domingo, 25 de outubro de 2026

                                       


                                     


"  EU  PENSAVA  '  O  QUE  ESTOU  FAZENDO  AQUI  TRANCADO  NESTE  PAÍS  QUE  NÃO    É  MEU ? '  O  VERÃO  DE  2021  FOI  O  PRIMEIRO  DA  MINHA  VIDA  QUE  NÃO  PASSEI      EM  SALVADOR .  FOI  FODA  "

Pela  tela  do  computador , com a  câmera  fechada  em seu  rosto , Wagner  Moura  revela  pouco da  sua  casa  em  Los  Angeles , na  Califórnia . O  escritório , a  cozinha  e  a  sala  - ambientes  em  que  ele  circula  em  busca  de  um  melhor  sinal  de  internet ,  com  o  computador  em  mãos  - parecem  si,ples  como  ele . Camiseta  branca  para  a  sessão  de  fotos , fita  vermelha  do  Senhor  do Bonfim  bem  amarrada  no  pulso  esquerdo  e  sorriso  contido . O  ator  de  45  anos  está  indigndao com  a  política  nacional . "  A  codução  da  pandemia  pelo  governo  federal  foi  uma  tragédia , sobretudo  porque  a  maioria  das  600  mil  mortes  poderia  ser  evitada . O  presidente  precisa  responder por  isso .



Em  uma  hora  e  15  minutos  de  conversa  por  videochamada  o  ator  deixa  claro  que  a  tempo -rada nos  Estados  Unidos , onde vive  desde  2018 ,  é  passageira . "  Meus  próximos dois grandes  projetos são  no  Brasil  :  um  filme com  Kleber  Mendonça  e  outro  com  Karim  Aï Nouz  "  enu-mera . Ele ,  a  mulher , a  fotógrafa  Sandra  Delgado  - que  assina  os retratos  desta  entrevista - e ,    os  três  filhos . Bem ,  Salvador  e  José   de  15 , 11  e  9  anos ,  mudaram -se  para  Los  Angeles  quando  Marighella  (  1911  -  1969  ) foi  fazer  "  Sérgio  " , produzido  e estrelado  poe  ele , sobre      a  tempo vida  do  diplomata  brasileiro  Sérgio  Vieira  de  Mello  (  1948  -  2003  ) .  Acabaram  fi-cando  mais  tempo  por   lá  por  causa  da  pandemia .   "  Eu  pensava  :  '  O  que  estou  fazendo  aqui  trancado  neste  país  que  não  é  meu  ? '  O  verá  de  2021  foi  o  primeiro  da  minha  vida    que  não  passei  em  salvador  .  Foi  Foda  " , desabafa .



Na  última  quarta - feira , Wagner  retornou  ao  Brasil  para  lançar   "  Marighella  " ,  seu  primeiro  filme  como  diretor .  São  duas  horas  e  40  minutos  de  ação  e  tensão ,  com  cenas  rodadas  em    São  Paulo  e na Bahia , que  narram  os últimos  anos  de  vida  do  poeta  baiano  Carlos  Marighella    ( 1911 - 1969 ) , guerrilheiro  comunista  interpretado  por  Seu  Jorge .  "  Não é  um  filme  para  ser  ver  no  laptop  em  cima  da  barriga , é  cinemão .  Acontece  muita  coisa  , necessita  de  doses  de      foco " , avisa  o  diretor  . A  estréia  foi  em  salvador e  depois Rio , e  em  São  Paulo , Fortaleza  e  acampamentos  do  ovimento  dos  Trabalhadores  Rurais  Sem  terra .

Rodado  em  2017 , o  longa , que  tem  ainda  Adriana  esteves , Bruno  Gagliasso  e  Herson  Capri     no  elenco , teve  a  primeira  exibição  no  Festival  de  Berlim , em  fevereiro  de  2019 . No Brasil, deveria  ter  sido  ançado  nove  meses  depois . No  entanto , com a  demora  na  liberação  de verba  pela  Agência  Nacional  de  Cinema  ( Ancine )  e   a  crise  sanitária ,  atrasou  dois  anos . "  É  ina-creditável  que o filme  vá  estrear  agora . Em  Berlim ,  foi  aplaudido  de  pé  por   dez  minutos  ;    Seu  Jorge  jã  ganhou  prêmios  na  Itália  e  na  Índia .  Mas  é  um  filme  feito  para  o  Brasil .  A  primeira  estréia  foi  cancelada  pela  Censura .  Os  pedidos  que  O2  ( produtora )  fez  à  Ancine  eram  absolhtamente  normais , negados  assustosamente  numa  épocs  em  que  Bolsonaro  atacava      o  cinema  nacional  " , vocífera . No  dia  4  de  novembro , enfim ,  o  longa  chegará  aos cinemas          de  todo  país .

A  seguir , os  melhores  trechos  da  entrevista .

QUAL  A  IMPORTÂNCIA  DE  POPULARIZAR  A  HISTÓRIA  DE  CARLOS  MARIGUELLA ? 

Desde novinho  sou  fascinado  por  histórias  de  resistência  :  Inconfidência  Mineira , Revolta  dos  Alfaiates ,  Guerra  de  |Canudos  e  toda  essa  galera  que  resistiu  ao  poder  tirano . São  histórias  mal contadas  ou  até mesmo  apagadas , como a  de  Marighella  ( reconstituéda  no livro  de  Mário   Magalhães , de  2012 , base  para  o  longa  ) . O  filme  é  uma  representação  não  só daqueles  que   lutaram  pela  democracia  nos  anos  1960  e  1970 , mas  dos  que  lutam  hoje ,  o  povo  preto , os   indígenas , a população  LGBT  e  os  favelados  que  seguem  sendo chamados  de terroristas . Em  momentos  de  distopia , os movimentos  se  fortalecem . é  instinto  de  sobrevivência .Como agora , em  que  no poder  um  psicopata , sujeito sem condições  morais  de  ser  síndico de  condomínio, o  que  dirá  dirigir  um  paí .



COMO  ACHA  A  RECEPÇÃO  DO  PÚBLICO ? 

Se  tivesse  sido  lançado  em  2019 ,  seria  um  filme .  Em   2020  ,  outro .  Hoje ,  espero  que  "  Marighella  " enfrente  oposição  .  Pois  agora  está  claro  para  todo  mundo que  este  governo  é    uma  tragédia . Para todo  mundo , não ... Tem  aqueles  25 % que  foram  7  de  Setembro  ( apoiar        o  presidente ) , mas  a  maioria  já  entendeu  que  não  é  uma  questão  de  direita  ou  esquerda , é   uma  questão  de  civilização  contra  a  barbárie . Por  isso  acho  que  a  reação  será  menos  vio -lenta  com  o  elenco ...  Artista  não  é  ladrão . A  acusação  de  "  mamar  na  Lei  Rouanet  " . Da        Lei  do  Audiovisual  também  não ,  porque  nenhuma  empresa  quis  botar  o  dinheiro . É  uma  produção  feita  com  fundo  setorial  e  dinheiro  da  Globo  Filmes ( coprodutora ) . Não  recebi          um  tostão  por  esse  trabalho .  Pelo  contrário  . Só gastei .  E  isso  também  não  é  problema ,      porque  é  um  filme  que  eu  amo . 

Fonte   -   REVISTA  ELA    -  pág  14  -  CAPA  -  ENTREVISTA 


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