terça-feira, 6 de junho de 2017

Fim do Programa do Jô


O  ÚLTIMO  BEIJO  DO  GORDO 

Após quase três décadas como apresentador de talk shows, Jô Soares recebeu Ziraldo na derradeira entrevista.

Foram 5.600 programas e 14.500 entrevistas nos últimos 28 anos em que Jô Soares esteve no ar. E é o recorde de participações  ( 23 vezes ) , o cartunista  , escritor  , jornalista e humorista Ziraldo  , o último convidado do  Programa do JÔ “ que vai ao ar hoje, a partir das 00:30  h. A conversa entre os amigos há mais de 60 anos, gravada nesta tarde. 
já fez tantas entrevistas nada, eu ser o último é uma honra, fiquei arrepiado quando recebi o convite da produtora Anne Porlan. Não temos combinado, não sabemos o que vai acontecer, mas com certeza vamos chorar. Ele é emotivo e vem chorando durante os últimos programas – comenta Ziraldo  . – Toda  a despedida é traumatizante  , inclusive o Jô está fazendo uma coisa quase masoquista. Mas estamos aí, produzindo. Somos a primeira geração que chega aos 80 anos atuando. 
A entrevista coloca o ponto final numa despedida anunciada pelo próprio apresentador no início do ano, em 22 de fevereiro. Segundo Jô, a intenção era evitar o desgaste do formato talk show, consagrado por ele e popularizado no país com representantes como Pedro Bial, Danilo Gentili e Fábio Porchat.
- O Jô inaugurou um formato no Brasil e não só o estabeleceu  , como foi ele que o abrasileirou e deu a cara do que é.  O Jô tem humor e velocidade, sabe quando entrar com a piada. E eu sei como isso é difícil, sentindo na pele como é apresentar uma atração diária  - elogia o apresentador  do “Programa do Porchat“, contando que pediu conselhos ao Jô antes de estrear: - Ele disse: “ Seja você mesmo “. A última temporada do “ Programa do Jô “ estreou no dia 28 de março. A primeira convidada foi Marina Silva, porta-voz nacional da Rede – Sustentabilidade. Jô recebeu ainda personalidades como Fausto Silva, Cauã Reymond, Roberto Carlos, Maurício de Sousa, Marisa Monte, Galvão Bueno, Regina Duarte, Rodrigo Santoro, Marcelo Adnet e Hortência.
Aos 78 anos  - ele completa 79 em janeiro - , Jô não quer saber aposentadoria. O humorista, que não quis dar entrevista nesta semana, já afirmou que vem debruçando seus projetos teatrais e literários. As peças mais recentes, “Histeria “, do inglês Terry Johnson, estreou em maio em São Paulo, com Pedro Paulo Rangel, Cássio Scapin, Érica Montanheiro e Milton Levy  . O livro  , uma sátira política  , ainda está em andamento  , sendo modificado no rastro dos últimos acontecimentos do país . 

MIL  FACES  

O fim do “ Programa do Jô “ encerra uma trajetória televisiva que começou na década de 1950, quando era ator de teatro e escrevia para o programa “ TV Mistério “, da TV Continental, dirigido por Adolfo Celli, com Paulo Autran e Tônia Carreiro. Depois, foi para a TV Rio , onde participou do “ Noites cariocas “  . O próximo destino seria a Tupi . “consegui trabalhar ao mesmo tempo nas três emissoras que existiam no Rio “ , disse ele  , em depoimento ao site Memória Globo. 
Começou a trabalhar na TV Record em 1960, escrevendo e atuando  . Interpretou o mordomo da “ Família Trapo “ , que também roteirizava , ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega. A estréia na Globo  foi em 1970, no “ Faça humor, não faça guerra “ , que ficou no ar até 1973  . Também participou do “ Planeta dos Homens “ , de 1976 a 1982  .
A habilidade para escrever e interpretar diversos personagens ficou evidente no “Viva o Gordo “  , exibido na Globo de 1981 a 1987  , escrito por Max Nunes, Hilton Marques, Afonso Brandão e José Mauro. Depois dele  , deixou o canal e assinou contrato  com o SBT  , onde estrelou o “ Veja o Gordo “  e o “Jô Soares Onze e Meia“, seu primeiro talk show, encerrado em 1999 – em 2000 ele voltaria à Globo para estrear o programa que se encerra hoje.
“Não foi uma mudança radical, mas uma continuação do meu trabalho de humor e também de jornalismo“, disse o humorista sobre o inícios de sua carreira como entrevistador, que contabilizou convidados como o ex-presidente da União Soviética Mikhail Gorbachev, o fundador da Microsoft, Bill Gates, e os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff.

Fonte    -     Jornal     O  GLOBO     pág  5      SEGUNDO  CADERNO  
Sexta  -  feira 16/12/ 2016             NATÁLIA   CASTRO 

Nélida Educadora Piñon


Nélida entregou-me seu livro mais recente, no dia de seu aniversário. E quem ganhou o presente fui eu.
Devorei cada linha de Aprendiz de Homero, identificando-me com o pensamento de Nélida, mas devo dizer que discordo dela em uma questão fundamental: ela se proclama aprendiz, já no título do livro, e afirma não ser uma pedagoga, e eu garanto que ela é mestra (embora todos os mestres sigam sendo inexoravelmente aprendizes). Basta ler apenas um dos vinte e quatro ensaios (Descoberta do mundo) que compõem o livro. Ali, num tom memorialista, mas de clara intimidade com o ofício de ensinar, apresenta um dos mais profundos e ao mesmo tempo concisos depoimentos que já li, de alguém que se dispõe a falar de educação. Modestamente, como é de seu talhe, ponderou que não tem teorias a defender, que lhe “falta o instrumental com que abordar a matéria educacional com isenção crítica“, e que portanto, seus apontamentos teriam a superficialidade da amadora. Nada disso. Eu sou educador, por vocação, formação e ocupação , e posso falar de cátedra: Nélida é uma educadora perspicaz e consciente.
Uma análise do ensaio permite  essa afirmação. A frase inicial é uma verdadeira profissão de fé: “ A experiência humana, onde quer que se manifeste, começa no coração“ . A frase tem mais profundidade do que aparenta  , à primeira leitura  . Saber de cor  , ( cor  , cordis  , coração em latim ), uma das atitudes que tradicionalmente ilustram o aprendizado  , é conhecer com o coração. Diz ela: “Estou convencida de que o filtro do amor e do prazer encontra-se também nas páginas de livros. A pedagogia moderna recomenda a atividade de contar histórias, em casa ou na escola, a partir de livros, como apoio fundamental da educação. Costumo dizer que na lembrança melhor, de uma infância bem vivida, do que  o acalanto de uma voz querida, contando histórias  , ilustrando a vida  . Nélida pontifica, sobre a mesma idéia, com esta assertiva: “ Os livros e as palavras  , inseparáveis  , são os melhores inventos da raça humana.“  E diz mais ainda:  “Sendo ambos, por excelência  , produtos rebeldes  , perambulam ao lado de quem sonha , de  quem se aflige  , de quem se senta nos bancos escolares  , de quem ensina, de quem se aflige, de quem frui a invenção, de quem se encanta com as manifestações da inteligência humana . “
O professor é a alma da escola; sem ele a educação não ocorre. Nélida dá testemunho: “Enquanto leciono  , sei-me destinada a queimar meu coração  , repartir minhas fibras entre anônimos , entre filhos de outros, que não são do meu sangue. A sofrer as emoções advindas de um convívio difícil, mas comovente. (...) E se em tantos momentos aparenta ser um intercâmbio ingrato, onde se abandona no outro o que a nossa natureza produz de sombrio e altaneiro, é a mais generosa das profissões.“ 
A escola foi sempre benfazeja. Longe de ser um cárcere  , estimulou-me a privar com o desconhecido, a lançar-me às aventuras marítimas, começando pelo litoral brasileiro e terminando do outro lado do Atlântico. ( ... )“ “Os professores, por sua vez, conviviam com o temor de errar e com a ânsia de acertar. “ Complementam-se, essas duas frases, como se complementam duas mãos direitas, de amigos, a se cumprimentar  . Nélida é de uma felicidade incomparável, ao dar vida, por meio das palavras  , a sentimentos que afloram nos alunos e nos professores. Sentenças de quem sabe o que é aprender e sabe o que é ensinar.
E vejam mais esta: “Talvez a escola dos sonhos  seja simultaneamente o território da crise e o lugar da solução.“ É isto mesmo : a escola deve estimular a criatividade pelo incentivo ao raciocínio  , ao enfrentamento de problemas, em suma, pela parturição do que quer transformar de dentro de cada aprendiz. O professor não pode ser apenas um mero facilitador, um repassador de informações prontas. Nélida sabe disso, como boa educadora que é.
Sabe mais: “ Educar não é empobrecer quem é pobre; não humilhar o aluno privando-o de um saber o que o pode elevar a patamar superior  ; não lhe é dar a metade de uma língua que consagra os erros trazidos de casa. Educar é desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo, e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação.“ 
E eis aqui o que talvez seja o mais feliz, parágrafo do ensaio: “Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta  em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo , sua linguagem , sejam libertárias , destemidas, sem freios  . É fazer do ato de pensar um feito não natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos independentemente de sua condição.“ 
À guisa de corolário, Nélida, a educadora que modestamente alega não ser, apresenta essa conclusão belíssima: “ Reverenciar  , hoje e sempre  , a figura do professor que nos tomando pela mão  , enlaçados pelo mesmo ideal , leva –nos a freqüentar o próprio mistério, o coração alheio, a visitar a memória, as civilizações pretéritas que residem em nós.“ 
A educação é apenas uma das múltiplas faces do livro Aprendiz de Homero. Mas há muito mais nesse relicário de reflexões que Nélida Pinõn compôs, debatendo suas influências literárias, como Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, Gabriel Garcia Marquez, Camões, Shakespeare, Machado de Assis. E Homero que dá nome ao livro. Um livro instrutivo. prazeroso e  , principalmente  , inteligente  .
Por essa leitura, que tive o desmesurado prazer de fazer, tomo-lhe a benção, mestra Nélida Pinõn.

