sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A arte e o desafio de ensinar

 



DOCUMENTÁRIO  FRANCÊS  RETRATA  O  COTIDIANO  DE  PROFESSORES  E  ALUNOS        DO  ENSINO  PÚBLICO ,  MOSTRADO  DE  MANEIRA  DELICADA   QUE  AS  BARREIRAS      PODEM  SER  VENCIDAS 

Documentários , ao contrário  das  grandes  produções  cinematográficas , possuem  em geral ,or- çamentos  modestos . Normalmente  nascem  da  vontade  de  seus  idealizadores  que ,com  uma            câmera  na  mão e  uma boa  ideia na  cabeça  -  parafraseando  Glauber  Rocha  -  acreditam que        podem executar  projetos  que  acabam  às  vezes ,por  se tornar exceentes  obras . Esse  é  o caso            de  Ser  e  ter ,  filme  francês  lançado  em   DVD , que  oferece  oportunidade  de  fazer  pensar,        captura  a  atenção  e  ajuda  a  resignificar  aspectos  ou  passagens  da  própria  vida .

O  enredo  centra -se  na  vida  de  George  Lopez ,  docente  de  uma  escola  pública  do interior            da  França ,  na  comunidade  de  Aubergne ,  pacata  localidade  cercada  por  fazendas . Tudo  se  desenrola  dentro  e  ao  redor  de  uma  pitoresca  "  escola -de-uma-turma  só  " , na  qual  alunos        com  idade  de  4  a  11  anos  estudam  juntos , com apenas  um  professor . Só  esse  ponto já nos        faria  pensar  na realidade  brasileira  das escolas  públicas  com  salas  lotadas  e  professores que ,  apesar  do  esforço , se  defrontam  com  o  fracasso  escolar  de  seus  alunos . 



Com  o  descortinar  da  história  na  tela , é  invitável  o  espectador  se perguntar :  como , afinal , George  consegue  fazer   diferente  ?   Afinal ,  Freud  já  dizia  que  a   dificuldade  do  ofício  do          educador residiria  em  como saber  dosar  a  dureza  e  a  ternura  e , mais  ainda  suportar  o lugar  transferencial ;  ser  alvo  do  amor  e  do  ódio  dos alunos , além  de convidá -los  a  se haver com        o  princípio  da  realidade  em  oposição  ao  princípio  do  prazer . Tarefa  fácil ?  Certamente não .      Mas  o  protagonista   parece   ter  desenvolvido  um  estilo  bastante   efetivo  na  condução  dessa  missão  pedagógica , ainda  que  seja  alvo  de  críticas  em  certos  momentos , nos  quais as  ques-        tões  morais  parecem  prevalecer .  Mas ,  devemos  lembrar   :  esse  é  um  ambiente  no  qual   a  aprendizagem  enciclopédica  deveria  dar  lugar  à  convivência  entre  os diferentes , quer seja no  ritmo , nas  habilidades  ou  no  potencial  singular  de  cada  um .

Nesse  ponto  George  é  realmete  hábil , lidando  com crianças  que  talvez  fossem  vistas como          "  como  problemáticas  "  e  até  terminassem em  alguma  instituição  para  "  alunos  especiais  ",       a  despeito  dos  esforços  daqueles   que  militam  pela  inclusão .  Uma  adolescente ,  em  parti  -    cular  , praticamente  não falava  e  gerava  uma  invisível  angústia  na  mãe ,que  se  culpava  por    não  saber ,  por  exemplo   ensinar  Matemática  em  casa . A  maneira  como  o  professor  acolhe      sua  mãe  por  meio  de  uma  conversa   e  lida  com  esse  momento   tenso  é  ipressionate . Sem        culpá-la  ou  desmerecê - la , diz  :  "  Bem , talvez  seja  difícil  ouvir  isso , mas você  está  sendo        muito   dura  cosigo  como  mãe . O  que  conta  é  o  desenvolvimento  dela  " . E , mais  adiante ,    concorda  com a  percepção   materna . "  Se ,  de certo  modo , ela  parece  estar distante  de você ,      eu  diria  que  é  uma  transição , uma  transição  necessária  " .

Ao  observar  o  silêncio , afirma  :  " o que  me  parece  iportante  é  vê - la  se  desenvover  e ser      feliz ,  mesmo  que   esteja  um  pouco  distante  de  todos  vocês . Deve  ser  difícil  para  você .. "      Ainda  que  o  espectador  possa  pensar   em  paternalismo   ou  até  mesmo  em   pieiguice , cabe       perguntar  o  que  poderia  ser  razoável   nesse  momento . Então , nos  resta  pensar  na  viabili-    dade  de  um  laço  diferente  entre  professor  e  aluno , transformando  esperança  em  atos . Mu-      dar  o  macro  partindo  do  micro  não  é  fácil , pois exige  transformações  profundas  dentro  de      nós  mesmos . Assistir  a  esse  documentário   com  a  mente  aberta  pode  ser  um  começo .

Fonte  -  Revista  -  MENTE  &  CÉREBRO   -   pág  15   -    Data  2020  -  LEANDRO  ALVES        RODRIGUES  DOS  SANTOS  é  psicólogo , psicanalista , professor  e  supervisor  universitário            ( UNI - A )  ;  doutorando  em  psicologia  clínica   na  Universidade  de  São  Paulo  (  USP  )  ;        membro  do  Fórum  do  Campo  Lacaniano  de  São  Paulo . 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre a postagem.