terça-feira, 12 de novembro de 2019

VOCÊ MERECE SE AMAR ?



Nós vivemos no mundo da dualidade; da relatividade; do bem  e  do  mau  ; de causa  e  efeito. E neste mundo os semelhantes se atraem . Portanto , tudo o que existe é devido às causas positivas e negativas que resultam em efeitos positivos e negativos. Por exemplo: invenções evolutivas , produção de benefícios , obras fantásticas ou , também , crise financeira, violência , sinistros e calamidades. E nós, seres humanos, somos os principais responsáveis por tudo isso que acontece. Pois somos os agentes que imaginam e criam variadas formas de vida. Por isso é que não existem coincidências e nem castigos e sim as consequências de nossas ações e reações geram realidades boas ou ruins.  Por isso, é evidente que tudo e todos que existem neste mundo dual estão sempre a mercê do bem e do mau.

O fato é que, antes de nascermos, estas leis que regem a vida neste mundo já existiam, então, ao invés de você se conformar ou se revoltar por querer que tudo fosse diferente veja as coisas do mundo como elas são. Porém, lembre-se do seu livre arbítrio; seu poder de escolha, porque , se você quiser , pode desenvolver sua capacidade natural de saber lidar com todos os desafios de seus dia a dia e criar uma nova forma de viver: agindo  como  o “ Amor “ .

O  Amor é a única causa de efeitos benignos em todo universo. O Amor é a energia harmoniosa da vida : o Poder Criador , diferente do amor  sentimento .

Quando você se admira, incentiva, se encoraja e fortifica sua autoconfiança, faz sua energia vital vibrar em harmonia e assim você irradia  Amor, que contagia tudo externamente e facilita as suas relações com a  família  , profissão  , com seu cônjuge , seus amigos , com as finanças , a sociedade e etc. Seu corpo físico se ergue, revitaliza, porque você também assume o comando de seus pensamentos, seus sentimentos e passa a agir de forma proveitosa, construtiva e próspera, afastando as energias opostas . Simplesmente pelo fato de você se determinar a praticar ações em prol de sua vida, para saber reagir de forma adequada com as variadas  circunstâncias,  coisas e pessoas. O Amor é  a  base  firme  e  real  da  realização  de  seus  desejos.

Com  o  Poder  do  Amor  sobre  si  mesmo você potencializa seu humor  , tranquilidade, saúde, inteligência  e sensibilidade , e assim transforma a sua vida e, também colabora para transformar a humanidade ,que está , de fato ,  tão  carente  de  Amor .

Então , determine-se a pesquisar , se conscientizar e praticar sobre tudo o que você leu aqui . Faça o melhor por você : liberte-se de estresses , travas , complexos … , e respeite e considere a tudo e a todos  , conectando-se com o  Poder  de  seu  Amor  Próprio, que é  Incondicional .

E acredite  :  - “ Você  merece  sim  ! 

Fonte   -  Jornal  CORREIO  CARIOCA  -   pág 4 
Por  LIS  Leila  Dias  -  Treinadora  Entusiástica 



TODOS  DIZEM   -  EU  TE  AMO 

O  amor  acompanha  a  humanidade  desde  sempre . É  que  os  antropólogos  chamam  de  “ universal “  , ou  seja  , está  presente  em  todas  as  culturas  . Mas  formas  que  ele assumiu  ao longo  do  tempo  mudaram  ,  e muito . Essas  variações  contam  uma  incrível  história  de  quem somos  nós  .

Mais encantadora que todas as outras mulheres, luminosa , perfeita . Uma estrela na linha do horizonte . Seus lábios são encantadores . Seus cabelos refulgem como a lazulita. Seus braços são superiores ao outro em esplendor. Seus dedos fazem-me ver pétalas , as de lótus lhes são semelhantes . Suas curvas têm a forma mais adequada , seu andar é nobre. Meu coração seria um escravo se ela me envolvesse com seus braços .

O trecho acima faz parte de um poema escrito há mais de 3 mil anos , no Egito. Trata-se de um dos primeiros registros sobre amor de que se tem notícia na história da humanidade. Nele , o  autor  desconhecido fala sobre o fascínio exercido pela mulher amada , comparando-a com  flores ,  frutas,pedras preciosas  e  corpos  celestes . Como se vê, nada que não pudesse fazer parte hoje da  música-tema da novela  das 8:  “Fonte  de  mel  nos  olhos  de  gueixa  . Choque  entre  o  azul  e  o  cacho  de  acácias  ( …) Areias  e  estrelas  não  são  mais  belas  “ . A verdade é que nosso vocabulário amoroso é muito parecido  com o dos antigos egípcios , que , por sua vez , , não pensavam tão diferente assim dos antigos chineses , gregos e romanos . Como explicar que as imagens usadas para descrever o amor hoje sejam as mesmas dos nossos ancestrais ?

Segundo o professor César  Ades , do Instituto  de  Psicologia  da  Universidade  de São  Paulo,há uma predisposição para o amor prefigurada em nosso sistema nervoso , em nosso hormônios na diferenciação biológica do masculino e do feminino. “Essa característica está presente em todas as culturas, nos mais diferentes povos . Em outras palavras  , o  amor  é  universal  “  , diz César . As formas que ele assumiu ao longo da história , porém , variaram muito . “ O  amor  é  regulado  por princípios  e  costumes  culturais.  Ama-se  de  acordo  com  os  modelos  da  época  e  do  grupo “ . Esses modelos são expressados nos poemas, nas canções , nas novelas , nos casos que uma pessoa conta a outra , nas reprovações ou incentivos que certas formas de amar recebem em seu meio social. Ou seja, o amor varia de acordo com a cultura e os gostos de cada época, mas a essência dessa emoção é imutável.  “Não se pode dizer que o amor seja só uma  criação da cultura. A cultura não cria, apenas, influencia. Se  os  homens  não desejassem  as mulheres  e vice-versa não haveria base para a cultura exercer seu papel“ , diz César .

A maioria dos especialistas acredita que  o  amor , assim como a família, nasceu com a descoberta do fogo . Ali, confinados  em  cavernas, reunidos em   volta da  fogueira, homens e mulheres estabeleceram as regras de uma célula social   pré-histórica  : divisão de funções , cuidados especiais com os filhos e parceiros . Mas contar a história do amor antes da invenção da escrita tem suas limitações.

