terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ginga , a incapturável

 



Poderosa  rainha  africana , Nzinga  Mbandi  resistiu  à  invasão  portuguesa , guerreou  e  exerceu          a  diplomocia  para  se  manter  no  poder  por  quase  40  anos 

NÃO  FOI  FÁCIL  PARA  PORTUGAL  RETIRAR  MILHARES  DE  PESSOAS  da África para        servirem  como  escravos  na  América . Longas  lutas  de  resistência  foram  travada  contra  a  co-      lonização , que  contava  com  altos  investimentos  militares  e  uma  política  que combinava  com  opressão  , violência  e  alianças  com  chefes  locais .

A  trajetória  de  Nzinga  Mbandi  é  um  exemplo  de  como  os  chefes  centro - africanos enfren -      taram avanço  português . Hábil  guerreira , estrategista , política e  militar , Nzinga  foi  uma líder  carismática  , uma  rainha  que  passou  a  vida  combatendo  e  morreu  sem  nunca  ser  capturada .

Ela  nasceu em 1582 , filha  do oitavo  Ngola  (  do  qual derivaria o  nome  Angola  ) , título prin -    cipal  régulo  do  reino  do  Ndongo . Os  portugueses  haviam  iniciado a  colonização  a partir  de  Luanda sete anos  antes, e  foram ganhando  o  interior  com  a  construção  de  "  presídios  " - for-tificações  militares  no  curso  do  Rio  Kwanza ,  que  abrigavam  os  comerciantes  de  escravos -          e  a  principal  mercadoria  eram  as  pessoas  escravizadas . Criaram  também um  sistema de avas-salamento de  sobas , os  chefes  locais  autônoms  que  pagavam  tributos  ao  Ngola  em troca  de  proteção  militar  e  espiritual .  Após a invasão  portuguesa ,  eles eram batizados e se declaravam          fiéis  à  Coroa .  Essa  condição  incluía  diversos  compromissos  :  fornecer   baculamentos   ( tri -        butos  pagos  geralmente  em  escravos  )  ,  dar  passagem  as  tropas  do  governo ,  permitir   ki  -      tandas   (  feiras  e  mercados )   em  seu  território  e  contribuir  com  escravos  para  serem  so -        bados  da  "  guerra  preta   "  -   o  pelotão  que lutava  ao  lado  dos  portugueses . 

A  guerra se  generalizava , e  com  ela  o  clima  de  instabilidade . os  soldados intensificavam os      ataques  a  povoados  vizinhos  para  saldar  suas  dívidas  com  os  portugueses ,  pois  os  prisio  -neiros capturados em guerra eram  escravizados . Ao sinal  de qualquer atitude considerada  infiel ,        o  governo  português  invadia  os sobados  e  matava  seus  líderes , substituindo  - os  por chefes      aliados . 

Negociadora  da  paz  com  Portugal , ela defendeu  a  independência  de  seu  reino , mas  se sub- meteu  ao  batismo  católico 



Foi nesse contexto  de  penetração  portuguesa  no  reino de Ndongo , movido pelo tráfico negreiro , que  Nzinga  Mbandi  cresceu . No  reinado  de  seu  irmão  Ngola  Mbandi , agravou - se  a  tensão  entre  os  locais  e  os conquistadores . Em  1617 , o  governador  de  Angola  Luis  Mendes  de Vas-  concelos , invadiu o  reino  do Ndongo , para  construir o  presídio  de  Mbaka , a poucas  milhas da  Cabaça , a  moradia  de  Ngola . o  resultado  foi uma  guerra  intensa , ao  fim  d  qual  Ngola , ven-cido  refugiou - se  na  ilha  de  Kindonga ,  no  Rio  Kwanza .  Em 1662 ,  João  Correia  de  Souza  assumiu  o  govero e deciciu  procurar  o  Ngola  para  restabelecer  a  paz , uma vez  que o cenário      de  guerra  paralisara  os  mercados  de  escravos . Foi  quando  Nzinga  entrou  em  cena .

