quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O QUE É EDUCAÇÃO EMOCIONAL ?



O  QUE  É
EDUCAÇÃO  EMOCIONAL ?

A EDUCAÇÃO  EMOCIONAL COMPÕE-SE de três aptidões: a capacidade de entender as emoções, ouvir as outras pessoas e empatizar com suas emoções, e expressar as emoções produtivamente.
Ser emocionalmente educado é ser capaz de lidar com as emoções de modo a desenvolver seu poder pessoal e a qualidade da vida que o cerca. A Educação Emocional amplia os relacionamentos, cria possibilidades de afeto entre as pessoas, torna possível o trabalho cooperativo e facilita o sentido de comunidade.
Todos nós temos algo a aprender sobre nossas emoções. Algumas pessoas deixam a adolescência com um alto nível de educação emocional, mas creio que poucas são não hábeis no âmbito das emoções quanto deveriam. Todo mundo comete erros emocionais, por isso todos podemos nos beneficiar de alguma com a Educação Emocional.

Como professor veterano de Educação Emocional, tenho ajudado centenas de pessoas a ampliar sua inteligência emocional. Observo o profundo mal-estar que a maioria demonstra à simples menção da palavra “emoções“, especialmente os homens. Eles receiam que segredos profundos e doídos sejam de alguma maneira liberados se revelarem seus sentimentos. Quase sempre as pessoas julgam que a Educação Emocional redundará em perda de poder na sua vida pessoal e profissional. 

Há  uma certa lógica no medo de que o afrouxamento de nossas amarras emocionais possa nos trazer problemas. Mas, a Educação Emocional não é apenas uma liberação das emoções. É igualmente importante compreender, administrar e controlar as emoções.

As emoções são uma parte indispensável da natureza humana. Sem elas, seríamos psicopatas. Reconhecendo e adestrando nossos sentimentos  e ouvindo as pessoas de maneira produtiva, podemos intensificar, e não diminuir, nosso poder pessoal.
Ser emocionalmente inteligente significa conhecer as emoções próprias e alheias, sua intensidade e o que ocasiona essas emoções. Ser emocionalmente educado significa dar conta das próprias emoções pode estar familiarizado com elas. No curso de Educação Emocional, aprende-se quando, como e onde expressar os próprios sentimentos, e de que maneira eles influenciam outras pessoas. Aprende-se também a verdadeira empatia, bem como a assumir a responsabilidade pelas conseqüências dos sentimentos.

Com esse curso, você se tornará um gourmet emocional, atento à textura, ao sabor e ao ressaibo de suas emoções. Aprenderá a permitir que suas aptidões racionais atuem lado a lado com as habilidades emocionais, ampliando sua capacidade de relacionar-se com o outro. Desse modo, você  tornará melhor em todas as suas interações: como pai, cônjuge, profissional, companheiro de lazer, professor e amante.
Todos nós deveríamos ingressar em alguma forma de educação emocional, pois os equívocos emocionais são tremendamente comuns e destrutivos. Se você não acredita, veja abaixo o exemplo de ignorância emocional que recolhi em jornais do ano passado: 

- Premiado com o segundo lugar, numa competição estadual, o líder da corrida de revezamento, Kent Baker, da Escola Thomas Jefferson, na Virgínia, que produz mais National Merit Scholars ( Estudantes Agraciados com o Mérito Escolar ) do que qualquer outra escola do país, jogou o prêmio na lata do lixo. O diretor da escola, Phil Simon, pôs-se a discutir com os juízes alegando que seu grupo merecia o primeiro lugar

Os jornais estão cheios de histórias assim, relatos de pessoas bem-sucedidas e, sob outros aspectos, inteligentes que cometem erros graves em situações carregadas de emoção. Nesses incidentes a ira, o medo ou a vergonha faz com que pessoas sensatas tenham um comportamento estúpido e as torna impotentes.

A verdade é que todos cometemos erros assim, embora talvez não tão extremos. Conquanto raramente nossos equívocos cheguem aos jornais, quase todos nós teríamos de admitir que, em alguma ocasião, fomos induzidos ao descontrole pela raiva, pelo medo, insegurança ou ciúme, ou preferimos não assumir a responsabilidade de uma atitude inadequada. No fim, esses erros enfraquecem-nos e as pessoas a quem amamos. 

EDUCAÇÃO EMOCIONAL páginas 23,24,25

QE e QI

A importância de ser um perito emocional não é evidente para todos, ao  menos não tanto quanto a importância de ser um perito intelectual. As pesquisas mostram que se você  tiver um QI (“coeficiente de inteligência“) elevado, provavelmente será um bom aluno e se tornará um profissional eficiente, bem-sucedido e produtivo.  Além disso, com toda probabilidade, terá vida longa e boa saúde.

Aparentemente, resultados tão favoráveis têm como causa única a inteligência, mas isso não é verdade. Em Inteligência Emocional, um best-seller  revelador,  Daniel  Goleman mostra que o entendimento emocional é tão importante para o sucesso  quanto um QI alto. Além disso, ele revela que a inteligência emocional é necessária para que se tenha uma “boa vida“ , na qual seja possível desfrutar os bens do espírito. Para viver bem, é preciso possuir apenas  um QI  um QE elevado  (“coeficiente emocional“).

O termo “QE” , embora requintado , significa menos do que se poderia pensar . Trata-se de um conceito de marketing e não de um termo científico. Um "coeficiente emocional “ não pode ser medido nem avaliado como um “coeficiente de inteligência “ . O QI vem sendo calculado cientificamente há quase um século, embora o seu significado exato seja questionável. Há quem diga que o QI determina com precisão uma qualidade inata, chamada inteligência. Outros asseveram que o QI determina uma qualidade menos definida, própria de indivíduos que se tornam bem–sucedidos na escola e, eventualmente, na vida. Seja com o for, é possível calcular, de maneira válida e confiável, o QI de uma pessoa, e está comprovado que é bom ter um QI alto.

O QE, por outro lado, não pode ser medido. Tentar avaliar o QE de alguém é o mesmo que adivinhar quantos grãos tem a quarta parte de um pote: você consegue ter uma ideia aproximada, mas não pode calcular com precisão. E tampouco pode avaliar a si próprio através de uma contagem, pois as emoções são muito mais impalpáveis do que os grãos.
No entanto, podemos falar da maneira significativa sobre o QE, contanto que não nos julguemos capazes de calculá-lo com precisão.  

EDUCAÇÃO EMOCIONAL páginas 32, 33

Compreendendo o Poder de Controle 

Mal nos damos conta de como a dominação acontece, porquanto estamos mergulhados nela desde o nascimento.
O valor da Análise Transacional como uma ferramenta para compreender as relações pode ser percebido claramente aqui. De posse  dela, você pode “analisar“ as relações de poder, examiná-las e, uma vez entendidas , buscar uma maneira de evitá-las em si mesmo e nos outros.
Depois de passarmos a infância à mercê dos caprichos de outras pessoa, consideramos natural sermos a Vítima ou o Algoz, líder ou seguidor, dominador  ou dominado. A criança brutalizada torna-se o pai que bate nos filhos, a criança que é dominada e controlada torna-se o pai que domina e controla. Aceitamos  a agressão e o poder de controle como o modo de funcionamento do mundo.
Se quisermos combater eficientemente o controle desmedido e o abuso de poder, teremos de entender o seu funcionamento.

O quadro abaixo mostra as quatro maneiras de exercer o poder de controle:


FÍSICO  -  GROSSEIRO - PSICOLÓGICO - SUTIL

I * Grosseiro, físico 
Assassinato, estupro, aprisionamento, Tortura, agressão, surra, empurrões, bater portas, gritos.

