sexta-feira, 3 de julho de 2026

Globalização da indiferença e globalização da impotência

 



Duas  expressões  aproximativas , mas  com  diferentes  matizes . A  globalização  da indiferença            vem do  Papa  Francisco ; a  globalização  da impotência  vem  do  Papa  Leão  XIV . Enquanto a  primeira  fecha o olhar  para o  que  ocorre  na  política  econômica  global , a  segunda reconhece          a fragilidade  das forças  sociais  que poderiam  levar  às  mudanças  necessárias .Uma  vira as cos-        tas  às  assimetrias  das  relações  internacionais , a  outra , embora  ciente desses  males , sente -se          de mãos atadas  diante  da  magnitude  das  tarefas  a  serem  realizadas . Aquela representa  a aves-      truz , que  enfia a cabeça  na  terra ; esta  não  dispoe de mecanismos para  implementar as devidas  transformações .


Uma e outra  se veem  paralisadas  .  A  indiferença  paralisa  quem  não  quer  enxergar , ao  passo          que a  impotência  paralisa  os  que  não  sentem  suficientemente  fortes  para  agir .  Ademais  , a  impotência  é  filha  da  indiferença , na  medida em  que  esta  última , míope  ou  cega ao cenário, contribui  para  cruzar  os  braços . Ambas  são  sinônimas  de  um  conformismo  que  se  acomoda      ao status  quo . Uma  reforça  e  confirma  a outra , o  que  vale  dizer  que ambas e debilitam frente        às distorções  do  processo  de  globalização . Processo  que , ao  mesmo  tempo ,  provoca  concen-        tração  de  renda  e  exclusão  social . Resulta  que  a  pirâmide  socioeconômica  se  torna  cada vez  mais  acentuada  :  a  distancia  entre  os  pobres , na base , e  os ricos ,no vértice , cresce  de forma        inversa  e  progressiva . 


No terreno da indiferença ou  da  impotência , Franscisco  e  Leão  propõem ,respectivamente ,uma         "  cultura da reconcialiação  " . Também  aqui  não será  difícil  verificar  uma  visão aproximativa , com  nuances  diferenciados . De  um  lado ,  a  reconciliação  leva  a  apaziguar  os  corações  ;  de        outro , a  solidariedade  leva  a  estender  a  mão  ao  próximo . a  primeira  procura  supera tensões,      ruídos  e  mal - entendidos  . A  segunda  avança  um  passo  adiante  no  sentido  de  propor  uma        ação  fraterna e  solidária . Uma  prepara  o  terreno  para  que  a  outra  possa  lançar  a  semente  e  colher  os  frutos  da  justiça  e  da  paz . 

Os  dois  Pontífices  se  complementam  reciprocamente  .  Na  sua  proposta ,  a  indiferença  e   a  impotência  tendem  a  ser  superadas  pela  via  da  reconciliação , primeiro ; depois  , pela  via  da  solidariedade . A  proposta  levanta , porém , questôes  inquietantes  .  Exemplo  : como reconciliar  palestinos  e  israelitas , russos  e  ucranianos ? 



Como  derreter  o  gelo  que  une  e  separa  países  e  regiões  limítrofes  ?    Como enfrentar  a vio-lência  étnica  ou político  -  ideológica em vários  lugares do  planeta  ?   Como  reconhecer  a  vio-lência  que  fere  aqueles  que  estão  mais  próximos , que  moram  debaixo  do  mesmo  teto  e que , em  geral , tem  como  vítimas  mulheres  e  crianças .

A  tarefa não  é  fácil . Ganha  com  a  violência  e  com  a  guerra  quem  fabrica  e  vende  armas .    Nas  entrelinhas  dos  discursos  políticos  e  dos  acordos  de  paz ,  escomdem - se   interesses  in-confessados  e  inconfensáveis . Em  nome  do desenvolvimento  e  do  bem - estar  , avança  sub - repticamente  a  corrida  da  legítima  defesa , os  países  buscam  cegamente  se  armar . E , claro , violência  chama  violência  ! ...

Fonte  -  Jornal   O  SÃO  PAULO  -   pág  4   -  EDITORIAL   -   PONTO  DE  VISTA                        Data  - 12  a  18  de  novembro  de  2025   -    PADRE ALFREDO  JOSÉ  GONÇALVES  é  sacerdote  da  Pia Sociedade  dos Missionários  de São  Carlos  e  Vice  - presidente do  SPM  ( Serviço  Pastoral dos    Migrantes  da  CNBB  ) 


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