Os registros pictográficos dessa época até mostram o que parecem ser cenas de intimidade entre casais, famílias e sexo, mas não dá para saber como eram os relacionamentos e sentimentos amorosos. “Não temos como saber quais eram as motivações da escolha erótica nessa fase, mas concluímos que, quanto mais primitivas as relações sociais, mais instintiva ela devia ser“, diz o historiador americano  Morton  Hunt, autor de  História  Natural  do  Amor

"Em nosso passado de coletores e caçadores, a escolha amorosa era muito mais livre e desprovida de laços sociais" , diz Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers, nos Estados  Unidos . Segundo ela , autora do recente  Por  que  Amamos , nas sociedades  nômades  , o mais comum era escolher o parceiro por afinidade, pelo desejo de ter uma determinada pessoa como companhia e pelo simples prazer de mantê-la por perto . Alguns diriam que eis aí uma bela definição de amor . 

A estrutura familiar como a conhecemos só se consolidou quando o homem se tronou sedentário , o que deve ter acontecido há cerca de 12 mil anos . Ao redor dos campos de trigo que floresciam nas terras férteis próximas a fontes de água limpa , homens e mulheres viviam do que encontravam, até que perceberam que o que gerava novas plantas eram as sementes. A partir daí, ter um pedacinho de terra era possuir uma reserva de alimentos e , portanto , passou a ser importante. Tanto quanto poder contar com braços para ajudar no trabalho. Pessoas que, em troca, ficariam com suas terras e tomariam conta de você. Ou seja, passou a ser importante gerar descendência. "A partir do momento em que nossos ancestrais se assentaram e introduziram a agricultura, os casamentos se tornaram negócios feitos para a troca da propriedade ou para alianças" , afirma Helen  Fisher

CARA-METADE 

" Há pessoas que nunca teriam amado se não tivessem ouvido falar de amor " , escreveu o francês La  Rochefoucauld , no século 17 . O que ele queria dizer é que o amor é só uma palavra e que ela será sempre uma representação do " verdadeiro " amor . O americano Morton  Hunt concorda . " A  história  de  amor é  uma  história daquilo  que se diz sobre  o amor  " . Por isso , segundo ele , foram os gregos que inventaram o amor. " É claro que as pessoas já se amavam muito antes, mas os gregos , que tinham explicação para tudo , foram os primeiros a criar uma palavra para  isso " , afirma Hunt. Da Grécia , aliás , vem boa parte do dicionário amoroso que usamos hoje, afrodisíaco , erotismo , hermafrodita , ninfomania e poligamia.

A civilização que gerou filósofos como Sócrates e Aristóteles discutia  política , ciência e poesia durante os chamados simpósios , festas nas quais os participantes partilhavam uma grande taça de vinho . É em torno de uma delas que se desenvolve O  Banquete , célebre obra de Platão , uma das mais reveladoras sobre o pensamento grego a respeito do amor . Lá surgiram ideias como " almas  gêmeas "e "cara-metade",
quando um dos convidados , Aristófanes , recorreu à mitologia para falar sobre a origem do amor . Segundo ele ,éramos seres andróginos de duas cabeças , quatro pernas e quatro braços . Temendo que o poder dessas estranhas criaturas ameaçasse os deuses, Zeus dividiu-as em duas outras - e desde então carregamos a sensação de estarmos sempre incompletos, em busca da metade afastada de nós.

Outro conceito grego , que influenciou para sempre o modo de amar , é a ideia de que o amor só era possível entre pessoas iguais , ou seja , da mesma classe social , do mesmo nível intelectual . Os gregos acreditavam , ainda , que o verdadeiro amor só acontecia entre pessoas do mesmo sexo. Sócrates dizia sentir um fogo quando via outro homem e até Aristóteles , que considerava o homossexualismo uma " mórbida anormalidade " , defendeu em sua Ética a ideia de que " o amor e a amizade são plenos somente entre os homens".

Platão acreditava num amor puro , abstrato , fundamentado na parceria intelectual  e espiritual . O chamado amor platônico , no entanto , não entanto , não excluía o contato físico . Era uma afeição elevada a um plano ideal , que transcedia o contato físico , mas não o abolia . Com a conquista da Grécia por Roma , por volta do século 2 a.C .; muito da cultura grega foi assimilada pelos romanos . Mas tanto a ideia de amor entre iguais quanto a de amor idealizado foram descartadas . 

Os romanos adoravam se divertir e não valorizavam tanto assim  os assuntos  " "superiores" . Além disso , eles tinham pavor da ideia de serem escravizados por uma paixão . Segundo o livro  História  da  Vida  Privada , coordenado por Philippe Ariès e Georges Duby  , " quando um romano se apaixonava , seus amigos consideravam que perdera a cabeça por uma mulher devido a um excesso de sensualidade ou que moralmente caíra em escravidão " . O amor e o sexo , porém , eram livremente discutidos e abordados pela arte romana. Uma das obras mais conhecidas do Império , o poema Arte  de  Amar , de Ovídio , é um verdadeiro manual de sedução , citando até hoje por poetas e apaixonados em geral . 

Fonte  -  Revista aVENTURAS  NA  HISTÓRIA  - págs 26,27 , 28 e 29 
Maio  de  2006  -  Por  LIA  HAMA  - Para  viajar  no  tempo 



O  amor  para  sempre 

Gabriel  Garcia  Marques revela em seu livro de memórias  . " Vivi  para  contar  que  sempre  quis  ser  escritor " . Na sua Colômbia de mil guerras , de bravatas e desforras , de velhas donzelas  e filhos bastardos  ( como a Colômbia se parece com  o Nordeste brasileiro ) ele sempre quis escrever e nada mais . Escreveu tão bem que mereceu o Prêmio  Nobel .

Mas nenhum escritor dos tempos modernos escreveu melhor sobre o amor do que esse caribenho , criado em meio a machismos desmesurados e barbarismos insuportáveis  .