II * Grosseiro, psicológico
Insultos, tons ameaçadores, interrupções, mau humor, indiferença, mentiras deslavadas. 

III * Sutil, físico 
Tocar, espreitar, invadir espaço, puxar pelo braço, obrigar a sentar ou a levantar.

IV * Sutil, psicológico 
Falsa lógica, humor sarcástico, menosprezo, atos, mentira por omissão, publicidade e propaganda.

Existem duas formas principais de controle: físico e psicológico. Ambos  podem ser expressos sutil ou grosseiramente. Há quatro tipos de jogos de poder: grosseiro / físico, sutil / físico, grosseiro / psicológico. Um jogo de poder é uma transação na qual uma pessoa tenta obrigar outra fazer algo contra a sua vontade.
Os jogos de poder físico grosseiro são visíveis ao olhar e incluem surras, empurrões, arremessar objetos, bater com as portas  ou, pior ainda, seqüestro, tortura, assassinato e estupro.

Os jogos de poder físicos sutis não são tão evidentes, embora você tome consciência quando está sendo submetido a eles. No entanto, talvez você não tenha a menor ideia de como funcionam os jogos de poder nem de como impedi-los.

Incluem-se aí colocar-se fisicamente acima das pessoas ou aproximar-se demais, até invadir o espaço pessoal do outro, segurá-lo pelo cotovelo ou pela mão, andar na frente, obrigar as pessoas a se levantar ou sentar ou bloquear-lhes a passagem. Comumente os jogos de poder são usados por  homens para sujeitar as mulheres, na convicção de que constituem um comportamento masculino  normal.

Os jogos de poder psicológicos funcionam porque as pessoas são ensinadas a obedecer desde a infância; sem fazer uso da força física, posso intimidar alguém por meio de ameaças ou do tom da minha voz. Posso impeli-lo a agir fazendo–o sentir–se culpado. Posso seduzi-lo com um sorriso ou uma promessa, ou convencê-lo de que aquilo que quero é o que deve ser feito. Posso iludi-lo, abusar da sua boa fé ou pregar uma mentira. Se tiver condições de vencer sua resistência sem fazer uso de sua força física,  estarei usando jogos de poder psicológicos, tão comuns no nosso  dia-a-dia, alguns grosseiros, outros sutis. 

O jogo de poder  psicológico mais grosseiro chega aos tons e olhares ameaçadores, aos insultos, às mentiras deslavadas e ao mau humor evidente. E inclui também: interromper, ignorar, fechar a cara, girar os olhos, tamborilar com os dedos e cantarolar enquanto alguém está falando.
O jogo de poder psicológico mais sutil vai das mentiras mais espertas, mentiras por omissão, mau  humor sutil, sarcasmo, fofoca, lógica falsa, ignorar o que as pessoas estão dizendo, até, num nível mais amplo, a publicidade e a propaganda.

Exemplos de abuso de poder físico chamam mais atenção do que os exemplos de abuso psicológico e são menos comuns. Até mesmo nos ambientes mais violentos, como as prisões ou os campos de batalha, os indivíduos não sofrem principalmente com a opressão física direta, mas sim com o controle que a ameaça de violência exerce sobre suas mentes. Isto acontece sobre tudo  nos lares em que as mulheres e crianças são fisicamente surradas e agredidas.                                          

EDUCAÇÃO EMOCIONAL páginas 168,169,170 e 171
                                            
OS DEZ MANDAMENTOS
DA EDUCAÇÃO EMOCIONAL 


1) Não farás jogos de poder. Peça o que quer até conseguir.

2) Não permitirás que te manipulem. Não faça nada que não desejar de livre vontade.

3) Não incorrerás em mentiras por omissão ou comissão. A menos que a sua segurança ou a segurança de outras pessoas esteja em jogo, evite mentir.

4) Defenderás os teus sentimentos e as tuas vontades. Se assim não for, o mais provável é que outro tome a iniciativa.

5) Respeitarás os sentimentos e desejos do outro. Isto não significa submeter-se a eles.

6) Buscarás o valor das idéias alheias. Há mais de uma maneira de ver as coisas.

7) Pedirás desculpas e oferecerás reparação por teus erros. Nada será mais estimulante para o próprio crescimento.

8) Perdoarás os erros do teu próximo. Faça aos outros  o que gostaria que eles lhe fizessem.

9) Não aceitarás falsas desculpas. Elas valem menos do que nenhuma desculpa.

10) Cumprirás estes mandamentos segundo teu melhor julgamento. Afinal de contas, eles não foram escritos na pedra.                  

EDUCAÇÃO EMOCIONAL - página  167

       Fonte –Livro – EDUCAÇÃO  EMOCIONAL  - UM PROGRAMA PERSONALIZADO PARA DESENVOLVER SUA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL 
 Editora Objetiva (Rio de Janeiro )  de CLAUDE STEINER , Ph.D. com PAUL  PERRY  - TRADUÇÃO  DE Terezinha Batista dos Santos    ano 1998

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Quando a Fotografia Ganha Voz Própria



As imagens da revista  O Cruzeiro, publicadas entre 1940 e 1960, são apresentadas em livro exposição lançados pelo Instituto Moreira Salles. Sob a organização de Helouise Costa e Sergio Burgi, reconstituem as origens do fotojornalismo no Brasil.

O público tem pressa. A vida de hoje, vertiginosa e febril, não admite leituras demoradas nem reflexões profundas. A onda humana galopa, uma espumarada bravia, sem descanso. Quem não se apressar com ela será arrebatado, esmagado, exterminado. O século não tem tempo a perder.
A crítica sobre o cotidiano acelerado, a superficialidade na comunicação e as limitações do intelecto na sociedade moderna faz lembrar os editoriais recentes sobre a crise da cultura e da mídia pontuada pela falta de reflexão. O texto acima, no entanto, foi assinado no dia 13 de janeiro de 1901 pelo poeta e cronista Olavo Bilac na Gazeta de Notícias. Naquela época, ele já repensava os rumos do jornalismo, da informação. Defendia a fotografia como espelho do real. E já antevia o mundo sem fronteiras. Continua: “A eletricidade já suprimiu as distâncias: daqui a pouco, quando um europeu espirrar, ouvirá incontinenti o “ Deus te ajude" de um americano."
O jornalista Olavo Bilac discutia, em suas crônicas, o processo acelerado da industrialização, a ascensão da publicidade e , ao mesmo tempo  , o caos do analfabetismo. A sua reflexão sobre as mudanças da imprensa brasileira na virada do século 20 está na abertura do livro As origens do foto jornalismo no Brasil – Um olhar sobre  O Cruzeiro  ( 1940 – 1960  ) , lançado pelo Instituto Moreira Salles  (IMS).
A edição, organizada por Helouise Costa, professora do Museu de Arte Contemporânea  (MAC ) da USP, e pelo coordenador de fotografia do IMS, Sergio Burgi, resgata a história do fotojornalismo brasileiro através das imagens da revista O Cruzeiro. Os dois pesquisadores também reuniram cerca de 300 fotos na exposição apresentada na galeria do Instituto Moreira Salles.
Helouise e Burgi ressaltam que o legado histórico do foto jornalismo brasileiro do século 20 ainda é pouco estudado. “Passados 38 anos de fechamento da revista O Cruzeiro, ela continua sendo importante referência para a imprensa brasileira, muito embora seja pouco conhecida pelas gerações atuais", explica Helouise. “Lançada em 1928 como revista semanal de variedades, de circulação nacional, incorporou, no início de 1940, o modelo da foto reportagem, tornando-se pioneira na implantação do foto jornalismo no Brasil“.
A proposta dos pesquisadores é também refletir sobre a importância dos acervos de fotografia e sobre as possíveis res–significações de suas imagens . “Mais do que rever a história de uma revista  , o livro propõe uma abordagem crítica das origens do foto jornalismo por meio de um dos mais influentes veículos de comunicação de massa que o País já conheceu e que retratou, com nenhum outro, as peculiaridades e contradições do Brasil moderno.“ 

