quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Camélia da Liberdade



Uma justa homenagem aos que 
Lutam contra a desigualdade racial  

Milton Gonçalves  muito
Inspirado emocionando a 
Todos ao recitar o poema “ Eu me Levanto “
 
Uma noite alegre, descontraída de confraternização e muita emoção. Assim pode-se definir a edição do V Prêmio Camélia da Liberdade, realizado pelo CEAP – Centro de Articulação de Populações Marginalizadas que aconteceu no último dia 31, no VIVO RIO. O evento cujo objetivo é homenagear aos que se destacaram e realizaram obras em prol do combate às mais diversas desigualdades teve como atrações musicais Marcelinho Moreira, Teresa Cristina, Sandra de Sá e Grupo Fundo de Quintal. Na ocasião prestou-se uma bela homenagem ao marinheiro João Cândido.   
Mas, o que seria uma premiação e um encontro de confraternização, acabou por se transformar em um evento tomado por muita emoção, que obrigou os vários presentes e refletirem sobre a realidade do negro em nossa sociedade. O momento aconteceu exatamente quando foram concedidas homenagens especiais ao ator Milton Gonçalves, ao Padre Gege e ao delegado Henrique Pessoa – personalidades que se destacam nesta luta contra as desigualdades.
Milton Gonçalves, o primeiro a ser homenageado, recitou o poema  “Assim eu me Levanto“, da poetisa americana Maya Angelou, e, em seguida fez uma reflexão sobre o texto e um discurso emocionado que sensibilizou aos participantes do evento. O ator, em alguns momentos quase indo às lágrimas foi enfático:
- Se somos 50% da população deste país, por que não somos 50% nas Câmaras de Vereadores , nas Assembléias e no Senado ?  Se somos  50% desse país por que não ocupamos 50% dos melhores empregos e cargos que tragam dignidade humana? É preciso construir o presente e o futuro e deixarmos de lamentar o passado. É preciso viver dignamente e a exemplo do poema que acabo de ler, nos levantarmos, pois  só assim poderemos ser respeitados em nossas individualidades e merecermos o tratamento de um país sem preconceito e democrático como nos rotularmos.

Ainda  assim , eu me levanto
   

Maya  Angelou  
                              
Você pode me riscar da História  
Com mentiras lançadas ao ar .
Pode me jogar contra o chão de terra ,
Mas ainda assim , como a poeira ,
Eu vou me levantar  .
Minha presença o incomoda  ?
Por que o meu brilho o  intimida ?
Porque eu caminho como que possui
Riquezas dignas do grego Midas  .
Como a lua e como o sol no céu  ,
Com a certeza da onda no mar  ,
Como a esperança emergindo na desgraça  ,
Assim eu vou me levantar  .
Você não queria  me ver quebrada ?
Cabeça curvada e olhos para o chão ?
Ombros caídos como as lágrimas  ,
Minh´alma enfraquecida pela solidão ?
Meu orgulho o ofende  ?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim  .
Pode me atirar palavras afiadas  ,
Dilacerar-me com seu olhar ,
Você pode me matar em nome do ódio ,
Mas ainda assim , como o ar ,
Eu vou me levantar  .
Minha sensualidade incomoda ?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam ?
Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo–se  como a maré .  
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto .
Em direção a um novo dia
De intensa claridade
Eu me levanto  
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a
Esperança do homem escravizado,
E assim, eu me levanto,
Eu me levanto. 
 
Fonte  - Jornal Destaque   - junho 2010  pág  10
Capital Cultural - Texto : Jurandir Junior
   

O escravo e o doutor




Elciene Azevedo realizou um movimento algo distinto. Centrou–se num  mito, numa figura  quase épica, legendária na crônica e mesmo na historiografia dedicada ao período: um negro que, antes da Abolição, havia se transformado em personalidade, em “notável cidadão“ , em unanimidade por toda admirada. Em  Orfeu de Carapinha, a historiadora procura explorar as tensões  entre o homem e o mito para entender a dinâmica da época. Elciene não se satisfaz com a exaltação costumeira da figura de Luiz Gama, o negro abolicionista  e republicano que enfrentou  “seu destino de escravo revertendo–o em luta contra a escravidão“.  Abre-se para a busca das "dimensões ambíguas e por vezes contraditórias de sua atuação“, procurando explorar ao máximo o fato mesmo de um negro ter penetrado com êxito  ( e de modo contestador  )  aquele mundo branco e senhorial.
Luiz Gama se presta como poucos a essa operação.  Filho de um fidalgo português com uma quitandeira africana, nasceu como homem livre na cidade de Salvador, em 1830. Aos dez anos, foi vendido como escravo pelo próprio pai e enviado a São Paulo, onde conseguiu simpatia e proteção de alguns poderosos. Alfabetizou–se, tornou–se  funcionário público , vinculou–se  ao republicanismo paulista, arriscou–se  como poeta satírico e, acima de tudo, adquiriu na prática todo o conhecimento jurídico necessário para advogar  “gratuitamente em favor de todas as causas de liberdade“, particularmente dos escravos.
Deixou de ser “um pobre negro esfarrapado e descalço“ para se tornar um “doutor“, infiltrando–se pelas brechas do sistema. Mostrando surpreendente habilidade para estabelecer relações  com os mais diversos setores da sociedade paulistana, irá se revelar um causídico incansável e vitorioso.
A forma  “passiva“, isto é,  sem rupturas fortes e sem maior mobilização popular, adquirida  pela crise da monarquia,  se viabilizou e deu sentido à trajetória de Luiz Gama, complicou os sonhos  “ americanistas  “ de Rebouças e as ideias reformadoras de Nabuco. Ambos tiveram de aceitar as convenções imperiais, fato que significará uma derrota para Rebouças, que não se dava com a política, mas será visto por Nabuco como a possibilidade mesma de uma vitória, ensejando sua conhecida opção pelo abolicionismo pragmático.
De um modo ou de outro, esses fascinantes intelectuais do século 19 anteciparam muitos dilemas nacionais e expuseram a céu aberto vários dos eixos com os quais construir, nas específicas condições dos trópicos  de passado colonial, um país moderno, forte na economia, socialmente  justo e democrático. São,   por isso  atualíssimos.