Fonte  Jornal  de  letras   pág 8 
Gabriel  Chalita é doutor em Direito e em Comunicação e Semiótica  , professor da PUC –SP e Mackenzie  . Foi secretário estadual  de Educação de São Paulo e presidente do ) Conselho Nacional dos Secretários de Educação do Brasil ) . É membro da Academia Paulista de Letras . 


CONVIVENDO COM O PARKINSON



SAÚDE - é melhor prevenir
COM   UM  BOM  ACOMPANHAMENTO MÉDICO  E  UM TRATAMENTO  ADEQUADO, QUE ALIVIE  OS  SINTOMAS  DA  DOENÇA, É POSSÍVEL  CONTROLAR  OS EFEITOS  AO LONGO  DO  TEMPO 

Ela vem de mansinho e é mais comum em pessoas da terceira idade. Com sintomas mais suaves no início, a doença tende a se agravar com o tempo e trazer complicações mais sérias. 
A doença de Parkinson ainda é tipicamente caracterizada pela presença de tremor de repouso, rigidez e lentidão dos movimentos, mas há outras tantas alterações, não relacionadas à parte motora, como as alterações no sono e no reconhecimento de odores. Há, ainda pessoas que apresentam sintomas depressivos e autonômicos ( relacionados à regulação da pressão arterial, funcionamento intestinal e potência sexual ). Trata-se de uma doença progressiva do sistema neurológico que afeta principalmente o cérebro.
Como explica o geriatra e gerontologista Dr. Paulo Casali,  a doença tem caráter gradativo e degenerativo, ou seja, os sintomas pioram com o tempo, tanto em intensidade quanto em quantidade, o que implica diretamente na qualidade de vida do paciente e no seu grau de independência e autonomia. “O diagnóstico é essencialmente , ou seja, não depende de exames laboratoriais e, sim da avaliação médica dos sinais e sintomas do paciente, por meio  da anamnese  ( interrogatório do médico ao paciente ) e exame físico“, diz.
Além disso, ele explica que o paciente precisa ter em mente que, independentemente da doença é preciso procurar o médico sempre que perceber algo de anormal no seu corpo e no funcionamento do seu organismo. “ Não existe cura para a doença de Parkinson, portanto, o tratamento visa melhorar os sintomas  , diminuir a velocidade de progressão da doença, diminuir o sofrimento e a dependência do paciente, dando mais conforto e qualidade a sua rotina de vida“ , conclui.

DIAGNÓSTICO 
Como os sintomas da doença variam em cada paciente, é muito importante que, ao perceber a qualquer alteração física ou comportamental, o mesmo procure atendimento especializado. O diagnóstico precoce e aceitação da doença são essenciais para tratá-la da melhor maneira. Isso só depende do paciente e do médico, conforme alerta o médico, neurologista clínico da Fluyr Saudável, Dr Fábio Sawada Siba. “ Do paciente, em procurar uma orientação médica logo que perceber algum sintoma, e do médico, em ter a habilidade e o conhecimento de valorizar os sintomas, correlacionando-os com a doença“, explica.
A aceitação do problema dependerá, principalmente, de uma boa relação mico-paciente, com um médico parceiro e amigo, que transmita confiança. “O paciente deve saber claramente o que é doença, com todas as possibilidades de evolução e tratamento“, ressalta o Dr Fábio.

TRATAMENTO  

Dependendo da intensidade e a repercussão dos sintomas sobre as atividades cotidianas, o tratamento da doença de Parkinson envolve medicamentos e até fisioterapia  - que auxilia nas dificuldades de movimentação e de marcha; terapia ocupacional, acerca das dificuldades de execução de atividades e necessidade eventual de adaptações, fono audiologia, sobre dificuldades de fala e deglutição  ; e psicóloga  , para aceitação e enfrentamento da doença  , assim como sobre os sintomas depressivos  .
Sobre as medicações possíveis, o Dr Shiba explica que algumas podem até ser eficazes, mas não chegam a alterar a evolução da doença , pelo fato dela ser crônica e progressiva. “Eventualmente, podem ser necessários tratamentos cirúrgicos, como implantes de marca-passos cerebrais ou cirurgia ablativas, com lesão de áreas específicas do cérebro, para melhorar as condições do paciente“, afirma.

FONTE     -    Revista  Ponto  de  Encontro    págs   10  e  11
                      Drogaria  PACHECO         nº  21       JUN/JUL   2016
                      Saúde / é melhor prevenir          por TATIANA  FERRADOR 



Saúde 
 UM  GRANDE  DESAFIO 

Abril é o mês de conscientização sobre a doença de Parkinson, descrita pela primeira vez há exatos dois séculos. Não há cura, mas existem tratamentos que melhoram a qualidade de vida e retardam o avanço dos sintomas.  

Poucas doenças desafiam tanto a medicina como aquelas que afetam o cérebro. Uma delas é o Parkinson, uma síndrome neurodegenerativa descrita em 1817 pelo médico inglês James Parkinson, que atinge principalmente as regiões cerebrais relacionadas à função motora. Tremores  ( mesmo em repouso ), rigidez muscular  e dificuldade para manter o equilíbrio estão entre os sintomas mais comuns. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 200.000 brasileiros têm a doença.

Sabe-se que o problema leva a morte de neurônios relacionados à produção de dopamina, hormônio que entre outras funções, está ligado ao controle do movimento muscular. Não se sabe, porém, a razão de esses neurônios se tornarem suscetíveis. “Em congressos médicos recentes, passou-se a cogitar a possibilidade de a doença estar relacionada a determinadas proteínas", explica o neurologista Oscar Bacelar, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia .

Enquanto não se tem certeza das causas, os especialistas se concentram em identificar fatores de risco. Um deles é a idade. Estima-se que a  doença atinja até 2% da população mundial com mais de 65 anos  . É ainda mais freqüente após os 80 anos.