Brasil moderno –Contemporânea dos arranha-céus. Esse era o slogan veiculados nas campanhas publicitárias para definir o ideal de grandeza da revista O Cruzeiro. “O nome remetia à constelação do Cruzeiro do Sul e à nova moeda prevista para circular em breve no País“, explica Helouise Costa. “Assis Chateaubriand não pouparia esforços para dar corpo ao projeto. Tudo seria cuidadosamente planejado numa escala não usual para a época, inclusive o lançamento, precedido de uma grande campanha publicitária.“ 
No texto de abertura do livro, Helouise apresenta uma pesquisa minuciosa desenvolvida em seu mestrado e doutorado. E transporta o leitor para a época, descrevendo a trajetória da revista no contexto social e político do país. Entre os documentos está o editorial do primeiro número, com a promessa de ser um “espelho leal onde se reflete a vida nos seus aspectos edificantes , atraentes e instrutivos“. 
A supremacia de O Cruzeiro transformou, segundo a pesquisadora, jornalistas e fotógrafos em verdadeiras celebridades. “Um dos primeiros profissionais da revista a atingir esse patamar de visibilidade foi o fotógrafo francês  Jean Manzon“, explica Helouise. 
Ao longo da década de 1940, Manzon implantou a foto reportagem na imprensa brasileira, baseando-se em revistas internacionais  como a francesa Match e a norte-americana Life. “ A exaltação da natureza e da aventura, presente igualmente nas revistas estrangeiras, materializou-se em O Cruzeiro de modo particular“, afirma Helouise. “Aqui a natureza desconhecida encontrava-se no interior do próprio País , o que tornava a realização de muitas reportagens uma tarefa extenuante e perigosa. Assim, a coragem dos repórteres e a importância de seu trabalho eram constantemente exaltadas, em especial com relação aos fotógrafos agentes que possibilitavam a visualização de dimensões ignoradas do País por meio de imagens grandiosas.“
O heroísmo dos repórteres pregado pelas revistas estrangeiras passou a ecoar em O Cruzeiro. “Freqüentemente, além de descrever em detalhes as aventuras vividas pelos repórteres, as reportagens incluíam imagens dos profissionais em ação, como a que mostra Nasser e Manzon num deserto no Egito. “ 
Importante lembrar que, na época, a fotografia tinha um espaço privilegiado. O destaque era o discurso visual. E o texto se limitava às legendas. Ou ocupava as sobras deixadas entre as imagens. A informação ficava por conta da excelência do trabalho do fotógrafo. “O tipo de diagramação característico do modelo da foto reportagem seguido por Manzon implicava a realização de inúmeras intervenções nas imagens originais, que precisavam ser quase sempre cortadas ou rebatidas de modo a se adequar ao discurso visual pretendido.“ 
Até o exigente Cândido Portinari, ao ser fotografado pelo francês, fez questão de elogiar: “Jean Manzon, esse gênio da fotografia contemporânea, é o homem que dá valor ao detalhe, de modo a torná-lo essencial.” O retrato de Portinari documentado no livro revela a preocupação de Manzon em mostrar o cotidiano do artista e captar manias, como a de pintar segurando vários pincéis entre os dedos. 

Viés  humanista – Entre 1947 e início dos anos 1950, o foto jornalismo passa a seguir um viés mais humanista. “Concretizada por fotógrafos como José Medeiros, Luciano Carneiro, Flávio Damm, Luiz Carlos Barreto, Henri Ballot e Eugênio Silva, essa nova visão do foto jornalismo trouxe para O Cruzeiro maior e ênfase na objetividade e no caráter documental e jornalístico“, ressalta o pesquisador Sergio Burgi.
O sensacionalismo jornalístico iniciado como Manzon é substituído por uma nova linguagem, que flui no cenário do pós-guerra.  "O surgimento da agência Magnum de foto jornalismo , de Henri Cartier–Bresson e Robert Capa  , em 1947 , e os consagrados ensaios de fotógrafos como Robert Doisneau e Willy Ronis, na França e W . Eugene Smith são todos trabalhos representativos desse novo momento". 
Burgi conta que começa uma nova escola  de foto jornalismo dentro da revista, que se opões ao uso da reportagem como espetáculo, trabalhando  por uma linguagem comprometida  com um olhar objetivo e documental, incorporando temas da cultura e do povo brasileiro. ”Uma boa indicação dessa nova vertente são os os primeiros trabalhos de José Medeiros em Alagoas, sobre a cultura e festas populares do Estado, dentro da estrutura editorial e de paginação estabelecida por Manzon, e que se desenvolveria até as grandes reportagens da década de 1950, com trabalhos icônicos de Medeiros, Luciano Carneiro , Flávio Damm , Luiz Carlos Barreto e Henri Ballot , entre outros.“ 
A produção dos fotógrafos, segundo Burgi , passa a ser marcada por uma postura mais generosa. “O foto jornalismo humanista se desenvolveria igualmente como uma fotografia engajada e de resistência sob regimes ditatoriais como nas ditaduras militares do Brasil e em outros países da América Latina nas décadas de 1960 e 1970.“ 
Burgi aponta também o surgimento de uma fotografia ligada a ações humanitárias com grande impacto na mídia da década de 1980. Cita os trabalhos de Sebastião Salgado na África, junto a organizações como Médicos sem Fronteiras. “ Todos esses desdobramentos de um novo foto jornalismo que se desenvolveram dentro e fora do País pelo trabalho de resistências e denúncia de fotógrafos que atuaram nas década de 1960 a 1990 têm conexão direta, aqui no Brasil, com o foto jornalismo da Revista O Cruzeiro nos anos 1950. Os fotógrafos comprometidos com uma visão objetiva do País, refletida na busca por uma impressa socialmente responsável, buscavam, de alguma maneira, retratar a essência da vida humana.“ 

Fonte  JORNAL DA   USP   -  ESPECIAL    PÁG   10 e 11   
de 25 de fevereiro a março de 2013 
Leila  KIYOMURA   



quinta-feira, 2 de julho de 2015

Cultura e Gastronomia - Festas Juninas e Tradições




As festas juninas surgiram há  centenas de anos na Europa antiga.  Elas aconteciam durante o solstício de verão para comemorar o início da colheita  - por isso tanta comida e bebida – e eram organizadas pelos celtas, egípcios , entre outros povos. Uma das deusas homenageadas era Juno  , esposa de Júpiter, por isso as festas eram chamadas de “ junônias “. O catolicismo passou a ganhar cada vez mais fiéis na Europa  e, como a data coincidia com o nascimento de João Batista, primo de Jesus Cristo, a Igreja Católica cristianizou a data, instituindo homenagens aos três santos do mês ( Santo Antônio , São João e São Pedro ). As comemorações passaram a se chamar de “joaninas “ por causa de São João e os primeiros países a aderirem a essas festas foram Portugal  , Itália , França e Espanha. Não se sabe o nome “ junina “ é uma adaptação que veio com o tempo ou porque a festa é comemorada no mês de junho.
A festa junina foi trazida para o Brasil pelos portugueses durante o período colonial. Por coincidência, os índios que habitavam o nosso país realizavam rituais  nessa mesma época de junho para celebrar a agricultura  e, com a vinda dos jesuítas, as festas se fundiram e os pratos passaram a utilizar alimentos nativos, como mandioca e milho. Hoje, elas acontecem em todo o Brasil, mas podem ser divididas em dois tipos: os da Região Nordeste e as do Brasil caipira  ( São Paulo , Paraná  , Minas Gerais e Goiás ) , com diferenças e costumes diferentes. 
As festas mais tradicionais acontecem em Campina Grande (PB) e Caruaru (PE). Na Paraíba, a festa e conhecida como Forródromo porque tem muito forró. Em Pernambuco tem a Vila do Forró, réplica de uma pequena cidade do sertão pernambucano, com direito a cantadores regionais, sanfoneiros e artistas de todos os tipos que transitam por entre os vagões de um trem, alegrando o público.
As festas do Brasil caipira são realizadas em quermesses, com danças de quadrilha, em torno da fogueira e muita música caipira. As mulheres usam vestidos coloridos de chita e os homens vestem camisa quadriculada e calças remendadas com tecidos multicoloridos.
Fica a sugestão: aproveite o mês de  junho para se tornar um caipira de verdade ! 

