História
Morto há 50 anos , Stálin desprezou o dogma comunista pela eficiência à todo custo
Em março de 1953 , eu morava em Sófia ( capital da Bulgária ) , acabava de completar 14 anos e de entrar no liceu . No meu diário íntimo da época , escrevia ( em búlgaro ) : " Quatro de março de 1953 . Hoje foi anunciado pelo rádio . Stálin morreu ! Hemorragia cerebral . Morte certa . Eu ima - gino o que se seguirá .Certamente uma nova guerra ." , [ a morte seria anunciada ofocialmente em 5/3 .
Stálin era para nós - e esse " nós " incluía muitos adultos - um ser quase sobrenatural , um faraó , que não poderá morrer como um simples mortal e que , além do mais , assegurava nossa proteção contra ameaças externas , identicadas nessa época aos imperialistas anglo americanos .
Uma vez Stálin morto e nosso campo privado de seu defensor , eles iriam certamente nos atacar e nos submeter ...
As crianças e os homens do povo não eram os únicos a crer em Stálin . Pensemos em uma pessoa tão brilhante e honesta como o grande poeta Bóris Pasternak . Até o começo dos processos de Moscou , em 1936 ,admite ele ,uma ligação misteriosa o prende a este ser que é mais do que um homem , que é como " ato do tamanho do globo terrestre " . É que , para Pasternak , a Revolução Russa cumpre um desígnio sagrado , o da marcha do universo . Stálin é por sua vez uma encarnação da história ,do desenrolar inevitável do tempo .
E mesmo 20 anos mais tarde , no momento do " degelo " promovido por Kruschov , embora não ignorasse mais nada dos crimes de Stálin , Pasternak , hesita em seu julgamneto , o antigo chefe era por certo um assassino , mas , ao mesmo tempo , ele como que participava de elementos libertados , era animado , de élans sublimes . Já o novo chefe era um porco que subtituiu o culto da persona-lidade pelo ulto do filistinismo . E o poeta só descobre pronto a preferir , ao reinado da mediocri -dade que se esboçava ao seu redor ,o assassino grandioso que viveu no diapasão do destino universal.
Solução - Nos nossos dias , a condenação de Stálin é , ao contrário , tão unânime que ela se arrisca a tornar ininteligível a sedução e o sucesso do personagem como homem político . Quando tentamos compreender , a satanização , é um recurso medíocre . Ora ,nos dispomos , desde 1997 , de um docu-mento excepcional , que pode nos ajudar nessa tarefa .
Trata -se de " Diário " redigido entre 1933 e 1949 por Gueorgui Dimitrov estará comunista búlgaro, mas também " herói " do processo de Leipzig em 1933 ( ele havia refutado a acusação de estar por trás do incêndio de Reichstag , a sede do Parlamento alemão ) .
Refugiado em Moscou , Dimitrov estará , de 1934 a 1943 , à frente do Kominterm [ a Terceira Internacional Comunista ] e , a esse título , frequentará regularmente o mestre de Kremlin . Seu " Diário permite um olhar único sobre Stálin , tal como ele se moastra dia a dia , diante de seus colaboradores mais próximos .
O que parece o retrato desenhado por esse confidente ? Para dizer a verdade , as características mais salientes do ditador soviético não lhe pertencem propriamente nós encontramos já em Lênin e podemos supor sem risco de engano que , se Trótski tivesse prevalecido sobre Stálin , ele não teria agido diferentemente . É a função que forja o homem , é a lógica mesma do totalitarismo que dita a conduta de seu chefe .
O traço mais espetacular , é o mais conhecido , ams que , infelizmente , não lhe é próprio , é a desenvoltura com a qual Stálin pratica o terror . Ele não hesita jamais em dizer diante de Dimitrov ( e este não hesita em transcrevê - lo no seu " Diário " , embora não ignore nada da " curiosidade " das tchekas " [ comissões extraordinárias que faziam parte da polícia política do regime soviético ] ) que era preciso ser impiedoso , com os " inimigos " , qualquer que seja o número deles e ,de outro lado , seu mérito anterior .
" Nós anularemos todos esses inimigos , mesmo que sejam velhos bolcheviques , nós anularemos todos os seus parentes , toda a sua família . Nós anularemos todos os que , por suas ações e pen-samentos ( sim , pensamentos ) ... resitam a nós " , declara ele em 7 de novembro de 1937 .