Fonte  - Jornal  de Resenhas  Especial - 14/08/1999 - pág 7   

Marco Aurélio Nogueira  é professor de Política da Universidade  Estadual Paulista  (UNESP) 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quando teremos o dia do professor?


À MESTRA, COM CARINHO
  
Desde adolescente, sempre quis ter um professor como Sidney Poitier. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Poitier é um artista americano que, entre outros feitos, tornou–se o primeiro negro a ganhar um Oscar de melhor ator, com o filme  “Uma voz nas sombras“. Mas, para mim, ele vai ser sempre o professor Mark Thackeray, que, no filme “Ao mestre , com carinho“, conquistou uma turma de adolescentes  desajustados numa escola pública na parte mais pobre de Londres. O professor Thackeray  corta um dobrado para receber a atenção de seus alunos, mas era tão bom que a turma acaba homenageando-o na festa de fim de ano e sai da escola com a consciência de que suas lições foram para toda a vida. 
Na falta de Sidney Poitier, servia uma professora como Sandy Dennis. Não sei se vocês se lembram dela. Sandy também ganhou um Oscar, o de atriz coadjuvante por sua interpretação em “Quem tem medo de “Vírginia Wolf“, realizado no mesmo 1966  de “Ao mestre com carinho“. Mas, para mim, Sandy vai ser sempre a professora Sylvia Barret de “Subindo por onde se desce“, um filme em que ela ensina a viver um grupo de alunos de uma escola na parte mais barra pesada de Nova York. Era o primeiro emprego de Sylvia. Serviria como estágio. No fundo, ela queria passar logo por aquela provação e ir para uma escola mais organizada. Mas ela descobre que é ali que os garotos precisam dela e resolve continuar. 
“Ao mestre com carinho“ e “Subindo por onde se desce“  são filmes de um gênero que me toca de uma maneira especial. São “os filmes–nos-quais-um–professor-muda-a- vida –de–seus–alunos–e-eles-se–mostram–gratos-por-isso“. Talvez, para quem chegou aqui há menos tempo do que eu, o filme mais significativo dessa série  seja “Sociedade dos Poetas Mortos“, com Robin Williams interpretando  o professor John Keating. Tudo bem. Na impossibilidade de contar com Sydnei  Poitier ou Sandy Dennis eu não me importo de admitir que sempre quis ter um professor como Robin Wiliams.
Esses filmes são sempre comoventes. São daqueles que te fazem sair do cinema chorando. Aquele tipo de relação entre professor e aluno, o impacto que o mestre provoca no estudante, as lições de vida que são dadas à Turma, mas que servem para o espectador também, tudo é escrito para te emocionar. São coisas de cinema. Não acontecem na vida real. 
Na semana passada, já burro velho, descobri  que esse encontro único entre mestre e aluno pode estar mais perto do que eu imaginava, numa escola logo ali, muito longe de Londres ou Nova York.  É mais real do que o mostrado numa tela de cinema. Foi quando li aqui no GLOBO  a reportagem  de Gabriela Lapagesse sobre a ação dos alunos da Escola Carolina Patrício na Barra da Tijuca. Sabendo que a professora de Português e Literatura Norma Ribeiro do Carmo iria se submeter a sessões de quimioterapia para se livrar de um câncer, eles rasparam a cabeça em solidariedade à mestra. A foto de Marcelo Carnaval em que a professora, já com os cabelos curtinhos, é cercada por 18 adolescentes de cabeça raspada me fez chorar. Como eu chorava nos filmes de Sydnei Poitier, Sandy Dennis  e Robin Williams. Mas o choro desta vez foi provocado por uma notícia de jornal, não por um roteiro de cinema. Como deve ser boa essa professora! E eu, depois de tanto tempo, descobri que, na verdade, eu sempre quis ter uma professora como Norma Ribeiro do Carmo.

Fonte  - REVISTA  O  GLOBO  -  14/09/2014 - Artur Xexéo 


Exercício de Redação 


Marcos Keetzmann

Um quadro, o giz, crianças. 
Carteiras, lápis e papéis 
Silêncio difícil, atenção dispersa. 
Catapora, caxumba, resfriado, 
o pai doente, a mãe desempregada, 
e até a fome devorando estômagos pueris. 
E estas crianças... 
altas  pretas,  baixas brancas, gordas pardas, 
e amarelas, marrons, pálidas, pálidas...
Deu o sinal...
E lá vem ela, a professora, 
ensaiando um sorriso, no seu rosto sem idade.
( O pai doente, a mãe desempregada, 
e até a fome devorando estômagos pueris ). 
Mãe, avó quem sabe sem amores, 
povoando sua vida com filhos às centenas, 
filhos de outros, filhos que duram um ano, 
e se renovam a  cada ano, novas caras, novas  cores, 
filhos que não crescem, porque nunca são os mesmos, 
mas querem carinho, força, estímulo  e paciência.
Filhos exigentes, que tiram tudo da gente, 
e que se ama até quando inexistentes.
  
Tia, tia, faz de conta  que é recreio, 
sai da sala, vem ao pátio, aqui no canto ou na cantina. 
Volta ao tempo, esquece a idade, torne um pouco a ser menina. 
E receba de nós todos, neste dia que é o seu, 
o beijo de nosso afeto, respeito  e veneração, 
tudo isto que um dia, exprimimos simplesmente, 
chamando: Tia !