Fonte  - JORNAL  OPÇÃO  NATURAL    pág  18 -    junho de 2015 

Origens das festas juninas 

A maioria do povo sabe que junho é o mês de festas. Sabe também que nele é comemorado um ciclo de festejos que começa no dia 13 de junho, festa de Santo Antônio de Pádua , passa pelo dia 24, festa do nascimento de São João Batista e termina dia 29, com a festa em louvor a São Pedro. É o período das chamadas festas juninas ou joaninas. Este último nome vem da palavra João, pois a festa em homenagem a este Santo costuma ser a principal do ciclo  , aquela que tem maior animação, o maior número de fogos e fogueiras. É a data propícia às simpatias feitas para casamento, fertilidade e felicidade.
Ao que parece, a tradição das festas juninas brasileiras é muito antiga , vinda desde o tempo em que o Brasil era colonia de Portugal. Os primeiros portugueses aqui estabelecidos implantaram muito de seus costumes,   hábitos e festas na vida cultura do nosso país. Era tradição em Portugal antigo a comemoração do ciclo junino a partir de 13 de junho, dia de Santo Antônio. Este santo nasceu em Lisboa, em 1195, nos primeiros tempos da  fundação da nacionalidade portuguesa e faleceu em Pádua, Itália, razão pela qual é conhecido por Santo Antônio de Pádua. Estas festas eram muito apreciadas pelo povo português e suas raízes se encontram na história antiga da Europa: povos que habitavam este continente, como os celtas e os godos, além dos romanos, já possuíam festas muito semelhantes. 
Na antiga Roma, de onde herdamos os nomes dos 12 meses, junho era o mês consagrado a Juno Moneta, deusa em cujo templo eram cunhadas as moedas necessárias ao comércio. Era o mês da juventude. Durante o seu transcorrer celebravam-se festas chamadas junioribus, em honra aos rapazes e às moças. Neste mês festejava-se ainda Carna, deusa que presidia os movimentos e a saúde do coração, do fígado, do baço e outros órgãos. No dia 8 as festas homenageavam a Mens, deusa da Inteligência e a Sumaro, senhor do relâmpago e do trovão. No dia 24, quem imperava entre os romanos era a estimada deusa Fortuna.
As festas em louvor aos três Santos de junho se localizam no Brasil, no solstício de inverno  ( é o tempo em que o Sol, tendo se afastado o máximo do Equador, parece estacionário durante alguns dias, antes de começar a aproximar-se novamente  do Equador. Início do solstício de inverno no hemisfério Sul: dia 21 de junho ). Introduzidas pelos portugueses, coincidiram com a época do frio, nas vésperas das colheitas de milho, em certas regiões e com o início do ano agrícola.
Nesta mudança de ano cósmico, as populações do campo acreditam necessitar de maior aproximação e proteção das divindades para afastar a presença dos espíritos maléficos e perturbadores, que costumam surgir nesta fase de transição do Sol. São estes espíritos que trazem a peste, as pragas e os prejuízos para a agricultura e as criações.
Assim, o hábito de se fazer fogueiras na época das festas já é uma  herança cultural dos povos antigos. Ficando bem no meio dos arraiais, as fogueiras relembram aquele papel simbólico do fogo, elemento central das festas de solstício.
Nas noites de festas juninas é costume,  no interior do Brasil, que o povo faça vigília em torno da fogueira, comendo alimentos aquecidos pelo fogo : bata-doce, pinhão, canjica, pipoca e quentão.
É no ciclo das festas juninas que aumenta a leitura de sorte para assuntos de casamento ou amor, felicidade ou morte. São muitas as “ simpatias “ que moças e rapazes fazem nas noites de festas, principalmente nas de Santo Antônio e São João. Estas simpatias lembram muito os rituais de casamento e fecundação de povos já desaparecidos.
O baile bem caracteriza a aproximação dos pretendentes.  Existe a possibilidade do namoro, do noivado e até do casamento. A quadrilha é andança marcante dos bailes de junho. 
A quadrilha é tomada na cidade como se fosse de origem popular,   dançada por lavradores  , por ocasião dos festejos juninos. Mas, na verdade, a quadrilha tem origens na nobreza francesa. Foi uma das danças preferidas na Corte brasileira, bem antes da República. Nesta época, a elite brasileira viva voltada para a Europa , principalmente para a França, que era modelo não só de roupas, comidas  , leituras  , mas até mesmo de gestos.
              
( "O PENSAMENTO" ) 

Fonte  - Gazeta de Pinheiros    pág 5    -  Revista  Feminina 25/07/1998

quinta-feira, 28 de maio de 2015

ESPECIAL LIVROS - MELHORES LANÇAMENTOS INTERNACIONAIS

 

Mulher  adolescente do Mahatma 
Gandhi transformou vida do líder

Neto e biógrafo de Kasturba Gandhi conta em "Daughter Of Midnight - The Child Bride of Gandhi" como ela passou de simples objeto de lascívia  a alicerce fundamental na filosofia do ícone indiano

Em 1930, Kasturba Gandhi – uma avó tímida, submissa e quase analfabeta – tornou-se influente símbolo da referência ao regime britânico na Índia. Seu marido, Mahatma Gandhi, estava preso. Kasturba sentiu que não tinha escolha, precisava sair das sombras, da vida tradicional das famílias indianas e continuar a obra de Gandhi. Sem ser líder política nata, ela deixou claro que preferiria ficar na companhia dos netos.
Mas, nos dez anos  seguintes, Kasturba percorreu o país viajando em vagões de terceira classe, pregando aquele veemente misto de ação direta não–violenta e pureza espiritual que acabaria definindo o pensamento de Gandhi. Ela própria foi parar na prisão pelo menos oito vezes e morreu de doença cardíaca quando encarcerada com o marido, em 1944.
Arun Gandhi, neto e biógrafo de Kasturba, acredita que o Mahatma, seus seguidores e biógrafos minimizaram a importância dela. Kasturba não foi, conforme ele escreve em Daughter of Midnight  - The Child Bride of Gandhi ( Blake, 16,99 libras, 314 páginas ) “tão desfibrada e velha sofredora" quanto o Mahatma nos quis fazer crer com a sua autobiografia franca e obcecada consigo mesmo. Também afirma, sem convencer muito, que ela teve papel significativo na evolução da não–violência do marido
O biógrafo mal conheceu a avó – ele foi criado numa colônia que Gandhi fundou na África do Sul. A única fonte sobre os primeiros 30 anos de Kasturba é a autobiografia de Gandhi. Arun recheia–a com boa dose de complicadas conjecturas românticas sem comprovação. Imagina o avô pensando em Kasturba: "Sua pele macia, seus grandes olhos emoldurados por cílios espessos, seu delgado corpo bem torneado e flexível sob as dobras macias de seu sári de cores claras!." 
Os desavisados que apenas folheiam obras numa livraria, podem ser induzidos a pensar que esta biografia, enfeitada pelo rosto de uma bela indiana meio velada e de lábios viçosos é um romance. O subtítulo também desorienta.  Kasturba e Mohandas tinham 13 anos quando se casaram em 1882. Se Kasturba era noiva menina, ele era um noivo menino. 
Kasturba tem um papel importante na autobiografia de Mahatma Gandhi. É em grande parte descrita como objeto de Iascívia, mas não só isto. Gandhi assombrava-se com os "desejos carnais", conforme disse  - tanto assim que estes induziram o casal a fazer amor, num quarto contíguo, quando o pai dele morreu. Kasturba engravidou e, quando o bebê morreu com poucos dias de vida, Gandhi culpou “os grilhões da luxúria“. Nunca ficamos sabendo o que Kasturba sentiu.

