quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O FARAÓ PRAGMÁTICO

 


História

Morto há 50 anos , Stálin  desprezou  o  dogma  comunista  pela  eficiência  à  todo  custo

Em março de 1953 , eu morava em  Sófia ( capital da Bulgária ) , acabava de completar 14  anos e          de entrar no liceu . No meu diário íntimo da época , escrevia ( em búlgaro ) : " Quatro de março de          1953 . Hoje foi anunciado pelo rádio . Stálin morreu ! Hemorragia  cerebral . Morte certa . Eu ima -        gino o que se seguirá .Certamente  uma nova guerra ." , [ a morte seria anunciada ofocialmente em        5/3 . 

Stálin era para nós - e esse  " nós " incluía  muitos adultos - um ser  quase sobrenatural , um faraó ,        que  não poderá morrer como um simples mortal e que , além do mais , assegurava nossa proteção        contra ameaças externas , identicadas nessa época aos imperialistas  anglo americanos .

Uma vez Stálin morto e nosso campo privado de seu defensor , eles iriam certamente nos atacar e      nos submeter ...

As  crianças e os homens do povo não eram os únicos a crer  em  Stálin . Pensemos em uma pessoa        tão brilhante  e  honesta como o  grande poeta  Bóris  Pasternak . Até  o  começo  dos  processos de Moscou , em 1936 ,admite ele ,uma ligação misteriosa o prende a  este ser que  é  mais  do que um  homem , que é  como  " ato  do tamanho do globo terrestre " . É que , para Pasternak , a Revolução Russa cumpre um desígnio sagrado , o da marcha do universo . Stálin é por sua vez uma encarnação    da história ,do desenrolar  inevitável  do tempo .

E mesmo 20 anos mais  tarde , no momento do  " degelo "  promovido  por  Kruschov , embora não    ignorasse mais nada dos crimes de  Stálin , Pasternak , hesita em seu julgamneto , o antigo chefe era por  certo um assassino , mas , ao mesmo tempo , ele como que participava de elementos libertados , era  animado ,  de  élans  sublimes . Já o novo chefe era um porco que subtituiu o  culto da persona-lidade pelo  ulto  do filistinismo . E o  poeta só descobre pronto a preferir , ao reinado da  mediocri -dade que se esboçava ao seu redor ,o assassino grandioso que viveu no diapasão do destino universal.

Solução  - Nos nossos dias , a condenação de Stálin é , ao contrário , tão unânime que ela se arrisca a    tornar ininteligível  a sedução e o sucesso do personagem como homem político . Quando  tentamos compreender , a satanização , é um recurso medíocre . Ora ,nos dispomos , desde 1997 , de um docu-mento  excepcional , que pode nos ajudar  nessa tarefa .

Trata -se de  " Diário " redigido entre  1933  e 1949 por Gueorgui  Dimitrov estará comunista búlgaro,  mas também  " herói " do processo de Leipzig em  1933  ( ele havia refutado  a acusação de  estar por trás do incêndio de  Reichstag , a sede do Parlamento alemão ) .

Refugiado em Moscou , Dimitrov estará  , de 1934 a 1943 , à frente do Kominterm [ a  Terceira  Internacional  Comunista ] e , a esse título , frequentará regularmente o mestre de Kremlin . Seu  "    Diário permite um olhar  único sobre Stálin , tal como ele se moastra dia a dia , diante de seus    colaboradores mais próximos . 

O que parece o retrato desenhado por esse  confidente ? Para dizer  a verdade , as características        mais salientes do ditador soviético não lhe pertencem propriamente nós encontramos já em Lênin            e podemos supor sem risco de engano que , se  Trótski tivesse  prevalecido sobre Stálin , ele  não        teria agido diferentemente . É  a função  que  forja  o homem , é a lógica mesma do totalitarismo          que  dita a conduta de seu chefe .

O traço  mais espetacular , é o mais conhecido , ams que , infelizmente , não  lhe  é  próprio , é  a desenvoltura com  a qual Stálin pratica o terror . Ele não hesita jamais em dizer diante de Dimitrov        ( e este não hesita em transcrevê - lo no seu  " Diário " , embora não ignore nada da " curiosidade "    das tchekas " [ comissões extraordinárias que faziam parte da polícia política do regime soviético ] )  que era preciso ser impiedoso , com os  " inimigos " , qualquer que  seja o número deles e ,de outro  lado , seu mérito anterior .   

" Nós anularemos todos esses inimigos , mesmo  que  sejam velhos bolcheviques , nós  anularemos  todos os seus parentes , toda  a sua família . Nós anularemos todos os que , por  suas  ações e  pen-samentos  ( sim , pensamentos ) ... resitam a nós " , declara ele em  7 de novembro de 1937 .

