Poderosa rainha africana , Nzinga Mbandi resistiu à invasão portuguesa , guerreou e exerceu a diplomocia para se manter no poder por quase 40 anos
NÃO FOI FÁCIL PARA PORTUGAL RETIRAR MILHARES DE PESSOAS da África para servirem como escravos na América . Longas lutas de resistência foram travada contra a co- lonização , que contava com altos investimentos militares e uma política que combinava com opressão , violência e alianças com chefes locais .
A trajetória de Nzinga Mbandi é um exemplo de como os chefes centro - africanos enfren - taram avanço português . Hábil guerreira , estrategista , política e militar , Nzinga foi uma líder carismática , uma rainha que passou a vida combatendo e morreu sem nunca ser capturada .
Ela nasceu em 1582 , filha do oitavo Ngola ( do qual derivaria o nome Angola ) , título prin - cipal régulo do reino do Ndongo . Os portugueses haviam iniciado a colonização a partir de Luanda sete anos antes, e foram ganhando o interior com a construção de " presídios " - for-tificações militares no curso do Rio Kwanza , que abrigavam os comerciantes de escravos - e a principal mercadoria eram as pessoas escravizadas . Criaram também um sistema de avas-salamento de sobas , os chefes locais autônoms que pagavam tributos ao Ngola em troca de proteção militar e espiritual . Após a invasão portuguesa , eles eram batizados e se declaravam fiéis à Coroa . Essa condição incluía diversos compromissos : fornecer baculamentos ( tri - butos pagos geralmente em escravos ) , dar passagem as tropas do governo , permitir ki - tandas ( feiras e mercados ) em seu território e contribuir com escravos para serem so - bados da " guerra preta " - o pelotão que lutava ao lado dos portugueses .
A guerra se generalizava , e com ela o clima de instabilidade . os soldados intensificavam os ataques a povoados vizinhos para saldar suas dívidas com os portugueses , pois os prisio -neiros capturados em guerra eram escravizados . Ao sinal de qualquer atitude considerada infiel , o governo português invadia os sobados e matava seus líderes , substituindo - os por chefes aliados .
Negociadora da paz com Portugal , ela defendeu a independência de seu reino , mas se sub- meteu ao batismo católico
Foi nesse contexto de penetração portuguesa no reino de Ndongo , movido pelo tráfico negreiro , que Nzinga Mbandi cresceu . No reinado de seu irmão Ngola Mbandi , agravou - se a tensão entre os locais e os conquistadores . Em 1617 , o governador de Angola Luis Mendes de Vas- concelos , invadiu o reino do Ndongo , para construir o presídio de Mbaka , a poucas milhas da Cabaça , a moradia de Ngola . o resultado foi uma guerra intensa , ao fim d qual Ngola , ven-cido refugiou - se na ilha de Kindonga , no Rio Kwanza . Em 1662 , João Correia de Souza assumiu o govero e deciciu procurar o Ngola para restabelecer a paz , uma vez que o cenário de guerra paralisara os mercados de escravos . Foi quando Nzinga entrou em cena .
Ngola Mbandi mandou sua irmã mais velha como embaixadora para negociar a paz com os portugueses . Na audiência com o governador , ela impressionou os presentes por sua inteli -gência e habilidade diplomática . Defendeu a manutenção da independência do Ndongo e o não pagamento de qualquer tributo à Coroa portuguesa , mas se mostrou aberta ao comércio . Entendendo que a paz com os portugueses passava pelo batismo cristão , aceitou o sacramento : recebeu o nome de D . Anna de Sousa , tendo como padrinho o próprio governador . De sua partee , os portugueses se comprometeram a efetivar a retirada do presídio de Mbaka .
O acordo , porém , não foi cumprido nem por aquele governador nem pelos sucessores . a si-tuação levou ao enfraquecimento político de Ngola Mbandi , que morreu na ilha de Kindonga , em 1624 , em circunstâncias que continuam sendo uma incógnita para a historiografia de Angola . Nzinga se apoderou das insígnias reais e assumiu o trono do Ndongo .
A nova rainha foi associada à possibilidade de libertação do povo Mbundo , etnia predominante no reino Mdongo . As crescente fugas de kimbares - escravos que esguarneciam os presídios ou eram dados pelos sobas para compor a " guerra preta " - enfraqueciam as tropas lusas , enquanto fortaleciam o exército de Nzinga . Aproveitando -se desse contexto favorável , a rainha lançou uma campanha anti - lusitana , formado e liderando uma confederação de descontentes com a colinização . Conquistou o apoio de sobas que já haviam se avassalado , além de poderosos chefes que não pertenciam ao Ndongo , com o Ndengo Mbwila ( Ambuíla ) .
Capturar Nzinga e reduzi - la à obediência passou a ser um dos objetivos principais do governo português .
Unidos pelo tráfico
Entre os anos 1600 e 1800 , mais de 3 , 1 milhões de pessoas , só da região de Centro - Oci-dental da África , embarcaram rumo à escravidão nas Américas e em ilhas africanas , como São Tomé . No entanto , ca escravidão na África é bem anterior à presença dos europeus do continente . O reino do Congo , por exemplo , já usava mão de obra escrava para o serviço militar , administrativo e na agricultura antes da presença dos portugueses , no início do sé- culo XVI . A chegada dos lusitanos modificou e intensificou a prática , uma vez que Congo e Angola eram poucos estratégicos na transferência de escravos do interior para a costa . A aliança entre a nobreza congolesa e os portugueses rendeu bons frutos , ambos aumentaram seus lucros com tráfico e conseguiram expulsar os " terríveis " jogas , que ocuparam a ca - pital entre 1568 e 1572 . Além disso , a elite do Congo podia investir em lavouras em São Tomé , administrada pelos portuguses . Lá , os ricos congoleses casavam suas filhas com os portugueses residentes , fortalecendo mais a aliança . Os acordos com os europeus eram im - portantes para os africanos num cenário em que estes soberanos tinham dificuldade em con -solidar seus domínios e manter centralizado seu território . Os lusitanos não eram os únicos com interesses na região , muito menos os únicos a fazer acordos . Os ingleses e holandeses também estavam por lá , e em 1640 , com a ajuda da rainha Nzinga , , expulsram os portugueses de Luanda . Só que por pouco tempo . ( Cristiane Nascimento )
Fonte - Revista de História - Biblioteca Nacional - págs - 46, 47 e 48 - Retrato Data - Outubro de 2012 - MARIANA BRACKS




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