Voto de castidadeGandhi tentou ensiná-la a ler e escrever, mas era dominado pela luxúria, e as lições terminavam antes da hora. Ele nunca se perdoou por isto. Mahatma Gandhi não se perdoou muita coisa e passou grande parte da vida fazendo penitência por seus erros. Fez o voto de castidade em 1906. Kasturba, conforme ficamos sabendo, não se opôs. Gandhi ficou obcecado com a dieta – negando–se todo alimento de que gostava e severamente incentivando a mulher e filhos a fazer o mesmo.
À medida que se convertia a um meio mais espiritual de vida. Mahatma Gandhi começou a ver em sua mulher um exemplo a imitar. 
Quando jovem estudante em Londres, ele se trajava à moda ocidental e recebia lições de dança e de violino; na África do Sul, foi um advogado astuto e bem remunerado. Na maior parte desses anos iniciais, Kasturba viveu na Índia uma vida tradicional. Quando ela partiu para a África do Sul, seu marido a obrigou a usar meias e sapatos, sentar-se à mesa  e comer com faca e garfo. Aqueles eram exatamente os símbolos de uma vida urbana ocidentalizada  que Gandhi mais tarde rejeitaria.
Segundo, seu relato, ele conseguiu essa extraordinária transformação graças ao exemplo  de sua mulher. Mas o Mahatma não fazia nada pela metade. Logo se saiu melhor que sua mulher nos modos de vida simples. Ela se desfez em lágrimas quando Gandhi lhe pediu que esvaziasse o urinol de um visitante de casta inferior, quando ela ficou chocada com o furto de sua pequena caixa de pertences, Gandhi respondeu que para início de conversa, a mulher nem devia possuir a caixa. Era difícil conviver com ele - e Kasturba passou grande parte de seus últimos anos mediando entre Gandhi e os quatro filhos. Ele negava-lhes  a instrução formal, recusava-se a atender a seus desejos para não o acusarem de favoritismo e adiou o consentimento para que se casassem.
Três deles continuaram leais, mas o mais velho, Harilal acabou odiando–o. Harilal converteu-se ao Islamismo e escreveu aos jornais criticando Gandhi. Chegou bêbado e delirando ao leito de sua mãe moribunda, e funcionários do presídio lhe mostraram a porta da rua. Outro filho tentou tratar Kasturba com penicilina, mas Gandhi ( que desconfiava da medicina ocidental )  o convenceu a não fazê-lo. Respondendo a uma carta de condolências de lorde Wavell, vice–rei da Índia, Gandhi escreveu “Sinto a perda, mas o que havia imaginado... Sem que eu quisesse, ela decidiu perder-se em mim, e em conseqüência se tornou minha cara metade.” ( Tradução de Magno Dadonas ) 

Fonte – Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO   D2  17/05/1998     
   SAM  MILLER( The Sunday Times) 

O CIVISMO E EDUCAÇÃO DA JUVENTUDE



Forças do ambiente, efeito do cinema, rádio 
e televisão no comportamento cívico dos jovens

É de extrema importância a influência psicológica do meio sobre a conduta e o desenvolvimento do comportamento cívico dos jovens. Em realidade, muitos dos aspectos da conduta juvenil, como todo o equipamento de tendências, emoções, linguagem, atividades psíquicas as mais diversas, são determinados pelo externo. Watson e Adler valorizam de tal sorte essas influências que as tornam mais decisivas dos que as da herança. Não chegamos a tanto, mas compreendemos, como o psicólogo Stern, que a influência ambiental, justamente com a bagagem hereditária, operam na mesma direção, visando as maneiras particulares de conduta. 
Há muitas provas que procuram evidenciar a importância do ambiente sobre a inteligência de campesino e pessoas das cidades, de pretos e brancos e asiáticos; e sobre o tamanho da família ( na Alemanha, por exemplo, verificou-se, que o número ótimo de filho, em cada família de certo nível social, é de 3 ou 4, para obtenção do maior aproveitamento escolar, enquanto que nas famílias proletárias, pelo contrário, os filhos únicos desfrutam melhores qualificações.)
Não há dúvida de que a conduta da criança e do jovem  , muito mais que a do adulto, depende, em cada caso, de suas características individuais e da estrutura ambiental, de modo destacado  . 
Kramer comprovou que , em 100 % dos casos de crianças agressivas e brutais, elas deixaram de sê-lo ao se mudarem para ambientes apropriados que não permitiam a facilitação daquelas atitudes.
Resultados de testes mentais entre os membros de diferentes grupos ocupacionais, no interior de uma comunidade, indicam a influência ambiental, como se pode depreender por este estudo de Collins

Ocupação                                                                           Nº de famílias       QI
Profissionais liberais                                                                  90                   116
Escriturários                                                                             131                  113
Funções diretivas                                                                      161                  112
Comércio                                                                                  413                 110
Chefes de oficina                                                                       106                 109
Operários qualificados                                                                569                104
Operários braçais                                                                      377                  95

