quarta-feira, 28 de outubro de 2026

HISTÓRIA PERDIDA NA BIBLIOTECA - SANTOS DUMONT

     


Dia  23  dia do  Aviador  e  da  Força  Aérea  Brasileira  



Alberto  Santos  -  Dumont  ( que , aliás , assinava  Santos - Dumont  para demonstrar  que dava  a        mesma  importância  às suas  duas ascendências , brasileiro - lusitana  e  francesa )  escreve  O que      que  eu  vi , o  que  nós  veremos , em 1918 , um  livro  que estava  perdido  no  passado  deste país        sem  memória . Uma  rápida  pesquisa  na  internet  revela  que  a  situação  está  corrigida , graças          aos  esforços  do  professor  José  J . Lunazzi ,  do  Instituto  de  Física  da  Universidade  Estadual          de Campinas  ( UNICAMP ) , e  seus  colaboradores , que  digitalizaram  a obra  em  2000 , após  "        três  jornadas  de   trabalho  e  a  25  clicadas  por  página   .  Com  a  dose  certa  de  ironia  ,  um            tanto  indignada , Lunazzi  conta  a  saga  para  reproduzir  as  101  páginas  do  ivro  sem  riscos , "        pois  os  digitilizadores  usam  luz  sem  radiação  ultravioleta  "  (  Santos  Dumont  certamente te -      ria  adorado  acompanhar  o  processo  )  , antes  de  concluir , entusiasmado  :  "  Descobri  que  o        exemplar  está  autografado  pelo   próprio  Santos - Dumont !  E  que  é  muito  agradável  de  ser        lido  " .

Na apresentação de seu  trabalho , o professor  tece  algus  comentários ácidos . "  Santos - Dumont      inventou o  avião . Todo  mundo  concorda  sobre  isso  no  Brails , muitos  na  França  e  o resto do        mundo  provavelmente  atribui  o  feito  aos  irmãos  Wright  " . A  quem quer  saber  mais  sobre  o        assunto , ele desaconcelha  as enciclopédias , na  maioria  de  origem  norte - americana  ou inglesa        e   "  você  esperaria  que  as enciclopédias  dos  Estados  Unidos  ou  da  Inglaterrs  desse o espaço      a  Santos - Dumont  e  não  a  primazia  aos  Wright " ?



O  nosso  professor  achou  melhor  pesquisar  um documento  da  época  e  nada  melhor do  que  consultar  um  livro  escrito  pelo  próprio  inventor  do  avião . Procurou , sem  sucesso , em bibli-        otecas  e  livrarias . Finalmente , achou  a  raridade  no  Museu  Santos - Dumont  em  Petrópolis ,        mas ela  não pode ser consultada , pois  é  peça de  museu !  Finalmente , descobriu um exemplar          na  biblioteca  da  própria  UNICAMP , que  autorizou  a  digitalização .

Ao  abrir  O  que  eu  vi , o  que  veremos , a dedicatória  revela o  amor  pela  terra  onde o autor  nasceu :  "  Estas  notas  são  dedicadas  a  meus  patrícios  que  desejarem  ver  o  nosso  céu  po  -voado    pelos  pássaros  do  progresso " .  Seguem -se  páginas  que  compõem  uma  rápida  auto-biografia , sempre permeada pela  fascinação  pela  ciência  e  pela  velocidade , e registram o pro-fundo  humanismo  de  Santos - Dumont , que  via  nos avanços  da tecnologia  a alavanca  para a          paz  e o progresso  entre  as nações  e , ao  mesmo  tempo , não via  com  pesar  e  preocupação o      uso  bélico  das  grandes  invenções . No final , a esperença  vence  e  ele  escreve  as derradeiras        frases , numa  mensagem  para  o  futuro :  "  Eu , para  quem  já  passou  o  tempo  de  voar , qui-        zera , entretanto , que a  aviação  fosse  para  meus  jovens  patrícios  um verdadeiro  sport . Meu        mais  intenso  desejo  é   vêr  verdadeiras   escolas  de  aviação  no  Brasil .  Vêr  o  aeroplano   -        hoje  poderosa  arma  de  guerra , amanhã  meio  optimo  de  transporte  - percorrendo  as  nossas  imensas  regiõe , povoando  o    nosso  céu , para  onde , primeiro ,  levantou  os  olhos  o  Padre  Bartolomeu  Lourenço  de  Gusmão  " . 



Com  essa  simples  menção , Santos - Dumont , o  inventor  do  "  mais  pesado  do  que  o  ar  " ,      faz  justiça  a  outro  brasileiro  ilustre que , no  século  XVII  , inventou  "  o  mais  leve  do  que            o  ar  "  em  agosto  de  1709 , em  Lisboa , quando  fez  levantar  vôo  o  balão  batizado  de  Pas-    sarola ,  diante da  Corte  portuguesa .  Encantado  com  o  engenho ,  D. João  V ,  o  rei  de  Por-      tugal , que  concedeu  a  Frei  Bartolomeu  de  Gusmão , mais  um  genial  brasileiro  relegado ao  esquecimento ,  o  direito  sobre  toda  e  qualquer  nave   voadora  desde  então  e ,  para   todos          aqueles  que  ousassem  interferir  ou  copiar -lhes  as  idéias  , a  pena  seria  a  morte .

Fonte  -  Revista  Agitação  -  pág   73  -  Data  -  set / pot  2006  -  CULTURAL


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