Ainda assim, há casos em que os pacientes começam a desenvolver sintomas a partir dos 18 anos  ( o Parkinson juvenil )  ou por volta da terceira década de vida  ( Parkinson precoce). Pesquisas apontam que a genética seria um fator decisivo. O ator Michael J. Fox, famoso pela trilogia De Volta Para o Futuro, descobriu a doença aos 30 anos  de idade e criou uma fundação voltada a pesquisas na área. A brasileira Danielle Ianzer também descobriu a doença jovem, aos 36 anos. Após alguns anos do primeiro sintoma motor e depois de percorrer muitos consultórios, enquanto a doença evoluía, ela recebeu o diagnóstico de Parkinson. Foi então que decidiu fundar o Projeto Vibrar Parkinson ( www.vibrarcomparkinson.com ), que desde 2014, dedica-se a ajudar pessoas com a doença. “ O emocional é determinante  , tanto na evolução da doença quanto na resposta ao tratamento“ , explica Danielle  . Hoje  , aos 41 anos  , ela tem dificuldades para caminhar, lentidão e rigidez. Mas  voltou a escrever com grafia normal e tem independência para seus cuidados pessoais que havia perdido.

O diagnóstico nem sempre é fácil, já que há várias outras doenças que desencadeiam sintomas comuns ao Parkinson. Em jovens, a identificação do problema pode ser ainda mais complicado. O médico faz o diagnóstico por exclusão, eliminando outras doenças ou verificando-se a causa dos sintomas está relacionada a outros fatores como drogas, tumores ou até acidentes vasculares cerebrais. Dois exames podem ajudar a fechar o diagnóstico: a ressonância magnética, que ajuda a excluir outros diagnósticos, e a cintilografia cerebral com marcador de Trodat, que identifica células dopaminérgicas.

Entre os sintomas  mais evidentes está o tumor de repouso ( e ainda o de movimento ), em que a pessoa treme involuntariamente ou bate o dedo indicador com o polegar como se estivesse contando dinheiro, mas, ao se movimentar, o tremor para. Outros sinais são a lentificação anormal dos movimentos ao caminhar ( bradicinesia ) e a instabilidade postural. Uma postura típica de que tem a doença é sentar-se curvado para frente, mantendo braços e pernas  dobrados. Pode haver, também, alterações na grafia dificuldade em executar movimentos voluntários como piscar os olhos, levantar e andar. A caminhada é chamada de “marcha em monobloco “ , com pequenos passos, braços estáticos e postura voltada para a frente, tentando equilibrar a perda do centro de gravidade. “Quando o paciente apresenta sintomas, geralmente já significa que 80% das células produtoras de dopamina estão mortas “ , afirma Bacelar. Constipação, seborréia e hipotensão postural ( ao levantar-se a pressão cai ) são outros possíveis componentes do quadro.

Tratamentos  - Até o momento não há cura para o Parkinson. Mas o tratamento foca em amenizar os sintomas e retardar a evolução do quadro do paciente  . “ Utilizam-se, principalmente  , medicamentos que atuam no déficit da dopamina cerebral “, diz o neurologista João Carlos Papaterra Limongi, do Grupo de Distúrbios do Movimento do Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da FMUSP. Medicamentos bloqueadores de adrenalina, apesar de não fazerem parte da lista de remédios específicos para a doença, costumam melhorar os tremores e podem ser utilizados nas fases iniciais, principalmente quando o paciente é jovem  , para evitar já usar a dopamina.

O tratamento cirúrgico é reservado a casos específicos  . “Implanta-se eletrodos em alvos específicos  do cérebro e obtém-se melhora clínica significativa “, explica o Dr. Limongi. Na fase inicial não é indicado.

A fisioterapia é fundamental para melhorar os movimentos  . Exercícios como natação e o tênis de mesa também podem ajudar a diminuir a rigidez. Já existem trabalhos mostrando o retardo na evolução da doença em pacientes que dançam. Como é um tratamento multidisciplinar, incluem–se ainda a fonoaudiologia e o acompanhamento psicológico, muito importante para ajudar o paciente a conviver com a doença.

Recentemente, pesquisadores da USP anunciaram evidências de que um antibiótico que já existe no mercado poderia atuar na doença de Parkinson. A descoberta aconteceu por acaso e as pesquisas ainda são preliminares, mas não deixam de injetar esperança para o desenvolvimento de novos tratamentos num futuro não muito distante.

 Fonte    -  Revista      VENÂNCIO                 
Março de 2017       -    POR  FÁTIMA  TELLES 

NA  TELA  E  NA  VIDA 
Filmes  que  emocionam  e  ajudam  a compreender  os desafios  de  que  tem Parkinson

AMOR  E  OUTRAS  (2010) 
É uma  comédia romântica com Jake  Gyllenhaal, um rapaz sedutor que conhece uma jovem de 26 anos  com Parkinson ( interpretada por Anne Hathaway ) se apaixona por ela. O filme se passa na segunda metade da década de 1990, quando os remédios para a doença começaram a ser vendidos nos Estados Unidos.
  
TEMPO  DE  DESPERTAR   (1990 ) 
Com Robert De Niro  ( paciente ) e Robin Williams ( neurologista ), é baseado no livro Awakenings, de 1973, e conta a história real do médico Oliver Sacks, precursor no tratamento de pacientes com Parkinson.
    

Vidas paralelas de Kennedy e Lincoln




MEMÓRIA
As  coincidências  entre  eles  vão além  do  fato  de 
Terem  sido  mortos  quando  eram  presidentes  dos  EUA

Um dos fatos marcantes do século XX foi, sem dúvida, a morte do presidente americano John Kennedy, em novembro de 1963.  Aos 46 anos  , culto, Kennedy impressionava pela boa aparência  , característica realçada pela beleza e elegância de sua mulher, Jacqueline. Mais que pela liderança ou pelo alcance das medidas políticas e econômicas, o mundo se encantava pelo estilo de Kennedy . Parecia um galã interpretando o papel de um presidente bonito, charmoso. 
A via real, entretanto, reservava o trágico capítulo do atentado em que Kennedy foi morto. Nos meses  e anos seguintes, jornalistas, pesquisadores, historiadores e curiosos de todo o mundo analisaram em profundidade a vida de Kennedy, produziram várias explicações para o fascínio que ele exercia, tentaram explicar as circunstâncias  de sua morte.
Nesse trabalho, inevitavelmente surgia a comparação com um presidente americano do século anterior, Abraham Lincoln, também um líder  de grande prestígio nacional e mundial ao seu tempo  - e também ele morto num atentado. As  comparações entre Kennedy e Lincoln levaram à constatação de que, embora separados por um século, houve uma infinidade de pontos coincidentes entre eles. Na década de 70, os meios de comunicação divulgaram, com grande impacto, um resumo das principais coincidências entre Abraham Lincoln e John Kennedy. Esse material voltou a circular nos últimos meses em meio à intensa troca de curiosidades praticadas pelos adeptos da Internet. É uma informação intrigante, e fato, que interessa mesmo aos que já a conheciam e têm agora a oportunidade de recordar. Vamos, então, às coincidências entre Abraham Lincoln e John Kennedy:

1  .  Abraham Lincoln foi eleito para o Congresso em 1846. 
       John F. Kennedy foi eleito para o Congresso em 1946.

2 .  Abraham Lincoln foi eleito presidente em 1860.
       John F. Kennedy foi eleito presidente em 1960.

3 . Os nomes Lincoln e Kennedy têm sete letras.  Os dois, na presidência dos EUA, estavam  identificados  com a defesa dos direitos civis.

4 .   As esposas de ambos perderam filhos enquanto viviam na Casa Branca

5 .  O sobrenome da secretária de Lincoln era Kennedy. O sobrenome da secretaria de Kennedy era Lincoln.

6 . O atentado contra Lincoln aconteceu numa sexta-feira. O atentado contra Kennedy   também aconteceu numa sexta-feira. 

7 .  Os dois tiveram, como sucessores, políticos do Sul dos EUA. Os dois sucessores tinham o mesmo sobrenome, Johnson.

8 .   Andrew Johnson  , o sucessor de Lincoln, nasceu em 1808.

