quarta-feira, 24 de junho de 2026

A desumanidade dos escravocratas de ontem e de hoje

 




A  palavra  escravo  deriva  de  slavus  em  latim , nome genérico  para designar  os habitantes da        Eslávia , região  dos  Bálcãs , no sul  da  Rússia  e  às  margens  do  Mar  Negro , grande  fornece -          dora  de  pessoas  feitas  escravas  para todo  o  Mediterrâneo . Eram  brancos , louros  com  olhos        azuis .Só os otomanos  de Istambul  importaram  entre 1450 - 1700  cerca  de  2,5  milhões dessas      pessoas  brancas  e  escravizadas .

No nosso tempo , as Américas  foram  as grandes importadores  de  pessoas de  África que foram          escravizadas . Entre 1600 - 1867  o  número é  espantoso : 12.521.337  fizeram a travessia transa -    tlântica , das  quais 1.818.680  morreram  a  caminho  e  foram  jogados  ao  mar .  O  Brasil   foi            campeão de  escravagismo . Só ele importou , a  partir  de  1538 , cerca  de  4,9  milhões  de  afri -          canos  que foram escravizados . Das  36  mil  viagens  transatlânticas , 14.910  destinavam  -  se              aos portos  brasileiros .

Estas  pessoas escravizadas  eram tratadas como  mercadorias ,chamadas  "  peças  " . A  primeira          coisa que o comprador  fazia  para  "  trazê - las  bem  domesticadas  e disciplinadas  " era castigá -          las  , "  haja  açoites ,  haja  correntes  e  grilhões  " . Os  historiadores  dos  escravocratas  criaram          a  legenda  que  aqui a  escravidão  foi branda ,quando  foi  crudelíssima .Dou mais dois exemplos  aterradores .

O  primeiro : O  holandês , Dierick  Ruiters que  em  1618  passou  pelo  Rio  relata :  "  negro  fa -      minto  furtou  dois  pães  de  açucar  . O senhor , sabendo  disso , mandou  amarrá - lo  de  bruos a        uma  tábua  e  ordenou  que  um  grupo  de  negros  o  surrasse  com chicote  de  couro ;  seu corpo      ficou  de  cabeça  aos  pe´s , uma  chaga  aberta  e  os  lugares  poupados  pelo  chicote  foram lace -    rados  à  faca ; terinado  o  castigo , um  outro  negro  derramou  sobre  suas  feridas  um  pote  co  -  tendo  vinagre  e  sal  ... tive  que  presenciar  -  relata  o  holandês -  a  transformação  de  um  ho  -mem  em carne  de  boi  salgada  ; e  como  se  isso  não  bastasse , piche  derretido ; deixaram - no  toda  uma noite ,de joelhos ,preso  pelo  pescoço a um bloco  como um mísero  animal   "  ( - Cf . L.      Gomes , Escravidão  vol .  I , 2019 , p. 304  ) . Sob  tais  castigos , a  espectativa  de  vida  de  uma    pessoa  escravizada  em  1872  era  de  18,3  anos . 



O  outro  não  menos  horripilante  , vem  do  antropólogo  Darcy  Ribeiro , que  pinta  a  situação      geral  do  escravizado  :  "  Sem  amor  de  ninguém ,  sem  família  , sem  sexo  que  não  fosse  a    masturbação  , sem nenhuma  identificação possível  com  ninguém  -  seu  capataz  podia  ser um      negro , seus  companheiros  de  infortúnio , inimigos  , - maltrapilho   e  sujo , feio  e  fedido  , so -    frer  todo  dia  o  castigo  diário  das  chicotadas  soltgas , para  trabalhar  atento  e  tenso .  Sema-    nalmente , vinha  um  castigo  preventivo ,  pedagógico , para  não  pensar  em  fuga ,  e , quando  chamava  atenção , recaía  sobre  ele  um  castigo  exemplar , na  forma  de  mutilações  de  dedos ,      do  furo  dos  seios , de  queimaduras  com  tição , de  ter  todos  os  dentes  quebrados  criteriosa- mente   ou  dos  açoites  no  pelorinho , sob  trezenas  de  chicotadas  de  uma  vez ,  para  matar ,        ou cinquenta  chicotadas  diárias  para  sobreviver .Se  fugia  e  era  apanhado, podia  ser marcado    com  ferro , ser  queimado  vivo  , em  dias  de  agonia ,  na  boca  da  fornalha , ou  de  uma  vez            só ,  jogado  nela  para  arder  como  um  graveto  oleoso  "   (  O  Povo Brasileiro , 1995 , p . 119 -          120) .

