quinta-feira, 9 de julho de 2026

Coleção discute os temas atuais da psicanálise

 



O  sonho acabou ,cem anos depois  da  criação  da teoria freudiana  dos  sonhos ?  Não ,o sonho          não acabou , a sociedade  estudada  por  Freud  é  que acabou  e  se  transformou  tanto  que  as          doenças ,hoje ,são outras .Depressão , toxicodependência , pânico , border  line , anorexia , falso          self  - nunca  tantos  ao  mesmo  tempo  foram  acometidos  de males tão  cruéis  como na  socie-          dade  moderna . O  que  leva  uma conclusão : é  a  sociedade  moderna  quem  ria  o  doentio.

Que  sociedade é  essa  ? A  resposta  é  o  raio  X  da  psicopatologia contemporânea  despreten -        ciosa  da  Casa  do  Psicólogo . São  22  livrinhos  em  torno  de cem páginas  cada  um com , de            custo  variando  entre  R$ 10  e  R$ 16 , escritos por  psicanalistas tarimbados , mas que  têm  40          anos em média . Os autores estão  totalmente  sintonizados  com  o sofrimento psíquico  dos nos -      sos  dias , capazes  de decifrar as máscaras  sob as quais  esse  sofrimento  aparece . Três já estão            no  mercado com  os  títulos  Perversão , Psicossomática  e  Emergências  Psiquiátricas . 

O  autor  do primeiro  livro  e  diretor  da  coleção ,o psicanalista  e  professor  do  Instituto  Sedes      Sapientiae , Flávio  ferraz , faz  o  retrato  dos  pacientes  neste  fim  de  século  e  diz  o  que todo      mundo  devia  saber  para  reduzir  o  caos .

Citando  dois  psicanalistas  , Jurandyr  Freire  Costa   e  Joel  Birman  , estudiosos da falência do  sujeito  na  sociedade  moderna  , Flávio  Ferraz  localiza  a  raiz dos  males  modernos . "  Essa  é          uma  sociedade , que  exige  não  apenas  a  realização  interna . Hoje  se  exige  nada  menos  que        o  sucesso  . E, além  disso , a  publicidade  desse  sucesso , feito  de  preferência  na  mídia . Hoje    não  basta  o  sujeito  estar  bem consigo  mesmo  -  é  preciso  estar  bem - sucedido no mercado e  estar  nas  colunas  sociais . A  depressão  é  uma  forma  normal  de  reagir diante da incapacidade   para  um feito  desse  tamanho . Nem  todo  mundo  pode  estar nas colunas sociais  todos os dias,      mas  fora  dela  o  sujeito  se  sente um  nada . É a brutalidade  da  exigência da  vida moderna que        dá a sensação  de  fracasso , adoecendo  e  matando  as  pessoas .  Nunca  fomos  tão  longe , nem        Freud  imaginou  isso  " .



Para vencer  essa  exigência  é necessária  uma  dose  de perversão .Os que cultivam a perversidade  chegam ao  topo . E  domam  o  restante  que , incapaz   dela , adoece . São várias  as formas de  do-ença . Há  o  pânico , que é  o total  de desamparo . A  depressão , que  é  a resposta da incapacidade    de  conviver  com  as regras  impostas .Também  a  perversão e  a dependência  - todos  os  temas e  títulos  dos livros  dessa  coleção . " Na ausência  de  um  objeto interno  bom  e  tranquilo ,o sujeito  vai  buscar  adições  compulsivas  .Seja  no  sexo , no  jogo , nas  drogas , nas perversões  diversas  -    que  são  defesas contra uma desorganização maior  psicótica , antídoto  contra a crise insuportável      da  angústia  " . 

Mudança  -  a sociedade  estudada  por  Freud  produzia  histerias .A contemporânea  fabrica soma-tizações .  "  A  histeria  é  o  mundo  dos  sonhos , aquela  bem  mentalizada  que  produz  sintomas  simbólicis  -  e  nisso  há  uma grande  elaboração  e  um  mundo  riquíssimo  de fantasia  mental " ,    diz  Flávio  Ferraz . "  Hoje  os  males  são  os  da  somatização  .Mas  ela ocorre  quando  a elabo -ração  simbólica  se torna impossível  e ,  na  falta  de  um  leque  rico  de representações ,  o corpo  responde , quase  em  proteção , ao  aparato  psíquico  . " 



Esse  empobrecimento  mental  é  reflexo  da  sociedade  moderna , pelo  menos  para os discípulos      do  psicanalista  inglês  Winnicott ,que foi  mais  fundo nas doenças  causadas  pelo  meio  social . "      A  prima  da  psicossomática  é  a   síndrome  do  pânico , sensaçao  iminente de  morte " , diz  o  dr      Ferraz  .  " Mas a  neurose  de angústia  da  qual  Freud  falava  não  tinha a importância social  que  tem  o  pânico  hoje " .

O aceleramento da  frequência  das  crises ,das  ausências  e da  dificuldade de elaboração tem uma  causa  a  rapidez das  exigências . E do ritmo  da  velocidade  .  " Freud  tem um  artigo  em  que co-menta  como  o  mundo  estava  ficando  complicado ,  por  causa  do  trem  que  levava  as  pessoas    em  poucas  horas de  um  lado  para o  outro ,  e  o  telefone " ,  diz  Flávio  Ferraz . "  Imagine  só , como  uma  música  do  Gil , o que mudou a  jangada  e  o  saveiro  para o  avião  - e  a  Internet , e    como  as  exposições do sujeito  a  essas  intensidades  e  quantidades   (  a  qualidade  não  conta  )  Produz alterações  e novas formas de  psicopatologia .Para entender  o que se  passa em torno temos        de  rever  os  paradigmas  sociais  todos  os  dias , para  não  dizer  várias  vezes  ao  dia " .



O  vale - tudo  e  as regras  nada claras  dessa  sociedade  sem  um  projeto coletivo  real afeta a ética  em  cheio , interfere  nos  níveis  de  violência  e  na  taxa  de  felicidade  de  cada um .

Sem  pessimismos , tal  qual o  psicanlista  italiano  Contardo  Caligaris  , Flávio  Ferraz não acredita  na morte das  utopias  nem  que  haja  saída . "  Sou  otimista  e  a  prova  é   essa  coleção ;  só enten - dendo os  males  é  possível  curá - los  e  ajudar  as  pessoas . "  A  coleção  inclui temas  como o  au-tismo , fobia , distúrbios  do sono , esquizofrenia , problemas  de  aprendizagem , neurose  obsessiva ,   hipocondria , disfunções  sociais , transtornos  de  identidade  sexual  e  hsiteria . 

Ele  avisa : "  São  livros  curttos , mas  não  são  resumos , muito  menos  livros de  auto - ajuda  que  só  ajudam  mesmo , com  as  grandes  tiragens , ao próprio  autor ; esses  livros  são  para  pais , pro-fessores  , profissionais  cidadãos  comuns " . 

Fonte  -  Jornal  O  ESTADO  DE  SÃO  PAULO  -  pág  D 9  -  CADERNO  2  /  CULTURA          Data  -   15  de  outubro  de  2000  -   Livros  -   NORMA  CURI  -  Especial  para  o  Estado 


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