Parece que os limites extremos dos quocientes de inteligência indicam que as diferenças se devem aos níveis sócio-econômicos ocupacionais.
Quando, também, uma criança é levada de um lar pobre para outro abastado ( caso de filhos adotivos ), nota-se a extensão do efeito do ambiente na modificação, para melhor, do comportamento total infantil.
Completo estudo da influência do  ambiente é o de Margaret Mead, em sua análise da relação entre o sexo e temperamento em três sociedades da Melanésia  ( Margaret Mead , “Sex and Temperament in Three Primitive  Societies“, 1935 ).
Estava interessada em descobrir se as diferenças de temperamento, popularmente supostas verdadeiras para os homens e mulheres em geral, seriam também encontradas em sociedades culturalmente diferentes.  
Seriam os homens, em todos os lugares, mais agressivos e as mulheres mais submissas e passíveis em suas relações usuais ? 
Na tribo Arapesc ela encontrou, tanto homens  como mulheres, cooperadores, não agressivos, atenciosos às necessidades e solicitações de outros. Em contraste, entre os Mudugumor, tanto os homens como as mulheres eram desapiedados e agressivos, do tipo que em nossa cultura seria encontrado em um indivíduo violento e indisciplinado. Na terceira tribo, a dos Tchambuli, a antropóloga encontrou uma completa inversão das atitudes sexuais de nossa própria cultura, com a mulher sendo o parceiro dominante, administrador impessoal, e o homem a pessoa menos responsável e mais emocionalmente dependente. Tais dados indicam que a agressividade do homem pode ser igual, superior ou inferior à da mulher e que ambos os sexos podem parecer-se ou com o tipo masculino ou com o tipo feminino, com as quais estamos acostumados em nossa própria comunidade. Aceitando os resultados da pesquisadora, parece que pouco se deixa no temperamento que possa ser seguramente atribuído à influência direta, biológica ou física do sexo. 
Verifica-se que se tornaria exaustivo continuarmos os exemplos para demonstrar as significativas influências do ambiente sobre o nosso comportamento, pois desejamos afirmar que as mais fortes e decisivas são as exercidas modernamente pelo cinema, rádio e televisão – os veículos mais difundidos e mais acessíveis.
Eleanor Maccoby, professora de Psicologia da Universidade de Stanford, num artigo inserido na publicação “Mass Comunication Series“, nos diz que apesar de a televisão ter-se generalizado há pouco tempo, já uma geração de crianças foi exposta a ela durante a maior parte de suas vidas. Da mesma maneira, podemos inferir como o cinema e o rádio tem sido os influenciadores de muitas gerações.
A responsabilidade social dos diretores e organizadores de programas daqueles instrumentos de comunicação cresce de proporção à medida que tais veículos se tornam mais generalizados e difundidos. É maior ainda tendo-se em conta ser o artista, geralmente, por sua natureza, inconformado, renovador, transmissor de ideias originais e de fatos e criações artísticas que apresentam todos os valores estéticos de subjetividade. Tais valores são facilmente copiados pelos jovens, em virtude deles, também serem inovadores, irrequietos e idealistas. E por ser arguto e sensível em tal grau, dificultando a compreensão do homem comum, é que o artista se encontra no rol das pessoas socialmente mais significativas, e, por isso, capazes de exercer profundas influências em pessoas e instituições. Considerá-lo é o maior bem que se pode prestar à comunidade. Ele por sua vez, deve estar consciente de seu elevado papel educativo, como veículo espiritual dos valores do aperfeiçoamento moral.
Bach, ao compor, entre outras, a sua “Pasacaglia“, de conotações intensas à ordem estética reinante; o genial Miguel Ângelo, com sua pintura na Capela Sistina; Gio Ho, com seus céus azuis, revolucionando a estética bizantina; o amarelo de Van Gogh; as cores de Gauguin, e tantas inovações, caracterizam bem o mundo ilimitado do artista e as dificuldades de comunicação com o homem comum. E por ser inovador, cabe-lhe a responsabilidade na organização de ideias , sentimentos e atitudes dos jovens, ainda em formação, pois são copiados como modelos.

Conclusões 

Estamos convictos de que o civismo é uma expressão de caráter. Ao definir o homem cívico, dizia Cícero ser aquele que não pode tolerar em sua pátria um poder que pretenda fazer-se superior às leis. Afirmo que estas leis abrangem também, e sobretudo, o campo moral , sendo , ainda , auto-aplicáveis.
O direito que promana da Constituição estabelece a justiça. E a ideia que leva ao ato, fundamentada nas leis, e a ideia de civismo que incorpora o cidadão em sua pátria, tendo esta a acepção ampla que já nos dissera o general Moacir Araujo Lopes, em trabalho de ampla divulgação:

A PÁTRIA, cuja segurança cabe a todos os brasileiros garantir, individual e coletivamente – O BRASIL – é a terra onde nascemos, onde vivemos em comum  , com as mesmas tradições, sujeitos às mesmas leis  , costumes e governo.
A língua , os hábitos , as tradições , o culto e a lei são os fundamentos na nacionalidade.
A individualização da nossa Pátria é o resultado do trabalho e sacrifício das gerações que nos antecederam.
Após séculos de esforço e fé, legaram-nos, os antepassados, um Brasil livre, soberano e leal ao símbolo impresso pelo Criador no Céu da Pátria - o Cruzeiro do Sul. Realmente, a Constituição, impulsionadora da vida nacional incorporou interesses nacionais e as aspirações dos brasileiros, herdados de milênios de civilização entre os quais: o direito de glorificar a Deus; o respeito à dignidade da criatura humana; o amor à liberdade, em todas as manifestações; a segurança de que todo o poder emana do povo e em seu nome deverá ser exercido; a livre iniciativa, apenas subordinada à realização da justiça social; a valorização do trabalho como condição da dignidade humana; o direito de educação, dada no lar e na escola e inspirada nos ideais de liberdade e solidariedade e o princípio da unidade nacional; o ideal do desenvolvimento econômico, mas em bases morais sem prejuízo aos ideais cristãos e democráticos“.
Na linha de pensamento que traçamos, vemos que o caráter é a parte divina do homem. Se o temperamento traduz o animal nas manifestações neuro-bioquímicas, o caráter é a expressão do verdadeiramente humano, que compõe os aspectos qualitativos de uma vontade. Não agimos gratuitamente. Há motivos básicos em nossa conduta, que nos levam aos objetivos por nós determinados. Um santo ou um covarde, um pusilânime ou um herói, um bom ou um mau, um cooperador ou um egoísta, são o que a vontade deseja.
Já dizia Hobbes que o caráter é o resultado de tudo o que materialmente somos e que a vida nos deu: desde a constituição física, as experiências, os hábitos dos outros, a boa ou má sorte, as reflexões, as lições, os exemplos, as circunstâncias. A mesma coisa, em termos de observação científica cuidadosa, nos diz a psicologia moderna: de um lado somos o que a herança nos legou de cromossomos e gens; de outro, somos o que todas as experiências, sob a forma de aprendizagem, nos impõem. Avultam entre estas as significativas influências da sociedade, de suas instituições e de todos os fatos sociais dela resultantes, coercitivos, também com uma vontade oculta, misteriosa, mas atuante e que, muitas vezes, absorve, violenta, esmaga e destrói a nossa vontade racional e humana. Daí, diga-se, que precisamos impor a nossa inteligência pura, contra a inteligência do mal, que existe nos mil e um meandros da sociedade, da política, da economia e das ciências físicas e naturais.
Deste modo, um  falso modelo social pode levar–nos às mudanças sociais mais imprevisíveis, bem como uma nefasta fórmula política pode desviar-nos o curso da vida ou uma malévola doutrina econômica impedir-nos a felicidade e, pior do que tudo, uma fissão atômica pode destruir toda a humanidade!
Coisa curiosa: da mesma maneira como a vontade cria o bem, também cria o mal; tantas vezes, criando o bem, dela se originam o fel, a violência, a maldade e as misérias sociais. Por isso, uma das nossas meditações, ao falarmos da juventude, deve orientar-se no conhecimento da patologia social, a fim de atacar, em suas próprias raízes, as fontes perniciosas destruidoras do caráter bom. Mais do que nunca, pelas facilidades incríveis de comunicação, os jovens sentem-se envolvidos em valores que precisam ser caracterizados a priori; não podem, por não disporem de recursos para isso, decidir, pois não tem medidas de avaliação e de comparação. Há um acervo inesperado de situações impostas pela ciência, pela tecnologia, pelas coisas frias, que não expressam conteúdos de valor moral - caleidoscópio de coisas e não de almas - dentro do qual se desenvolve a personalidade juvenil! E que desenvolvimento? Mero crescimento físico e de vontades frustradas, de competições violentas e de almas vazias espirituais, a serem mantidos na única e legítima fonte de crescimento moral, que é a religião.
A conquista tem sido a do mundo externo. Não sentimos e nem vemos a conquista interior, a conquista do espírito sobre aquela outra, a da matéria! E eu ausculto os anseios juvenis, como professor, à semelhança do médico ao sentir as batidas do coração. E sinto muitas almas torturadas e sem rumo, e como são grandes as suas disponibilidades para o bem e para o belo! No entanto, pouco se pode fazer, porque há uma indústria, em ritmo de produção total, de valores do mal, do pérfido, do mentiroso, do enganador e do exclusivamente de cultura técnica, de massa, substitutiva da cultura de tradições morais e de virtudes cívicas
Se há um Dia das Mães é porque o comércio assim o deseja; se há Finados sem flores é porque está alto o preço das rosas! 
No entanto, não podemos viver sem o misterioso sorriso das mães, sem a ternura de corações que tem o mesmo calor dos nossos corações. Sorriso e ternura de todos os dia, de todas as horas e de todos os minutos! Consciência imanente e permanente que os filhos devem ter dos pais e que estes devem ter dos que lhes herdaram o sangue e trouxeram uma alma divina. E as rosas deveriam ser fáceis de plantio e de colheita, mas só podem plantar rosas e colhê-las aqueles que aprenderam a desejá-las, a apreciar-lhes as mil nuances do colorido e as belezas transcendentes da forma e aprenderam, sobretudo, a plantá-las  ao sabor do mistério e do divino! Enquanto pensamos nos pais num só dia assim, vago e frio e não podemos alcançar as rosas porque elas nada nos dizem à sensibilidade, então, não temos dúvidas, os céus serão apenas o caminho dos engenhosos satélites e não mais a morada dos astros, sob as bênçãos de Deus
Num mundo assim, pragmático e indefinido, com máquinas e paixões, sem Deus, que é a origem dos valores imutáveis e eternos, explode uma juventude, como sempre, idealista na essência  , mas perdida na confusão dos desencontros humanos. 

