento  algum " . Foi    absolvido  .  

Grande  parte  dos  crimes  ,  cometidos  por  bêbados  ou  não , ocorria com  o  uso  de  armas  :  pistolas , facas ,  porretes e  outras . Essa  era  a  outra  face  que  caracterizava  a  violência  na          época . As  armas , além  de  um  atributo  inseparável  da  masculinidade  , eram  também  ins-    trumentos  de  trabalho  e  de  defesa . Pistolas  e  garruchas  constituíam  uma  garantia  de  de  -          fesa  ao  ataque  de  animais  no  campo  de  salteadores  nas  estradas  ,  ou  impor  respeito   e      temor  em  festas  e  ajuntamentos . Facas  faziam  parte  dos  acessórios  básicos  de  qualquer                das  profissões  praticadas  ; suas  infinitas  funções  as  tornavam  objetos  de  primeira  neces -      sidade . Alem  disso , como  seria  possível  impor  respeito  à  população  escrava  sem  armas ?

A   proibição  do  uso  de  armas  por  parte  dos  escravos  existia  desde   o  início  do  século                 XVIII , mas  seu  controle  efetivo  parece  ter  se  restringido  às  armas  de  fogo , e na medida            da  capacidade  das autoridades .Quanto  às  armas  brancas  e  outros  instrumentos de trabalho        com  igual  poder  agressivo  , era  praticamente  impossível  a  restrição  do  seu  uso  pela  mes -    mas  razões  das  neecessidades  que  elas  cobriam . 



O  desarmamento  da  população  ocorreu  em  vários  países  como  parte  da  monopolização                da  violência  pelo  Estado  ao longo  do  século  pelo  estado  ao  longo  do  século  XIX . Esse  processo teria  passado  por vários  momentos ,incluindo  o confisco  de armas ,a criminalização            dos  duelos , o  controle  da  produção  e  da  distribuição  das  armas  e  -  aspecto  decisivo  -  a    montagem  do  sistema  de justiça  capaz  de  se  sobrepor aos  poderes  privados  e  tomar  para si          o  trabalho  de  vigilância  da  população  .  A  política  do  desarmamento  da  população é  vista      como  possível causa  das baixas  taxas  criminais  na  Europa ,por  exemplo  dos  Estados Unidos,      onde o  acesso  a armas  de  fogo  pelos  cidadãos  é  totalmente  livre , as  mortes devido  ao seu          uso  são  são  centenas  de  vezes  maiores  do  que  nos  países  europeus  .

As  resoluções  das  Câmaras  tentavam  adequar  a legislação  às  condições  cotidianas da popu -      lação  e  das  diferentes  atividades  e  ocupações  profissionais . Como mostra  a  Câmara  de São      João  Del - Rei , na  qual  porretes  e  manguaras  ( cacetes )  seriam  permitidos  somente  aos  " viajores , na derrota  de  suas  viagens  "  , armas de  fogo , facas ,espadas e  azagaias  somente aos    que  "   portassem   patentes "  e  aos  que  necessitassem  e  obtivessem  licença  para  tal , desde      que  não  fossem  turbulentos  ou  suspeitos . Os  tropeiros , capineiros , lenheiros  e  oficiais   de        ofício ficariam autorizados  a  portar  instrumentos  considerados  armas  desde  que fossem impres-cindíveis  ao  cenário de  suas tarefas  e  ofícios .Mas devia - se  tentar restringir seu  uso aos locais    de  trabalho . 

Além  de  frequentemente  estimulados  pela  bebida  e armados , os  homens  da  época  reconhe -  ciam  nos conflitos dos desafios  a  serem  enfrentados  : a ameaça  as  seus  privilégios  e a defesa      da  sua  honra  . Honra  e  vingança  constituíam  os  motivos  da violência , cuja   finalidade   era  restaurar  uma  posição  ameaçada  pelo  desafio . As posições  sociais definiam códigos  de honra        e  obedeciam  a uma  hierarquia  baseada  na  cor , no  sexo  e na  riqueza ,que  definia  os compor -  tamentos  de  uns  em  relação  aos  outros .

Uma  querela  de  1825  conta  a  seguinte   história , ocorrida  na  Freguesia  das  Dores , termo da    vila  de  São  João  Del - Rei  : Domingos  mandou  dizer  a  Pedro  Antônio  que  tirasse  o gado de  suas terras .  Encontando - se  os  dois  mais  tarde , Domingos  foi  afrontado  por  ele , que  disse          "  que  ele  não  tinha  direito  para  mandar  tais  recados ,  porque  não  tinha  fazenda  alguma ,  e      isto  respondeu  muito  enfadado  o  tal  [ Domingos  ] , dizendo - lhe  que  ele  se  estava  fazendo        de  bonito , e  foi  logo  puxando  de  uma  faca  , e  investindo  contr  o  suplicante  fez - lhe  feri -  mentos  e certamente  o  matava  se  não  fossem  acudir  por  todos que  se  achavam  presentes ; e  depois  disso  armando - se  de  espingarda  e  ferro  montou  a  cavalo  e  retirou - se  dali  desa  -  fiando  a  todos  que  ali  estavam " . A  honra  de  um  homem  era  sua  capacidade  de  responder          aos  desafios  postos  por  outro , quando  eram  ultrapassados  os  limites  que  deveriam  ser  res-peitados .Isso significava  afirmar  publicamente  uma posição  e uma  disposição  de  defendê - la  numa  sociedade  em  que  o  anonimato  era  inexistente  e  a  reputação  era  a  garantia  de  ser    respeitado  e  temido  pela  opinião pública .




Afinal , o  que  permanece  igual  e  o  que  mudou  de  lá  para  cá  ?  Certamente , os motivos  da  violência  mudaram . A  julgar  pelo  que  lemos  diariamente  no  noticiário  político , a honra  não  parece  mercadoria  de  muito  valor  nos dias de  hoje .Os criminosos  são  mais  racionais ,matam        e  corrompem  por dinheiro ,  os  crimes  "  a  sangue  frio  "  predominam  sobre  os  cometidos  a        "sangue  quente " . Isso indica  uma transformação  no sentido  da  violência . As noções  de honra        e  defesa  de  valores  que  a  motivavam  no  passado  cederam  ao  predomínio  da  violência  ins-trumental  como  um  meio  para  atingir fins . Pensemos  nos  traficantes  e  nos  corruptos .  As  "  bebidas  espirituosas  " continuam  associadas  à  violência , mas  a  elas  se  somaram  as  drogas        de  grande  poder  destrutivo  : o  crack  e  a  cocaína . Um  outro  lado  da  questão  é  igualmente preocupante  hoje : a  crescente participação  de  menores , de  todas  as  classes , em  espetáculos        de violência coletiva , muitos  deles  resultantes  em  graves  lesões  corporais  ou  em  mortes por espancamento  ou  arma  de  fogo . E  aqui  um  problema  continua  o  mesmo :   a  disseminação        do uso  de  armas  entre  a  população . Com  o  agravante  de  que  as  zagaias , facas  e  pistolas          de  póllvora  foram  substituídos  por  escopetas , metralhadoras  e  armas  de  precisão  criadas            para  guerras . 

Fonte  Revista  HISTÓRIA  -  BIBLIOTECA  NACIONAL   -  págs  18  a  21   Dossiê                      Data  - Outubro  de  2007  -      IVAN  DE  ANDRADE  VELLASCO  




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