Primeiro teve o caso de amor eterno entre aquele casal de Amor nos Tempos de Cólera , ele conseguindo alcançá-la quando já tinha ficado velha, casando-se com a setentona e olhando um imaginário corpo de beldade de vinte,  abraçando uma anciã como se fora uma ninfeta. 

Agora , surge esse outro pequeno romance Memórias  das  Minhas  Putas  Tristes. E quando você abre o livro acha que se trata de uma história picaresca, o relato de aventuras de um homem  ardoroso pelos bordéis onde reinavam damas de turbante, múltiplos colares, lantejoulas nas blusas, perfumes de gardênia . E não é nada disso . Trata-se de uma história de amor entre um nonagenário e uma menina e 15 anos. Uma cafetina disponibiliza uma garota pobre para um velho libertino, sem tocar na menina , se apaixona perdidamente por ela, com os arroubos , os ciúmes , a veemência  da juventude . O escritor repete a sua lição anterior que poucos querem escutar. O amor não tem nada a ver com a beleza, com a mocidade , com o talento , seja lá com quem for . A uma certa altura do livro, o escritor declara: " O sexo é apenas um consolo para a falta de amor " . O amor , às vezes , nem tem muito a ver com o sexo e sobrevive sem sexo por anos e anos , às vezes por uma vida inteira . Não houve liberação sexual, nem mesmo promiscuidade sexual que acabasse com a esperança do amor. É por ele que as mulheres  esperam, explicitamente ,mal o parceiro ocasional abandona a cama. E é com ele que os homens contam , depois que perdem os ardores da mocidade e a potência de que tanto se orgulham . Qualquer um pode ocultar as usas transas sexuais, suas aventuras eróticas. É impossível ocultar o amor. Ele brilha como um anúncio luminoso na testa das pessoas. Mesmo sem dar uma palavra, ele se proclama.

No meu romace O  Pardal  é  um  Pássaro  Azul ( traduzido na França com o nome de Cantique  de  Meméia ) conto a história da minha tia bisavó, Tecla , que calou durante os 65 anos o nome do homem que ela tinha amado aos 20 anos , mas que no dia em que ficou caduca esse nome lhe veio do coração à boca e ela chamou por ele o resto dos seus dias : " Zé  Júlio  , onde  está  você ?" Sentimentos assim é que marcam a beleza do romance de Gabriel  Garcia  Marques . 

Jornal   ATUAR  - EDUCAÇÃO  E  CULTURA   - pág  8  ( distribuição gratuita)
Novembro  de  2005 -  n° 2  - Ano  1   -    Heloneida  Studart 

OBRA-PRIMA - HOMEM DE PALAVRA



O  Dicionário  Houaiss  da  Língua  Portuguesa, o  mais  completo  do  Brasil, levou anos para  ser  terminado  e  ocupou  140  pessoas  em  sua  produção. A obra foi fruto da dedicação e do  brilhantismo de  Antônio Houaiss.

A tarefa foi enorme, descomunal, insana. Em 2000, após 15 anos ,os 140  especialistas diversas nacionalidades -brasileiros , portugueses,  angolanos e timonenses -chegaram ao fim do seu trabalho . Com 228500 verbetes , 380 definições , 61 milhões de caracteres  e 3008 páginas , estava pronto um livro de 3,8 quilos e acabamento impecável . Poucos intelectuais , em qualquer língua e tempo , estão aptos a capitanear um esforço incomum desses. Antônio   Houaiss , considerado o maior filólogo da língua portuguesa do século 20 , foi o sujeito em questão – embora tenha morrido em 1999 , sem ver a conclusão da obra de sua vida.

O Dicionário  Houaiss  da  Língua  Portuguesa, porém, pôde chegar às prateleiras graças ao também filólogo Mauro Salles Villar, sobrinho e parceiro de Houaiss na empreitada , e a um manual de redação de 100 páginas , que havia sido preparado pelo intelectual no decorrer do trabalho.  Uma luta , aliás , que já costuma começar em desvantagem : com a letra A , a mais extensa e complexa. Para evitar o estresse , a equipe iniciou os trabalhos pela letra B , passou à D para só finalmente chegar à A, já com a engrenagem azeitada.

Antônio  Houaiss era o candidato perfeito a dicionarista . De temperamento metódico e formação técnica de perito-contador , começou a trabalhar como professor de Português e Latim aos 18 anos - era também um ( rigoroso ) revisor de textos. Mais tarde, diplomata de carreira, ocupou o cargo de documentador da Presidência da República , publicando 83 volumes como o material que ordenava. Cassado após o golpe de 1964 por conta de seu posicionamento de esquerda ( ele voltaria à política no governo Itamar, como ministro da Cultura) , precisou dar uma reviravolta na vida. Passou os vinte anos seguintes como redator e coordenador de dicionários e enciclopédiascomo   A  Grande  Enciclopédia  Delta Larousse  e  a  Enciclopédia  Mirador  Internacional.

Nascido em 1915 numa Copacabana ainda selvagem , entre sete filhos de uma família de pais libaneses , Antônio  Houaiss viveu no  Rio  de  Janeiro num tempo em que a cidade aliava o cosmopolitismo  de capital do País a uma cultural respeitável . Foi aluno, nos anos 1930 ,  de Joaquim Matoso Câmara Júnior , o primeiro grande linguística moderno do País e , conheceu Antenor Nascentes , autor de um bom dicionário brasileiro. O cenário era realmente favorável a um temperamento como o de Houaiss , envolvido com línguas estrangeiras desde a infância  e  possuidor de uma reconhecida capacidade técnica de elaborar pesquisas sobre história da língua  portuguesa , estudos de linguística e traduções ( entre as quais figura a proeza de traduzir , em apenas nove meses , o monolítico romance Ulisses  , do vanguardista irlandês James  Joyce  ) . “ Ele não olhava as palavras com maneira particular dos poetas ou dos escritores “ , diz o etimologista Cláudio Moreno . “ Olhava-as como um entomólogo olha os insetos , com aquele mesmo olhar classificatório , organizatório , quase obsessivo , que prenuncia o lexicógrafo “ . (  - Houaiss , página 1750 : “ aquele que pratica a lexicografia ; dicionarista “ )

Antonio  Houaiss é o elo mais recente numa sucessão de dicionaristas de nosso idioma . O primeiro foi o padre português Rafael Bluteu ( 1638 -1734 ) , que , num acanhado intelectualmente , levou a cabo de oito volumes do Vocabulário Português e Latino. O pioneiro no Brasil foi  Antônio  de Morais Silva ( 1755-1824 ) , que conclui o Dicionário da Língua Portuguesa em 1789. Depois veio Francisco Júlio Caldas Aulete  ( 1823 - 1878 ), morto três anos antes de saírem os dois volumes do Dicionário  Contemporâneo  da  Língua  Portuguesa .

