segunda-feira, 13 de julho de 2026

Gotham City : o macaco louco no supermercado

 




No  Festival  músicas  foram  vaiadas  ou  aplaudidas . Só  Gotham  City  obteve  o  difernte : con -    seguiu  espalhar  pânico  total  e  incontrolável , entre  o  público . Era  a  ameaça , o  incompreen  -      sível , o não  catalogável  pelos  padrões  conhecidos  de  julgamento . Impossível  de ser  julgada , impossível  de  ser  compreendida , impossível  de  ser  vaiada  ou  aplaudida .

O  mesmo já havia  acontecido  com  Caetano  Veloso , há  um  ano , no  mesmo  Festival , com  è  Proibido Proibir . . O  público  urrava  de  ódio , muito  além  da  vaia . Se desesperava  com  uma  música  que  ia  contra  tudo  que  eles  acreditavam  " bom  ou  " mal "



Menos pela  música e  letra  e mais  pela  "  interpretação  "  de  Macalé , Gotham  City  conseguiu        o  que  seus  autores  -  Macalé  &  Capinam  - queriam :  endoidar  a  massa .

O  público em  geral , e especialmente  de  Festival , quer  julgar . Ele tem seus conceitos e precon-    ceitos  permanentes , ele  coloca  seus  julgamentos  como  se  em  vidros  fechados :  isto  é  bom ,    aquilo  é  mau , isto  é  mau  isto  é  bonito , aquilo  é  feio , isto  é  moral , aquilo  é  imoral  e  daí          por  diante . Ele  quer  é  julgar  pelos  padrões  de  julgamento que  possui , segundo  sua  noções             já  estabelecidas  do  que  é  " musical " , " poético " , " político " , " lírico "  e  outras besteiradas          mais .



E  é  a  partir  destes  conceitos  estabelecidos  que  eles  constroem  seus  universos  pessoais , so-          bre  o  qual  tem  domínio  seguro  e  absoluto . Tudo  pode  ser  julgado  segundo aqueles  padrões , tudo  pode  ser  colocado , no  vidro  do  "  bom  "  ou  do  "  mal  " .

E  nesta  tranquilidade , batendo  suas asas  de  morcego ,surge  Macalé  com seu  Gotham  City . É      o  pànico  , Gotham  City  não  pode  ser  julgada  por  eles , porque não  há  padrões  estabelecidos      para  julgamento  daquele  objeto  não - identificado . Invadindo  a  paz  dos  lares  e  dos  conceitos,  Macalé  torna - se  um  macaco  louco  no  supermercado , misturando  formicida  com  massa para  bolos .

Para  aceitar  Gotham  City  era  preciso  quebrar  os vidros  em  que  estão  presos  os  "  conceitos " ,  era  preciso  mudar os  padrões  de  julgamento ,ou mais  abolir os  padrões . Aceitar  Gotham  City  significava  o  caos  nos  mundinho  pessoais  deles . Era ,portanto , uma  ameaça , que foi recebida      como  são  as  ameaças  :  em  pânico .

É  preciso  abrir  as  cabeças  das  pessoas  à  martelada  :  destampar  seus  ouvidos  à  sacarrolha  e  torná -las , assim , aptas  a  ver / ouvir  as  coisas  como  elas  são ,  sem a  preocupação de armazená - las  em  vidros  fechados , de  ctalogá - las  ou  rotulá - las .

No  final  do  Festival ,  Macalé  e  Capinam  eram  os  mais  sorridentes  e  satisfeitos . Eles  conse-guiram uma  fantástica  reação  do  público , conseguiram  abalar  em  muitos  noções  de segurança  pessoal  -  o  grande  entrave  para  as  coisas  novas .

Ninguém , entende , ninguém  explica , é  o  pânico .

Gotham  City  é  -  antes  de  tudo  e  sobretudo  - uma  atitude . 

Gotham  City  conseguiu  :  o  pânico , o  desafio , a  ameaça .  Cuidaaaaaaaaaaado  !

Fonte  -  Jornal   O  PASQUIM  -   pág   17   -   nº  15   - NCR $  0, 50                                                  Rio  ,  GB ,  2  a  8 / 10 / 69  -   NELSON  MOTTA    

Em  terra  de  cego , quem  tem  um  olho  emigra  .

(  Millôr  ou  Sérgio  Porto  ?  ) 


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