terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Cargos de desconfiança



Daqui a três meses os governadores eleitos terão de enfrentar um dos maiores pesadelos de um político. Como preencher as centenas de  cargos de  confiança que compõem um governo. O  número exato de cargos varia de Estado para  Estado.

Para o governo federal eu já ouvi estimativas que variavam de 2 mil a  20 mil cargos  a ser preenchidos .

O problema é que a maioria dos políticos não conhece um número suficiente de pessoas em quem realmente possa confiar. Ao contrário dos  grandes executivos e profissionais  que  desenvolvem listas de colaboradores ao longo de suas  carreiras, os políticos normalmente acumulam listas de pessoas em quem não se deve confiar, pelo menos politicamente. Poucos convivem, no dia a dia da batalha por votos, com administradores  profissionais , orçamentistas  empresariais , gerentes de RH e planejadores, profissionais necessários para um  bom governo.

Por isso , as primeiras pessoas convidadas são normalmente os  amigos e parentes de irrestrita confiança . O desespero é tal que até  genros, normalmente vistos com certa suspeita na escala familiar, são  convidados para participar da equipe de governo .Não que amigos e parentes não possam ser pessoas competentes ,mas a base de escolha é  muito pequena para que a média seja  qualificada . Imaginem criar uma  seleção de  futebol dessa maneira . Você apostaria no seu sucesso de um governo assim constituído ? 

A primeira  decepção de cada novo governo e a primeira crítica que a imprensa lhe faz ocorrem por ocasião do anúncio da  equipe e dos  parentes  contratados . Insinua-se em alguns relatos que parentes foram contratados para que todos se tornem ricos , o que pelos salários atuais do setor público é praticamente impossível. O erro que a   maioria dos políticos eleitos comete é desconhecer uma das  leis básicas da administração : todo cargo , seja público , seja privado é de total e irrestrita desconfiança . Infelizmente todo colaborador  por mais amigo que seja , precisa ser tratado com certa dose de desconfiança. Os maiores desfalques em  empresas  familiares são cometidos por  parentes,em que não escapam nem os filhos ,muito menos os  genros. Bons amigos então , nem se fala . De onde surgiu o   mito de que  amigo de  peito e  parente não roubam ?

Essa prática não é exclusiva de nossos políticos .A maioria de nossas empresas contrata diretores da mesma maneira ,tanto que são chamadas de empresas " familiares " .

A saída para esse dilema é outra . Em vez de contratar um  amigo do peito ,selecione o melhor e mais  qualificado  profissional possível para o cargo , independentemente de conhecê-lo ou não. Em seguida , cerque o contratado de controles gerenciais , fiscalização interna ,auditoria externa, o que for necessário para manter o pessoal na linha .

As  multinacionais não trazem um presidente de  confiança do  exterior como faziam antigamente. Contratam  brasileiros , sejam eles amigos dos acionistas ou não. Dois  brasileiros ,Alain  Belda Fernandez e Henrique de Campos  Meirelles, são presidentes da  matriz americana  das  multinacionais em que trabalham , o equivalente a contratar um  americano para cuidar de nossa dívida  externa. No  Brasil , o melhor administrador  financeiro do  país tem poucas chances de ser ministro da Fazenda , se já não for amigo do presidente bem antes da eleição.Cargo de confiança é simplesmente um conceito  anacrônico, algo do passado pré-gerencial. Num mundo competitivo , todos os cargos , incluindo os do governo , precisam ser de total e irrestrita  competência , e não de confiança .A, rigor , num  mundo  globalizado , onde temos de dominar alguns segmentos da  economia  mundial , deveríamos estar contratando os  melhores do  mundo . Pelo menos algum dia vamos começar timidamente desde o início , contratando os  melhores  brasileiros.

PS - Se você, amigo ou parente de político, for convidado para um  cargo de confiança nos próximos três meses sem ter pelo menos vinte anos de  experiência na  área , a nação  encarecidamente  implora : recuse  delicadamente. 


Fonte  -  Revista  Veja   - pág  vinte e dois   - Ponto  de  vista 

19 de agosto  , 1998     - Srephen  Kanitz  é  professor 

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