quinta-feira, 28 de maio de 2026

Integração dos ricos e desintegração dos pobres

  




A  RIQUEZA  em suas várias  formas ,da imobiliária ,é  verdadeiramente  o único fenômeno global      que  ampliou  e  homogeneizou  os  padrões  de  comportamento das  elites  cosmopolitas  mundiais .    Pode  - se  dizer  esse  tipo  de  "  globalização  "  produziu  finalmente  uma  burguesia internacional      que extrapalou  o  reduzido grupo  da  " aristocracia  dos negócios  " do  mundo  anglo - saxônico do  final  do  século  20 . Hoje , a  chamada  " sociedade  civil "  intercionalizada  inclui  desde  o  milio  -nários sauditas ,  asiáticos e  latino  - americanos  até  os  capo  das  máfias  internacionais  dos  ne  -  gócios  das  drogas  e  das  armas , numa  promiscuidade  celerada . A  " sociedade "  globalitária   or- ganiza - se  em  várias  redes  cruzadas transnacionais  de  comunicação  de  burocracias  privadas  e  públicas que  servem  de  intermediárias  no  mundo  dos  negócios , além de  agentes  ostensivos ou    secretos  do  poder  político  da  "  pax  americano  " .

Na geoeconomia  do  comércio  e das  finanças  internacionais ,o movimento de expansão  e concen-    tração  do  capital  foi  realizado  sob  o  comando  das  redes  de  corporações  e  de  bancos  transna- cionais . Apesar do  aumento  das  relações  extrafronteiras  , o  peso do  grande  capital de países  de  origem anglo - saxônica  continua  dominante .O  paraiso dos  ricos ,porém , começou a  expandir -se  sobretudo  a  partir  da  especulação  nos  mercados  de  euromoedas  e  da  proliferação  de  paraísos    fiscais  em  todas  as  regiões  fronteiriças  do  mundo , apoiados  nas  políticas  de  liberalização  das    contas  de  capitais  com  o  exterior  que  se  acelerou  nas  últimas  duas  décadas  ( nos  dados   de    origem  do  investimento  direto  estrangeiro  do Banco  Central ,  a  importância  de  Cayman foi  de      22 %  do  IDE  em  1997 )  .  Em  termos  de  volume  de  negócios , as  praças  finaceiras  de  Wall  Street  e  de  Londres  converteram - se  em megacentros interligados , a  partir  dos quais as grandes  empresas  e  bancos puderam  operar  o  gigantesco  endividamento  externo  dos  EUA  e ,ao mesmo  tempo , alterar  o  perfil  da  riqueza  privada , acentuando  a  sua  forma mobiliária  e seu caráter ren-  tista  e  especulativo .

A  pobreza  proliferou  com  o  aumento  do  desemprego ,   com  a  precarização  das  condições  de    trabalho  e  com  a  destruição  da  pequena  produção  independente  em  vastas  regiões  do  mundo  subdesenvolvido . Tornou - se , porém , cada  vez  mais  heterogênea  tanto  pela  diferenciação  cres-cente  dos valores  monetários  do  " custo  de  reprodução "  da  subsistência  urbana  e  rural em dis-    tintos  países  como  pelas  estratégias  de  sobrevivência  física  e  social  , que  são  estremamente  variáveis  em  termos  regionais  e  culturais .

No  plano  multinacional  encontram -se  organizações  não-governamentais  em  rede , que  tentam  combaterr  a  fome  e  lutar  pela  vida  em  várias  partes  do  mundo , nos  centro metropolitanos  e  nos  países  periféricos  mais  atingidos  pela  violência  da  desintegração  social  e  políticas .A mai -  oria  delas  acabou se  unificando  em  movimentos  " antiglobalização  neoliberal " . No  plano  na-  cional , os  partidos  que  mantém  a  tradição  de  esquerda  e  os  Estados  nacionias  desenvolvidos  que  não  abriram  mão  de  manter  um  número  das  conquistas  do  Estado  de  bem - estar ( o  que  incluía  os  EUA  até  recentemente )  têm  segurado  o desmonte  completo  das  políticas  universais    de  seguridade  social .

No  Brasil de  hoje , é  urgente  enfrentar  os  problemas  da  " globalização   perversa " , sobretudo o  da  pobreza , o  do  emprego  e  o  da  extensão  da  rede  de  proteção  social  dentro  do  espaço  na-cional . Tendo em vista  que  anda  liberalizante  vai  continuar  em  2002 ,  com  a  segunda  geração  de  reformas  e  com  as  negociações  da  Alca , comandadas  por  um  novo  e  mais  duro  Consenso      de  Whashington  e  pelas  nossas  burocracias  cosmopolitas , é  preciso  oferecer  uma  resistência      social  e  cívica  crescente , como  a  que  se  verificou  recentemente , com  o  apoio  do  Poder  Judi-  ciário  e  de  parte  substancial  do  Congresso Por  outro  lado  , defender -se  o  melhor  possível da  violência do capital  financeiro  rentista  e  especulativo  significa  não  permitir , a  pretexto  de" fi -nanciar  o  balanço  de  pagamentos " , a  entrada  de  capitais  exteros  privados  sem  limites  e  sem    controle  nem  aceitar  regras  rígidas  do  FMI  para  o  fiinaciamento  interno  das  empresas estatais    dos  gastos  sociais  .

Anne  Krueger ,a nova  gerente  do  FMI , acabou  de publicar uma  proposta  para  " concordata " da  dívida  soberana  de  " países  emergentes " . Apesar  de  aparentemente  " progressista " porque  fala  em  controle  do  câmbio  e  em reestrutaração  da  dívida  externa , a proposta  é  uma racionalização  brilhante  da  posição  dos secretários  do  Tesouro  norte - americano  e  a  canadense . Está ímplicita    a  suposição  de  que  a  dívida  privada   externa  ( no  nosso  caso , US$  130  bilhões ,dos quais dois  terços  são  devidos  pelas  empresas  que  participaram  das  privatizações  )   seja  negociada  como      " dívida  soberana "  do  Estado  brasileiro  através  de  um  " mecanismo  formal "  em  que  última   instância , as  negociações .



O  Brasil  não  precisa  ser  uma  potência  tecnológica  e  militar  para  exercer  a  sua  soberania ,até  mesmo  no  controle  do  câmbio  e  nas  negociações com  os credores .Precisa  de  um Estado demo-cratizado  e  verdadeiramente   republicano  que  seja  capaz  de  defender   os  interesses  da  nação .  Para isso , terá  de  mudar  as suas  bases  de  sustentação  social e  política  que  lhe permitam afastar    do  governo  do  país  as  oligarquias  e  as  plutocracias   "  globolitárias   " que  destroem  o  próprio  Estado  e  a  sua  capacidade  de  ação  defensiva  e  de  proteção  social .

Jornal  FOLHA  DE  SÃO  PAULO  -  Ano  2002   -   LIÇÕES  CONTEMPORÂNEAS                      Maria  da  Conceição  Tavares  , 70 , economista , é  professora  emérita  da  Universidade  Federal     Rio  do  Janeiro  ( UFRJ )  , professora  associada  da  Universidade  de   Campinas   (  Unicamp )  e   ex - deputada  federal  ( PT - RJ ) .



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