sexta-feira, 19 de junho de 2026

Farrakhan : ' Deus fala por mim '

 

A  marcha  de  um  milhão 



WASHINGTON  -  num ambiente festivo ,centenas  de milhares  de negros  ocuparam  o coração  de  Whashington  , numa da maiores  manifestações  já realizada na  capital  americana .O líder da Nação  do Islã , o  polêmico  |Louis  Farrakhan ,  que  convocou  a  chamada  marcha  de  um  milhão  de  ho -mens , chegou cercado  por seguranças e ,num  tom  desafiador  ,críticos  as pessoas  que  apoiaram  a  manifestação ,  mas  não  aceitam  seu  discurso  extremista .  Num  momento  delicado  para  as   re-lações  entre  brancos  e  negros  nos  EUA , ele  se  definiu  como  um  representante  divino .

-  Gostem ou  não, foi  através  de mim  que  Deus  apresentou essa ideia .Deus fala  pela minha  boca    -  disse  ele ,  se  defendendo  das  acusações  de  anti  -  semitismo  e  ódio  aos  brancos .  -  Se  meu     coração  é  tão  escuro , como  a  mensagem  poder  ser  tão  luminosa ?  -  perguntou .

Os  organizadores  da  marcha  asseguraram  que  os  participantes  era  mais  de  um milhão , mas a  policia contou  400  mil pessoas .O número  superou  a histórica manifestação comandada pelo líder  negro  Martin  Luther  King  em  1963 , no  esmo  local . Os manifestantes  se  concentraram na área    que  vai  do  Congresso  ao  monumento  para  o  presidente  Abraham  Lincoln  .

O  encontro ,  que  começou  às  7 h  (  horário  local  )  ,  só  terminou  à  noite  com  o  discurso de        Farrakhan . O  ato  foi  convocado  para  que  os  negros  tomem  consciência  de  suas  responsabili-dades e  assumam  suas  famílias , disse  a  Nação  do  Islã . Grande  parte  foi  protestar contra suas  condições  de  vida e  gritava :  "  O  povo  unido  jamais  será  vencido  " . Farrakhan  disse  que  a    supremacia  branca  er  a  doença  dos  EUA  e  desafiou  o  presidente  Clinton  e  os  republicanos  .

-  Meu  povo  me  deu  autoridade  . Eu  não  preciso  do  apoio  de  vocês  -  afirmou , num discurso      de  duas horas .



O  reverendo  Jessen  Jackson  também  discursou , mas estrelas  como  Collin  Powell  e  o jogador      de  futebol   O. J . Simpson  não  apareceram . Vários cartazes  com  o  retrato  de  Simpson  ,  cuja  libertação  agravou  as  diferenças  raciais  nos  EUA  , eram  vistos  entre  a  multidão  .  A   polícia    agiu  discretamente .




Mulheres  também  compareceram  

WASHINGTON  -  Embora  não  tenham  sido  convidadas , mulheres  negras  também participaram      da  marcha  em pequenos  grupos .Elas  ignoraram  as  declarações  machistas  de  Louis  Farrakhan,    para  quem  as  mulheres  devem  ficar  em  casa , e  enfatizaram  a  mensagem  de  união  da  mani-festação .

-  O  mérito  de  Farrakhan  é  despertar  nossa  consciência  e  nos  fazer  reviver   a  ideia  de  uma  comunidade  negra  -  disse  a  professora  Dana  Edwards , de  31  anos . 

Duas  mulheres  estavam  entre  os  oradores  oficiais  :  a  poetisa  Maya  Angelou  e  a  mulher que  desencadeou  uma  campanha  pelos  direitos  dos  negros  na  década  de  60 ,  ao  sentar -se   numa      parte  do  ônibus  reservada  para  brancos , também  foi  a  Whashington . A  secretária Bilal  Hasan , de  47  anos , saiu  de  Atlanta  para  participar  da  marcha .