Eis a conclusão: se não amarmos, com Fé, o sorriso da criança, se não desejarmos com Amor o beijo das Mães, se não venerarmos a Pátria, que é a síntese de todos os valores externos e se não alcançarmos o Homem, em sua essência divina, onde quer que se encontre, jamais incorporaremos qualquer traço de moralidade e civismo. E, por isso, é que acredito que os jovens, em as exuberância de amor e de ideais, poderão ter no coração, eternamente, Deus, a Pátria e Humanidade ! 

Fonte – Revista Do SESI       José  Camarinha  Nascimento 





quinta-feira, 30 de abril de 2015

A democratização do ensino



A  democratização do ensino 
Henri Wallon colocou a Psicologia a serviço de uma educação que inclui toda criança, e não apenas as que alcançam bons resultados 

Os homens e as mulheres do século XX vivenciaram mudanças profundas nas crenças e atitudes sobre a educação de crianças e jovens. Pais e educadores confrontam um universo de exigências fragmentadas e contraditórias, num mundo em que está difícil saber que perfil de adulto terá sucesso.
Dentre os estudiosos que buscaram configurar uma nova educação, o francês Henri Wallon desenvolveu atividade interessante para consolidar a ideia de que a educação é uma base das bases de uma nação democrática.
Sua biografia e produção científica se esclarecem mutuamente.  Ao mesmo tempo que busca elucidar os processos envolvidos no desenvolvimento da pessoa, atua como docente, como médico, no laboratório de Psicobiologia em que atende as crianças com distúrbios mentais, participa de debates, escreve artigos  para professores, procurando colocar os conhecimentos da Psicologia escolar a serviço de uma educação que inclua todas crianças, e não apenas aquelas que, sozinhas, alcançam bons resultados.

TRAJETÓRIA  DE  UM  HUMANISTA
Uma breve incursão pela biografia  de Wallon  aponta a estreita relação entre sua atividade como homem da ciência e como cidadão comprometido com seu tempo. Psicólogo, médico, pedagogo, militante envolvido em causas de justiça, professor, deputado, foi um humanista que uniu pensamento e ação. 
A produção científica para ele, está relacionada com a realidade social em que se desenvolve e, por isso, não cabe a ideia da ciência neutra nem do cientista distante dos desafios do mundo. 
A Psicologia escolar como fator de democratização do ensino é uma das suas maiores preocupações. Não se trata de oferecer bolsas a alunos mais aptos, oriundos dos meios populares. Mas de proporcionar, a cada indivíduo, condições para seu desenvolvimento pleno.
Henri Wallon  nasceu em Paris , em 1879, e viveu na cidade até sua morte em 1962. Filho e neto de professores universitários, defensores das tradições republicanas e democráticas, Wallon forma-se aos 23 anos em Filosofia e, pouco mais tarde, inicia os estudos em Medicina, que conclui tendo já no centro de suas preocupações o desenvolvimento da criança.
Na Primeira Guerra Mundial  atua como médico no front. Até 1931, trabalha como médico de instituições psiquiátricas, no atendimento a crianças com deficiências neurológicas e distúrbios comportamentais. A investigação do funcionamento do sistema nervoso, o trabalho como psiquiatra dos feridos de guerra, as observações sobre comportamentos de soldados com lesões cerebrais forneceram o material de seus primeiros grandes temas.
Dessas experiências, Wallon conclui que a enfermidade mental e os transtornos orgânicos não resultam de uma relação de causa/efeito predeterminados e imutáveis. Nas reações mais elementares da criança, é possível perceber a ação do meio como o elemento que faz surgir ou amenizar reações. 
A constatação de que o desenvolvimento humano não pode ser explicado apenas por processos biológicos transforma-se, ao longo de sua vida, em convicção que vai perpassar toda sua obra.
O material de seus estudos é publicado na tese de doutorado, em 1925, sob o título  de “L'enfant turbulent“ ( A criança turbulenta, na tradução literal para o português ) . Ainda naquele ano, funda o Laboratório de Psicobiologia da Criança, que dirige por 25 anos e se torna um lugar de pesquisa  e atendimento a crianças consideradas anormais. 
Encarregado de um curso  na Sorbonne, o material das aulas foi publicado no livro  "As Origens do Caráter da Criança"  ( 1934 ), trabalho em que analisa os prelúdios do sentimento de personalidade e as origens do desenvolvimento da vida psíquica nos três primeiros anos da vida da criança.
Concilia a atividade docente a colaborações com a Sociedade Francesa de Pedagogia e o Grupo Francês de Educação Nova, além de participar de grupos de intelectuais antifascistas, apoiando o Exército Republicano Espanhol na guerra contra a ditadura franquista. 
Em 1940 engaja-se na Resistência e participa, com Georges Politzer, Jacques Solomon e Paul Langevin, da criação do jornal Universidade Livre que continua circulando. Procurado pela Gestapo, deixa sua casa, mas continua a frequentar o laboratório.
Em 1948, cria a revista Enfance. Em 1951, assume a presidência da sociedade Médico –Psicológica, encarregada de ajudar as crianças  com dificuldade de adaptação. Em 1953, perde sua esposa e, em 1954, sofre outro golpe, um acidente que o deixa paralisado. Mesmo assim, continua trabalhando, em prol da criança, até sua morte com 83 anos. 