                                                                                                               Ao dia do Professor
                                                                           Equipe Administrativa e Técnica  - Pedagógica
                                                                                 EM “Otoniel  Mota“ 1986 - São Paulo


EDITORIAL

                        Quando teremos o dia do professor  ?  

Não se trata, apenas do dia de festejar  uma categoria profissional. Este já existe. Trata-se do dia em que a educação no Brasil for prioridade das prioridades políticas e sociais. O professor se sentiria prestigiado e não precisaria entrar em greve nem fazer passeata, como se fosse um profissional qualquer, protegido ou corrido pela polícia. A valorização do professor é a do aluno. Aliás alunos todos nós fomos um dia. Nossos professores se tornaram  inesquecíveis
O professorado faz parte da problemática da educação no Brasil. É histórica a questão. É política e econômica. É de capacitação e de estratégia. Protela as indagações de interesse nacional ou a elas responde: Que país nós queremos construir ? A pátria de todos ou somente para alguns? As perguntas procedem desde que a república herdou da colonização e do império a estrutura social iníqua da desigualdade: massa de empobrecidos e de analfabetos, latifúndio e concentração das riquezas, corrupção e clientelismo. 
Embora nos diversos ciclos republicanos se tenha respondido com políticas educacionais, à impressão é de que, entrando nas camadas populares, e as estatísticas a confirmam, anda-se bastante devagar na direção de uma educação pública fundamental. Exceto para as elites que podem pagar pela escola particular. O desenvolvimento científico e tecnológico não acompanhou ainda a democratização do ensino público de base. É estranho, por ser a educação o caminho para vencer a desigualdade e fazer crescer o país. Passa pelo acesso ao ensino, a capacitação e a remuneração e o plano de carreira do professorado, a escola equipada. É investimento social.
A longa greve dos professores no Rio de Janeiro tem a ver com plano de cargos e de salários, que mexe  com o bolso deles, e se insere na problemática mais ampla, que reclama pelos recursos disponíveis a serem priorizados. Estabelece–se o conflito. Por isso, apesar dos pesares,  entre os quais a aflição dos pais e a privação dos alunos do direito às aulas, a  sociedade e o governo  obrigam–se a encarar a educação com pragmática e programática. Até pode ser benéfico. 

Magistério não é 
nem sacerdócio 
nem voluntariado. 
Por isso, a greve 
é um recurso 
válido, mas não 
indefinidamente 
pois prejudica os 
alunos 

O professor do Rio tem o maior piso entre as capitais, é verdade. Ainda ganha pouco, porém, daí o descontentamento. No plano de cargos e salários aprovado pela Câmara e rejeitado pelo sindicato, há omissões. Não foi considerado o tempo gasto com atividade extra-escolares, tais como planejamento de aulas, correção de trabalhos, leituras obrigatórias, atualização permanente. Requer justa remuneração e a aplicação mais equânime dos tributos. 
Como se não bastasse, os colégios precisam de segurança diante de invasões e de roubos do equipamento. Professores e outros funcionários são vítimas da violência em certas localidades. Existem alunos ameaçadores e ameaçados de surra ou morte. Não há salário suficiente nem amor ao magistério que compensem tal situação de estresse e de desânimo, e  de horror ao ver  alunos ou ex–alunos com fuzis nas mãos, na entrada das comunidades. A desistência do professor penaliza ainda mais o pobre.  Vemos como, de fato, a educação  se insere na problemática da desigualdade e da aplicação  prioritária dos recursos. 
Magistério não é nem sacerdócio nem voluntariado. Por isso, a greve é um recurso válido, mas não indefinidamente, pois prejudica os alunos. Reclama pela conversação sensata para alcançar o acordo razoável possível, ainda que temporário. Com pé no chão: a aceitação do limite de caixa e a demanda, sem ideologização corporativa nem político–partidária.
  
Fonte – Jornal TESTEMUNHO DE FÉ
20 a 26 de outubro de 2013 - pág. 2



"Gargalhômetro" Mede riso infantil diante da televisão

Em entrevista, diretora de instituto alemão fala de 
pesquisa que detalha reações de crianças a programas 

Maya Götz , que vem a 
São Paulo para dar 
oficina, diz que 
incongruência é o que 
mais provoca risadas

Riso é uma questão de gênero, coisa da idade e tem apelo cultural. É o que aponta uma espécie de “gargalhômetro“  ( “fun–0–meter“ ) usado em pesquisas para descobrir onde está o riso infantil em programas de TV
O “gargalhômetro “ foi um dos métodos usados por Maya Götz, diretora do Instituto Central International para a Juventude e a Televisão Educativa ( IZI ), em Munique, Alemanha, em mais de uma década de estudos sobre o senso de humor infantil e a programação na telinha. 
A pesquisadora estará em São Paulo durante o Com Kids, que discute a produção áudio visual para a infância e ocorre até o dia 19. Ela ministrará a oficina  “Humor: Afinal o que as Crianças Estão Dando Risada ?“ no SESC Consolação, no dia 15, às 19 h. 
Em entrevista  à Folha, por e-mail, ela falou que produtores de conteúdo para a infância geralmente se apoiam num humor complexo, que não provoca riso nas crianças. Leia os trechos  a seguir:

Folha - Como foram feitas as pesquisa ?

Maya Götz   - Fizemos mais de  15 estudos em mais de 40 países, com diferentes metodologias. Criamos, por exemplo,  “um gargalhômetro” ( “fun-0-meter“ ), uma caixa com um joystick manipulado por crianças enquanto assistem TV, para indicar o que é mais ou menos engraçado. O próximo estudo deve se dar em 30 países, em 2012.

Crianças riem do quê ? 

