quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Eu me mordo de ciúmes

 



Participei  de uma  palestra para  jovens  estudantes  em que , instentemente , surgiu  a temática do  ciúme . Foram muitas perguntas  e pouco tempo  para respondê - las . A primeira  foi  :  "  O ciúme        é normal  ? "  Respondi que sim , toda paixão ,principalmente as primeiras , são sensíveis , intensas      e  atentas a  mínimos  detalhes . Atitudes  inesperadas  deflagram  fantasmas  de  abandono ou infi -    delidade .

Outra  pergunta :  "  Quando o  ciúme  é  doentio  e  por  quê  ? "  É  patológico quando sem motivo       real , os  envolvidos  procuram , imaginam  ou  alucinam  enganos , colocando  a  relação em risco ,    às vezes  mais  interessados  em  confirmar  suspeitas  do  que  em  conservar  a  relação .

Nestes, paixão e  ciúme fazem  parte da  mesma  estrutura  :  se amam .Sem dúvida , sofrem , porém    o  possível  engano  os  excita  e  lhes  provoca  emoções  intensas  e  mórbidos  prazeres  não  con -fessos . O  ciumento  prende  a  repiração , tem  rumores  e  taquicardia  quando , na  madrugada , invade  o  ce  -     lular  do  seu  parceiro  para  controlar  ligações  ou  e - mails . 

Sofrimento  é  prazer  se  onfundem  e , em  casos  extremos  e  contrariando toda  lógica , lhes  traz  mais  alívio confirmar  suas suspeitas do que  por  evidencia  sua  loucura . O ciúme  normal  é  fácil-mente  envolvido  em  clima  de  comédia , com  amor  e  humor ,  já  o  patalógico  difícilmente  se  resolve , quando adquire  contorno  de  tragédia , como  é  como  é  o  caso  dos  crimes  passionais . 

Há  casos  nos  quais  pode  ser  comprovado  que  o  próprio  ciumento  tem  desejos  inconscientes        de  trair  e  os  projeta  em  seu  parceiro . É  evidente  que homens  e  mulheres  ciumentos  pensam  constante  e  obsessivamente  nos  possíveis  rivais  do  seu  mesmo  sexo ; elas  estão  atentas a mu-lheres  bonitas , e  eles  , a  homens  atraentes , o  que  sugere  que  os  ciúmes patológicos , possam  estar  encobrindo  intensos  impusos  homossexuais  inconscientes .



Vejamos  finalmente  a  carta  de  Eduardo ,  seu  relato  é  dramático  e  sua  pergunta ,  intrigante . Rosinha ,  sem  motivo ,  inferniza  sua  vida  e  ele  pergunta  como  será  o  futuro  da  relação .  É  óbvio   que  já  percebeu  que  a  relação  não  tem  futuro .  É  possível   comprovar  uma  traição  , porém  é  impossível  provar  a  inocência ,  já  que  esta  não  deixa  rastros  possíveis  e sua  única  garantia e  segurança  é  a  palavra  do próprio  Eduardo , mas  ao  ciúme , que  na  prática , não con-    segue  frear  quando  eduardo  recebe  um  telefonema  inesperado  ou  atrasa  acidentalmente  para      um  encontro . Nessa hora , Rosinha  "  preferiria  "  dar um  flagrante , porque  a  cada vez que não  tem  razão , a  perde , tornando  evidente  sua  loucura .

Este  quadro  não  tem  um  bom  prognóstico ,  e  vai  depender  da  capacidade  de   Rosinha  reco-nhecer  e  estar  disposta  a  tratar  seu  problema  em  uma boa  terapia . Só  então  ela  vai perceber      o  que  é  óbvio  :  que  o  amor  não  cresce  em  cativeiro ,  nem  é  imposto  à  força  ,  mas     sim  conquistado  com  sedução ,  tolerância  e  liberdade .  Caminho  inverso  aos  seus  ataques  ,  que    impuldicos , massacram  a  relação  -  Rosinha  está  convencida  de  que  ao  controlar , a  protege      de  suas  eventuais  inimigas . 

Fonte  -  REVISTA  O  GLOBO   -   pág  51   -  Consultório  Alberto  Goldin                                          Data  -  16  de  novembro  de  2014   -   Alberto  Goldin  é   psicanalista  



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre a postagem.