9 .   Lyndon Johnson, o sucessor de Kennedy, nasceu em 1908

10 . Os dois presidentes foram assassinados por homens do Sul dos EUA.

11 . John Wilkes Booth, o matador de Lincoln, nasceu em 1839.

12 . Lee Harvey Oswald, o matador de Kennedy, nasceu em 1939

13 . Os dois assassinos eram com conhecidos pelo nome completo, incluindo os dois sobrenomes  ( o normal, nos EUA, é que as pessoas sejam conhecidas só pelo sobrenome ou pelo nome e um sobrenome  ).

14 . O nome inteiro de John Wilkes Booth tem 15 letras. O nome inteiro de Lee Harvey Oswald também tem 15 letras.

15 . John Wilkes Booth atirou em Lincoln num teatro e foi preso num depósito. 

16 . Lee Harvey Oswald atirou em Kennedy da janela de um depósito e foi preso num teatro. 

17 . John Wilkes Booth e Lee Harvey Oswald foram assassinados antes de ir a julgamento. 

18 . Uma semana antes de ser morto, Lincoln estava com Monroe, no Estado de Maryland.

19 . Uma semana antes de ser morto, Kennedy esteve com a atriz Marilyn Monroe.

20 . Lincoln foi morto na sala Ford, no teatro Kennedy...

21 . Kennedy foi morto num carro Ford, modelo Lincoln.

Fonte    - Revista  na   poltrona   -   ITAPEMIRIM    págs 58 e 60 
MEMÓRIA    MAIO  DE  2001 




A identidade do americano



CIÊNCIA 
Estudos  mostram  que  colonização  deve  ter  sido  mais complexa  do  que  se pensava
  
Quem foram os primeiros americanos?  Esta pergunta pode ter várias respostas, dependendo de que fonte de informação for usada para reconstruir o passado. Para explorar a biologia e filogenia de populações pré – históricas, pode-se usar duas fontes de informação: os genes das populações descendentes delas ou os seus restos físicos, os esqueletos fossilizados. 
Os genes, por meio dos seus diversos marcadores, nos informam sobre as relações de parentesco entre populações  e, por meio dessas relações, junto com os diferentes níveis de diversidade, próprios de cada grupo, pode-se fazer interferências históricas a respeito de quanto tempo teria transcorrido desde a separação das populações
Porém os genes nada podem nos dizer sobre as adaptações físicas das populações no passado, suas características morfológicas  , seu estado de nutrição, a velocidade com que as crianças cresciam, ou a idade com que os velhos morriam. Todas essas informações incríveis sobre populações pré-históricas estão contidas nos fósseis.
Mas vamos voltar à pergunta inicial. Quem foram os primeiros americanos? Um número grande arqueólogos argumenta há muitos anos que a identidade dos primeiros grupos humanos a ocupar as Américas é a da cultura chamada Clóvis, que teria chegado à América do Norte cerca de 11.500 anos atrás por uma ponte de terra que unia o Alasca à Sibéria.
Em 1986, três pesquisadores, J. Greenberg, da Universidade Stanford, C.G Turner , da Universidade Estadual de Arizona e S. Zegura  , Universidade do Arizona, formularam um modelo que propôs a que a América teria sido colonizada por três ondas migratórias.
A primeira, de uma população de paleoíndios Clóvis, relacionada aos habitantes do nordeste asiático  ( norte da China, Coréia, Japão  ), que teria sido dado origem a todas as tribos indígenas da América do Sul, Central e grande parte daquelas da América do Norte. 
A segunda migração teria originado o grupo de tribos que hoje falam as línguas Na-Dene, nômades da região do noroeste da América do Norte. Por último, uma terceira migração teria dado origem aos esquimós da região periártica.
Ao longo dos anos, diversos  sítios arqueológicos supostamente mais antigos que os 11.500 anos  do começo da cultura Clóvis foram achados e descritos, principalmente na América do Sul. 
Mas em nenhum caso foi possível esclarecer todas as dúvidas sobre a qualidade da datação e/ou a qualidade dos artefatos líticos como indicadores da presença humana, e a data de entrada ao redor de 11.500 anos atrás se manteve.
Essa situação mudou nos últimos anos. Um exame minucioso de toda a evidência proveniente do sítio de Monte Verde ( Chile ), foi aceita por diversos arqueólogos como prova de que grupos de caçadores habitaram a América do Sul  12.500 anos atrás. Essa data pode não parecer significativamente discordante dos 11.500 anos da cultura Clóvis, mas seu significado é imenso.
Por um lado, aumenta a janela do tempo da entrada na América para um período entre 15 mil e 14 mil anos até 11.500, quando os grupos Clóvis entraram.  Segundo, leva a questão de por que não encontramos restos desses primeiros imigrantes na América do Norte, por onde eles devem ter necessariamente passado. Por último, as datas indicam que mais de uma população teria feito a travessia da Sibéria para a América, o que levanta questões sobre a identidade dos ancestrais dos ameríndios e sobre a unidade biológica.
Sítios arqueológicos como Monte Verde são importantíssimos para estabelecer os horizontes cronológicos e a diversidade cultural das primeiras populações americanas. No entanto, é por meio dos fósseis que as questões de afinidade e diversidade biológica desses primeiros grupos estão sendo exploradas, e os dados paleontológicos estão sendo significativos para a mudança da teoria sobre os primeiros povos da América
Dois grupos de pesquisas, dirigidos por G. Steele, nos EUA, e por W . Neves, no Brasil, têm reexaminado e analisado estatisticamente a evidência fóssil dos paleoíndios.
Eles constataram que os primeiros americanos não possuíam características típicas dos povos mongolóides, observadas em populações do nordeste asiático e nos índios americanos atuais.
Ambos chegaram a conclusões semelhantes: os paleoíndios se originaram de uma população generalizada na Ásia, ou seja, de um grupo que ainda não teria se especializado morfologicamente na direção mongolóide.
Os resultados foram apoiados por dois estudos da morfologia dentária de fósseis paleoíndios, levados a cabo por J. Powell  , dos EUA , e R . Haydenblit  , de Israel, que mostraram que os fósseis apresentam um padrão morfológico distinto daquele que C. Turner encontrou nos índios atuais  ( que é o mesmo dos chineses, coreanos e japoneses  ), já que os paleoíndios se assemelham aos grupos que hoje habitam o sudoeste asiático. Meus estudos sobre a evolução das populações humanas modernas na Ásia mostram que teria havido  , entre 20 mil e 10 mil anos atrás, vários grupos na região próxima à Sibéria  que poderiam ter sido ancestrais dos paleoíndios. 
Porém, um fóssil encontrado no ano passado em Kennewick, no Estado de Washington, juntamente com um estudo de R. Jantz da Universidade do Tennessee, sobre o material fóssil de Paleoindian Spirit Cave Mummy, nos dão uma indicação de quão complexa a colonização da América deve ter sido. A interpretação morfológica de ambos os indivíduos, examinados por diversos pesquisadores, é inequívoca: os fósseis têm maior afinidade com populações caucasianas do que com mongolóides.
Todos esses dados sugerem que deve ter existido, em algum momento do Pleistoceno tardio, uma população de origem caucasiana ao longo do norte da Eurásia  e, possivelmente, noroeste da América. 
Esses dados fornecem duas evidências importantes. Por um lado, confirmam mais uma vez as diferenças observadas entre os paleoíndios e os índios recentes. Por outro, indicam que é provável  que não uma ou duas populações entraram na América entre 15 mil e 10 mil anos atrás, mas várias.
Além do fascínio que despertam cada vez que novos insights surgem no estudo da evolução humana, os novos achados ressaltam a importância de conjugar fontes de informação.
A genética e, até certo ponto, a lingüística histórica dos povos hoje existentes têm nos permitido reconstruir o processo histórico de diferenciação das populações da Terra. Porém, esses dados só podem reconstruir a história dos sobreviventes do processo evolutivo. 
A história completa tem de incluir aqueles grupos que, por razões diversas, não deixaram descendentes, mas que, certamente, tiveram o seu papel  nos processos de colonização dos continentes e diferenciação dos povos.
A história dessas populações, como os nossos paleoíndios, provém da informação contida nos fósseis. 