Crianças no mundo todo riem mais ou menos das mesmas coisas. A diferença maior está entre o que faz as crianças e os adultos darem risada. A razão principal para algo ser engraçado é a incongruência. Mas há variações conforme  a idade, o gênero e as experiências cotidianas.

Pode dar exemplos  ? 

Crianças de Soweto, gueto da África do Sul, não acham graça em guerra de comida. Uma cena dessas em  “Wallace e Gromit“ [ Nick Park ], com purê de batata, foi engraçada para as crianças da Alemanha e dos EUA. Mas não para as de Soweto. Elas disseram que poderia ser divertido se jogassem água ou até mesmo o purê na boca um do outro. 

Como é o humor de crianças da América do Sul ?

Crianças do Brasil, da Argentina e da Colômbia sentem e expressam emoções facilmente. Se estão em grupo, a risada funciona como uma onda. São bem ativas durante a recepção, enquanto assistem a um programa na TV.

O que faz de “ Bob Esponja “  um  sucesso entre crianças e adultos  ? 

Muito do humor de “Bob Esponja“ vem da própria estética. É engraçado quando seus olhos viram e reviram. Mas é também porque representa a criança, é otimista, está sempre burlando  regras, persiste até conseguir, irritando adultos sem perceber.

Uma das discussões hoje no Brasil é sobre a publicidade na programação infantil. Qual é a sua opinião  ? 

Na Alemanha, em nosso canal público para crianças, é proibido anunciar e temos regras no mercado de licenciamento. E há canais como Nickelodeon, com publicidade. Digo que, se há chance de evitar a propaganda na TV infantil, evite. O perigo é a criança achar que precisa de uma marca ou brinquedo para construir sua identidade.

AS CRIANÇAS RIEM DE QUÊ?

Entenda as razões da risada infantil segundo Maya Götz, diretora da Fundação Prix Jeunesse

IGUAL, MAS DIFERENTE 

O sensos de humor
infantil varia conforme 
a idade, aspectos 
culturais e gênero 

Coisa da idade 

Crianças com até seis anos de idade
acham graça em piadas sobre pum,
xixi e cocô. Já  meninas com dez 
anos riem se a piada é sobre beijo ou paquera.                                   

Influência Cultural

Personagens  caracterizados
com quadris grandes fazem 
crianças egípcias gargalharem
muito mais do que as  que 
vivem na Inglaterra 

Ironia infantil 

Crianças só passam a entender
ironia entre seis e oito anos.
Estudos mostram que crianças 
irlandesas riem mais facilmente 
de piadas irônicas

Meninos e meninas 

Meninos, ainda bem pequenos  
dão risada de cenas violentas,
quando alguém cai e se machuca,
por exemplo. Garotas geralmente 
não acham graça.

Realidade 

Crianças de guetos da África 
do Sul não acham graça em personagens
que jogam comida uns nos outros. 
Na Alemanha ocorre o contrário.

Fonte  - Jornal Folha de São Paulo  
E4 Ilustrada – domingo, 12/06/2011  
Gabriela Rossi  Editora –Assistente – da FOLHINHA



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A Copa no Brasil - 2014


Apesar das contestações e manifestações, a Copa aconteceu e tudo funcionou, contrariando e surpreendendo os críticos de plantão e os que torciam para que desse errado.  Foi maravilhoso ver a mistura dos povos, desse mundo conturbado, onde muitos países estão em guerra, demonstrando a falta de amor e apego ao poder desacerbado. Em um mês foi possível verificar no Rio de Janeiro,  as ruas, avenidas cheias de pessoas felizes, cantando, sorrindo, tirando fotos, filmando, convivendo com os brasileiros, como se já se conhecessem ou convivessem. Encantados não só com a beleza da cidade, alegria e cordialidade dos camelôs, garis, moradores, no comércio, etc...  
A massa popular deu um banho, não só nesses aspectos, como também na torcida pela seleção brasileira. O FANFEST que podemos dizer... superlotado com sol ou chuva. Foi grande o contingente dos turistas estrangeiros e do nosso país. Na saída do metrô,  parecia o reveillon, vendo as pessoas saírem, muitos fantasiados ou com as camisas e bandeiras de seus países. Muitos vinham, chegavam cedo, pois saíam dos diversos bairros do Rio. No calçadão dia e noite as pessoas caminhavam, paravam para ver grupos tocando, dançando, batucando. Na areia lembrava  Jornada da Juventude em 2013, sem espaço.  
O que me chamou atenção é que alguns jovens jornalistas, não dominavam o inglês, nem espanhol  e  quando iam realizar algumas entrevistas, só procuravam os estrangeiros e para fotografarem também. Foi possível verificar o mesmo nas aparições dos jogos na TV, só a elite, evitando mostrar a cara do povo brasileiro... Sendo uma cobertura de transmissão internacional, nosso país teve uma grande projeção, desmitificando a imagem negativa no exterior. Lamentavelmente os que compareceram nos estádios, não demonstraram emoção ao cantarem o hino nacional e torcerem. Vimos, sim, crianças cantando e chorando com muita emoção, até as que acompanhavam os jogadores. Foi surpreendente as participações, o  nível e potencial de alguns times, que muitos não acreditavam como: Argélia, Chile e o que dizer de Costa Rica naquele grupo que todos temiam. A eficiência  e potencial dos técnicos  trouxe à Copa  uma bela participação. Cabe aos dirigentes, comissão técnica do nosso país, descerem do salto e realizarem  profundas mudanças, observando o futebol em outros países.  A mídia acompanhou a reação da população, que não crucificou os jogadores, evitando o que ocorreu em 1950 que culparam o goleiro, sendo marcado eternamente, isoladamente. O mesmo ocorreu em 2010, só que ele deu a volta por cima nessa Copa. Sim, senão teríamos saído antes... Nos  chamou atenção e indignação  na  narrativa dos jogos, alguns comentaristas preocupados mais com, o cabelo, o tamanho da cabeça, o nariz, as tatuagens dos jogadores. Já pensou se um professor agir dessa forma na escola! É bullying... Ainda bem, que tem excelentes comentaristas, que sabem tudo de futebol, não deixando transparecer para quem estava torcendo. Sim... porque uns poucos só falavam no Messi e na Argentina.  
A parte negativa foi a de alguns juízes cuja atuação deixou a desejar, prejudicando algumas seleções, inclusive o juiz que não mostrou o cartão ao jogador que atingiu o Neymar e a FIFA que não deu a resposta que esperávamos. 
Vale ressaltar a união das famílias que se dirigiram ao FANFEST, como também se reuniram em seus lares, nas vizinhanças, com ruas enfeitadas e também nos locais de trabalho. Bom mesmo é que 95% dos turistas estrangeiros vão recomendar a viagem ao Brasil. Espero que os professores aproveitem e trabalhem nas salas de aula. É possível envolvimento de todas as áreas e principalmente podem desenvolver o trabalho em equipes apontando, analisando com os alunos, os times que foram até as finais e o que foi campeão. A derrota também deve ser discutida pois serve como aprendizado na vida cotidiana. Os brasileiros gostam  muito de assistir a Copa e Jogos Olímpicos e valorizam muito os esforços  e desempenho desses profissionais dos esportes de todas as modalidades, dos técnicos e preparadores. Ainda bem, que os governantes começaram a valorizar mais os Jogos Olímpicos. Só que muitos precisam de ajuda financeira não só do poder público, como também dos patrocinadores que se empenham mais no futebol. Não podemos  esquecer das transmissões dos outros países, com vários jornalistas no calçadão de Copacabana, filmando, entrevistando e fotografando todos que ali passavam ou se encaminhavam para o FANFEST. Pela CNN, o que chamou atenção, foi o número de jornalistas negros em toda programação, o que não  ocorre no Brasil. Foi de suma importância para nós a Copa, porque agora verão o nosso país e nosso povo com outro olhar.

