sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O problema da existência

 





O  que importa saber  antes de  tudo  é  o  que  somos ,de onde  viemos , para onde  vamos , quais        são os nossos  destinos . As  ideias  que  fazemos  do  Universo  e  suas  leis ,  do  papel  de  cada          um de nós  deve exercer  sobre  este  vasto  teatro ,  tudo  isso  é  de  uma  importância  capital . É        de  conformidade  com  elas  dirigimos  os  nossos  atos  .  É  consultando  -  as  que  fixamos  um          alvo  à  nossa  vida ,  e  para  ele  caminhamos .  Eis  a  base , o  verdadeiro  incentivo  de  toda  a  civilização .Conforme  for  o ideal , assim  é  o  homem . Para as  coletividades , da mesma  forma      que para o indivíduo , a  concepção  do  mundo  e  da  vida  é  que determina  os  deveres ; mostra        o  caminho  a  seguir , as  resoluções  a  adotar .




Mas ,  já o dissemos , a dificuldade  de  resolver  esses  problemas  faz  muitas vezes  rejeitá - las .        A opinião do maior  número  é  vacilante , indecisa  ; os  atos , os  caracteres  se ressentem .Nisso  consiste  o  mal  da  época ,  a  causa  da  perturbação  que  pesa  sobre  todos .  Há o  instinto  do  progresso ;  quer  -  se caminhar , mas  para onde  ir ? O  homem  ignorante  dos  seus  destinos  é  semelhante  ao  viajante  que  percorre  maquinalmente  a  sua  rota ,  sem  conhecer  o  ponto  de  partida  nem o  ponto  de  chegada ,  e  mesmo  sem  saber  qual  o  motivo  de  sua  viagem  ;  do            que  resulta ,  sem  dúvida ,  o  estar sempre  disposto  a  parar  diante  do  menor  obstáculo  e  a      perder  o  tempo  sem  cuidar  do  alvo  que  deve atingir .

O  vácuo e obscuridade  das  doutrinas  religiosas , os  abusos  que  engendraram , lançam  muitos          espíritos  no  materialismo . Ficam  dispostos  a  acreditar  que  tudo  acaba  com  a  morte , que  o  destino  do  homem  é  o  desaparecer  no  vácuo .

Demonstramos  mais  adiante  como  esse  modo  de  ver  está  em  oposição  flagrante  à   expe  - riência e  à  razão . Digamos desde  já  que  isso  é  contário  a  toda  a  noção  de  justiça  e  pro -  gresso .

Se  a vida  está  circunscrita  entre  o berço  e  a  tumba , se  as perspectivas  da imortalidade não        vêm  esclarecer  a nossa  existência , o homem  não  tem  outra  lei  que  não seja  a  do  seus ins-    tintos , dos  seus  apetites , dos  seus  gozos . Pouco  importa  que  ame  o  bem , a  equidade . Se      nada  mais  faz  que  aparecer  e  desaparecer  neste  mundo ; se  leva  consigo  para  o  olvido  as          suas  esperanças  e  afeições , ele  sofrerá  tanto  quanto  mais  puras  e  elevadas  forem  suas  as-pirações ; amando  a  justiça  , como  soldado  do  direito , acreditar - se - à  condenado  a jamais        ver  a  sua  realização ; apaixonado pelo  progresso , sensível  aos  males  dos  seus semelhantes , imagina  que    as  extinguirá  antes  de  ver  triunfar  seus  princípios .



Com  a perspectiva do  nada , quanto mais  particardes  abnegação  e a  justiça , tanto mais vossa        vida  será  fértil  em  amargores  e decepções . O egoísmo  bem  compreendido seria  então  a sur - presa  sabedoria   ;  a  existência  perderia  toda  a  sua  grandeza  e  dignidade .  as  mais  nobres  faculdades , as  mais  generosas  tendências  do  espírito  humano  acabariam  por   fenecer ,  por  extinguir - se  completamente .

A negação  da  vida  futura também  suprime  toda  a  situação  moral . Assim , todo  ato  bom ou        mau ,  criminoso  ou  sublime  , termina  com  os  mesmos  resultados . Não  há  compensação às  existencias  miseráveis ,   à  obscuridade  ,  à  opressão  à  dor  ;    não  há  mais  consolação  nas        provas , esperança  para os  aflitos . Nenhuma  diferença  existe , no  futuro , entre o  egoísta que            viveu  para si  só , e  muitas  vezes  à  custa  dos  seus  semelhantes , e  o  mártir  ou  o  apóstolo          que sofreu , sucumbiu  no  combate  pela  emancipação  e  pelo  progresso  da  raça  humana . A  mesma  obscuridade  os  encobrirá . 

Se  tudo  acaba  com  a  morte  ,  o  ser  não  tem  nenhum  motivo  para  constranger  -  se  para comprimir  seus  instintos , seus  gostos . Fora  das  leis  sociais , nada  pode  detê - lo  !  O  bem            e  o  mal ,  o  justo  e  o injusto  se  confundem  igulamente, se  esvaem  no  nada .  E o  sucídio          será  sempre  um  meio  de  escapar  aos  rigores  das  leis  humanas .



A  crença  em o  nada , ao  mesmo  tempo que  arruina  toda a  sanção  moral , deixa de resolver            o  problema  da  desigualdade das existências  na  parte  que  toca  à  diversidade das faculdades ,      das  aptidões , das  situações , dos  méritos . Com  efeito , qual  o  motivo  por  que  uns possuem    todos  os  dons  do  espírito e  do  coração , favores  da  fortuna ,  quando  muitos  outros  só  ti  -  veram  em  partilha  pobreza  intelectual  ,  vícios  e  misérias  ?   Por  que  na   mesma   família  ,  parentes , irmãos ,  nascidos  da  mesma  carne  e  do  mesmo  sangue  diferem  essencialmente        sobre tantos  pontos  de  vista  ?  Estas  questões  são  insolúveis , para materialistas , da mesma    forma  que para  muitos crentes ; entretanto , vamos  examiná - las sumariamente à  luz da  razão .

Fonte  -  Livro  O  Porquê  da  Vida  -  SOLUÇÃO  RACIONAL  DO  PROBLEMA  DA  EXISTÊNCIA   -   págs  17  a  20   - 17  ª  edição  Fedração  Espírita  Brasileira  -  1994  - RJ 

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