quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A arte das crianças de Terezin

 



Nas suas aulas de desenho ,as crianças eram  supervisionadas por Frieldl  Brandeis  ( Frederiecke ) ,    uma  vienese  que  estudara  na  Bauhaus  de  Weimar ,  com  pintores  como  Paul  Klee , e  que  já        era  reconhecida  como   arquiteta  de  interiores  antes  da  deportação .  A  marca  da  escola  Bau -        haus  é  evidente  nas  obras  das  crianças :  basta  observar  os  inúmeros  estudos  de  cores  e  luz ,      bem  como  os  trabalhos com colagens . Faziam-se , também , estudos  de  perspectiva  e  de várias  técnicas  de  representação  ; tudo  isso  com  eios  materiais  como  lápis , tintas , papel ,  extrema -        mente  precários . Brandeis  dava  total   liberdade  a  seus  pequenos  alunos . Ela  foi  assassinada          em  Auchwitz  em  1944 . Cerca  de 4.000  desenhos  de  crianças  de  Terezin  foram  preservados .

Várias  revistas  ( manuscritas  e  ilustradas  a  lápis  de  cor  ou  aquarela )  foram  produzidas  por  adolescentes  em  Terezin , como  Karamarád  (  22  números  ) , Rim - rim - rim  (  21  números  ),        Vedem  ( Avante , órgão  da  "  República  Skid  "  -  sucedânea  no  Campo  da  escola  de  edu -          cação  social   e  individual  Dostoievski  " , de  Leningrado  -  com  mais  de  50  números ) , entre          outras . Nelas  já  se  percebe  a  dupla  função  que  a  arte  cobria  no  Campo :  o  testemunho  da        vida  quotidiana  e  a  de  ser  uma  "  janela  "  para  a  fantasia .Narravam - se  viagens , aventuras        etc . Também  diários  escritos .



Praticamente  todas   as  atividades  quotidianas  do  campo   de  concentração  são  representadas            nas obras de  arte  dos  internos  de  Terezin  e  nos  seus  trbalhos  pode - se  perceber  o papel  da    arte  como  forma  de  resistência  espiritual   e  de  afirmação  da  individualidade  :  paisagens  e        lugares  são lembrados  ou  imaginários , em contraposição  a  um  dia-a-dia  marcado  pelo medo          e  pela  desesperança . Obras  abstratas  representam  o  mergulho  numa outra  esfera  para , como      afirmou  Charlotte  Buresova ,  pintora  nascida  em  1904 ,  uma  das  internas  de  Terezin ,  apre-        sentar  "  todas  as  coisas  incríveis  que  ela  vira ... para  opor - se  com  a  beleza  do  desastre  " . Outra  modalidade  desta  arte  de  resitência  espiritual  pode  ser  encontada  nas  representações        que   procuram  dar  ordem  ao   caos  do  campo  de  concentração .  O  mundo  torna-se  visível          nestas  representações  sem  compromisso  realista .

A  arte  das crianças  de  Terezin  funcionava , igualmente , como comemoração  de  vida  : Zoran        Music ,  o  conhecido  artista  nascido  em  1909 ,  um  prisioneiro  de  Dacchau ,  afirmou  que  a          arte  lhe  dava   "  força  para  sobreviver  " , o  que  fica  claro , especialmente , nos  auto-retratos .      São  tentativas , de  manter  a  identidade  ante  forças  destruidoras  extremamente  violentas . Há  muitos  retratos  que  serviram  tanto  para  serem  enviados  posteriormente  aos  familiares , afir-mando  a  sobrevida  do  prisioneiro ,como  para comunicar  amorte  dos que  foram  assassinados .        É  digno  de  nota  que  muitos  destes  retratos  portam uma dupla  assinatura : do  artista  e  do re-  tratado . Aqui  também  já  se  percebe  a  função  de  testemunho  desta  arte .  Halina  Olomucki ,        que  começou  a  pintar  no  gueto  de  Varsóvia , recorda  :  "  Quando  estava  em  Auschwitz  -      Birkenau  alguém  me  falou , ' se você  sobreviver  a este  inferno , faça as suas  pinturas  e  conte      ao  mundo  sobre  nós . Queremos  permanecer  entre  os  vivos ,  ao  menos  no  papel " .  Nesses            desenhos  deveos  ver ,  antes  mais  nada , a  concretização  possível  deste  desejo  de  sobrevi  -          vência ,que  só  pôde  ser  realmente  realizado  por uma  parcela  ínfima  dos  internos  do  campo .

A  maior  parte  das  obras  de  arte  criadas  no campo  tem  a  função de  testemunho .Daí a forte tendência  ao  realismo . Com  relaçã  a  este  aspecto  de  sua  arte  lemos  as  palavras  de  Karol  Konieczny :  "   Meus  desenhos  não  devem  ser  submetidos  a  um  escrutínio  e  a  uma  crítica        estética .  Eu  desejo  que  eles  sejam  considerados  como  um  documento  vivo  e  chocante  de        um  mundo  de  horro  e  tormento . Eu  desejo  que  os  jovens  saibam  como  foi , de  modo que          eles  compreendam  e  não  permitam  tais  fatos  e  se  repilam  no  futuro .  "  Halina  Olomucki    acrescenta  outro aspecto  importante  no testemunho  artístico  :  "  Minha  intenção  era  a deixar          um  documento  sobre  o  crime  de  destruição  era  a  de  deixar  um  documento   sobre    crime        da  destruição  de  nosso  povo . Esta  necessidade  de  documentar  tornou - se  uma  força  extra-ordinária  que  me  levou  à  sobrevivência .Meu  único  objetivo  na  vida  era  viver , de  modo a    poder  testemunhar  ante  o  mundo  a  mais  terrível  de  todas  as  atrocidades . " 

A  arte  funcionava  também  como  meio  de  extravasar  o  medo  e  a  dor , a  raiva  e  o  ódio ,    permitindo  assim  uma  espécie  de  purificação  destas  paixões . Esta faceta  testemunhal  e ca-  tártica  não  excluiu  o  humor  e  a  caricatura  das  obras  dos  campos  de  concentração .



Os  desenhos  das  crianças  de  Terezin ,   que  fazem  parte   do  acervo  permanente  do  Museu        Judaico  de  Praga , trazem  ao  público  brasileiro uma  importante  e  original  faceta  desta  pro-  dução  artística ,  que  nasceu  da  tentativa  de  extermínio  dos  judeus  e  a  ela  se  ôpos .  Estas          obras  foram  vistas  como  atos  de  memória  contra   o  esquecimento  da  barbárie .  Mas  com        suas  cores  e  temas  -  tristes  mas  também  alegres  -  apresentam  um  pouco  da complexidade  daquela  catástrofe  que  foi  Shoá .  O  que  ocorreu  com  as crianças  que  criaram  estas  obras              -  e  com as    demais  que  foram  assassinadas  -  representa  uma  das  faces  mais  violentas  da-      quele  momento  histórico  e  da  história  como um  todo . Nada  mais  justo  que preservá - las e  homenageá - las. Deixemos  que aquelas  crianças  nos falem  com suas  cores , com  seus traços ,        para  sempre . 

Fonte   -   Revista  18   Centro  de  Cultura  Judaica  -   Data  -  Setembro /  Outubro / Novembro            de  2014  -  Márcio  Seligmann  -  Silva  é  doutor  em  Teoria  Literária  e  Literatura  Comparada        pela  Universidade  Livre  de  Berlim  e  professor  de  teoria  Literária  e  Literatura  Comparada        no  Instituto  de  Estudos  da  Linguagem  da  UNICAMP 


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