-  Farrakhan  fez  a  convocação , mas  eu  creio  que  a  marcha  no  fundo  não tem  nada a ver com   ele . Cresci  no  Mississipi , onde  a  discriminação  sempre  foi  grande . Mas  isso  jamais  me  fez  odiar  os  brancos   -  disse  Claudia  Moran  de  Nova  York. 



Negros  para  a  capital 

WASHINGTON  -  Uns vieram  dos campos de algodão  do  Alabama ,outros dos guetos  de Detroit.  Até  as gangues  juvenis  de  Los  Angeles  enviaram  representantes ,assim como pequenos  templos    batistas   e  episcopais  da  Geórgia  e  de  Boston .O  Harlem  também  tinha  sua  representação  . O    traço  que  unia os grupos  era  o  senso  de fazer  parte  da  História . A marcha  liderada  por  Martin  Luther  King , em  1963  era  lembrada  como  referência . 

-  Posso ouvir  a  voz  dele  dizendo  "  Eu  tenho  um  sonho  " . Estou  ouvindo  agora o eco de suas  palavras , aqui  neste  mesmo  lugar . "  Sonho  que ,um  dia , meus  quatro  filhos  viverão num  país    onde  não  serão  julgados  pela  cor  da  pele ,  mas  sim  pelo  conteúdo  do  caráter ... "   -   repetiu ,     emocionado . Bob  Warkins , que participou  da  marcha  histórica , é agora  veio  de  Chicago , para    "  renovar   a  fé  no  sonho  de  uma  sociedade  integrada  " .

Washington  parou .O  comércio  fechou  , em  parte  por  falta  de funcionários  que  foram  à mani -  fstação  , em  parte  por  medo  de  distúrbios . O Congresso  e  vários  ministérios  também  não fun -cionaram  . "  Sou um  em  um  milhão  "  dizia  um  cartaz  carregado  por um  rapaz .Outro ,usando    roupas  africanas , carregava  um  pôster  em  português  :  "  A  luta  continua  "  .  Ele  não  fala  o  idoma , mas  sabia  o  significado .  Só  que  estava  sendo  enganado  sobre  a  origem .

-  Vi  isso  em  dois  filmes  e  me  traduziram , dizendo  que  era  um  termo  africano  -  disse. Ben-    jamim   Jackson .

O  luminoso  dia  de  outono  começo  com  uma  oração  em  árabe ,  despertando  centenas  que  ti-nham  passado  a noite  descansando  sobre  a  grama no  locl  do evento ,uma  área  de  14  quadras    de  comprimento  por  três  de  largura ,  diante  de  um  palco  que  tinha  como   pano  de  fundo  a    silhueta  imponente  do  capitólio , a  sede  do  Congresso  Nacional .

O cheiro  de  frango  assado ,de cachorro  quente  e  de  milho  verde  foi uma  constante o dia  todo ,  Mil  vendedores  licenciados  ( cada  um  pagou  US$  1  mil  aos  organizadores  pela  autorizaçã  )        se  espalharam  na  multidão . Os  que  ofereciam  camisetas  e  bonés  procuraram  se  instalar  nas  saídas  das  estações  do  metrô .

Os  trens  despejavam  multidões  . Boa  parte  vinha  do  estádio  do  time  de futebol  americano da  ª, o Redskins , cujo  estacionamento  foi  reservado  aos  mil  ônibus  que  vieram  de  fora .Os    4.900  policiais  de  Washington  estavam  a postos  desde a  madrugada , assim  como 150  médicos      e enfermeiras  .Os organizadores  pediram  que cada  particiupante  contribuísse  com  US$  1 , mas  muita gente  foi  vista  dando  bolos  de  notas .

Fonte  -  O  GLOBO   -   pág   18   -  O  MUNDO    -   2  ª  edição                                                        Data   -   Terça  -  feira  17  de  outubro  de  1995   JOSÉ  MEIRELLES  PASSOS                        Correspondente 


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