sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A escrava que disse ' não '





 AS  MARGENS  DO  PARAÍBA  DO  SUL 

Mucama  de  uma  fazenda  de  café  no  Vale  do  Paraíba ,  Caetana  se  recusou  a consumar  seu  casamento  forçado 

ÀS  MARGENS  DO  PARAÍBA  DO  SUL , a jovem  Caetana se casou à revelia  com o também        escravo  Custódio , em  uma cerimônia  simples , na  capela da  fazenda  Rio  Claro , em  1835 . A          mucama  de  17  anos  tinha  " grande  repugnância  ao  estado  do  matrimônio  "  e  não  lhe  ani  -      mava  a  ideia  de  aderir  à  vida  conjugal  com  aquele  que  se  tornaria  seu  esposo . Com medo          de  Luís  Mariano  de  Tolosa , seu senhor , o  qual  ordenara  que  se  casasse . Caetana  disse  sim          no  altar ,mas entre quatro  paredes  não  tardou  em  fazer  valer a sua vontade . Negou - se  a con-sumar  o  laço sagrado  por  três  noites  seguidas , mesmo  após  árduas  investidas do cônjuge  .

Humilhado ,  Custódio  se  queixou  à  família  da  moça  e  acabou  por  despertar  a  ira  do  pa  -  drinho  Alexandre , dono  da  casa  em  que  o  casal  morava .  Na  quarta  noite  em  que  ela  se  negou  a  aceitar  o  marido  na  cama . Alexandre  ameaçou  castigar  Caetana  por desobediência . Provida  de  uma coragem  incomum  para  as mulheres  da  época , a  escrava  fugiu aos prantos , sozinha , em  direção  à  casa - grande . 

Não  se  sabe  se foi  por  pena , mas Luis  Mariano  Tolosa  ouviu  as queixas  da  mucama , que        trabalhava  diariamente  em  sua  casa ,  e  decidiu  consultar  um  advogado  para  iniciar  o  pro  -  cesso  de  anulação do  casamento . O processo  de  Caetana  e  Custódio  foi  o  primeiro  (  e  um    dos  poucos  )  no  Brasil  que  teve  como  ponto  de  partida  a  negativa  de  uma  escrava  a con-sumar  um  casamento  arranjado ,  como  mostrou  a  pesquisa  de  Sandra  Lauderdale   Graham  ,      que  descobriu  essa  história . Uma  vez  iniciado ,  o  trâmitre  abriu  uma  brecha  na  legslação    vigente  ao  permitir  que  escravos  fossem  ouvidos  em  Corte , num  julgamento  que  envolvia            três  partes   :  esposa ,  marido  e  Igreja .  As  testemunhas  "  puseram  a  mão  direita  sobre  a        Bíblia  e  juraram  dizer  somente  a  "  verdade  "  . Apesar  de  todo  o  empenho  das  partes ,  a  anulação  foi  negada .


Para  tanto  ,  foi  fundamental  o  depoimento  do  padre  que  selou  a  união  do  casal ,  o  qual      chegou  a  afirmar  em  carta  redigida  em  próprio  punho  que  antes  do  casamento  ouviu  no  confessionário  da boca  de  Caetana  que  ela  manifestava  vontade  de se casar . Durante  cinco      anos , a moça viveu separadamente  de  Custódio , sem  consumar  o  casamento , até  o processo    passar  por  todas  as  instâncias  burocráticas  necessárias . Não  há  registros  se  depois  da  de-          cisão  judicial  ela  cumpriu  seus deveres  de  esposa  e  voltou  a  morar  com  o  marido , o qual ,    aliás , em  juízo , afirmou  não  ter  interesse  em  permanecer   com  ela  contra  sua  vontade .         Caetana  criou  força  para  desafiar  as  estruturas  de  poder  da  sociedade  de  seu  tempo , já           que  casamentos  forçados , principalmente  entre  escravos , era  comum . O  que  sabe  é  que  o  audaucioso  "  não  "  de  Caetana  reverberou  na  história  como   símbolo  de  coragem .

Fonte  -  Companhia  da  Letras , 2005  -  Revista  de  História   -  pág  65  -  ESPECIAL  - Saiba             Mais  GRAHAM  ,  Sandra  Lauderdale  ,  Caetana   diz  "  não  "  ,  História  de  mulheres  de  sociedade  escravista   -   São Paulo  


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