Durante o período devida de Houaiss , vários outros dicionários vieram a público , entre os quais  o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa , de Laudelino  Freire  (1873 -1937) , e o Dicionário  Etimológico  da  Língua  Portuguesa , de Antenor  Nascentes  ( 1886- 1972 ) . O mais célebre foi lançado em 1975 : o Novo  Dicionário  da  Língua  Portuguesa, que viria ser conhecido pelo primeiro nome do autor, Aurélio  Buarque  de  Holanda  Ferreira ( 1910- 1989 )Foi, por décadas, considerado o melhor dicionário do Brasil  - até a chegada de Houaiss.

É bom que se diga : entre os dicionaristas, as coisas nem sempre se passam como se fossem todos amigos . Os leigos que consultam dicionários certamente não sabem, mas por trás dos verbetes há intrigas e disputas, às vezes  pesadas. Briga-se muito por diferenças de concepção, mas também por pura e simples vaidade, o que talvez seja compreensível. Se não tiver um sólido senso de realidade, um dicionarista imerso no trabalho pode acabar se considerando “dono“ das palavras. Talvez por serem obras tão pessoais, os grandes dicionários acabam sendo conhecidos pelo próprio nome de quem o escreveu.

A chegada do Aurélio – que já vendeu mais de 45 milhões de cópias – alterou o panorama da produção de dicionários no Brasil, que chegavam a ser quase cópias uns dos outros. Desde sua primeira edição, deixou claro que era muito arejado que os anteriores. Por um lado, mantinha a tradição de seriedade no trato da etimologia  ( Houaiss , página 1271 : “ estudo da origem e da evolução das palavras “ ) . Por outro lado , acolhia criteriosamente estrangeirismos e neologismos. O dicionário parecia ter tirado o terno e gravata, transformando-se num auxiliar relvante para os tempos recentes. O que combinava com seu autor, profundo conhecedor da língua e da literatura da língua portuguesa, um experiente operador do idioma do Brasil. Mas o Aurélio , mesmo sendo muito bom, era ainda fruto de uma concepção amadora, digamos assim. No fundo, o autor tinha feito o mesmo dicionário que sempre fez em português, apenas apenas atualizado. Tinha relativamente pouco rigor no trato científico com raízes, étimos, partículas formadoras das palavras de nosso idioma.  Conta total   ( considerando a terceira edição ) : 160 mil verbetes.

Boa hora para perguntar: que diferenças há entre Houaiss e os dicionários anteriores de nossa língua ? Para começo de conversa , o Houaiss alcançou a notável cifra de 228.500 unidades léxicas . Tudo bem , não é muito comparado às mais de 615 mil do dicionário dos dicionários no Ocidente, o Oxford  English  Dictionary  , que levou 70 anos para ganhar a primeira edição , em 1928 . Mas são 68.500 verbetes a mais do que o Aurélio e 28.500 a mais que o Michaelis  Dicionário  da  Língua  Portuguesa.

Houaiss , aliás , sabia de suas limitações , mas também das potencialidades do português. O Oxford foi para ele uma referência , talvez especialmente na datação ( Houaiss , página 911 : " indicação da data ( ...) em que uma palavra ( ...) aparece pela primeira vez documentada por escrito" ). Aqui está uma outra diferença significativa entre o dicionário Houaiss e os anteriores : ele traz sistematicamente essas datas , num trabalho que complementa a etimologia e acolhe , na história documentada da palavra , as origens e até os significados que já existiram , mas se perderam. Um dicionário de cultura exigente serve também para isso:  esclarecer sobre sentido que a língua deixou para trás, mas de que de vez em quando reaparecem , ou na leitura de um texto antigo, ou na revalorização feita por alguém no presente .

Para atingir aquele impressionante número de verbetes , o dicionarista precisou abrir mão de abonação ( Houaiss , página 23 : " trecho de livro ou escrito qualquer que serve para autorizar o emprego de um vocábulo ( ...) na língua " ) . O uso de citações e referências aumentaria a obra em quase 20% . De acordo com o plano original , deveria haver um segundo volume ( que nunca saiu ) dedicado apenas a esse universo , que liga o dicionário , coleção de palavras isoladas , à literatura e à cultura , área em que as palavras se encontram . Esta intenção demonstra o esforço que Houaiss fez para definir nos termos com rigor , superando a mera citação de sinônimos .

O perfeccionismo fazia parte do dia-a-dia de quem trabalhou com o filósofo . " O ambiente , apesar de amisroso , era de muito silêncio , muita concentração " , diz o escritor Alberto Mussa, que colaborou na fase inicial. Sim, houve uma interrupção: o trabalho começou em 1986 ( quando Houaiss tinha 70 anos ) e parou em 1992por falta de patrocínio durante o governo Collor . O reinício se deu cinco depois . Publicado em 2001, em papel e em CD, o Houaiss ganhou o lugar de destaque que merece e colocou a língua portuguesa num patamar superior de descrição.

Fonte  - Revista  AVENTURAS  NA  HISTÓRIA    -  págs 54,55 e 56 
Outubro de  2005   -Editora  Abril - Por LUÍS  AUGUSTO  FISCHER  

Memória - Absolvição tardia


Livro  redime  Moacyr  Barbosa ,  o  jogador  mais  injustiçado  do  futebol  brasileiro

Durante quase 50 anos, ele amargou a condenação por um crime que não cometeu. Apontado como o principal culpado pela tragédia brasileira na final da Copa de 50, o goleiro Moacyr  Barbosa, finalmente libertou-se de sua “ prisão perpétua “  há um mês, em consequência de um fatídico derrame cerebral, sofrido em Praia Grande , no Litoral de São Paulo . Em compensação , seu estigma de fracassado , que já há um bom tempo, vinha perdendo força no País, recebeu mais uma estocada justamente no mês de sua morte. Barbosa  - Um  gol  Faz  Cinquenta  Anos ,  livro do jornalista Roberto Muylaert , ajuda a recolocar o goleiro, um dos mais injustiçados esportistas do país, no panteão do futebol nacional. “Ele era um cara legal, bem educado, fino e sempre sorridente . Mas , combalido com tantas histórias , não demonstrava nenhuma emoção  “ , revela o autor, de 65 anos. 