Fonte – Ana Regina Gouvêa  
Profª de Matemática Psicopedagoga e Gestora de Comunicação / ECA – USP 2012    



Festa
   
A Copa do Mundo revela a ambiguidades de nosso tempo. Um bilhão e meio de pessoas assistem às mesmas imagens confirmando o avanço da globalização. Mas o conteúdo das imagens a que todos assistem afirma os pertencimentos nacionais, expressos com símbolos ancestrais, bandeiras, emblemas, hinos entoados com lágrimas nos olhos. O nosso é cantado à capela pelos jogadores e uma multidão em verde e amarelo desafiando o regulamento da Fifa, entidade sem pertencimento que salpica no espetáculo, em poucas nas mal tocadas, o que para cada povo é a evocação emocionada de sua história. No mundo de hoje comunicação e mobilidade se fazem em escala global, mas os sentimentos continuam tingidos pelas cores da infância.   
O respeito as regras, saber ganhar e saber perder, são conquistas de um pacto civilizatório cuja validade se testa a cada jogo. A violência em campo que, aos habitués dos estádios parece normal, aos olhos de uma leiga torcedora de Copa do Mundo é aflitiva. Em equilíbrio instável, as equipes oscilam entre o compromisso com o fair-play e os tambores de guerra refletindo a banalidade com que, mundo afora, se convive com a brutalidade.  
O  futebol useiro e vezeiro em contrariar cenários previsíveis. O acaso pode ser um desmancha–prazeres. A multidão que se identifica com os craques e que conta com eles para realizar  o gesto da grandeza que em vidas sem aventura nunca acontece, essa massa habitada pela nostalgia da glória deifica os jogadores  e esquece – e por isso não perdoa – que deuses às vezes tropeçam nos próprios pés, na angústia e no medo.  
Seremos campeões. Não sabemos. Tomara! O melhor futebol é a alegria de torcer. Essa Copa do Mundo vem sendo uma festa vivida nos estádios, nas ruas, e em cada casa onde se reúnem os amigos para misturar ansiedades. A cada gol da seleção há um grito que vem das entranhas da cidade. A cidade grita. Nunca tinha ouvido o Rio gritar de alegria. Um bairro ou outro, talvez, em decisões de campeonato. Nunca a cidade inteira, um país inteiro. Em tempos de justificado desencanto e legítimo mau humor, precisamos dessa alegria, que se estende noite adentro nas celebrações e na confraternização das torcidas.  
Passada a Copa, na retomada do cotidiano, é provável que encontremos intactos o desencanto e o mau humor, já que não havia à vista, sinais de mudança no que os causou. Uma razão a mais valorizar esse tempo de alegria na vida de uma população que, no jogo da vida, sofre tantas faltas.
             