Alguns dias ,ele acrescenta que é preciso computar entre os inimigos todos os que " não suportam a coletivização , uma vez que seria preciso descascar o corpo do " kulak " [ rótulo aplicado , na ex - URSS , ao " camponês rico " ,visto com resquício da mentalidade burguesa e ameaça a revolução ] ".
Em janeiro de 1940 , no momento da conquista da Finlândia ,disseram-lhe que os adversários eram em número de 150 mil ; ele reage tranquilamente . " Nós matamos 60 mil ,é preciso matar os outros também , e o caso estará encerrado .Não podemos poupar senão as crianças e os velhos " . Uma vez que o terror é extremo , o objetivo perseguido é atingido sem obstáculos .
Mas o que choca mais nas transições de Dimitrov não é a violência , consubtancial ao projeto revo- lucionário . O que é surpreendente é a ausência de qualquer referência ao dogma comunista . As de- cisões de Stálin são tomadas em razão não de princípios ideológicos , mas de objetivos a atingir . Para escolher um um curso de ação , é preciso antes de tudo se informar e , em seguida se libertar dos sonhos do passado : " Não se apegue ao que foi ontem . Tenha em mente rigorosamente as novas condições .
Não era preciso introduzir sovietes na China , contrariamente ao que se fez na Rússia em 1917 . Nem desempenhar um papel de protagonista na Espanha ,enquanto durasse a guerra civil .Deve -se encorajar , via de regra , a substituição de quadros por novos , sem referências ao passado . A im-provisação ,a adaptação às circunstâncias devem desgarrá - lo de toda conformidade para o dogma : Stálin leva ao estremo a escolha dos modernos de se emancipar , das tradições ,ele é um aluno paro-xístico de Maquiável , que não deixa restar mais nenhuma ligação entre estatégia e ideologia .
A assinatura do pacto germano soviético , em agosto de 1919 , não obedeceu a outra lógica . Stálin não se pergunta em nenhum momento se essa aliança era conforme ao dogma comunista , importa apenas saber se ela lhe é útil - e ele crê que sim . " Nós podemos manipular , sustentando um país contra um outro , para que eles se estraçalhem um ao outro . " O defeito que ele vê em Hitler não é o de ser racista , mas o de obedecer a sua ideologia , em vez de se ocupar unicamente de seu in - teresse ,comparado a Hitler , Stálin é um puro pragmático . O vício do racismo , por sua vez , é o de que nem todos podem reclamá - lo : ele condena as " raças inferiores " à resistência .
O poder pelo poder - Essa ideologia é má não porque é inumana ,mas porque ela não pode assegurar uma vitória durável . O poder , segundo Stálin , não deve ser posto a serviço de uma ideia ; são as idéias são as que servirão ao poder - e as melhores idéias são as que lhe são as mais úteis .Ainda mais os se fundem o comunismo se confunde doravante com a busca do poder pelo poder .
Essa indiferença ao conteúdo da doutrina comunista levanta porém um ponto do qual Stálin é cons-ciente as mais necessitam de paixões coletivas ,elas podem vibrar à vista da mera eficaz ,por isso que, muito rapidamente convoca esta outra paixão conhecida : o amor à pátria . Promotor do nacional - comunismo , Stálin explica que os boicheviques não são os verdadeiros continuadores dos czares da Rússia ,fundadores desse imenso Estado ; os ataques contra Rússia são piores que os ataques contra o comunismo .
A Dimitrov , perplexo , Stálin explica que , na nova conjuntura , o Komintern iria se auto - liminar . No dia da invasão hitlerista ( 22/ 6/ 1941 ) , Stálin - que , diga -se , não perde nunca seu sangue - frio - exige do militante intercionalista que deixen de lada a retórica comunista : " Não ponha mais a ques-tão da revolução socialista . O povo soviético faz uma guerra patriótica contra a Alemanha fascista " .
Ao longo dos anos ,a estratégia de Stálin provará sua eficácia duvidosa .Digno herdeiro de Lênin , ele não terá , porém , sucessor da mesma cepa e , um mês após sua morte , apareceriam as primeiras fis-suras do império totalitário .
Fonte - FOLHA DE SÃO PAULO - pág 10 - História - Caderno MAIS Data - Domingo , 16 de março de 2003 - Por Tzvetan Todorov

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