DESENVOLVIMENTO  Humano 
Henri Wallon insere-se na tradição dos teóricos que defendem uma concepção de homem constituído em dupla determinação: a biológica, que recebemos como herança, e social, resultado das pressões do meio.
A formação humana acontece num movimento constante de vir a ser. Cada etapa da vida constitui-se em um momento de equilíbrio e se define por um conjunto de características e necessidades biológicas, psicológicas e sociais, imbricadas de tal forma, que se realiza, simultaneamente, a formação da personalidade e o conhecimento do mundo objetivo. As características de cada fase têm como base o que foi gestado na fase anterior do desenvolvimento e o que oferece no presente, num processo de atualização. 
O processo de desenvolvimento é dinâmico e decorre das possibilidades do meio, das atividades , das escolhas que faz.
A teoria pressupõe o desenvolvimento intelectual inserido numa cultura mais humanizada: considera a pessoa como um todo, em que a afetividade, movimento e inteligência se integram.
Na obra "As Origens do Caráter na Criança", de 1934, Wallon  discorre sobre três aspectos complementares no desenvolvimento: a emoção, como forma de expressão de comunicação, a consciência do próprio corpo e de si mesmo.
As emoções têm papel preponderante no desenvolvimento, visto que são manifestações de necessidades, desejos e intenções  que mobilizam o outro. Inicialmente, nos bebês, como atividade expressiva que modula plasticamente o corpo e permite ao adulto interpretar a postura como sinal de situações  de bem–estar ou de mal–estar. A partir da emergência da função simbólica na criança, com a representação, a emoção se configura como afetividade. Um bom professor observador identifica no aluno os momentos de tensão, desconforto, medo e outras expressões que minimizam e mesmo impedem suas aprendizagens. O aluno não habita a escola. Ele é parte de um grupo, o de sua sala de aula  e, nesse grupo, assume um lugar, que pode ser o líder ou de fraco, por exemplo.
O professor precisa estar atento em como os grupos interagem, como se dão as relações no interior dos grupos e o quanto elas possibilitam a experimentação de diferentes papéis. 
A emoção é altamente contagiosas e, para que haja aprendizagem, é necessário que se reduza a temperatura emocional. Isso pode significar dar oportunidade ao aluno para se expressar de variadas formas  (escrevendo, falando), se movimentar e intercalar momentos de alta e baixa concentração, em que o aluno possa conversar  com os colegas, levantar–se, sair da sala.
Também o movimento, na teoria walloniana, tem papel central no desenvolvimento e aprendizagem. Organizar os espaços escolares  para que atendam às necessidades motoras dos alunos é condição para a aprendizagem. Apesar das mudanças, a escola ainda valoriza o silêncio e a imobilidade.
Na obra "Do Ato ao Pensamento", de  1942, Wallon analisa a passagem da inteligência prática à inteligência discursiva, utilizando o método genético comparativo. Ele compara o desenvolvimento da criança com: o animal, o primeiro, os enfermos e o adulto. Mais tarde, em 1945, na obra "As Origens do Pensamento na Criança" discorre a respeito do desenvolvimento do pensamento, até a constituição do pensamento formal, na adolescência. 
A criança pensa e dá respostas de acordo com seu nível de funcionamento mental, diferente em cada fase. Por exemplo, a atenção exigida para realizar determinada atividade varia em termos de tempo de concentração, de acordo com a idade; o erro significa a expressão de uma forma de operar com determinada situação, e não falha ou uma confusão mental; as reações de indisciplina podem ser geradas por desconfortos diante de situações que os alunos ainda não conseguem identificar ou controlar. 
Levando em conta as necessidades afetivas, motoras e cognitivas, a escola deve se apresentar como “uma oficina de relações“, em que as necessidades da criança, sejam compreendidas  , satisfeitas e encaminhadas. 

PRÁTICA PEDAGÓGICA 
Considerar o meio humano como condição de humanização remete à escola como um espaço social privilegiado  de formação. A educação escolar, sistemática intencional deve dirigir–se primeiramente à personalidade inteira da pessoa, e, ainda, que priorize o trabalho com o conhecimento, a ação pedagógica influi de forma abrangente em todas as suas dimensões.
A escola precisa ser um ambiente onde o sujeito aprenda a vida social e democrática  , não só pela resposta ordenada das lições dos livros, mas também pelas experiências da vida cotidiana , por meio de pesquisas, análise , reflexão de sua condição e a do outro, perceber quais são os conflitos e quais os consensos possíveis.
Dada a importância que tem na regulação da vida da criança  , a escola tem condições de ser um contraponto em caso de situações familiares traumáticas, de contribuir para a superação de sentimentos que limitam a atividade intelectual, como o medo , a angústia , a vergonha. Para isso  , entretanto  , é necessário repensar o modelo de escola que temos, assentado em etapas rígidas definidas por avaliação exclusiva de resultados no campo de cognição.
É necessário incorporar a noção de educação enquanto necessidade do processo de desenvolvimento, o que inclui uma educação ética, que incorpore, nas ações cotidianas, outros valores, como a solidariedade, a coragem de assumir frente ao outro o que se considera correto, o que implica necessariamente, como ensina Wallon, experiências cotidianas que levem em conta a necessidade de afirmação e de limitação do “eu“ perante o outro. 

Fonte – CARTA  FUNDAMENTAL  págs 52 ,53,54,55

Muitos anos de VIDA





Muitos  anos de VIDA
Parabéns  a você ...

Em 1893, as irmãs Mildred Jane e Patty Smith Hill, ambas professoras, criaram a canção infantil “Good  morning to all”  ( Bom dia a todos ) para alegrar seus alunos do jardim de infância em uma escola de Kentucky, nos Estados Unidos. Alguns anos depois, elas decidiram alterar a letra da canção  e surgiu  "Happy birthday to you“. De acordo com uma estimativa do mercado fonográfico, a música original rende dois milhões de dólares anuais aos herdeiros das irmãs Mildred e Patty e à editora Warner Chappell. No Brasil, a melodia composta pelas americanas foi adaptada por intermédio da Gravadora Continental (posteriormente comprada pela Warner Music). que promoveu um concurso para escolher a versão nacional, em 1942.
Na época , Bertha tinha 40 anos e morava com o marido em Pindamonhangaba, a cidade onde nasceu, no interior de São Paulo. Formada em farmácia, ela emprestava sua credencial profissional para manter uma drogaria local em funcionamento. Mas não  trabalhava no balcão. Tinha uma vida típica de dona de casa e seu passatempo favorito era ouvir rádio. Gostava também de escrever, apesar de não ser uma leitora assídua. Fazia  poemas e crônicas até descobrir um filão: os jingles.
Na época, fabricantes de produtos diversos promoviam concursos entre os ouvintes de rádio, e dona Bertha se inscrevia em todos, algumas vezes usando codinomes. Criou rimas para cera, pasta de dente, remédio para dor de cabeça, chá... e começou a arrematar prêmios. Alguns eram em dinheiro, outros pagos em mercadorias. Na casa de dona Bertha, por exemplo, havia um estoque inesgotável de latas de cera que resultou do seguinte verso: “Vou lhe contar um segredo  / Que todos sabem de cor  / Dá lustro até um rochedo  / A super cera Record.” 
Dona Bertha estava em casa, diante do rádio, quando ouviu o locutor anunciar: a letra escolhida para a versão da música  “Happy birthday to you“ era de Léa Magalhães. A quadrinha despretensiosa elaborada em poucos minutos se transformará na música mais cantada do país pelos próximos anos. 
- Quase ninguém acredita quando digo que minha mãe é autora de “Parabéns a você“. Acham que é uma música de domínio público  - diz Lorice Homem de Mello, filha de Bertha. Segundo a família, dona Bertha nunca se preocupou com os direitos autorais. - Ela nem pensava nisso. O que a deixava feliz era ser reconhecida pelas pessoas como autora do “Parabéns“ – conta a neta.
De acordo com a especialista em distribuição do Ecad Suely Marins, todos os repasses de “Parabéns a você “ são feitos regularmente para os representantes dos autores.
- Mas, para receber, o compositor precisa estar com o cadastro regularizado. 
Léa Magalhães, dona Bertha, compôs a versão em português de “Happy birthday to you“, a música mais popular do planeta. Na contagem realizada pelo Ecad ( Escritório Central de Arrecadação e Distribuição  ), “Parabéns a você“ lidera o ranking de execuções públicas na categoria música ao vivo, que relaciona principalmente aqueles shows realizados em bares, restaurantes, casas noturnas e festas. Esta categoria é um ponto fraco do Ecad, já que monitorar a programação de uma rádio  é mais simples do que a  de um barzinho no interior do país. Em 2008, a música foi tocada 19.756  vezes, nas contas do Ecad “Garota de Ipanema“ ficou em segundo, com 592 execuções, seguida  por “ Wave “ , cantada 565 execuções. ”Andança“, por incrível que pareça, não chegou entre as dez mais.

Fonte  - Revista  O Globo  - 14 de junho de 2009