quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ENQUANTO EU , NÓS AINDA

 



Enquanto  inicio este  texto , o  Xingu está em chamas .O  Brasil  está em chamas .Nosso céu está  coberto  por  fumaça  em  60 %   de  seu  território . O  fogo  já  subiu  para  os morros do Rio ,em  Florianópolis  e  assistimos  a  um  espetáculo  horrendo  de  destruição .  Hoje , a caneta que antes      iria versar  sobre  a  peosia  se  vê  obigada  a um  desabafo  estreito  e  consumido  pela  ideia :  eu        sabia . Todos  nós sabíamos  que  isso  iria  acontecer . Que  após  a  boiada  passada ,  passaríamos        também  os  troncos  de  madeira  nobre , o  veneno  que  nos  mata  dia  a  dia,  os  corpos   - antes    violados , sempre  violadas  das  cunhatãs  -  agora  mortos  com  a  marca  do  território que defen-    diam .  Olhamos  esse  desfile  como  uma  para  de  sete  de  setembro ,  mas  não  é . Este  desfile  grotesco  é  nossa  vida  apontando  o   dedo  na  nossa cara  para  dizer  que   não  temos  nenhum          poder  sobre  aqueles  que  querem  destruir  o  que  não  possuem . Uma  lógica  perturbadora que  permite  matar  tudo  aquilo  que  não  é  sua  propriedade . Ou pior , sugar  aquilo  que  é de todos .      A  impotência  que  nos  une  e  nos  desqualifica , a falta  de  poder  em  dizer  basta  e  a  voz sem        ser  ouvida ,  atolam  a  poesia  em  um  lamaçal  de  utilidades .  Já  não  contemplamos  mais , já          não permitimos  que ela se  revele  pelo revelar . Já não  temos  coisa alguma  apenas pelo simples          fato  de  ser .  Tudo  tem  que  estar  a  serviço  de  algo .  O  sutil  é  pisoteado  pelas  botas   lama -    centas da corrupção  e  queremos  gritar  com  toda  força  a  injustiça  de presenciar  nossa  morte -        a  morte  da  única  vida  existente  que  é  o  planeta  -   mas  quem  nos  escuta  ?    Como  posso            falar  sobre  o  movimento  que  tentamos  realizar  para  reduzir  a  velocidade ,  para  observar  o  entorno , para  a  troca   diária  e  delicada  de  ideias  e   pontos  de  vista  ?   Não ,  não  podemos            mais . temos  que  ser  fogo  que  queima  na  velocidade , dos  acontecimentos . Mais  ainda ,  a  labareda  que  corre  e  se  espalha   ampliando  a   destruição  do   convívio .  Todo  mundo  tem            uma  fórmula  infalível  para  qualquer  problema . Ninguém  mais  pede  conselho ,  dá  sem  que          solicitem . É  cada  dia  mais  raro  a  escuta  de  quaidade  e  acolhedora . Nos  preocupamos  em        ser  o  primeiro  a  postar  a  notícia , o  primeiro  a  dar  opinião ,  o  primeiro  a  ser  o  primeiro .          Uma  corrida   inútil  e  cega  por  termos  nas  mãos  as  certezas  enquanto  corremos  a  tela  da        vida .  Somos  espectadores  da  vida  sem  termos  ação  assertiva  sobre  os  fatos  que  destroem            tudo  o  que  temos . Já  não  temos  mais  aquela  sensação  de  novidade . É  tudo tão enfadonho .        É  tudo  tão  desalentador . 



Enquanto  eu  escrevo  este  texto  , o  Xingu  está  em  chamas . O  Brasil  está destruído  em sua  intimidade  naquilo  que  tems  de  mais  precioso , sua criatura  e  sua  gente , mas que  não serve    para  nada .Deixamos  isso acontecer , pois  queremos  o novo, o  moderno , o progresso . Sempre      quando  penso  a  palavra  progresso   ouço  o  barulho  de  serra  elétrica  e  do  fogo  consumindo          as matas  e   toda  vida  que  nelas  existem .  Nos  afastamos  do   poético  para  termos  imediato . onfundimos  poesia  com  poema  e  cultura  com  entretenimento , trocamos  os  significados das  npalavras , achamos  que  conteúdo  digital   é  conhecimento ,  nos  iludimos  ao  aplaudir  frases          de autoajuda , como se fosse  poesia . Queremos a fruta brilhante  e  nunca  a goiaba com bicho .          Já  não  falamos  mais o  nome  das  coisas , das pessoas , dos  sentimentos . Trocamos  tudo  por          uma  foto  produzida  acompanhava  de  hastag .

A  Hidra  encarnada  com agronegócios ,soprou  seu  bafo  sobre  o País  e  Héracles está vidrado      diante  da tela que  aponta  suas flechas  ao crescimento  das  LCAs  e  CRAs .O monstro  passou          a  ser seu retorno  ativo  e  passivo , sem que  precise  se  expor  ou  compor  o coro tossegoso da      ralé  perdedora  e  abre  mão  de  seu  povo .



Enquanto  finalizo  este  texto ,  Xingu  está em chamas  O  Brasil  está  em chamas e tenho a res-ponsabilidade  de apresentar  um ovo  momento do Jornal  da  Poesia , no  ano que se abre ao flo- rescer  da  primavera ,  e  temos  ainda  mais vozes  dos  poetas  para  ecoar .  Mas  entendo  que  nenhum  nascimento  é  fácil  , e depois  de  vivo  no  mundo  ,  sobreviver  é  ainda  mais  difícil . Somos  o  rebento  indesejado  que  busca  a  teta  e  a  proteção  contra  o  barulho  ensurdecedor          do massacre  que  é  o  mundo  lá  fora . Somos a  voz  tímida  que  tem  um  grito  contido e  que      dará  liberdade  a  todas  as  letras  possiveis  , vindas  das  mãos  das   mulheres  que  seguram a        pena .  Somos  a  pequena  fresta  que  permite  a   luz  entrar  para  delinear  as   formas  de   um    quarto  escuro , quarto  este que  esconde  violências , silenciamentos  e fome  voraz sobre nosso    corpo  de  mulher .

Enquanto  escrevo o  Brasil  queima e ainda tenho  forças  para  defender a  poesia nascidas das  mulheres .  

Fonte  -  Jornal  poesi ( A )   - pág  4  -  Data  Primavera  de  2024   n . 5   -  Flavia  Quintanilha -  poesia  mundo 



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