Fonte   -   Jornal      FOLHA  DE  SÃO  PAULO        mais ! 5
Domingo  , 15  de  junho  de 1997      pág  7
Marta  Mirazon  Lahr  é antropóloga biológica  do Instituto  de  Bioiências da USP  e autora do livro "The Evolution of Modern Human Diversity" (Cambridg University Press)



OS  NATIVOS  REMANESCENTES  

Censo  informa  que  há  715.000 índios  no  Brasil  hoje,  um  crescimento  notável  em relação  aos  200.000  da  metade  do  século  XX.  Mas  nem  por  isso  a  situação  é boa.

A  POPULAÇÃO   indígena do país é semelhante à de João Pessoa  , capital da Paraíba. São 715.213 indivíduos, separados em 252 culturas, que habitam 705 áreas demarcadas para eles. Os números vieram a público na semana passada, com a divulgação do censo Povos Indígenas do Brasil, apelidado de Pibão, uma pesquisa publicada pelo Instituto Socioambiental ( ISA ), ONG  brasileira dedicada à proteção dos povos nativos, que chega à sua 12ª edição. O Pibão apresenta um mapa completo dessas comunidades. O primeiro Pibão data de 1980. Até 1994, ele era realizado por entidades religiosas; só depois disso é que passou para o ISA. Trata-se de um material preciso e precioso, que, por sua confiabilidade, pode servir de base para a aplicação de políticas voltadas às causas indígenas.

O  MAPA  DAS  TRIBOS  

O  censo  do  Instituto Socioambiental  apresentou  o mais  completo  levantamento  de números  acerca  da  situação  dos indígenas  no  Brasil.  Os dados, muitas  vezes, divergem  de  fontes  oficiais, como o IBGE  por  ser  mais  precisos
  
715.213  -  é  a  população indígena  do  país  
pelo  IBGE são  896.917

ONDE  MORAM  

13,77 %  do  território  nacional  é  dedicado  às reservas 

A  maior delas, da  etnia  ianomâmi, ocupa  9  milhões  de  hectares  na divisa  entre os  estados  do Amazonas  e Roraima  e se estende  até a Venezuela

42,3%  do  total  de  índios  não  vive  mais em  áreas  indígenas 

QUEM   SÃO  ELES  

252   é    total  de  povos  listados      -  pelo IBGE são  305 
25   desses  têm população  de  no máximo  100  pessoas 
78   agrupam  entre  101 e  500
42  reúnem  entre  501  e  1000
74  apresentam  de  1001  a  5000
26  ultrapassam  5000 
7  contam  com um  número  desconhecido  de indivíduos 

AS  LÍNGUAS  QUE  FALAM
 
150  é  a  estimativa  da quantidade  de  dialetos  das tribos 
250  é  a  média  de  falantes  por  língua 
37,4% dos indígenas  falam seu idioma nativo  
17,5% não são versados  em português 

Não  é pouco.  Freqüentemente,  as informações sobre índios no Brasil são dispersas – e confiantes. O Pibão mostra como até mesmo as fontes oficiais não estão imunes a dúvidas. alguns dos números apresentados pelo levantamento do ISA  não coincidem com os do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística( IBGE ).Um exemplo: enquanto o Pibão identificou cerca de 700.000 indígenas no país ,   o governo apontava existência de quase 900.000.  A disparidade desse e de outros resultados se explica pelo fato de a ONG  considerar na conta apenas os indivíduos indicados pelas tribos como pertencentes a elas. Já o IBGE  contabiliza qualquer brasileiro que se identifique como integrante de um dos povos nativos. Essa diferença relativiza a informação divulgada pelo governo de que, entre 1991 e 2010, teria havido um crescimento de 205 % na população indígena. O aumento teria sido 20% menor.

Reduzido à dimensão de uma cidade de médio porte  , o contingente de índios brasileiros já foi de 4 milhões, representando um total de 1000 povos. Isso no século XVI. Na primeira metade do século XX, esse número havia caído para 200.000 índios, dizimados por conflitos com o homem branco. Um esforço de conscientização, que se reflete na demarcação de reservas ao longo das últimas décadas, levou à volta do crescimento da população nativa. Apenas entre 2011 e 2016, 21 novas áreas indígenas foram  homologadas  - juntas, somam mais de 3 milhões  de hectares. Vinte delas se localizam na Amazônia, enquanto a outro está no litoral do Estado de São Paulo  . Hoje  , 13,77 % do território nacional é dedicado às aldeias.

Em teoria, ainda existem 07 regiões povoadas pelos nativos que não foram delimitadas oficialmente; continuam, portanto, desprotegidas – o que leva a confrontos com fazendeiros e grileiros. O Pibão também destaca não cessaram as lutas para preservar as terras já demarcadas. O levantamento detalha, por exemplo, o impacto da construção da Usina Hidroelétrica de Belo Monte  , no Pará, e do desastre em Mariana  , em Minas Gerais  - a maior tragédia ambiental da história nacional, que, em 2015 cobriu de rejeitos de extração de ferro municípios ao redor do rio Doce, inclusive ocupações de tribos. Em entrevista concedida ao livro ISA, o ambientalista Ailton Krenak , da aldeia crenaque, um dos principais líderes da causa indígena brasileira, observou: “ Esse evento  ( o desastre em Mariana ) denuncia um quadro global  , no qual paisagens  , territórios e comunidades humanas fazem parte de um pacote que grandes corporações  , continuam tratando como material descartável “ . O cenário não promete melhorar, ao menos a curto prazo. Tome-se a situação da Fundação Nacional do Índio  ( FUNAI), órgão responsável pela proteção das comunidades indígenas. Entre 2011 e 2016, a instituição trocou de presidente oito vezes. E começou 2016, como ressalta o Pibão,  com o orçamento minguado o menor em quatro anos.
Milhões de reais  ( 24 % a menos que no ano anterior  ). Como conseqüência, a FUNAI operava no ano passado com apenas 36 % do total de servidores  que, em tese, deveria possuir.

Fonte   -     Revista   págs  96 , 97  
26/04/2017       JENNIFER  ANN  THOMAS  



Autor  recupera  os  rastros  da  escravidão
Edward  Ball refaz  o  caminho  dos  escravos  que
chegaram  com seu ancestral  aos  EUA

Muito antes de sua publicação, este livro formidável causou sensação. Desde que William Faulkner escreveu sua obra prima de 1936. Absalom , Absalom  !, nenhum outro escritor havia conseguido empreender uma expedição tão pungente às raízes sombrias e frutos amargos da escravidão na América
Em 1698, um jovem inglês chamado Elias “ Red Cap “  ( tampa vermelha, apelido de pessoas ruivas )  Ball chegou à Carolina do Sul para tomar posse de um modesto pedaço de terra que havia recebido como herança  , trazendo com ele 25 escravos africanos para fazer o trabalho pesado do cultivo de arroz. Durante as seis gerações seguintes, os descendentes de Red Cap proliferaram em número e riqueza, enquanto os escravos proliferaram apenas em número. Na época da Guerra Civil, cerca de 4 mil escravos haviam trabalhado como burros de carga nas vastas plantações dos Balls. Quando a guerra acabou, os Balls foram destituídos de sua propriedade e os escravos espalhados pelo país. Hoje, seus descendentes podem chegar a 100 mil. 
Trabalhando diante do pano-de-fundo deste “ crime “ generacional, Edward Ball, reconstruiu em Slaves in the Family  ( Farrar, Straus & Giroux, 489 páginas, US$   30 )  uma história quase apagada pelo tempo e pelos mitos. Seu raciocínio foi simples: “ Seria um erro dizer que eu me sinto culpado pelo passado  . Uma pessoa não pode assumir a culpa pelos atos de outras, que já morreram há muito tempo... A herança do cultivo não era 'nossa'  como uma propriedade, 'deles', nenhum deles, das famílias negras, mas uma história compartilhada. Nós estivemos nas vidas uns dos outros. Nós estivemos nos sonhos uns dos outros. Nós estivemos nas camas uns dos outros... Eu achei que deveríamos nos encontrar, compartilhar nossas lembranças, sentimentos e sonhos, e tornar a história inteira. “ 
O autor percebeu rapidamente que lendas familiares de proprietários de escravos bonzinhos e generosos eram mitologia pura e simplesmente. Ao invés disso, ele encontrou entre seus ancestrais uma ampla distribuição de “ maus benevolentes  , tiranos cruéis e até mesmo uma mulher que fugiu para Nova York porque não conseguiu suportar de ser a opressora. 
Também não foi uma surpresa quando Ball começou a descobrir evidências irrefutáveis de que o  sangue dos escravos e proprietários inevitavelmente começou a se misturar através dos séculos. 