Presente no Maracanã na tarde de 16 de julho de 1950 – quando o Brasil, que precisava apenas de um empate para ser campeão do mundo, perdeu de 2 a 1 para os uruguaios Muyalert resolveu escrever o livro após preparar um documentário sobre o goleiro para a TV Cultura , que presidiu durante nove anos. A obra , editada pela RMC  Comunicação, foi o resultado de um ano e meio de pesquisa e entrevistas com Barbosa . Algumas histórias presentes nas 250 páginas jamais haviam sido contadas, como o episódio do churrasco, na década de 60, em que o goleiro queimou as traves de madeira usadas na inglória final . “Levei um susto , fiquei pensando se ele estava delirando . Depois de duas semanas , perguntei de novo , e ele me contou a mesma história , com os mesmos detalhes . Mal pude acreditar “ . confessa . Igualmente impressionante é a descrição do último jogo daquele que , embora poucos saibam foi eleito por jornalistas estrangeiros o melhor keeper da Copa de 50 e só não jogou em 54, na Suiça , por causa de uma contusão. “Foi no campo do Madureira. Enquanto saía de maca, os poucos torcedores o aplaudiam de pé. Ele dizia que essa emoção quase o fez esquecer da derrota em 50“.

Uma das preocupações do autor foi preparar uma obra que agradasse não só aos fanáticos pelo futebol como também ao público em geral , que , de alguma forma, também sofreu  com  o Maracanazo . ‘ A  derrota  derrubou  o  Moral  de  toda   a  Nação, que  pela  primeira  vez  havia resolver  a  cara  ao  mundo  como  um  país  respeitável“, afirma ele, que apostou num texto literário, ao contrário de muitos livros sobre o mundo da bola, essencialmente narrativos . Para o lançamento, Mulayert  sonhava com um encontro com Barbosa e seu carrasco , Alcides  Ghiggia, autor do segundo e decisivo gol uruguaio, em 1950. Porém , quando estava em Montevidéu para acertar o almoço com o craque da Celeste, leu a notícia da morte do goleiro e desistiu da ideia. “Sem  o  Barbosa,  não  faria sentido“.

Fonte  - Revista   JÁ    -  Memória 
7/05/2000   -  CELSO  DE  CAMPOS  JR .            


A  violência  como fator  humano  e  social 

A violência é um fenômeno social, e suas raízes são sociais, mas também é um fenômeno humano, e suas raízes também são humanas.

Ao estudarmos a história da humanidade, podemos concluir que se trata de uma trajetória de violências, sejam elas diretas ou indiretas - violências econômica , política , cultural , social , psicológica , simbólica , racial , de gênero , de opção sexual , de idade , de poder ... todas humanas, embora sempre com revestimento histórico e social.

Esse é um fator importante para se compreender qualquer manifestação de violência, em qualquer área social , até mesmo no futebol.

Praticamente todos os grandes pensadores, sejam da filosofia, das ciências ou das artes, em algum momento significativo de sua obra, falaram sobre a violência e suas práticas, denunciando sua presença constante, ameaçadora e preocupante, mas também reconhecendo como ela está entranhada no cotidiano das pessoas

Heródoto (484 a.C. - 420 a.C.), considerado o primeiro Historiador - o Pai da  História   -, o pai das narrativas históricas, foi o primeiro a narrar, em um conto, o nascimento da violência, ou melhor, sua transformação na deusa Hybris. Considera-se que a própria história começa com esse conto, no qual Heródoto funda a narrativa histórica para comprovar a metamorfose da violência como dimensão humana numa deusa (Hybris).

Esse conto é uma página mais do que clássica do pensamento ocidental e está registrado no VIII  Livro  das  Histórias.  A  deusa  Hybris  é descrita como onipresente ( está em todos os lugares ) e representa insulto , agressão , desrespeito , tortura , mutilação , morte

Em resumo, é apresentada como violência do corpo e da palavra, bem como violência das extensões do corpo e das extensões da palavra - extensões materiais, como armas, máquinas, drogas; e extensões não materiais, como valores, símbolos, preconceitos, exclusões.

E Heródoto acrescenta com grande sabedoria: a violência do corpo e da palavra fica mais agravada quando estamos em grupo, e piora ainda mais quando estamos  em grandes grupos.

Sigmund  Freud  ( 1856 - 1939 ), o  Pai  da  Psicanálise , 2400 anos  depois de Heródoto , analisa ( em vários pontos de sua obra ) o comportamento do indivíduo, quando em meio  à multidão : " Nada há que pareça impossível ao indivíduo, quando este está inserido na multidão [ ...] . Quando uma pessoa está misturada à multidão , o seu comportamento é , via de regra , irracional . Especialmente  quando  se   trata  de  jovens".

Freud prossegue afirmando que a multidão é uma coisa estranha , porque imprevisível , já que é movida a paixão . E , mesmo quando esses indivíduos não se conhecem, quando juntos ficam elétricos, barulhentos, arruaceiros, e podem, até mesmo, cometer atos de infração . Para que isso aconteça , basta liberar uma faísca de paixão , que corre pela massa como rastilho de pólvora , algo explosivo , descontrolado .

Ocultos na multidão , os humanos se tronam agressivos , violentos , e se permitem fazer  o que não aceitam , ou dizem que não aceitam , quando fora de um grupo .