Fonte : Jornal O Globo 21/06/2014   
Rosiska Darcy de Oliveira é escritora   
   


Cidade recebeu  
Quase 900 mil visitantes na Copa  

Segundo balanço da prefeitura, arrecadação do setor de turismo chegou a R$ 4  bilhões. O Rio recebeu 471 mil turistas estrangeiros e 415 mil visitantes nacionais durante a Copa do Mundo.  Somente argentinos, foram 77 mil, seguidos por chilenos 45 mil e colombianos 31 mil. A arrecadação do setor do turismo superou em quatro vezes o esperado, chegando 4,4 bilhões. O gasto médio por pessoa foi R$ 639 diariamente. O balanço do Mundial foi divulgado ontem, pelo secretário de Turismo, Antonio Pedro Figueira de Mello, e pelo presidente da Rio Eventos, Leonardo Maciel, no Centro de Operações da prefeitura.   
Segundo Antonio Pedro, 515 mil torcedores assistiram aos sete jogos no Maracanã, uma média de 74 mil torcedores por jogo, lotação bem próxima de 78 mil espectadores.   
- A casa ficou cheia em todos os jogos. Além disso, 3,6 bilhões de pessoas assistiram à  partida final  em todo o mundo e viram a beleza da cidade.  A nossa expectativa é de que o Rio  mantenha  esse fluxo turístico pelos próximos sete a dez dias. O Rio foi a capital que recebeu mais turistas durante o Mundial – disse o secretário.   
Os dados apresentados fazem parte de um estudo realizado pelo Observatório de Turismo da UFF / ESPM, em parceria com a Riotur e o Sebrae  / RJ. A pesquisa apurou que 58% dos entrevistados pretendem voltar ao Rio para acompanhar as Olimpíadas de 2016.  Além disso o grau de satisfação dos estrangeiros foi muito alto: 98,8% tiveram as expectativas (de visitar a cidade) atendidas ou superadas; e 98,3% recomendariam o destino a parentes e amigos.
        
HOTÉIS: ATÉ  97,6% DE OCUPAÇÃO  

Mais de um milhão de pessoas assistiram os jogos nos telões instalados em Copacabana pela Fifa Fan Fest. Setenta e duas atrações musicais se apresentaram no palco da arena, totalizando 76 horas de shows e 300 horas de entretenimento. 
A taxa média de ocupação dos hotéis na cidade foi de 93,8% chegando a 97,66% na final, segundo a Associação Brasileira de Indústria de Hotéis  (ABIH / RJ ) . Já a taxa de ocupação média de albergues foi de 86% durante a Copa, chegando aos cem por cento na semana da  final,  de acordo com a Associação Café & Cama  e  Albergues do Estado do Rio de Janeiro.   
Os dois mais importantes  pontos turísticos  do Rio também receberam grande número de visitantes: cerca de 296 mil foram ao Cristo Redentor, e  175 mil, ao Pão de Açúcar. A média de visitantes no Corcovado é de cinco mil pessoas por dia, mas, durante a Copa do Mundo, foram registrados picos de até 12 mil em um único dia. Já o Pão de Açúcar, que recebeu oito mil visitantes.   

Fonte : Jornal O Globo – 16/07/2014 - Bruno Amorim  

VOCÊ  SABIA ?   

1°  PAÍS AFRICANO A VENCER EM UMA COPA   

No mundial de 1978, disputado na Argentina, a Tunísia se tornou a primeira seleção africana a vencer uma partida em Copa do Mundo. O feito histórico em 02 de junho no Estádio Nuevo Rosário, em partida válida pelo Grupo 2.   
Aos 45 minutos do primeiro tempo, os mexicanos abriram o placar com o zagueiro Arturo Vásquez.   
Aos 10 minutos da etapa final. Ali Kaabi empata a partida. A virada tunisiana, aconteceu aos 24 minutos  do segundo tempo, Moldar Dhouib anota o terceiro gol tunisiano dando números finais a partida.   

O MAIOR PÚBLICO REGISTRADO EM UMA PARTIDA DE COPA DO MUNDO   

A  quarta edição da Copa do Mundo, disputada no Brasil em 1950, registrou o maior público da história das Copas. O fato ocorreu no dia 16 de julho no Estádio do Maracanã, justamente na final do torneio contra a seleção do Uruguai.  
Por ter feito uma melhor campanha, a Seleção Brasileira se sagraria campeã com o empate. No entanto, a derrota de virada para a “Celeste Olímpica“ diante de um público de 199.854 torcedores marcou o maior público da história das Copas, ironicamente marcou também uma das maiores derrotas da Seleção Brasileira em mundiais. A partida ficou conhecida como “Maracanazzo“.      

O MENOR PÚBLICO DA HISTÓRIA DAS COPAS  

No dia 14 de julho de 1930, na partida entre Romênia e Peru, em jogo válido pela primeira fase registrou o menor público das Histórias das Copas. 300 torcedores presenciaram a vitória da Romênia pelo placar de 3X1, em partida disputada no estádio Pocitos, demolido em 1940.   

JOGADOR MAIS VELHO A DISPUTAR UMA COPA DO MUNDO   

O goleiro colombiano Faryd  Mondragon se tornou o jogador mais velho a disputar uma partida de Copa do Mundo. Ao entrar e campo, aos 39  minutos do segundo tempo, aos 43 anos de  idade, substituindo o goleiro titular David Ospina. O goleiro foi merecidamente  ovacionado pelos torcedores que estavam na Arena Pantanal , em Cuiabá. 
Até então, o recorde pertencia ao atacante camaronês Roger Milla, que disputou sua última partida na Copa do Mundo da Itália, em 1990 aos 42 anos.   

Fonte: Jornal Correio Carioca  julho de 2014
selecionado e editado por Fernando de Andrade