Tradição  Oral  - O autor-viajante descobriu uma rica mina de conhecimento escrito de seus ancestrais  mas, surpreendentemente, encontrou um filão igualmente farto na tradição oral dos escravos, cuidadosamente preservada. Ele conseguiu até mesmo rastrear uma linhagem de escravos até uma tal de “ Angola Amy “, uma menina trazida para a América no início do século 18 pelo velho “Red Cap“ Ball.
Conforme o autor escalava os galhos das árvores genealógicas, enfrentava todo o espectro de emoções humanas entre as pessoas cujos ancestrais eram propriedade de seus ancestrais e eram, em muitos casos, seus primos distantes. Ele encontrou generosidade, desconfiança e, às vezes, rancor explícito, mas perseverou.
No epílogo  , há uma surpresa precedida por muito suspense  . como um homem obcecado, Ball vai à África para procurar os descendentes dos africanos que venderam seus companheiros tribais  . Notavelmente, ele encontrou um bom número deles, e houve encontros tensos quando ele confrontou a nobreza africana atual, cuja opulência em meio à miséria demonstra que eles, também, gozam dos frutos do comércio maligno até hoje. 
No fim há um ritual no qual os culpados, negros e brancos, realizam um ato de contrição curiosamente simbólico às margens de um remoto riacho na África, onde os cativos eram colocados em barcos para sua viagem para um novo mundo e uma nova história. Quem dera que este ato de absolvição realmente fosse o fim desta triste história.  (Tradução de Maria  Brant )
  
Fonte     -     Jornal       O  ESTADO  DE  SÃO  PAULO   pág  D 3    
Domingo   ,   14/06/1998        Especial   -   Livros    
MELHORES LANÇAMENTOS INTERNACIONAIS    -      RAY  JENKINS  (  The  Baltimore  Sun  ) 
         



terça-feira, 2 de maio de 2017

O mistério dos índios






Sociedade
POVOAMENTO   DO  NOVO  MUNDO

Tribos  amazônicas  e  nativos  da Oceania  compartilham  genes  de  população  “ fantasma “
O caminho paras  as  Américas  -    ESTUDOS  GENÉTICOS  TRAÇAM  AS  ORIGENS  E  AS ROTAS DE  MIGRAÇÃO  DAS  POPULAÇÕES  QUE  OCUPARAM  O  CONTINENTE 

Há cerca de 20 mil anos, as Américas eram a última fronteira para a ocupação do planeta pelos humanos modernos, ( Homo sapiens ). Então, uma ponte de gelo e terra uniu o Nordeste da Ásia ao Alasca, na região do atual Estreito de Bering, criando caminho que permitiu aos primeiros colonizadores chegarem ao nosso continente. A cronologia desta migração e  a identidade destas populações pioneiras, no entanto, ainda são objeto de muitos debates e dúvidas entre os cientistas. Nos últimos anos, diversos estudos morfológicos, genéticos, arqueológicos e lingüísticos reforçam a tese de que este processo se deu em três grandes ondas, encontrando ligações entre os índios nativos americanos com grupos que habitavam e ainda habitam áreas que hoje compreendem a Sibéria, a Mongólia e o Leste da Ásia, no que ficou conhecido entre os especialistas como o “ modelo paleo americano “.
Mas duas novas pesquisas divulgadas em adiantamento ontem pelas prestigiadas revistas científicas “ Nature “ e Science   vêm complicar ainda mais este cenário do povoamento das Américas. Embora o estudo na “ Science “ corrobore em grande parte o chamado “modelo paleo americano“, ele fornece uma cronologia mais precisa e indica uma importância maior da corrente migratória inicial dos siberianos na formação dos povos indígenas das Américas. Já o estudo na “ Nature , que contou com a participação de cientistas brasileiros, porém, identificou pela primeira vez uma contribuição genética significativa de uma população “fantasma“, desconhecida, mas relacionada aos atuais aborígenes australianos e nativos da Nova Guiné e das Ilhas de Andamã, ou seja, entre o sudeste Asiático e a Oceania, na formação de pelo menos três tribos brasileiras: suruí, e karitiana, da Amazônia  e de língua tupi  ; e xavante  , do Cerrado e de língua jê. Para piorar ainda mais a situação, esta contribuição parece estar misteriosa e praticamente ausente nos demais grupos nativos americanos analisados até agora tanto no Norte quanto no Centro e no Sul do continente.
- Realmente não esperávamos ver estes resultados – conta Tábita Hünemeier, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP e uma das coautoras do estudo publicado da Nature “. – Esta contribuição dos melanésios (nome dado a um grande conjunto de povos da atual Oceania) nunca tinha sido aceita nos modelos sobre o povoamento das Américas e chegamos a duvidar do que estávamos vendo, mas, conforme fomos refinando nossas análises genéticas, os sinais ficaram cada vez mais fortes. Uma população não pode simplesmente desaparecer sem deixar uma marca genética nas subseqüentes, e nosso estudo é o primeiro a mostrar isso.

CONTRIBUIÇÃO  DE  UMA  POPULAÇÃO  DESCONHECIDA 

Segundo os pesquisadores, suruís , karitianas e xavantes apresentam ao menos 2% de seu genoma vindos desta misteriosa e já extinta população de origem melanésia, provisoriamente batizada de “ ypykuéra “  , palavra tupi para “ ancestral ‘. Esta proporção indica que a contribuição é muito antiga e que estes migrantes provavelmente chegaram as Américas, se não juntos, pouco antes ou depois dos “ primeiros americanos “ vindos da Sibéria. Eles teriam se mesclado durante o longo isolamento na chamada Beríngia, as terras em torno do atual Estreito de Bering, até que o derretimento das geleiras que tomavam o Norte do Canadá permitiu que se deslocassem cada vez mais para o sul, chegando então à América do Sul e ao Brasil. Além disso, o fato de a sua contribuição genética estar presente tanto em povos de idioma tupi quanto jê, troncos lingüísticos que se separam há mais de seis mil anos, sugere que os ypykuéras ou seus descendentes miscigenados já estavam aqui antes disso.
- Montamos este cenário em cima de um resultado que outros pesquisadores não conseguiam explicar dentro do que era conhecido sobre o povoamento das Américas  - explica Maria Cátira Bortolini, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul  ( UFRS ) e também co autora do estudo divulgado na “ Nature “ . – Sabíamos que os nativos americanos tinham esta herança siberiana clássica, mas mostramos que houve um estoque genético diferente, que também teria contribuído para a formação destes povos, de origem da Melanésia, que veio do Sul da Ásia e chegou à Beríngia talvez  junto com ao siberianos. Não estamos dizendo que houve uma conexão direta Austrália – América do Sul, mas que as populações que aqui chegaram eram muito mais diversas tanto morfologicamente quanto geneticamente do que se pensava. Minha é que expectativa é  que estes povos eram uma mistura dos siberianos / beringianos clássicos com os ypykuéras, numa contribuição de que pode ter sido pequena, mas importante nas populações de hoje da Amazônia e do Cerrado.
Agora, o grande desafio dos cientistas é descobrir mais detalhes sobre quem seriam os misteriosos ypykuéras, já que, levando em conta o cenário de miscigenação com os “primeiros americanos siberianos na Beríngia, a contribuição genética total desta mistura na formação dos povos indígenas brasileiros pode chegar à 85%. E já existem forte suspeitos: os parentes de Luzia, um dos mais antigos fósseis de humanos modernos já encontrados nas Américas. Datados em cerca   11 mil anos, os restos de Luzia foram achados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1975. Desde então, diversos outros fósseis de antigos habitantes da área foram desencavados, muitos dos quais com traços morfológicos considerados por alguns cientistas similares aos hoje vistos nos aborígenes australianos e em outras populações melanésias. A esperança é que futuras análises genéticas destes restos, assim como de outros povos indígenas brasileiros  e da América do Sul atuais e antigos, reforcem a tese de que o povoamento de nosso continente recebeu uma contribuição significativa dos ypykuéras.
- Se eu fosse indicar um ancestral comum para os povos indígenas brasileiros  , seria na população de Luzia que eu pensaria em primeiro lugar – aposta Tábita. – Ela é melhor candidata para esclarecer quem foi essa misteriosa população ypykuéras.