Agora, imaginem só: com esse potencial que as pessoas carregam dentro de si, se  as instituições sociais não estiverem preparadas para lidar com multidões, como  os espetáculos  públicos  poderão virar  barbárie . Sim , porque o conceito de civilização - o controle dos excessos  humanos  pelas leis, pelas instituições , pela ordem ,pela palavra, pela convivência social mais ou menos pacífica - ficará  para  trás  ou será  mesmo  abandonado .

págs  de  51  a  53 


O futebol  e  o  Brasil:  mais um  pouco  de  história 

O futebol chegou ao Brasil em 1894, mais exatamente em São Paulo, trazido por Charles  Miller, brasileiro descendente de ingleses. Mas, ao contrário do que é hoje, tratava-se de um esporte de elite, para o lazer das mais altas camadas sociais. Era ainda um esporte amador, disputado pelos filhos de famílias ricas, todos brancos, cultos, elegantes  com duplo sobrenome.

O Brasil , recém-saído da escravidão , em 1888, era o último país do mundo a abolir esse regime de trabalho, e nossa República, em 1889, dava os primeiros passos. O mesmo ocorria com a primeira Constituição da República Brasileira, de 1891.

O país ainda se encontrava sob influência da herança colonial e escravista, e as macroviolências sociais geradas por essa história de  dominação, opressão  e exploração marcaram o futebol, a princípio elitista, racista e excludente,  tal como nossa sociedade. Podemos considerar que estes foram os primeiros atos violentos ocorridos no futebol brasileiro.

Porém como tudo no mundo, o futebol possuía outra face e, mesmo com essas características pouco convidativas, atraiu o gosto das populações excluídas , pobres , mestiças e analfabetas , que viam nele um divertimento barato , simples de entender e fácil de jogar .

Nos clubes dos ricos perpetuava-se o esporte tal como chegou aqui; elitista , racista, excludente . Nas ruas, nas praças pobres, na várzea , na periferia das cidades,  no entanto ,era um movimento espontâneo dos desfavorecidos , que corriam atrás da bola como forma de afirmação social, uma vez que constatavam a possibilidade de serem bons em algo privativo das elites. Na época ( e, de certa maneira , ainda hoje ), essa possibilidade quase não existia em outra área da sociedade brasileira.

Esse foi o início de um longo processo de popularização e democratização, que , mais tarde , transformaria o futebol na maior manifestação da chamada cultura popular no Brasil.

As principais etapas desse processo - repleto de tensões e conflitos - podem  ser resumidas assim: 
- O início se deu nas ruas, entre 1910 e 1920;
- Em seguida, a prática nos clubes, partir dos anos 1920; e, mais tarde, 
- O crescimento e a profissionalização do esporte, após 1933.

A partir daí, quando este esporte foi se popularizando e quebrando algumas barreiras de cor e classe, muitos clubes fecharam o que seria o seu departamento de futebol. Setores dominantes das elites brasileiras ficaram enfurecidos, com esse processo de abertura no futebol , conquistado pelas camadas mais pobres.

A história social do futebol brasileiro é um capítulo de nossas lutas sociais , políticas, culturais . A popularização /democratização do futebol , fruto da resistência e  das lutas das camadas desfavorecidas da sociedade, foi consolidada nas décadas de 1940 e 1950.

Os setores pobres da população, antes impedidos de participar , foram se impondo  e 
trazendo para o jogo um " jeito  brasileiro " , uma espécie de " estilo " , uma " marca própria " , por assim dizer .

É uma herança de nossas identidades  culturais indígenas,   portuguesas (principalmente do norte de Portugal, de onde saíram is maiores contingentes de imigrantes que vieram para o Brasil ) e, sobretudo, negras . No " estilo" brasileiro de jogar , as raízes culturais de nossas classes oprimidas se fizeram presentes .

Ao longo do tempo , o futebol foi se afirmando como uma das poucas  instituições brasileiras que permitem o acesso democrático dos grupos mais pobres , de analfabetos ou semialfabetizadas , de mestiços , de excluídos , cujas famílias têm poucas oportunidades socioeconômicas .

Poderíamos dizer que o poder social que o futebol alcançou no Brasil tem a ver com o que passou a simbolizar entre nós: se ao povo brasileiro pobre forem dadas oportunidades , nosso país vai longe .

O futebol é um dos melhores exemplos dessa máxima , sem dúvida . E não só em relação ao jogador, o que é mais fácil de perceber, mas também em relação ao torcedor . Os jogadores de maior talento , artistas da bola , em geral , vêm de famílias mais humildes e com menos oportunidades .

Já em relação aos torcedores, chama a atenção como as pessoas  mais  simples, humildes mesmo, conseguiram se apropriar dos saberes e das informações do futebol. Gente muito modesta , sem escolaridade , nem status  discute sobre o assunto em igualdade de condições , com qualquer outra pessoa de qualquer nível social, econômico e de escolaridade.

Gente que conquistou isso democraticamente , porque discute com  propriedade e consistências o conhecimento de regras , técnicas , táticas , o mercado da bola e as políticas do futebol . Talvez por isso torça com tanta paixão e veemência , com tanta garra e força . 

Consistência rima com veemência , o que soa bastante positivo . Mas , se as duas palavras forem levadas , ao extremo e em situações com poucos limites institucionais, poderão rimar também com violência . Na melhor das hipóteses , podem beirar  a agressividade . E , se for mesmo assim , e parece que é , trata-se de mais um  dos fatores  para se entender a violência no futebol.

Enquanto nossas instituições políticas, econômicas e sociais afastam os mais desfavorecidos de sua convivência e decisões cotidianas , o futebol  aproxima, incluindo em suas práticas , lógicas e sentidos  ( embora não no processo decisório) esses excluídos históricos e estruturais - os pobres e humildes . 


Futebol  e  torcidas organizadas

O melhor exemplo da interação entre Brasil e futebol, um ajudando  a explicar o outro, talvez esteja mesmo nas torcidas organizadas. Nas suas origens, história e atualidade.

Historicamente , a organização dos fãs brasileiros de futebol , teve início com a fundação da Torcida Uniformizada do São Paulo , por Laudo Natel (governador de São Paulo por duas vezes, nas décadas de 1960 e 1970 ) e Manoel Porfírio da Paz , em 1940 e da Charanga Rubro-Negra, do Flamengo , em 1942 ,  por Jaime Rodrigues  de Carvalho.

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Charanga é o nome que se dá às bandinhas de animação do interior do Brasil que , nos primeiros decênios do século XX, levaram música , principalmente as marchinhas de Carnaval, às arquibancadas.