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Por que temos essa cara



Que brasileiro é miscigenado, é algo que se vê. Mas quanto? Em que proporção? Ainda no império, a mistura de etnias costumava horrorizar os europeus que desembarcavam aqui. Na época, influenciados pelas teorias raciais, eles viam a miscigenação uma ameaça de degeneração de todas raças que vivam no país. Hoje, os biólogos já descartaram  o próprio conceito de raça. Os pesquisadores sabem  que há tantas variações genéticas em um grupo com os traços físicos em comum que a noção de raça perdeu seu sentido – o rastreamento de herança genética é feito por meio de análise do DNA
No Brasil, o principal mapeamento de nossos mais 500 anos de miscigenação é comandado pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais. Após pesquisar mais de 300 amostras genéticas de brasileiros de diversas regiões do país, isolando os traços praticamente inalteráveis de pai e mãe para filho e filha durante séculos, os pesquisadores mineiros tiveram algumas surpresas.   
A primeira – foi a diferença entre a carga genética dos antepassados paternos e maternos. Enquanto a maioria das linhagens paternas dos brasileiros brancos é de origem européia (cerca de 90%), grande parte das linhagens maternas é de origem ameríndia e africana (cerca de 60 %). Ou seja: a maioria tem traços europeus herdados dos antepassados masculinos e traços indígenas e africanos da mãe. A ciência comprova que o colonizador europeu não se fez de rogado em ter uma prole numerosa com escravas e  nativas.    
A segunda surpresa – está relacionada à falta de relação entre a cor de pele e a origem genética dos brasileiros. “A cor no país, diz pouco sobre a origem de uma pessoa“, diz Sérgio Pena. “Cerca de dois terços das amostras genéticas de pessoas de cor branca não eram de origem européia. “Esses dados revelam que, no Brasil, a classificação de pessoas pelo aspecto físico é inútil, já que, geneticamente, muitos brancos podem ser considerados negros... e muitos negros podem ser considerados brancos.   
  
Por que falamos assim   



Ninguém contesta: No Brasil, a língua portuguesa reina absoluta. Mas o que faz com que os brasileiros  se comuniquem de forma tão diferente da de pessoas de outros países, inclusive de Portugal? Por que, quase sempre preferimos tirar alguma dúvida pessoalmente do que lendo o manual de instruções?   
Segundo a pesquisadora Eni Orlandi, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, a preferência pela língua falada no Brasil  não estaria ligada a um traço psicológico ou às altas taxas de analfabetismo no país. “Minha tese é de que essa preferência vem do fato de que convivemos durante séculos com 2 línguas: a portuguesa, usada nos documentos, e a chamada língua geral (o tupi adaptado pelos jesuítas para converter os índios), falada no dia-a-dia, dentro das casas“, diz Eni.    
Como a língua geral não era escrita, ela acredita que estaria aí a origem de nossa tendência para resolver qualquer coisa na conversa. “Diferentemente do que muita gente leu nos livros escolares, a influência do tupi em nossa língua não ficou restrita a alguns vocábulos como abacaxi, ,jibóia, açaí, diz. “A língua geral teve um papel decisivo, ainda que não tenhamos consciência disso, em nossa forma de falar.”     
Não fosse por um decreto do Marquês de Pombal, em 1757, impondo a língua portuguesa e proibindo a disseminação do tupi (e por tabela, o poder de ação dos padres jesuítas), essa influência poderia ter sido maior. “A medida foi decisiva para criar uma unidade linguística com base no português“, diz Bethania Mariani, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. “Ela pôs fim à diversidade de línguas no país, permitindo um maior controle maior de Portugal sobre a colônia“, afirma a pesquisadora.   
Caso a decisão de Pombal não fosse bem-sucedida, é possível até  que o Brasil hoje tivesse 2 línguas oficiais: o português e o tupi. “Mas não sei, sinceramente, se isso seria bom“, diz Eni Orlandi. “Afinal, isso poderia criar mais uma divisão social no país. De um lado, o tupi provavelmente seria a língua das camadas mais pobres da população, enquanto o português seria usado pela elite, que não raro abusa do bacharelismo como instrumento de exclusão social“.   
Bacharelismo é o tom pouco objetivo e pomposo ainda presente no discurso de boa parte dos políticos brasileiros. Ele teria origem, segundo os historiadores, na preferência da elite do século 19 pelo diploma de bacharel em direito, o principal passaporte para ocupar cargos públicos no país desde o Império.   
Para o gramático Ulisses Infante, ainda permanece no Brasil a falsa ideia de que o “falar e escrever difícil“ são sinônimos do uso adequado da língua. “Só recentemente alguns membros do judiciário parecem ter se dado conta de que não faz nenhum sentido escrever sentenças em um estilo indecifrável.”     