Homem  chegou  ao  continente  em  uma    onda  migratória,  dia  estudo
Travessia  entre  a  Sibéria  e  o  Alasca ocorreu   no  máximo  23  mil  anos 

Uma  pesquisa  publicada esta semana pela revista “ Science apresenta uma nova descrição da chegada do homem às Américas. Usando dados de genomas antigos e modernos, uma equipe internacional de cientistas concluiu que os ancestrais dos americanos nativos, incluindo ameríndios  , chegaram ao Novo Mundo  a partir da Sibéria  em apenas uma onda migratória, no máximo 23 mil anos atrás.
A divisão ancestral em dois ramos principais ocorreu há 13 mil anos, coincidindo com o derretimento das geleiras e a abertura das rotas para o interior da América do Norte. Daí surgiram dois grupos: os dos ameríndios e outro nativo do Alasca. Pesquisas anteriores afirmavam que a travessia de ambos os povos ocorreu separadamente.
- Nosso estudo apresenta o quadro mais abrangente da pré-História genética das Américas – conta Maanasa Raghavan, bióloga molecular da Universidade de Copenhague, integrante de 101 pesquisadores envolvidos no estudo. – Mostramos que todos os nativos americanos, incluindo os subgrupos dos ameríndios e os ancestrais da população moderna do Alasca, vieram em uma mesma onda migratória para as Américas.

ISOLAMENTO  NA  BERÍNGIA

Segundo Maanasa, este movimento foi distinto das ondas seguintes, que deram origem aos paleoesquimós e às populações inuits, que se espalharam pelo Ártico.
Considerando que as primeiras evidências da presença de seres humanos nas Américas datam de cerca de 15 mil anos atrás  , os primeiros antepassados podem ter permanecido na Beríngia, a ponte terrestre que ligava o Alasca e a Sibéria, por cerca de oito mil anos, antes finalmente de chegarem ao Novo Mundo. Trata-se de um período mito menor do que as dezenas de milhares de anos de isolamento descritas em pesquisas anteriores  .
A diversificação das populações modernas ocorreu apenas depois que chegaram às Américas.
Os pesquisadores fizeram o seqüenciamento do genoma de 31 pessoas vivas  - nativos americanos  , siberianos e pessoas que vivem próximas ao Oceano Pacífico e de 23 indivíduos que viveram no Sul e no Norte do continente entre 200 e seis mil anos atrás.
Professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, Yun Song destaca que novas amostras de material genético podem determinar o momento exato da divisão entre as populações no continente.
- Há alguma incerteza sobre as datas da migração e a diferenciação entre os povos ameríndios do Norte e do Sul das Américas. No entanto, à medida que outros genomas antigos são seqüenciados, seremos mais capazes de obter datas precisas sobre os momentos da migração – explica.

MISTURA  DE  GENES

Os pesquisadores se surpreenderam com as amostras estudadas dos nativos americanos.  Nelas havia uma pequena mistura de genes encontrados em povos da Ásia Oriental, de caçadores–coletores do Sudeste Asiático e de populações da região da Melanésia, no Oceano Pacífico, em localidades dos atuais Papua-Nova Guiné e Ilhas Salomão.
- As populações do Novo Mundo não estavam completamente isoladas do Velho Mundo após sua migração inicial – destaca Eske Willerslev, pesquisador da Universidade de Copenhague. Não podemos dizer exatamente como e quando esse fluxo genético aconteceu  , mas uma possibilidade que consideramos é a de que veio por povos que vivam na costa do Alasca.

Fonte       -  Jornal     O   GLOBO      pág 25
22/07/2015        SOCIEDADE


AMÉRICA
Índios  perderam  a   guerra  bacteriológica 

Vinda  da Europa, a  varíola abriu caminho para a conquista do México e do Peru e acabou se tornando a doença que causou mias mortes entre os ameríndios
Mas na guerra bacteriológica travada durante a conquista os europeus receberam o “troco“: a sífilis venérea foi a maior vingança que os americanos injetaram nos conquistadores.
Transmitidos sexualmente, seus surtos geraram na Europa um pânico semelhante ao que a Aids suscita hoje em dia.
  
Especial  para  a  Folha 
Descobrimento da América, no quadro da expansão marítima européia, deu lugar à unificação microbiana do mundo. Na troca troca de vírus, bactérias e bacilos com a Europa, África e Ásia, os nativos da América levaram a pior.
Dentre as doenças que maior mortandade causaram nos ameríndios estão as “ bexigas “, isto é, a varíola, a varicela e a rubéola  ( vindas da Europa )  , a febre amarela ( da África ) e os tipos mais letais de malária  ( da Europa  mediterrânica e da África ). O cólera, o sarampo, a difteria, o tracoma, o tifo, a peste bubônica, a escarlatina, a desinteria amebiana, gripes, entre outros males, também foram aqui introduzidos pelos europeus. Já a América estava infectada pela hepatite, certos tipos de tuberculose não associados à doença pulmonar, encefalite e pólio. Mas o melhor “ troco” patogênico que os ameríndios deram nos europeus foi sífilis venérea, verdadeira vingança que os vencidos da América injetaram no sangue dos conquistadores. Nos portos europeus onde desembarcavam os conquistadores, a sífilis, sexualmente transmitida, se propagava gerando um pânico semelhante ao que a Aids suscita hoje entre nós  .
Assim no século 16, a representação da morte passou a ser associada ao erotismo nas pinturas dos retábulos das igrejas: o tradicional esqueleto com uma foice foi substituído por uma jovem mulher, bela, diáfana encarregada de levar os homens para o mundo.
Porém, as mortandades causadas na América pelos micróbios introduzidos pelos descobridores foram maiores que os estragos causados na Europa pela sífilis. Eclodindo a partir de 1519 nas Antilhas, a varíola começava na América a carreira que lhe daria o título de maior assassina da humanidade. No continente, a varíola abriu caminho para os espanhóis conquistarem Tenochtiplan ( novembro de 1519 ), atual cidade do México, e em seguida alastrou-se no Peru ( 1521 ), derrubando dezenas de milhares de indígenas que poderiam ter enfrentado os espanhóis.  Neste sentido, as vitórias de Cortez sobre os Astecas e de Pizarro sobre os Incas devem ser reconsideradas: não se trata de batalhas onde a cavalaria e a pólvora européia venceram as flechas e as lanças indígenas, mas de uma guerra bacteriológica que os ameríndios não tinham chance de ganhar.
No Brasil , a varíola atinge a Bahia em 1563, tirando a vida de três quartos dos índios. Em 1565 o mal incendeia aldeias de Pernambuco até São Paulo. Mais tarde ricocheteiam no Brasil surtos anuais de varíola que eclodem em Portugal entre 1597 e 1616. Traços do trauma provocado por essas doenças parecem ter-se cristalizado na mitologia indígena. Quatro entidades maléficas se destacavam na religião tupi no final do Quinhentos: Taguaigba ( “Fantasma Ruim “ ), Macachera  ou Mocácher  ( “ O que faz a gente se perder “ ), Anhanga ( “ O que encesta a gente “ ) e Curupira ( “ O coberto de pústulas “ ). É razoável supor que o curupira tenha surgido no imaginário tupi após o choque microbiano das primeiras décadas da descoberta, como representação simbólica das mortandades provocadas pelas “bexigas“ e outras doenças pustulentas até então desconhecidas pelos índios.