Resultado : sucesso absoluto !  

Jaime de Carvalho, presidente eterno da Charanga ( que existe até hoje ) , chegou a ser escolhido o " representante de todas as torcidas " na delegação brasileira da Copa de 1954 , na Suíça , e de outros grandes eventos esportivos - fato inimaginável atualmente.

As décadas de 1940 e 1950 viram um Brasil que " queria  mostrar a  sua  cara " e, para tanto, apresentava a população como criadora e protagonista de manifestações culturais importantes , para afirmação da própria identidade .

Isso aconteceu na música , no cinema , no teatro , nas artes em geral e , como não poderia deixar de ser também no futebol. Neste, a motivação maior ficou por conta do processo de popularização e democratização do esporte, no qual um dos destaques foi a formação das torcidas organizadas .

Na origem carnavalizadas , as torcidas marcavam sua atuação com cânticos, cores, alegorias e festejos. Foi nessa conjuntura que as relações entre futebol e  música popular no Brasil se intensificaram, aprofundando-se.

Nas primeiras décadas, até mais ou menos início dos anos 1970, havia alguns conflitos , sim , entre as torcidas , mas eram localizados, pontuais. O que predominava era um cenário de sociabilidade quase familiar.

Eis aqui uma curiosidade que ilustra bem a diferença entre as torcidas de tempos inaugurais e as de agora . 

Nos primeiros anos, a torcida do time que ganhava a partida pagava - isso mesmo, pagava ! - o jantar para a torcida do time derrotado. Era uma maneira pacífica, simpática e generosa de relação intergrupal , que ajudava a diminuir a diferença própria do futebol , cuja característica é , muitas vezes , dividir as pessoas em dois grupos: vencedores e vencidos , deflagrando , por essa peculiaridade , reações violentas. 

A  torcida  como expressão  do momento  político  brasileiro

Os grupos de torcedores extremados , radicais , e suas práticas de violência só começaram a surgir nas arquibancadas brasileiras em princípio da década de 1970Era o auge da ditadura militar , que tomara o poder em 1964 e se consolidou com o Ato Institucional nº 5, o AI 5, de 13 de dezembro de 1968. Passo a passo, esses setores exaltados das claques, compostos de vândalos e delinquentes , foram se institucionalizando e lentamente chegaram às páginas policiais.

O processo levou de dez a quinze anos, até o reconhecimento público desses grupos de torcedores como segmentos preocupantes e perigosos. A presença deles no noticiário policial de revistas e jornais e nas imagens da televisão foi crescente e assustadora. E o que é pior, praticamente nada foi feito , por parte das forças de segurança , para neutralizá-los .

De carnavalizadas, as torcidas passaram a ser e a atuar como coletivos militarizados , seguindo as doutrinas e padrões do militarismo então vigente, que aparecia em quase toda a sociedade, mesmo quando de modo indireto. O futebol e as torcidas organizadas não ficam fora desse jogo político.

Para reforçar a ideia de que a situação do país num determinado momento influencia também o esporte, passemos em revista a estrutura de várias torcidas, em particular dos grupos mais violentos, os que estão entre 5% e 7% dos " organizados " .

Como já dito anteriormente ,os próprios torcedores usam  termos militares, auto denominando-se pelotões, destacamentos e tropas de choque , e chamam os líderes de capitães , tenentes e sargentos. Nesses casos , os símbolos são militares , como também são militarizadas as relações de poder , hierarquia interna e ações coletivas .

Esse paralelo entre o que ocorria na política brasileira e o que passou a acontecer nas torcidas de futebol ajuda a compreender várias ocorrências , entre elas , a violência nos estádios e arredores


OLHO  NO  LANCE 

Eis uma curiosidade que ajuda a compreender a violência no futebol e as interações e reciprocidades desse esporte com o país.

É possível que o drible, uma das características do chamado " futebol-arte " , que possui grande identificação com o futebol brasileiro, tenha sido criado entre nós, justamente para o jogador negro e pobre tentar escapar da violência. Essa é uma ideia, uma hipótese , que defendo desde 1990 . 

A  seguir, a explicação .

No início , quando o futebol no Brasil era racista , os negros não participavam dele. Depois que entraram no jogo, ainda meio à revelia, tiveram de evitar o confronto físico, pois para eles a punição era mais severa que para os brancos. A ginga que traziam de suas culturas corporais , como a capoeira e o samba, ajudou a criar o drible - um modo um tanto artístico de fugir das faltas e marca do chamado "estilo brasileiro " .

Mas já havia o drible desde o início , no futebol inglês ? É importante não confundir. Lá, o drible ( de  to  drible : pingar , gotejar , lançar ) era passar a bola . Aqui , é passar com a bola, ultrapassar o adversário, carregando-a.

Para fundamentar melhor a ideia de como o nosso futebol ( e também a sociedade brasileira ) era racista a princípio , e como a musicalidade de nossas raízes culturais e nossa ginga corporal ajudaram a construir o chamado " estilo  brasileiro" , a seguir depoimentos que colhemos em nossas pesquisas: Pensei em me adiantar, avançar com a bola e ajudar o Prego [...] Quem sabe a gente até empatava [...] Aí me lembrei que eu era o único preto no time. E se sofrêssemos um gol lá atrás, sem eu ter voltado, a culpa vinha pra cima de mim.

( Fausto dos Santos [ Fausto , O Maravilha  Negra ]. A Noite, Rio de Janeiro, 
28 jul.1930 , p.34 ) 

Naquela época, nem o Pelé jogaria nos clubes ricos. Eu vi Fla-Flu sem nenhum preto em campo.

( Domingos da Guia [ Domingos , O Divino Mestre ] ,
 Folha de S Paulo , Caderno Esporte , 15 jan . 1995 , p. 4 ) 

Ainda garoto eu tinha medo de jogar futebol, porque vi muitas vezes jogador negro, lá em Bangu, apanhar em campo, só porque fazia uma falta , nem isso às vezes [ ...] . Meu irmão mais velho me dizia : " Malandro é o gato que sempre cai de pé  [ ...] . Tu não é bom de baile? " . Eu era bom de baile mesmo, e isso me ajudou em campo [...] Eu gingava muito [...] o tal do drible curto eu inventei imitando o " miudinho " , aquele tipo de samba.