Alguns dias ,ele acrescenta que é preciso computar entre os inimigos todos os que " não suportam a  coletivização , uma vez que seria preciso descascar o corpo do " kulak "  [ rótulo aplicado , na  ex -  URSS , ao " camponês rico " ,visto com resquício da mentalidade burguesa e ameaça a revolução ] ". 

Em janeiro de 1940 , no momento da conquista da Finlândia ,disseram-lhe que os adversários eram    em número de 150 mil ; ele reage tranquilamente . " Nós matamos 60 mil ,é preciso matar os outros também , e o caso estará encerrado .Não podemos poupar senão as crianças e os velhos " . Uma vez   que o terror é extremo , o objetivo perseguido é atingido sem obstáculos .

Mas o que choca mais nas transições de  Dimitrov não é a violência , consubtancial ao projeto revo-  lucionário . O que é surpreendente é a ausência de qualquer referência ao dogma comunista . As  de-  cisões de Stálin são tomadas em razão não de  princípios  ideológicos ,   mas  de  objetivos a atingir . Para escolher um um curso  de ação , é preciso antes de tudo se informar e , em  seguida  se libertar      dos  sonhos do passado : "  Não  se  apegue ao que  foi ontem . Tenha  em  mente rigorosamente as    novas  condições .

Não era preciso  introduzir sovietes  na  China , contrariamente ao que  se  fez na Rússia  em  1917 .    Nem desempenhar um  papel de protagonista na Espanha ,enquanto durasse a guerra civil .Deve -se encorajar , via de regra , a substituição de quadros por novos , sem referências ao passado  . A  im-provisação ,a adaptação às circunstâncias devem desgarrá - lo de toda conformidade para o dogma : Stálin leva ao estremo a escolha dos modernos de se emancipar , das tradições ,ele é um aluno paro-xístico  de  Maquiável , que não deixa restar mais nenhuma ligação entre estatégia e ideologia .

A assinatura do pacto germano soviético , em agosto de 1919 , não obedeceu a outra lógica . Stálin      não se pergunta em nenhum momento se essa aliança era conforme ao  dogma comunista , importa    apenas saber se ela lhe é útil - e ele crê que sim . " Nós  podemos manipular , sustentando  um país  contra um outro , para que eles se estraçalhem um ao outro  . " O defeito que ele vê em Hitler não é       o de ser racista , mas  o de obedecer  a sua ideologia , em vez  de se ocupar unicamente de seu in -    teresse ,comparado a Hitler , Stálin é um puro pragmático . O vício do racismo , por sua vez , é o de  que nem todos podem reclamá - lo : ele condena  as  "  raças inferiores " à  resistência .

O poder pelo poder  - Essa ideologia é má não porque é inumana ,mas porque ela não pode assegurar  uma  vitória  durável . O poder , segundo Stálin , não deve ser posto a serviço de  uma ideia ;  são as  idéias são as que servirão ao poder - e as melhores idéias são as que lhe são as mais úteis .Ainda mais  os se fundem o comunismo se confunde doravante com a busca do poder pelo poder .

Essa indiferença ao conteúdo da doutrina comunista  levanta porém um ponto do qual Stálin é cons-ciente as mais necessitam de paixões coletivas ,elas podem vibrar à vista da mera eficaz ,por isso que, muito rapidamente convoca esta outra paixão conhecida : o  amor  à  pátria . Promotor  do  nacional - comunismo , Stálin explica que os boicheviques não são os  verdadeiros continuadores dos  czares da  Rússia ,fundadores desse imenso Estado ; os ataques contra Rússia são piores que os ataques contra o comunismo . 

A  Dimitrov , perplexo , Stálin explica que , na nova conjuntura , o Komintern  iria  se  auto - liminar . No dia da invasão hitlerista  ( 22/ 6/ 1941 ) , Stálin - que , diga -se , não perde nunca seu  sangue - frio - exige do militante intercionalista que deixen de lada  a  retórica comunista  : " Não ponha mais a ques-tão da revolução socialista . O povo soviético  faz uma guerra patriótica contra a Alemanha fascista " .

Ao longo dos anos ,a estratégia de Stálin provará  sua eficácia duvidosa .Digno herdeiro de Lênin , ele não terá , porém , sucessor  da mesma cepa e , um mês após sua morte , apareceriam  as  primeiras fis-suras do império totalitário .

Fonte  -  FOLHA  DE  SÃO  PAULO  - pág  10  -  História  - Caderno  MAIS                                            Data - Domingo , 16  de março  de  2003  -  Por  Tzvetan  Todorov 


  

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