Ngola  Mbandi  mandou  sua  irmã  mais  velha  como  embaixadora  para  negociar  a paz com  os    portugueses . Na  audiência  com  o  governador ,  ela  impressionou  os  presentes  por  sua  inteli  -gência  e  habilidade diplomática .  Defendeu   a  manutenção  da  independência  do  Ndongo  e  o      não  pagamento  de  qualquer  tributo  à  Coroa  portuguesa ,  mas  se  mostrou  aberta  ao comércio .  Entendendo  que a paz  com  os portugueses  passava  pelo  batismo  cristão , aceitou o sacramento : recebeu  o  nome  de  D . Anna  de  Sousa , tendo  como  padrinho  o  próprio  governador . De  sua      partee , os  portugueses  se  comprometeram  a  efetivar  a  retirada  do  presídio  de  Mbaka .

O  acordo , porém , não  foi  cumprido  nem  por  aquele  governador  nem  pelos  sucessores . a  si-tuação  levou ao enfraquecimento  político  de  Ngola  Mbandi , que morreu na  ilha  de  Kindonga ,  em  1624 ,  em  circunstâncias  que   continuam  sendo  uma  incógnita  para   a  historiografia   de  Angola .  Nzinga  se apoderou  das  insígnias  reais  e  assumiu  o  trono  do  Ndongo . 



A  nova rainha  foi associada  à possibilidade  de  libertação do povo  Mbundo , etnia predominante    no  reino  Mdongo . As  crescente  fugas  de  kimbares - escravos  que esguarneciam os presídios ou  eram dados pelos sobas para compor  a  "  guerra  preta  "  -  enfraqueciam as tropas lusas , enquanto  fortaleciam  o  exército  de  Nzinga . Aproveitando -se  desse  contexto  favorável , a  rainha  lançou  uma  campanha  anti - lusitana , formado  e  liderando  uma  confederação  de  descontentes  com  a  colinização .  Conquistou  o  apoio  de  sobas  que  já  haviam  se  avassalado ,  além  de  poderosos  chefes  que  não  pertenciam  ao  Ndongo , com  o  Ndengo  Mbwila  ( Ambuíla ) .

Capturar  Nzinga e  reduzi - la  à  obediência  passou a ser um dos objetivos  principais  do governo  português . 


Unidos  pelo  tráfico 

Entre  os  anos 1600  e  1800 , mais  de  3 , 1 milhões  de  pessoas , só da  região  de  Centro - Oci-dental  da  África , embarcaram  rumo  à  escravidão  nas  Américas  e  em  ilhas  africanas ,  como    São  Tomé . No  entanto , ca  escravidão  na  África  é  bem  anterior  à  presença  dos  europeus  do  continente . O  reino  do  Congo ,  por  exemplo , já  usava  mão  de  obra  escrava  para  o  serviço      militar , administrativo  e  na  agricultura  antes  da  presença  dos  portugueses ,  no  início  do  sé-      culo  XVI . A  chegada  dos  lusitanos  modificou  e  intensificou  a  prática , uma  vez  que  Congo        e  Angola  eram  poucos  estratégicos  na  transferência  de  escravos  do  interior  para  a  costa . A  aliança  entre  a  nobreza  congolesa  e  os  portugueses  rendeu  bons  frutos , ambos  aumentaram    seus  lucros  com  tráfico  e  conseguiram  expulsar  os  "  terríveis   "  jogas ,  que  ocuparam  a ca -  pital  entre  1568  e  1572 . Além  disso , a  elite  do  Congo  podia  investir  em  lavouras  em  São        Tomé , administrada  pelos  portuguses . Lá , os  ricos  congoleses  casavam  suas  filhas  com  os  portugueses  residentes , fortalecendo  mais  a  aliança . Os  acordos  com  os  europeus  eram  im -  portantes para  os  africanos  num  cenário  em  que  estes soberanos  tinham  dificuldade em  con -solidar  seus  domínios  e  manter  centralizado  seu  território . Os  lusitanos  não  eram  os  únicos  com  interesses  na  região , muito  menos  os  únicos  a  fazer  acordos . Os  ingleses  e  holandeses  também  estavam  por  lá , e   em  1640 , com  a  ajuda  da  rainha  Nzinga , , expulsram  os  portugueses  de  Luanda . Só  que  por  pouco  tempo .  (  Cristiane  Nascimento ) 

Fonte  -  Revista  de  História  - Biblioteca  Nacional  -  págs  -  46,  47  e  48   -   Retrato                  Data  -  Outubro  de  2012  -   MARIANA   BRACKS  

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