( Domingos  da  Guia  , depoimento gravado em vídeo . 
Núcleo de Sociologia do Futebol , UERJ , 1995 ) .


Eu jogava bem, tinha ginga, tinha manha, a mesma do samba... Mestre-sala dribla e jogador samba... quando é  craque  né? Eu  era... joguei no Cerâmica ... na época era muito difícil... eu  sou  crioulo, né? Mas joguei muito e apanhei  muito. Era só vacilar. Num jogo do Cerâmica com Hadock  Lobo, só porque eu fiz uma falta normal, apanhei até da polícia...

( Mestre  Delegado [ Mangueira ] ,  gravação em áudio  
Núcleo de  Sociologia do Futebol , UERJ  , 1991 ) .

Os jogadores de cor, quando passaram a ter livre acesso no futebol oficial, times médios inicialmente, comi  o  pão  que  o  diabo  amassou.

( Thomaz Mazzoni , História do futebol brasileiro , 
1950 , cp. 4, seção 120 ) .


A  importância  do  exemplo  na  vida  social

Para o " bem "  ou para o " mal" , o exemplo é muito importante na  existência  das pessoas , influenciando positiva ou negativamente a atitude (predisposição interna) e o comportamento  (ação concreta) dos indivíduos em sua vida social .

O exemplo ajuda , e muito , a aumentar ou diminuir a impunidade , que , conforme já comentamos , é um dos aspectos centrais para se entender a violência em geral e, de modo mais específico,  a  violência  no  futebol.

Considerado um dos mais célebres filósofos de todos os tempos, o  chinês  Confúcio ( 551 a.C .- 479 a.C.) defendeu que o exemplo é o elemento é o elemento mais importante da política . Se for positivo , ajuda a construir sociedades mais justas e igualitárias . Se negativo , aumenta a chance da barbárie , que significa injustiça , opressão , violência.

Em outas palavras ,  etocracia preconizada por ele , o governo que tem por base a ética e a moral dos dirigentes , através do bom exemplo , este ensinamento de largo alcance e tão esquecido .

Confúcio , filósofo e sábio que influenciou tantas gerações , ampliou sua reflexão para além do governo e de seus grandes poderes, alcançando qualquer instituição que pudesse servir de referência, como a família, a escola , as artes e os esportes . Era fã de artes e de esportes , e reconhecia o poder e o impacto destes sobre a vida coletiva .

Em épocas e sociedades tão individualistas , egoístas e agressivas , como as que temos hoje em dia , parece que as propostas de Confúcio se tronam mais importantes ainda .

De forma concreta , significa reconhecer que a ética do " bom  exemplo " é um dos caminhos mais produtivos socialmente e que por isso deve fazer parte da formação e da consciência de líderes políticos , pais , educadores , artistas e esportistas . Resumindo, de todos aqueles que exercem direta ou indiretamente algum tipo de liderança.

Como é visível , ninguém esconde e é mais ou menos do conhecimento geral , a liderança tem lá , os seus direitos. Mas deve também ter os seus deveres e obrigações. Numa palavra: as suas responsabilidades. 

No caso do futebol, uma das responsabilidades mais esperadas hoje é o envolvimento dos ídolos em campanhas de pacificação entre torcidas e torcedores . Uma palavra de um grande craque vale muito na cabeça e no coração do torcedor . Sempre que isso foi feito , os resultados foram ótimos .

Não há ninguém que os torcedores atendam mais - mesmos os violentos , embora não sejam receptivos quantos os demais - do que os craques de seu time , porque se trata de heróis , ídolos , pontos de referência .

E a campanha é em particular eficaz (exemplos anteriores já demostraram) se a participação for feita em conjunto, reunindo jogadores de equipes diferentes, e o resultado se potencializa caso a rivalidade entre os times seja grande.

Se deu certo, por que não realizar mais campanhas dessas de modo sistemático ? 

Autoridades de segurança pública , confederações , federações , clubes , a mídia  mesmo os setores pacíficos das torcidas organizadas , que não são poucos , poderiam, e deveriam , assumir essas tarefas permanentemente .

Afinal, de que serve a compreensão da violência no futebol , senão para ajudar a diminuir e controlar essas práticas tão nocivas ? Se assim é ( e assim  é ) , aproveitemos as experiências bem-sucedidas .

É preciso trabalhar para que tais iniciativas se tornem  constantes ganhem profundidade , circulem em rede e alcancem todos os segmentos  envolvidos e com  as culturas próprias das torcidas , para que os resultados sejam maiores e melhores . Maiores em quantidade ; melhores em qualidade . 

Sobretudo porque o futebol vai além dele mesmo ; é mais que um esporte profissional e de alto rendimento . O futebol pode servir como ajuda para se enxergar a sociedade onde vivemos . Em outras palavras e como já dissemos ,  o futebol é  uma metáfora , uma representação , uma síntese da sociedade , de suas raízes históricas , da formação social , de seus dilemas e contradições .

Considerando tudo isso , o futebol pode ser um exemplo para  outras instituições sociais, porque é um dos maiores e mais importantes eventos da cultura coletiva , da chamada  " cultura  popular " - prefiro chamar de " cultura  das  multidões " , para fugir do debate  (eterno) entre o que é " popular " e o que é  " erudito " . Além disso , a expressão  " cultura  das  multidões " ainda traz outra vantagem aponta a ideia de uma cultura de massa, e não somente de massa.

OLHO  NO  LANCE 

- A cultura da massa pode ser entendida como uma cultura que representa as massas , as coletividades , porque nasce delas e a elas retorna como divertimento , manifestação coletiva, como sua expressão .

- Já a cultura de massa é mais ou menos imposta às massas, costuma vir " de  cima para  baixo " , apesar de ser popular , de agradar e alcançar um número muito grande de pessoas. 


Fonte   -  Livro    Para  entender   - A  violência  no  futebol  - págs  de  51  a  53 
e 75 a 79 ; 87 a 93; 95 a 98 .
São Paulo , 2012 Editora  Saraiva   - Mauríco  Murad  ( Coleção Para Entender ) 
Benvirá , um selo da Editora Saraiva