Participei de uma palestra para jovens estudantes em que , instentemente , surgiu a temática do ciúme . Foram muitas perguntas e pouco tempo para respondê - las . A primeira foi : " O ciúme é normal ? " Respondi que sim , toda paixão ,principalmente as primeiras , são sensíveis , intensas e atentas a mínimos detalhes . Atitudes inesperadas deflagram fantasmas de abandono ou infi - delidade .
Outra pergunta : " Quando o ciúme é doentio e por quê ? " É patológico quando sem motivo real , os envolvidos procuram , imaginam ou alucinam enganos , colocando a relação em risco , às vezes mais interessados em confirmar suspeitas do que em conservar a relação .
Nestes, paixão e ciúme fazem parte da mesma estrutura : se amam .Sem dúvida , sofrem , porém o possível engano os excita e lhes provoca emoções intensas e mórbidos prazeres não con -fessos . O ciumento prende a repiração , tem rumores e taquicardia quando , na madrugada , invade o ce - lular do seu parceiro para controlar ligações ou e - mails .
Sofrimento é prazer se onfundem e , em casos extremos e contrariando toda lógica , lhes traz mais alívio confirmar suas suspeitas do que por evidencia sua loucura . O ciúme normal é fácil-mente envolvido em clima de comédia , com amor e humor , já o patalógico difícilmente se resolve , quando adquire contorno de tragédia , como é como é o caso dos crimes passionais .
Há casos nos quais pode ser comprovado que o próprio ciumento tem desejos inconscientes de trair e os projeta em seu parceiro . É evidente que homens e mulheres ciumentos pensam constante e obsessivamente nos possíveis rivais do seu mesmo sexo ; elas estão atentas a mu-lheres bonitas , e eles , a homens atraentes , o que sugere que os ciúmes patológicos , possam estar encobrindo intensos impusos homossexuais inconscientes .
Vejamos finalmente a carta de Eduardo , seu relato é dramático e sua pergunta , intrigante . Rosinha , sem motivo , inferniza sua vida e ele pergunta como será o futuro da relação . É óbvio que já percebeu que a relação não tem futuro . É possível comprovar uma traição , porém é impossível provar a inocência , já que esta não deixa rastros possíveis e sua única garantia e segurança é a palavra do próprio Eduardo , mas ao ciúme , que na prática , não con- segue frear quando eduardo recebe um telefonema inesperado ou atrasa acidentalmente para um encontro . Nessa hora , Rosinha " preferiria " dar um flagrante , porque a cada vez que não tem razão , a perde , tornando evidente sua loucura .
Este quadro não tem um bom prognóstico , e vai depender da capacidade de Rosinha reco-nhecer e estar disposta a tratar seu problema em uma boa terapia . Só então ela vai perceber o que é óbvio : que o amor não cresce em cativeiro , nem é imposto à força , mas sim conquistado com sedução , tolerância e liberdade . Caminho inverso aos seus ataques , que impuldicos , massacram a relação - Rosinha está convencida de que ao controlar , a protege de suas eventuais inimigas .
Fonte - REVISTA O GLOBO - pág 51 - Consultório Alberto Goldin Data - 16 de novembro de 2014 - Alberto Goldin é psicanalista


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