O  jesuíta  André  João  Antonil ,  dizia  :  "  para  o  escravo  são  necessários  três  Ps , a  saber   :          pão , pão  e  pano  " . Pau  para  bater  , Pão  para  não  deixá -lo  morrer  de  fome  e  Pano  para        esconder  - lhe  as  vergonhas . De  modo  geral  a  história  dos  escravizados  negros  foi  escrita          pela  mão  branca .



É  sempre  atual  o  grito  lancinante  de  Castro  Alves  em  "  Vozes  d ' África  "  :   "  Ó   Deus ,          onde  estás  que  não  respondes  ?  Em  que  mundo , em  qu '  estrela  tu  t '  escondes  /   Embu  -          çando  nos  céus  ?   Há  dois  mil  anos  te  madei  meu  grito  / Que  embalde , desde  então , cor -        re  o  infinito  ...  /  Onde  estás ,  Senhor  Deus  ?  "  Como  dói !  Jessé  de  Souza  em  sua  obra      mostrou  que  o  que  escravocratas  fizeram  com  os  negros  , a  maioria  da  atual  classe  domi-  nante  , transfere  em  desprezo  e  ódio  aos  negros  de  hoje .

Falo  como  teólogo  :  misterisamente   deus  se  calou  como  se  calou  no  campo de extermínio      nazista  de  Auschwitz   -  Birkenau  que  fez  o   Papa   Bento   XVI  ,  estando  lá  ,  perguntar  :            "  Onde estava  Deus naqueles dias  ?  Por  que  Ele  silenciou  ? Como  pode permitir tanto  mal " ?

E  a  pensar  que  foram  cristãos  os  principais  escravocratas . A  fé  não  os  ajudou  a ver  nessas  pessoas  "  imagens  e semelhança  de  Deus  " , menos ainda , " filhos  e  filhas  de  Deus  " ,nossos  irmãos  e  irmãs . Como  foi  possível  a  crueldade  nos  porões  de  tortura  dos  vérios  ditadores      militares  do  Brasil  ,  da  Argentina ,  do  Chile  , do  Uruguai ,  de  El  Salvador  que  se   diziam    cristãos  ou  catóicos  ?  E  o  ex - presidente  condenado  por  tentativa  de  golpe  de  estado ,  de  -    fendia  publicamente  a  tortura  como  modo  de  enfrentar  opositores .

Quando  a  contradição  é  grande  demais  que  vai  além  de  qualquer  racionalidade ,que encontra    aqui  o  seu  limite , simplesmente  calamos . É o  mysterium   iniquitatis  , o  mistério da iniquidade    que  até  hoje  nenhum  filósofo , teólogo  ou  pensador  encontrou  -  lhe  uma  resposta .  Cristo  na        cruz  também  gritou  e  sentiu  a   "  a  morte   "  de  Deus  .  Mesmo  assim  vale  a  aposta  de  que    todas  as  trevas  juntas  não  conseguem  apagar  uma  luzinha  de  bondade  que  brilha  na  noite  humana .  É  a  nossa  esperança  contra  toda  a  esperança .

Fonte  Jornal  Correio  da  Manhã   -   pág  2   -   OPINIÃO   -   Leonardo  Boff  *                                Data  -  Quinta  -  feira ,  5  de  fevereiro  de  2026  -   " Leonardo  Boff  é  filósofo , teólogo  escreve mpara  a  revista  LIBERTA   do  ICL   ;  Paixão  de  Cristo  -  paixão  do  mundo  , Vozes  2009 

 


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