Fonte     -   Jornal     Folha de São Paulo - Caderno Especial  - 7
12/10/1991 - América



CULTURA                   
NO  TEMPO  DAS  DILIGÊNCIAS

A  realidade do Velho Oeste foi feita  de trabalho árduo e banhos  de  sangue,  mas a lenda fala de pradarias, atos de bravura e heroísmo, um mito que até hoje molda o caráter dos Estados Unidos 
 
O Velho Oeste é um dos mitos criados neste mundo. Nele, a elite governante dá à classe trabalhadora, suja  e pobre, uma oportunidade econômica sem precedentes na história  - a oferta de território ilimitado, com todo seu potencial agrícola e comercial, livre para qualquer um disposto a lutar por um pedaço de terra.
A história dessa luta é a história de como uma nação recém-nascida decidiu voltar as costas para os costumes e hierarquias da Europa e criar identidade própria na fronteira, uma árida terra-de-ninguém muito além da civilização. É fácil ter uma visão romântica  - e ampliada por Hollywood  - do Oeste -, mas é difícil acreditar na alegre selvageria que moveu os pioneiros genocidas ao Pacífico.
De Jefferson em diante a política americana foi simples: conquistar território e povoá-lo com americanos, Tecumseh – A Life ( Henry Holt & Company  , 448 páginas gs. US$ 15,95 ), um livro soberbo e sóbrio de John Sugden, conta a história da primeira baixa notável nesse processo, a do chefe shawnee que tentou resistir à expansão americana criando confederação de peles vermelhas por volta de 1800.

Promessas e injustiças 
 
Passados 50 anos, o presidente Rutherford Hayes admitiria : “ Muitas, se não a maioria de nossas guerras contra os índios, tiveram origem em promessas não - cumpridas e atos de injustiça de nossa parte. Ainda assim, o massacre prosseguiu. É provavelmente  por isso que o Oeste da mitologia popular parece feito de pouco mais que força atávica. Um período pouco maior que um ano é testemunha do assassinato de Billy the Kid, o tiroteio de Ok Corral e a morte de Jesse James

Banhado em sangue, o pai foi recuperando os sentidos lentamente. Por volta de 1890, ferrovias, telégrafos e a lei tinham se estabelecido do Atlântico ao Pacífico. O búfalo e as tribos indígenas cuja sobrevivência dependia dele tinham sido exterminados. estranhamente, esses breves dias sem lei, mas repletos de ousadia, não terminaram espiritualmente com um trauma histórico como o massacre de Wounded Knee  , em 1890  , mas com a evolução dos shows do Buffalo Bill s Wild Wst. Aqui se faz a transição da história para o mito, ou melhor, para o show business.

Como observa Thomas Berger, em seu romance A Volta do Grande  Homem, as exigências do mito eram tentadoras demais para que os oportunistas amantes da violência que construíram o Oeste pudessem resistir a elas. Destes, o mais bem-sucedido foi um ex – batedor da União chamado Buffalo Bill Cody, um romanceador compulsivo, cujas aventuras na planície logo foram transformadas em romances baratos. Mais tarde, foram encenadas nos palcos de Nova York e num show que correu o mundo. Seus espetáculos deram aos americanos do Leste um cheirinho de pólvora e bravura. Cody inventou o western.

O western sobrevive como uma visão de um passado que nunca existiu, mas que devia ter sido assim. Os filmes não conseguem  como prosa pode e faz, descrever o trabalho braçal incessante, a monotonia da vida em isolamento e pobreza, sob o céu da fronteira. A pureza e o puritanismo sempre foram parte do Oeste: lá os corpos se tornam mais rijos e as mente, mais simples.

Trabalho  braçal

Os romances continuam a ser assombrados por essa realidade. The Cowboy Way, do jornalista David Mc Cumber, descreve o ano terrível que passou como trabalhador braçal  num rancho em Montana. “ Enquanto trabalhávamos, pensei em quantas vezes essa cena se desenrolou no Oeste ao longo dos últimos 150 anos, homens tentando avaliar o país, moldá-lo, adaptá-lo a seus propósitos“, escreve.

Por conta do mito do Velho Oeste, o homem ideal americano não é o tipo brilhante e muito menos poeta, mas é decente, apesar de pouco articulado e pouco sofisticado. Isso reforça a visão de que a ficção americana nunca deve ser ficcional demais, nem internalisada demais, daí a forma quase jornalística de centenas de romances. O pai da prosa americana não é Henry James  , mas Mark Twain. Todos os livros sobre o Oeste retornam ao passado, à memória de uma ordem já desaparecida que ainda tem o poder de criticar o presente.

Quando Teddy Roosevelt  , aos 42 anos  , chegou à Casa Branca  , em 1901, o Oeste já era peça de museu  . A história de como Roosevelt  , uma criança franzina, se transformou , com determinação e exercícios, no musculoso bigodudo de pontaria  - o ideal do Oeste  - foi contada milhares de vezes. Nenhum presidente desde Andrew Jackson tinha levado o espírito do Oeste de forma tão forte para a Casa Branca e nenhum fez tanto para canonizar os valores da fronteira: Roosevelt era visto ensinando seus filhos a cavalgar caçando todo tipo de animal.

O Oeste que ele idolatrava, porém era apenas uma lembrança. a sensação de arrependimento que paira sobre a sua boa parte da moderna história americana e o reconhecimento do que se perdeu em termos de caráter nacional quando a fronteira foi alcançada e os feitos heróicos e extraordinários caíram no lugar–comum da luta do dia-a-dia. A tragédia americana é o fato ideal de Thoreau  - o distanciamento da Europa e a criação de uma identidade própria  - ter sido alcançado. Há uma tristeza nessas paragens onde não há mais floresta nem animais selvagens,  onde a história não pode se repetir e as oportunidades infinitas não existam mais.

Na cena final de “ A Conquista do Oeste a imagem de uma diligência que percorre Monument  Valey se dissolve numa transição para uma montagem de paisagem urbanas  , aço e concreto. O lirismo do Velho Oeste desaparece sob o asfalto e a nova América vibra de tecnologia.  Como diria Calvin Coolidge, “ o negócio da América são os negócios “  . Na verdade, sempre foi assim.

Fonte     -   Jornal    - O  ESTADO  DE  SÃO  PAULO    
CULTURA    -     Caderno  2        Tradução  - de  Ruth  Helena   Bellinghini
Domingo  , 12/09/1999    - n°  985          ANO  19   





Para  refletir 
A  fala  de  um  indígena

Para conhecer melhor este assunto, vamos ler um documento que mostra o modo de pensar de um indígena da segunda metade do século XIX. O trecho que você vai ler foi extraído de uma carta deixada pelo chefe indígena Seattle, endereçada ao presidente dos Estado Unidos como resposta à proposta do governo americano de comprar as terras indígenas:

O ar é precioso para o homem vermelho, pois dele todos se alimentam. Os animais, as árvores, o homem, todos respiram o mesmo ar. O homem branco parece não se importar com o ar que respira. Como um cadáver em decomposição, ele é insensível ao mau cheiro. Mas se vos vendermos nossa terra, deveis vos lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar insufla seu espírito em todas as coisas que dele vivem... ( ... ) Sou indígena e não compreendo outro modo. Tenho visto milhares de búfalos apodrecerem nas pradarias, deixados pelo homem branco que neles atira de um trem em movimento. Sou indígena e não compreendo como o trem possa ser mais importante que o búfalo, que nós caçamos apenas para nos mantermos vivos. Que será do homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, o homem morreria de solidão espiritual. Porque tudo que aconteça aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado.  ( ... ) O  homem não tece a teia da vida; é antes um de seus fios. O que quer que faça a essa teia,  faz a si próprio.

Fonte     -   NÓS  E  OS OUTROS        Livro  -     Capítulo 3      pág  49
(  PINSKY História das Américas através dos textos  p .39-40 . )