A marcha de um milhão
WASHINGTON - num ambiente festivo ,centenas de milhares de negros ocuparam o coração de Whashington , numa da maiores manifestações já realizada na capital americana .O líder da Nação do Islã , o polêmico |Louis Farrakhan , que convocou a chamada marcha de um milhão de ho -mens , chegou cercado por seguranças e ,num tom desafiador ,críticos as pessoas que apoiaram a manifestação , mas não aceitam seu discurso extremista . Num momento delicado para as re-lações entre brancos e negros nos EUA , ele se definiu como um representante divino .
- Gostem ou não, foi através de mim que Deus apresentou essa ideia .Deus fala pela minha boca - disse ele , se defendendo das acusações de anti - semitismo e ódio aos brancos . - Se meu coração é tão escuro , como a mensagem poder ser tão luminosa ? - perguntou .
Os organizadores da marcha asseguraram que os participantes era mais de um milhão , mas a policia contou 400 mil pessoas .O número superou a histórica manifestação comandada pelo líder negro Martin Luther King em 1963 , no esmo local . Os manifestantes se concentraram na área que vai do Congresso ao monumento para o presidente Abraham Lincoln .
O encontro , que começou às 7 h ( horário local ) , só terminou à noite com o discurso de Farrakhan . O ato foi convocado para que os negros tomem consciência de suas responsabili-dades e assumam suas famílias , disse a Nação do Islã . Grande parte foi protestar contra suas condições de vida e gritava : " O povo unido jamais será vencido " . Farrakhan disse que a supremacia branca er a doença dos EUA e desafiou o presidente Clinton e os republicanos .
- Meu povo me deu autoridade . Eu não preciso do apoio de vocês - afirmou , num discurso de duas horas .
O reverendo Jessen Jackson também discursou , mas estrelas como Collin Powell e o jogador de futebol O. J . Simpson não apareceram . Vários cartazes com o retrato de Simpson , cuja libertação agravou as diferenças raciais nos EUA , eram vistos entre a multidão . A polícia agiu discretamente .
Mulheres também compareceram
WASHINGTON - Embora não tenham sido convidadas , mulheres negras também participaram da marcha em pequenos grupos .Elas ignoraram as declarações machistas de Louis Farrakhan, para quem as mulheres devem ficar em casa , e enfatizaram a mensagem de união da mani-festação .
- O mérito de Farrakhan é despertar nossa consciência e nos fazer reviver a ideia de uma comunidade negra - disse a professora Dana Edwards , de 31 anos .
Duas mulheres estavam entre os oradores oficiais : a poetisa Maya Angelou e a mulher que desencadeou uma campanha pelos direitos dos negros na década de 60 , ao sentar -se numa parte do ônibus reservada para brancos , também foi a Whashington . A secretária Bilal Hasan , de 47 anos , saiu de Atlanta para participar da marcha .
- Farrakhan fez a convocação , mas eu creio que a marcha no fundo não tem nada a ver com ele . Cresci no Mississipi , onde a discriminação sempre foi grande . Mas isso jamais me fez odiar os brancos - disse Claudia Moran de Nova York.
Negros para a capital
WASHINGTON - Uns vieram dos campos de algodão do Alabama ,outros dos guetos de Detroit. Até as gangues juvenis de Los Angeles enviaram representantes ,assim como pequenos templos batistas e episcopais da Geórgia e de Boston .O Harlem também tinha sua representação . O traço que unia os grupos era o senso de fazer parte da História . A marcha liderada por Martin Luther King , em 1963 era lembrada como referência .
- Posso ouvir a voz dele dizendo " Eu tenho um sonho " . Estou ouvindo agora o eco de suas palavras , aqui neste mesmo lugar . " Sonho que ,um dia , meus quatro filhos viverão num país onde não serão julgados pela cor da pele , mas sim pelo conteúdo do caráter ... " - repetiu , emocionado . Bob Warkins , que participou da marcha histórica , é agora veio de Chicago , para " renovar a fé no sonho de uma sociedade integrada " .
Washington parou .O comércio fechou , em parte por falta de funcionários que foram à mani - fstação , em parte por medo de distúrbios . O Congresso e vários ministérios também não fun -cionaram . " Sou um em um milhão " dizia um cartaz carregado por um rapaz .Outro ,usando roupas africanas , carregava um pôster em português : " A luta continua " . Ele não fala o idoma , mas sabia o significado . Só que estava sendo enganado sobre a origem .
- Vi isso em dois filmes e me traduziram , dizendo que era um termo africano - disse. Ben- jamim Jackson .
O luminoso dia de outono começo com uma oração em árabe , despertando centenas que ti-nham passado a noite descansando sobre a grama no locl do evento ,uma área de 14 quadras de comprimento por três de largura , diante de um palco que tinha como pano de fundo a silhueta imponente do capitólio , a sede do Congresso Nacional .
O cheiro de frango assado ,de cachorro quente e de milho verde foi uma constante o dia todo , Mil vendedores licenciados ( cada um pagou US$ 1 mil aos organizadores pela autorizaçã ) se espalharam na multidão . Os que ofereciam camisetas e bonés procuraram se instalar nas saídas das estações do metrô .
Os trens despejavam multidões . Boa parte vinha do estádio do time de futebol americano da ª, o Redskins , cujo estacionamento foi reservado aos mil ônibus que vieram de fora .Os 4.900 policiais de Washington estavam a postos desde a madrugada , assim como 150 médicos e enfermeiras .Os organizadores pediram que cada particiupante contribuísse com US$ 1 , mas muita gente foi vista dando bolos de notas .
Fonte - O GLOBO - pág 18 - O MUNDO - 2 ª edição Data - Terça - feira 17 de outubro de 1995 JOSÉ MEIRELLES PASSOS Correspondente

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