Por que somos Malandros
 


Aconteceu em 1943, após uma visita de Walt Disney, ao Brasil como parte da política de “boa vizinhança“ dos EUA que visava reforçar os laços com os sul-americanos durante a 2ª Guerra Mundial. Naquele ano, Pato Donald apresentaria um novo companheiro no filme Alô, Amigos: seu nome era Joe Carioca, para os americanos, ou Zé Carioca, para os  brasileiros, um simpático e falante papagaio. Dali em diante, a imagem do brasileiro se firmava como a de uma espécie de bom vivant tropical, cheio de ginga, que não se adaptava a empregos formais e vivia de “bicos".    
Mas, muitos anos antes de ganhar o mundo, a figura típica do “bom malandro“ já estava presente no imaginário do Brasil. A antropóloga Lilia Schwarcz pesquisadora do tema, diz que o advento do malandro está vinculado à questão racial no país. O malandro seria a figura do mulato brasileiro que dribla o preconceito e consegue uma certa ascensão social por meio de favores conquistados com ginga e simpatia.   
Antes de Zé Carioca, as desventuras do personagem Macunaíma, de Mário de Andrade, lançado em 1928, já havia revelado a essência malandra e mestiça do caráter nacional. Para o crítico  Antônio Cândido, o primeiro malandro da nossa literatura teria nascido muito tempo antes, ainda no século 19, com o personagem Leonardo Pataca, do livro Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.   
Mas se a figura de malandro surge como estratégia criativa de sobrevivência para ex-escravos, descendentes de escravos, enfim, todos aqueles que não se transformaram em cidadãos logo após a abolição, como entender a malandragem presente também na elite nacional?  
Em 1936, o historiador Sérgio de Buarque de Holanda dedicou um dos capítulos do seu livro Raízes do Brasil ao estudo do chamado “homem cordial“, termo usado então para explicar o caráter do brasileiro. Um dos traços do brasileiro cordial  era, segundo o historiador, a propensão para sobrepor as relações familiares e pessoais às relações profissionais ou públicas. O brasileiro de certa forma, tenderia a rejeitar a impessoalidade de sistemas administrativos em que o todo é mais importante do que o indivíduo. Daí a dificuldade de encontrar homens públicos que respeitem a separação entre o público e o privado e que ponham os interesses do Estado acima das amizades. 
Para diversos pesquisadores, isso se explicaria pelo fato de que, durante boa parte da colonização do país, o Estado se confundia com a figura do senhor de engenho, do fazendeiro de café e, anteriormente, com os próprios donatários das capitanias hereditárias. Ou seja:  a decisão sobre a vida e a morte de um escravo, por exemplo, era uma decisão de cunho tão privado como a escolha do mobiliário da fazenda pelo senhor e sua família, cuja autoridade estava acima de qualquer outra lei.  
Talvez por isso, quando a amizade e o jeitinho não funcionam, é normal ouvir–se um ríspido e autoritário “Você sabe com quem está falando?“, como diz o antropólogo Roberto da Matta.  
Em seu livro Carnavais,  Malandros e  Heróis, o antropólogo descreve o dilema herdado  pelo brasileiro. De um lado, nos submetemos a um sistema de leis impessoais  cuja obediência nos países ricos nos causa inveja e admiração. Internamente, contudo encaramos essas leis, como uma espécie de estraga prazeres - e os burocratas, sabendo disso, parecem muitas vezes aplicá–las para dificultar a vida do cidadão. De outro lado, existiria o sistema da nossa “rede  de contatos“, em que impera o parentesco, amizade ou qualquer ligação  pessoal que drible a lei. Trocando em miúdos: a lei é vista – e muitas vezes aplicada  - como um castigo e para fugir desse castigo vale a malandragem, o jeitinho.   

Fonte : Revista Super - setembro de 2005 - 
A CARA DO BRASILEIRO - 
Texto:  Rodrigo Cavalcante 




A Origem Das Famílias Brasileiras      
         
Linha Africana   
                              
Famílias cujos sobrenomes são resultado da miscigenação. Exemplo: descendentes de José Dias Macedo, nascido por volta de 1751, cuja família se estabeleceu em São Paulo.
   
Linha de Batina
   
Origens que vão recair em um eclesiástico. Exemplo: descendentes do padre Joaquim de Mello Franco, nascido por volta de 1780 e ordenado em Pernambuco.
   
Linha Cristã – Nova
    
Sobrenomes adotados por judeus desde o batismo forçado à religião cristã, a partir de 1497. Exemplo: descendentes de Antônio Farto Diniz, que nasceu por volta de 1646 em Portugal e teria se estabelecido no Rio de Janeiro.
    
Linha adulterina
   
Descendentes de relações extra-conjugais. Exemplo: descendentes de Francisco Teles de Menezes, nascido em 1635, na Bahia.    

Linha de Degredo
   
Portugueses que eram mandados para o Brasil após transgredirem as normas vigentes na monarquia portuguesa. Exemplo: descendentes de Antonio de Torres, que foi condenado a ficar cinco anos no Brasil.         

Linha Indígena
    
Cujos sobrenomes não são originalmente indígenas e sim resultado da miscigenação. Exemplo: descendentes de Francisco Pinheiro Camarão, nascido na segunda metade do século 17. 
  
Linha Natural  

União não oficializada pela igreja ou em cartório. Exemplo: descendentes de José Rodrigues Simões, nascido em Pouso Alto (MG) em cerca de 1800, e de Rita Maria de Jesus, de Itajubá (MG).
    
Linha das Órfãs  da Rainha

Grupos de jovens que, protegidas da rainha Catarina, chegara à Bahia em meados do século 16 para casar com personalidades da terra. Exemplo: descendentes do casamento em 1552 na Bahia entre João Gonçalves Dormundo  e Marta de Souza Lobo.    
     
Na maior parte dos casos, não é possível determinar a linha de família se o patriarca não for conhecido, porque o mesmo sobrenome pode ter várias origens. Esse é o caso dos Paiva, que aparecem nas linhas africanas, de batina, indígena, natural e das “órfãs” da rainha.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo - “Dicionário das Famílias Brasileiras “, 
de Carlos Eduardo Barata e Cunha Bueno, 
Edição do Autor, dois volumes, 2721 pág.



quinta-feira, 10 de julho de 2014

Brasilidade




Hoje se fala muito do respeito e do entendimento da forma de ser do outro. Cada povo expressa uma cultura, cada sociedade tem sua própria maneira de organização e visão.
No máximo podemos afirmar que o outro é diferente quando destoa daquilo a que estamos acostumados. Num mundo de diversidade, reflexo de infinita capacidade do Criador, deveremos ser testemunhas da riqueza de dons e formas expressas em cada cultura.
No Brasil, o fazer cultura depositário é riquíssimo. Tanto somos depositários das formas de uma cultura dos nossos antepassados quanto continuamos criativamente construindo novas formas de ser e viver, o que evidencia continuo processo cultural.
Por excelência, o mês de junho traz uma brasilidade ímpar. A música, a dança, a comida, as vestes, a fé, a colheita, a alegria, a partilha e a festa nascem de forma genuína retratando  a cultura original do nosso povo. É belíssima a cantiga de roda, a quadrilha, a sanfona a tocar, o triângulo, a brincadeira pela amizade e pelo riso e não pela violência ou ganância. Tudo isso pode parecer saudosismo, mas é esta cultura que revela a gratuidade do ser humano e que nos garante sociabilidade com segurança e dignidade. 

Fonte: Pe. Josafá de Jesus Moraes 
Revista de Aparecida - 2014